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DEIXAREMOS O MEDO NOS DOMINAR????

outubro 20th, 2005 by mariafro

Passei este mês de outubro fazendo exercícios de análise de discurso de notícias e artigos veiculados na imprensa e até mesmo dos mails apócrifos que inundaram minha caixa de correio. como historiadora, alguma habilidade eu tenho para fazer estas leituras.
Hoje é o último dia da pífia campanha que vai referendar o comércio ou não das armas e munições em nosso país.
E hoje também as pesquisas indicam a vitória do não.
Para aqueles que acham que referendo é conspiração da globo ou meio de
desviar os olhos do povo das CPIS, seria bom lembrar que nossa
constituição (que foi uma vitória contra a ditadura militar) prevê
referendos e que há gente séria neste país lutando para que a prática
dos referendos seja mais usual entre nós. Vejam, por exemplo, esta
matéria:

Edição nº 82 – 19/8/2005
Mais poder ao povo

“A principal lição que podemos tirar da atual crise política é que não
existe democracia sem povo”. É com este argumento que o jurista Fabio
Konder Comparato tem percorrido o Brasil, desenvolvendo aquilo que
chama de uma cruzada cívica, para tentar conquistar o apoio popular a
um projeto de lei encaminhado ao Congresso Nacional. A proposta
pretende dar novos contornos ao artigo 14 da Constituição e ampliar a
possibilidade de convocação de plebiscitos e referendos, para
finalmente colocar em prática no Brasil a idéia da democracia
participativa. (para ler o resto vejam:
http://www.sinprosp.org.br/especiais.asp?especial=82).

Neste sentido para quem se deixou enganar, saibam, pelo amor dos
deuses, que o ESTATUTO DO DESARMAMENTO APROVADO EM DEZEMBRO DE 2003,
DETERMINAVA O REFERENDO DO ARTIGO 35 PARA O DIA 23 DE OUTUBRO DE 2005
(com ou sem mensalão, mensalinho e o raio que o parta). Então, please,
parem de vomitar bobagens nos meus olhos e ouvidos cansados, este
referendo não é uma conspiração da globo em nem de ETs e nem dos EUA,
um país armado até os dentes e que eu espero imensamente que nós,
mesmo com a vitória do NÃO, não nos transformemos naquilo.

Agora, posso expressar minha dor e minha exaustão diante do que estou
assistindo. Para mim é quase uma loucura ver lista de educadores,
membros do MEC, listas literárias pessoas argumentando em defesa do
não. Para mim é uma dor imensa ver amigos queridos apavorados,
desiludidos com o governo, descrentes de nossa política, emputecidos
pelas mais diferentes e legítimas razões, fazerem uso do referendo
para expressarem suas frustrações, para dizer não ao governo, ao
Estado ou seja lá o diabo que desejam dizer.. NÃO VAI ADIANTAR,
estaremos dizendo não para nós mesmos.

Eu não posso aceitar que educadores defendam o direito a ter armas,
não posso, minha racionalidade, os princípios todos que acredito me
mostram que este discurso com a justificativa movida pelo terror, pelo
desconhecimento, pelo medo é equivocado e perigoso.

Não posso ver o desrespeito diante das informações sérias e de dados
de Ongs sérias, de órgãos oficiais e de instituições socialmente
reconhecidas como a UNESCO, vide por exemplo o Vidas Poupadas:
http://unesdoc.unesco.org/images/0014/001408/140846por.pdf. sendo
tratados como bobageira de românticos, de idealistas, de
pseudo-intelectuais ou seja lá os absurdos que já li nas diferentes
formas desqualitativas para expressar a raiva dos que resolveram
escolher o referendo pra dizer Não.

Não posso aceitar a banalização que pessoas desavisadas,
malinformadas, amedrontadas estão tendo diante da própria vida e da
vida do outro. Não posso aceitar que se recusem a fazer exercícios
empáticos, não posso aceitar que repitam sem desnudar os discursos
mais retrógrados e conservadores que no último mês ressurgiu das
cinzas e que literalmente desprezam a vida de crianças que deixaram de
morrer com a campanha do desarmamento.

Saibam meus queridos que os verdadeiros cidadãos de bem valorizam
acima de tudo a vida. Não repitam o discurso dos “cidadãos de benz”,
temerosos de perder seus bens, seu status, sua pose, suas idéias
mofadas.

Não posso aceitar que me digam que votam no não e são contra armas e
são pessoas pacificistas, por favor, não me tratem como estúpida,
porque posso ser muitas coisas, mas não sou estúpida.

Não posso aceitar que diante de uma escolha, optaremos por continuar
como estamos ou piorar, dado que o comércio de armas e munições já
aumentou no país em outubro, estimulado por uma campanha pífia de 6
horas para esclarecer algo tão importante onde 122 milhões de pessoas
irão as urnas. Para mim este referendo é mais importante que qualquer
eleição, pois políticos que não fazem o seu trabalho direito podemos
despedir de 4 em 4 anos, agora jogar na lata do lixouma prática
efetivamente democrática com os argumentos mais irracionais possíveis
é só uma mostra que ainda teremos de caminhar muito pra construirmos
verdadeiramente uma sociedade democrática, é ainda mostrar o quão
contaminados estamos com as práticas autoritárias.

Não posso aceitar as bobagens que a voz do povo é a voz de Deus,
porque o povo humilde não ter armas pra se proteger, não tem
propriedades pra perder a não ser sua vida que continua em oferta, na
banca da feira no horário da xepa, porque esta voz conservadora que
sempre se levanta contra mudanças sociais, que acha um abuso a polícia
federal pôr na cadeia uma sonegadora de impostos como a dona da Daslu
nunca se indigna, nunca se levanta, nunca espalha emails pela rede
quando pobres, pobres negros, pobres sem-terra, pobres sem-terra
negros, povos indígenas são mortos, são chacinados. Por que não vemos
protestos dos cidadãos de benz, quando o direito à vida com dignidade
dos mais pobres é sistematicamente cerceado ?

Esta elite perversa que referendando ou não o artigo 35 continuará
andando em seus carros blindados, agradece a campanha imunda,
estimulada pelo medo daqueles que se declaram cidadãos de bem ou
daqueles que desejam ser, mas que não são tratados como.

Como educadora eu não posso me calar diante da falência do diálogo,
diante da vitória de um discurso falacioso e mal intencionado. Como
educadora sinto-me em profundo desespero, doente fisicamente, com
vontade de ir pras montanhas como sugeriu um incauto e desavisado com
medo da vitória do SIM. Mas eu iria com medo da vitória do NÃO, pois
já tenho medo de polícia autoritária– herança da ditadura militar;
tenho medo dos bandidos violentos que não tem amor a própria vida e a
dos seus semelhantes e agora também terei medo dos cidadãos de bem que
têm medo e se armam.

O NÃO é a vitória do medo. Que medo, meus deuses, do que está por vir.


PARADOXO DA RAZÃO

“Cidadão de bem”,
faça-me um favor:
avise-me se você
é um daqueles que crê
na arma pra te proteger
da violência.

Desse modo,
quem sabe eu possa
me defender
de suas crenças.

Frô

FRÔ, DIZENDO SIM À VIDA, HOJE, DIA 23 E SEMPRE

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  • Frô lindo, belo, convincente e cheio de razão. Gostei do seu sermão. Parabéns

  • Concorrdo eem tudo, com vc, Frô. Fico abismada com o que tenho lido/ouvido. Vou votar SIM.

    Beijo.

  • Frô, não fique desesperançada nem triste! Penso que o nosso momento atual brasileiro pede o máximo vigor de nossas crenças. Tenho lido todos os textos que tem me enviado, assim como inúmeros outros, e concordo com você: a campanha, de ambos os lados, pelo sim e pelo não, tem sido pífia. É deprimente ver a que tudo foi reduzido… Não parece existir um interesse largo e genuíno, por parte da mídia e dos marketeiros políticos de plantão, em se informar a sociedade sobre o realmente existe… No fim de tudo, do jeito como a questão do desarmamento tem sido apresentada a nós, eu voto SIM e NÃO… pois há vários pontos com os quais concordo e discordo, de ambos os lados. Enfim. Não sei exatamente como tudo irá terminar no dia 23, mas espero que vença a voz da razão! Só me resta acreditar que ela existe, em algum lugar. Um grande abraço carinhoso, ROSY