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A Consciência Branca do comando global

novembro 25th, 2009 by mariafro

A Helena Negra posta “no seu lugar”

Os dias de glamour da primeira Helena negra foram poucos. No capítulo de ontem, numa cena que fazia uma alusão direta à noção de soberania branca, a personagem negra se ajoelha aos pés da mulher branca e pede perdão. Após isso, dotada de toda autoridade, a “mãe branca e zelosa” dirige um violento tapa na cara na personagem negra que resignadamente aceita a punição. A cena chocou diversas pessoas.

No caso particular das mulheres negras, todas se recusaram a se reconhecer daquela forma e se revoltam contra aquela atitude submissa e passiva diante da violência racial. Aquela cena teve uma repercussão desastrosa em cada uma de nós.

A postura submissa da Helena negra vai contra a forma como hoje, e sempre, reagimos à violência racial e ao autoritarismo, seja pelo amparo da lei, seja impondo respeito diante daquele ou daquela que insiste em rememorar os tempos da escravidão, cobrando de nós o eterno deferimento e subserviência. Assim, a trama da novela vai contra a política e debates atuais que visam a igualdade de direitos e a postura autônoma que praticamos no nosso cotidiano e ensinamos a nossas jovens e crianças negras. A cena de ontem também vai contra os argumentos daqueles que se negam a admitir a existência do racismo no Brasil, que se afirma no imaginário do autor.

O capítulo de ontem, por si só, fala da insistente crueldade da elite brasileira de negar o problema do racismo ao mesmo tempo em que, de maneira nefasta, não abre mão de se manter numa posição privilegiada.

A Helena negra é culpada por ter abortado, por ter casado com um homem branco e por não ter “cuidado” devidamente da enteada, numa relação que muito nos lembra mucama e sinhazinha.

Não só Helena, mas também a personagem da atriz Sheron Menezes tem a mesmo postura submissa, que paga (literalmente) um alto preço para estar com um homem branco. Ambas sucumbem diante da supremacia branca retratada na televisão brasileira, ambas não tem dignidade e não representam a luta cotidiana dos homens e mulheres negras que diariamente enfrentam o racismo neste país.

Ao que me parece, é muito difícil para a dramaturgia brasileira esconder este ranço ordinário da mentalidade escravocrata e racista.

Luciana Brito
Mestre em História UNICAMP
Movimento Negro Unificado-Bahia”

A Consciência Branca da Globo

Não havia data melhor. Em plena semana da Consciência Negra, a teledramaturgia global reafirma, mais uma vez, a pura reprodução de imagens, palavras e ideais racistas em horário nobre. Ao elencar a atriz negra Thaís Araújo para protagonista de sua novela das nove, a TV Globo, através de seu funcionário Manoel Carlos, parecia querer responder ao Estatuto da Igualdade Racial idealizado pelo movimento negro que não seria necessário estabelecer cotas para atrizes e atores negros; bem, parece não ter sido à toa que justamente no momento de uma decisão histórica quanto ao conteúdo do referido Estatuto, a Globo tenha lançado ao ar duas novelas com protagonistas negras, atrizes que inclusive têm uma postura racial condizente às suas trajetórias, como são Thaís Araújo e Camila Pitanga. Nas entrelinhas, previa-se uma forjada justificativa à sociedade das “desnecessárias” cotas raciais para os meios de comunicação, já que este espaço vem sendo ocupado pelo núcleo negro da Globo. Convenhamos, uma jogada de mestre; assim, evita-se o “mal maior” para a Consciência Branca do comando global, que é obedecer a lei e fazer cumprir os direitos da pessoa, da população e dos povos negros.

Pois então que nesta semana, no capítulo que foi ao ar na noite do 17 de novembro, com precisão cirúrgica o autor desenhou a cena mais representativa possível da ópera racista contra o verdadeiro protagonismo negro. A suposta protagonista da novela, a personagem de Helena, após ser retirada de seu núcleo familiar negro para transitar exclusivamente num núcleo branco e assim ser sujeita a traições e humilhações, é posta de joelhos diante de uma de suas antagonistas brancas – já que, para uma negra, não basta uma só antagonista, devendo vir elas em número de três: a amante do marido, a filha mimada e infantilizada do marido e a ex-mulher do marido. Não apenas de joelhos, deve pedir perdão de cabeça baixa; não apenas de cabeça baixa, sob o olhar duro e inflexível de sua então dominadora; não apenas isso, como se já não fosse o bastante, deve pedir perdão e ter por resposta uma bofetada no rosto. Para finalizar a cena, a personagem desabafa com uma das melhores amigas que “devia ser assim”.

A idéia de protagonista negra, na Globo, enfim foi definida claramente. Uma heroína que, se inicialmente surgia diante de um drama familiar, afirmando um núcleo negro protagonista, como âncora, marco e raiz, veio sendo reduzida dramaturgicamente a pobre vítima de suas três antagonistas brancas, tendo estas enfim recebido mais espaço de visibilidade que a suposta protagonista. O papel, de central, tornou-se periférico, apoio para a virada de jogo das outras atrizes, que passam a receber os aplausos da população e das “críticas” noveleiras de plantão, prontas para limar a atriz negra por seu papel “sem graça”.

Ou talvez, pensa o autor que pode salvar o papel de Helena pondo-a no lugar em que acha pertencer à mulher negra.

Agora sim, a Globo assinou embaixo de suas verdadeiras posturas ideológicas – mais diretamente, de seu racismo.

Rebeca Oliveira Duarte
Advogada e Cientista Política do Observatório Negro

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  • Olá,

    estou lendo seus textos e quero parabenizá-la pela análise arguta e crítica, pela fluidez da escrita. Sou professor de Literatura, doutorando pela UFBA e também discuto as questões raciais. O caso da globo ainda vai causar uma revolução nesse país, pq ela representa o que há de mais podre do pensamento racista, eles simplesmente fazem faxina étnica na televisão. Não concordo com o comentário da Iaiá, quanto a novela “da cor do pecado”, pq o título já indica a fixidez estereotípica relacionada a mulher negra. Pra mim, Joel Zito em seu documentário “A negação do Brasil” sacou direitinho como funciona o pensamento da rede globo, está faltando um manifestação de revolta como aquela que foi feita pelo MOvimento Negro na época da novela “Cabana do Pai Tomás”, e retratado por Zito, quando esse movimento moveu um processo contra a novela e a Globo. Continue escrevendo, eu continuarei lendo e contribuindo com alguns comentários.

  • Iara, mas não se esqueça do título da novela: a cor do pecado, ou seja a cor da mulher negra, e a recorrente associação de mulher negra e sexo e libertinagem e afins.
    bjs

  • eu assisto novela, a mesma Taís Araújo protagonizou A cor do pecado, na mesma emissora, novela de João Emanuel Cordeiro, às 19 horas. Ali sim, havia uma personagem que era uma mulher negra, altiva, cuja negritude fazia parte de seu passado, ela dançava uma dança típica do Maranhão nas primeiras cenas. Se vestia de acordo com sua condição social, na trama era pobre, mas se vestia lindamente e não era uma negra branqueada. Era uma mulher e negra.E ciente disso e lutando pra melhorar sua vida com os obstáculos impostos por essa condições. Agora Manoel nos dá a primeira Helena negra, jovem, mas que de negra não tem nada, ou talvez tenha o que ele quer uma carga de submissão e culpa. Tudo bem ao estilo AliKamel-nãoexisteracismonobrasil. Sem contar a campanha descarada, imbecilóide, contar o aborto que a novela faz. O problema é que minha mãe curte novela. Qualquer uma. bjs

  • E não faltou nem a chibata:a bofetada que ela, Helena, tomou….

  • E não faltou nem a chibata: a bofetada que ele tomou , retrata e reflete a nossa sociedade.. pseudo não racista.

  • Pouco assisto atualmente a Globo, não aceito sual linha editorial, não vejo mais padrão de qualidadede. Mas de uma coisa não esqueço: a Globo inovou colocando negros em posições de destaque, especialmente no jornalismo. Glória Maria é o melhor exemplo. Se hoje a emissora é racista, ontem não era.