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“A verdade é sempre subversiva”: Neocons se despem no Millenium

março 3rd, 2010 by mariafro

A frase entre aspas, que dá título a este post, é do historiador Sidney Chalhoub, ao proferi-la ele dá um recado aos historiadores que trabalham com história pública, história social. Em síntese, Sidney defende o seguinte: para revelar injustiças, para revelar o longo processo de exclusão social os historiadores envolvidos com os movimentos sociais não precisam falsear fatos, a pesquisa histórica honesta é capaz de revelá-lo.

O artigo da jornalista Bia Barbosa, publicado na Carta Capital e reproduzido no Vi o Mundo, o qual reproduzo na íntegra aqui é revelador desta premissa de compromisso com a verdade. Ela não precisou falsear nada para mostrar aos leitores como pensam os neocons, quais são seus medos diante da possibilidade da criação de uma democracia social, sobre o verdadeiro pavor dos neocons diante da menor possibilidade de os movimentos sociais vencerem algumas lutas sem que as tevês possam criminalizá-los em horário nobre. Para isso, bastou a jornalista relatar o que viu e ouviu no encontro.

Para quem não sabe do que estou falando, Bia relata em seu artigo o encontro ocorrido segunda-feira, em São Paulo, de empresários da mídia e seus representantes neocons num fórum que recebeu o pomposo nome de “Democracia e Liberdade de Expressão“.

Todos os principais articulistas conservadores da grande mídia estavam presentes: Demétrio Magnoli, que há alguns anos virou ‘especialista’ (sic) da questão racial e abriu uma cruzada contra as ações afirmativas; o psicanalista gaúcho (que precisa fazer análise urgente) Denis Rosenfeld que se de fato vivesse em um país onde a liberdade de expressão estivesse mesmo ameaçada já estaria preso, pois se alguém dá um peido ele culpa o presidente Lula. Os caricatos blogueiros da Veja – Tio Rei (Reinaldo de Azevedo) e Diogo Mainardi- dentre outras excrescências.

Em seu artigo Bia não fez mais do que transcrever a fala deles e contextualizá-las e, neste sentido, o artigo ficou profundamente transparente de como pensam estes seres assustados com um mínimo de inclusão social e avanço da democracia social. Ao ler a fala de cada um deles, entendemos perfeitamente porque eles têm verdadeiro pavor da aprovação do PNDH ou de uma possível vitória de Dilma. O pavor deles está em que a democracia avance para além do discurso liberal e uma maior parte dos brasileiros possam de fato desfrutar a sensação de viver em um país democrático.

Além do artigo de Bia, dois outros problematizam o que esses tresloucados neocons fazem questão de esconder (e paradoxamente nos revelam) ao proferir seus discursos inflamados: o historiador Gilberto Maringoni escreveu uma série de artigos que podem ser lidos aqui e Luiz Egypto no Observatório da Imprensa escreveu  A voz dos donos.

Em síntese a grande revelação que o leitor atento e crítico as ‘verdades prontas e empacotadas da mídia neocon’ poderá perceber é que os neocons reproduzem a voz dos donos das empresas para as quais trabalham, empresários que monopolizam os meios de comunicação no Brasil: Globo, Grupo Abril e correlatos e gritam insandecidos contra princípios constitucionais aprovados há mais de 20 anos, mas que continuam letra morta em nossa Constituição.

Luiz Egypto mostra-nos que o tal ‘controle social’, o inimigo mortal dos neocons,  diz respeito ao direito constitucional que a sociedade tem diante de concessões públicas de tv, ou seja, os Marinho da vida  ao mostrarem o lixo que exibem 24 horas, criminalizando os movimentos sociais ou qualquer política pública de inclusão social  em seus telelixos receberam do Estado um canal para exibi-los, não podem, portanto, agir como se fossem dono de uma única verdade salvadora. Egypto chama a atenção para a confusão proposital que os donos dos meios de comunicação e seus porta-vozes, os neocons, fazem em torno do Plano Nacional dos Direitos Humanos 3 e a liberdade de expressão nos meios de comunicação:

“E tome confusão, porque o embaralhamento da discussão interessa sobremaneira àqueles que querem evitar o debate sobre o papel da mídia numa sociedade que se quer democrática. Um exemplo? Na bateria de críticas que se faz ao PNDH 3, em momento algum se esclarece que ali se propõe que o tal “controle social” deve ser exercido, sim, sobre os canais públicos de radiodifusão que operam sob regime de concessão. Não se trata, portanto, de “controlar” a pauta e a operação dos meios privados, como os jornais. Não se trata de censura, como a grande mídia gosta de repetir a torto e a direito. Trata-se de fazer cumprir a Constituição, observar de perto o comportamento da mídia, qualquer mídia, e disseminar as avaliações obtidas desse acompanhamento. Algo, aliás, que este Observatório faz há 14 anos.

Convém não esquecer que estão lá, no capítulo 5 da Constituição de 1988 – “Da Comunicação Social” –, a proibição de monopólios ou oligopólios dos meios de comunicação, os princípios educativos a ser observados na programação de rádio e TV, o estímulo à produção independente e a promoção da cultura regional, a regionalização da produção e o respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Por que a sociedade não tem o direito de controlar a observância desses princípios? Por que essas normas ainda não foram regulamentadas quase 22 anos depois da promulgação da Constituição? Por que não discutir abertamente a propriedade cruzada dos meios e as concessões de radiodifusão a parlamentares?

Estranhamente em um evento que se diz em defesa da Liberdade de Expressão, um fórum pela democracia, pessoas como Jabor pregue até mesmo a negação do direito de pensar da esquerda!;  cobre-se 500 reais para a participação do Fórum  (o que impede, por exemplo, a presença de qualquer representante das mídias de movimentos sociais); cultue-se jornalistas que usaram de suas televisões para promover golpe de estado em 2002 na Venezuela e pregue-se, abertamente, contra o PNDH3, que nada mais é que o resultado de uma profunda discussão democrática de anos a fio de milhares de representantes da sociedade brasileira para que os Direitos Humanos sejam de fato respeitados no Brasil e que segue as premissas do PNDH2, elaborado no governo de FHC.

Os neocons, que  neste encontro finalmente resolveram apoiar abertamente a candidatura daquele que representa seus valores excludentes, não são sequer honestos em relação aos próprios pensadores do seu partido: o PSDB. Paulo Sérgio Pinheiro, que foi secretário de Direitos Humanos do governo FHC e hoje atua como relator da ONU e que é um dos brasileiros mais respeitados e conhecidos no exterior na área de direitos humanos, por exemplo, teve de sair em peregrinação em rádios, tevês e jornais impressos explicando aos neocons que o PT não inventou os Direitos Humanos, mas pelo visto seu trabalho foi em vão: diante da subida de Dilma e da descida de Serra nas pesquisas eleitorais os neocons só são capazes de ouvir seus próprios medos.

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