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‘A Carne mais barata do mercado é a carne negra’

março 9th, 2010 by mariafro

‘A carne mais barata do mercado é a carne negra‘ Eu só quero saber: até quando?

Pra começo de conversa, apesar de adorar a interpretação de A carne (Farofa Carioca) feita pela Elza Soares neste vídeo, eu discordo da frase de abertura dele. Não é verdade que negro rico no Brasil é branco nem que pobre branco é preto. Se você for negro e não for famoso, muito famoso corre risco de tomar um tiro da polícia na calada da noite e obviamente existe preconceito de classe em relação aos pobres brancos, mas o preconceito de classe somado ao racismo pode levar à morte. Esclarecido isto, esclareço os destinatários deste post escrito com espírito armado e furioso: ele é direcionado aos negros de ideologia ‘capitães do mato’ ou aos brancos de ideologia ‘sinhozinho’.

Peço perdão aos que não se incluem nestas categorias e de antemão aviso que, se preferirem, não leiam ou se quiserem compartilhar de minha fúria, estejam à vontade.

Minha fúria por mais uma vez ter de voltar a questão racial associada à violência policial e a necessidade de uma reeducação da polícia e de toda a sociedade para o combate ao racismo (e isso pressupõe acesso dos grupos que são alvo de racismo aos espaços socialmente valorizados o que inclui a  universidade) nasce da exaustão.

Estou verdadeiramente exaurida de falar sobre racismo no Brasil e ver esta doença institucionalizada prosseguir feito câncer agressivo, assim como assistir a reação de grupos privilegiados ou de sujeitos alienados que se postam contra todas as medidas de combate efetivo ao racismo.

Estou exaurida de fornecer aqui neste blog e em outros espaços da blogosfera para os quais contribuo uma quantidade imensa de causos reais de expressões e ações institucionais (ou não) de cunho racista produzidas diariamente no país, assim como de estudos sérios que mostram que alunos cotistas não fazem cair o rendimento/nível das universidades, ao contrário, elevam a média geral.

Estou exaurida de tanto explicar, dezenas de vezes, aos anti-cotas/anti-cotistas do porquê do benefício para toda a sociedade (para brancos e negros)  da implementação de uma política de cotas étnico-raciais.

Tenho amigos que acham que exagero quando me refiro àqueles que são contra cotas de: anti-cotistas. Se você for contra as cotas inclua-se na lista dos anti-cotistas, pois se se recusa a aceitar a aprovação de uma política de ação afirmativa que seja capaz de discriminar positivamente aqueles que foram historicamente excluídos, você é contra o direito dos estudantes cotistas e se é contra o direito deles é contra eles. E além de anti-cotista,  você também é desinformado/a, ou melhor, deformado/a pelos preconceitos disseminados pela força midiática que abre espaço na imprensa escrita e radiotelevisiva aos neocons e nunca o faz na mesma medida aos intelectuais e ativistas em prol da política de cotas.

E antes que você venha me encher a paciência com comentários repetitivos, feito papagaio de pirata dos discursos dos Kamel, Magnoli, Tio Rei, Mainardi e o resto da tchurma do Millenium, faça um favor a si mesmo/a e ao restante da sociedade: vá se informar e não me encha os pacovás.

Tenha santa paciência, reconheça a sua ignorância sobre o assunto e vá atrás dos trabalhos de muitos sociólogos, antropólogos, economistas sérios que já pesquisaram sobre a temática das relações étnico-raciais no Brasil desenvolvendo estudos com honestidade intelectual, qualidade que os neocons (dos quais os anti-cotistas mais renitentes fazem parte) são incapazes de apresentar.

Cotas raciais nas universidades e outros espaços socialmente valorizados e as de gênero na política,  por exemplo, além de uma medida socialmente necessária ao país que se quer verdadeiramente democrático é um procedimento didático para o combate ao racismo e ao sexismo.

O dia em que os cursos socialmente valorizados como a engenharia que tem rara presença feminina preta ou branca tiver uma presença maior de mulheres em suas matrículas (não vou discutir isso agora, mas há razões históricas para o afastamento das mulheres dessa e outras profissões excessivamente masculinizadas) o estranhamento e preconceito em relação às mulheres engenheiras irão diminuir. Assim como o dia em que os  consultórios médicos e grandes e famosos escritórios de advocacia e os postos importantes das empresas e diferentes cargos políticos importantes forem ocupados por homens e mulheres de cor preta e parda e por indígenas, nós conseguiremos romper o ciclo odioso e auto-reprodutor do racismo no Brasil.

Os energúmenos que se recusam a perceber as diferentes formas do racismo institucionalizado no país não acharão mais ‘normal’ que 70% dos jovens assassinados no Brasil sem passagem pela polícia tenham a coloração da pele mais escura que os outros 30% de pele clara. Estes mesmos ignorantes que naturalizam a violência (institucional ou não) dirigida aos grupos desempoderados vão se acostumar com a idéia de que pessoas negras (pretos e pardos) podem ser engenheiros, médicos, advogados, arquitetos, professores universitários, presidentes de corporações, âncoras de tv e não apenas professores da educação básica, jogador de futebol, cantor de pagode e ‘mulatas’ do funk, axé e cia.

Conversando com minha mãe que tem 70 anos e a filha adolescente ouvindo o diálogo perguntei: Mãe, por quantos médicos ou médicas pretos ou pardos a senhora já foi atendida? Resposta: nenhum. A filha pára e diz: Nossa!  O único médico negro que conheço é o Foreman (personagem do ator Omar Epps, na série estadunidense House, exibida no canal Universal). E você energúmeno/a de ideologia capitão do mato e sinhozinho/sinhazinha por quantos médicos negros já foi atendido/a? Quantos arquitetos negros fizeram a reforma de sua casa de praia, quantos diretores negros já te deram ordens na empresa? Só comente se puder provar com fatos.

Eu disse anteriormente que cotas para além de socialmente necessárias são também didáticas. Lembrem-se, energúmenos que ignoram o conhecimento histórico, a  escravidão  foi e ainda é nossa instituição mais duradoura: é mais antiga que a Monarquia, que a República e os cativos negros eram vistos como ‘classes perigosas’. Considerando esta longa história as cotas funcionam como instrumento didático na medida em que a cor negra passará da “cor da suspeição” para uma cor como qualquer outra, no sentido que elas farão colorir a elite brasileira: você não mais se assustará com a presença de um negro ‘não famoso’ em um bom restaurante de classe média jantando calmamente com sua família, ou nos poupará do vexame de pedir para um pesquisador negro reconhecido internacionalmente para carregar as suas malas no aeroporto. Você ainda evitará envergonhar o país ao confundir uma atriz internacional com uma ladra que mexeu na sua bolsa, quando você que está caduco/a esqueceu onde colocou os óculos escuros que comprou em Miami.

A polícia que precisa de uma reeducação urgente empreendida pelo poder público terá menos capitães do mato ou fardados metidos a sinhozinho/sinhazinha e poderá aprender, finalmente, que assassinar e humilhar a juventude negra no país é crime; que tratar a cor negra como a cor da bandidagem é, além de preconceito, crime.

Enfim, cotas são didáticas pela possibilidade de ampliar a convivência de diferentes estratos sociais e étnico-raciais no espaço acadêmico de universidades públicas valorizadas e assim ampliar a diversidade de pensamentos, idéias, saberes e reflexões de diferentes bases socioculturais.

Comecei o post com Elza Soares cantando uma canção que é um soco no estômago dos que têm a ideologia de capitães do mato, sinhozinhos e sinhazinhas do século XIX, termino-o com uma matéria  que mostra que a carne negra é tão barata ainda que seus corpos podem ser tocados em praça pública como os senhores escravagistas faziam  com homens e mulheres escravizados nos mercados de cativos do Brasil escravista.

Convido-os, energúmenos, papagaios de pirata de neocons, para que saiam de suas realidades paralelas, ainda dá tempo de fazer algo concreto! Livre-se do racismo incrustado em suas mentes, estudem a história de seu país e apóiem medidas efetivas de combate ao racismo e que ampliem de fato a democracia social no Brasil, ou então, vão pentear macaco que nós temos mais o que fazer.

Polícia Militar inaugura novo tipo de revista na periferia do Recife

por Eduardo Machado

Cartaz institucional de combate à violência contra as mulheres, uma pena que policiais femininas também institucionalizem a violência contra jovens negras.

No Dia Internacional da Mulher, o Ministério Público de Pernambuco, a Corregedoria-Geral da Secretaria de Defesa Social, a Ouvidoria da Secretaria de Defesa Social, a Secretaria Especial da Mulher, todas as ONGs que defendem os direitos femininos deveriam fazer uma visita ao Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife.

Lá, eles deveriam pedir desculpas, tomar providências para punir os responsáveis e se solidarizar com uma adolescente de 15 anos e a uma jovem de 23, humilhadas há uma semana, no meio da rua, durante uma abordagem (se é que se pode chamar isso de abordagem) da Polícia Militar.

As vítimas cometeram o erro de serem pobres, pretas ou quase pretas. Conversavam na rua com vizinhas. Foram classificadas como “suspeitas” pelos integrantes de duas viaturas da PM.  O bastante para duas policiais militares descerem dos carros e, utilizando luvas cirúrgicas, realizarem uma revista no meio da rua que incluiu a introdução de dedos no ânus e na vagina das vítimas.

Caso as PMs tenham agido como mandam os manuais de abordagem da SDS, que a secretaria venha a público defender o procedimento e quem sabe a Secretaria Especial da Mulher passe a distribuir luvas cirúrgicas para as pernambucanas.

CONFIRA MATÉRIA PUBLICADA SOBRE O CASO NO DOMINGO PELO JC:

Uma policial militar do Grupo de Apoio Tático Itinerante (Gati) está sendo acusada de constranger duas jovens, uma delas de 15 anos, durante abordagem de rotina realizada no fim da tarde da última terça-feira, no Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife. As duas jovens denunciaram que a PM introduziu o dedo na vagina e no ânus delas, no meio da rua, diante de outros policiais e de diversas pessoas. Entre elas, o filho de 5 anos de uma das vítimas. No dia seguinte, as jovens prestaram queixa na Ouvidoria da Secretaria de Defesa Social (SDS). Ontem, a assessoria de imprensa do órgão informou que o caso está sendo investigado pela Corregedoria de Polícia.

A dona de casa de 23 anos teria sido mais constrangida, porque foi abordada na frente do filho. “Nunca passei por algo parecido. A PM veio com uma luva cirúrgica na mão, dizendo que iria me examinar. Sem saber o que fazer, perguntei como seria e ela disse que ficasse de costas, com a mão na cabeça. Quando percebi o que ia acontecer, pedi para sair do meio da rua. Fomos para a entrada de um beco, mas mesmo assim fiquei exposta, todo mundo vendo tudo”, contou.

A jovem estava de saia e a PM ainda chegou a levantá-la. “Ela puxou minha calcinha, colocou o dedo na minha vagina e depois enfiou no meu ânus. Sem qualquer cuidado e de forma agressiva. Fiquei tão envergonhada e assustada que não consegui falar. Tive medo de apanhar. Meu filho ficou traumatizado, dizendo que a polícia queria roubar a gente porque os PMs também revistaram a bolsa dele”, relatou. “Eu sei que onde eu moro tem muito tráfico de drogas, mas nunca me envolvi com isso nem com quem faz uso. A polícia não pode agir dessa forma nos lugares só porque somos pobres. As pessoas que estavam na rua pararam para assistir à cena. Homens que bebiam nos bares saíram para olhar. Depois, ficamos ouvindo gracinhas. Perguntavam se a dedada tinha sido boa.”

A dona de casa tinha acabado de pegar o filho na escola e conversava com algumas amigas em frente a uma barraca. No grupo só havia mulheres. Os policiais militares passaram olhando, deram a volta e pararam no local. Abordaram primeiro a adolescente, que estava do outro lado da rua. “A policial me chamou de neguinha e perguntou se eu era traficante. Eu disse que não. Estava entregando um livro a um amigo. Mandaram a gente ficar de costas. Um PM revistou ele e a policial abriu meu short e, na rua mesmo, com todo mundo olhando, enfiou a mão na minha calcinha e me cutucou. Depois mandou eu virar de costa e fez o mesmo”, relatou a adolescente.

As jovens contaram ter ficado tão nervosas e assustadas com o tipo de abordagem que não registraram o número de identificação das duas viaturas policiais ou as placas. Sabem apenas que um dos veículos era do Gati e o outro no padrão tradicional da PM. Pelas informações da SDS, o Alto José do Pinho é área de atuação do 11º BPM e provavelmente os PMs eram lotados naquela unidade. Segundo a assessoria de imprensa da SDS, o comando do batalhão não sabia do ocorrido e aguarda a denúncia chegar à unidade para também abrir procedimento de investigação. As PMs têm prerrogativa de fazer abordagens íntimas em mulheres, mas como explicou a SDS, somente diante de denúncias fundamentadas e em locais fechados, sem expor as vítimas a constrangimento, como aconteceu.

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16 responses so far ↓

  • via @maria_fro texto sobre racismo mto importante ler: http://bit.ly/dq8Q0u

  • …”OI, eu namoro c/ um negro incrível, dono de uma educação que ainda não vi em nenhum adulto branco na faixa etária entre 25 e30 anos. Não suporto pessoas rascistas. Tenho RAIVA quando estou passeando c/ meu Namorado e as pessoas ficam nos olhando como se fossemos um”filme inédito”, algo que elas nunca tinham visto antes. Essas pessoas rascistas deveriam parar p/ pensar que muitos dos filhos deles, um dia poderão ser salvos por um Médico Negro…Prefiro acreditar que o BRASIL não está muito longe dessa realidade. Aprendi, convivendo c/ meu Namorado que a reaçao das pessoas vendo uma branca c/ un negro, ambos FELIZES, assusta à pessoas donas de uma Ignorância fora da REALIDADE, que parecem não acreditar que nós nos AMAMOS DE VERDADE e que não vai ser a cor da nossa pele que vai abalar o nosso AMOR, que é Verdadeiramente INVENCÍVEL contra o Rascismo desses pobres ignorantes que só despertam “pena” em Mim, que sou Branca e não suporto Pessoas Rascistas. Sou Apaixonada pela RAÇA NEGRA…Raça de pessoas incríveis que pelo simples fato de terem conquistado a Abolição Escravagista à anos atrás… Já são VENCEDORES e terão SEMPRE, minha ETERNA ADMIRAÇAO!!! ABRAÇOS…CRISTINA!!!

  • Sou morador do conjunto de favelas do Complexo do Alemão, e hoje eu compreendo que a única forma de acabar com a violência é a educação. Minha comunidade precisa de doutores, porque dessa forma as crianças terão um novo espelho de vida.
    A única forma visível de obter dignidade aqui é sendo um bandido e isso tem que mudar.
    As cotas são um mal necessário.

  • @OCarioca leia: http://bit.ly/d1RNdc e leia http://bit.ly/dq8Q0u depois a gente volta a conversar, mas leia de verdade.

  • [...] Cotas são em grande medida didáticas, não é possível que as universidades públicas dentro de um país que se pretende democrático continuem, em pleno século XXI, monocromáticas, mais excludentes que as universidades sulafricanas no período do Apartheid. [...]

  • Lavei minha alma, pois sou militante a favor das cotas raciais e quero ressaltar que jamais serei benefiaciada por sistemas de cotas. No entanto, defendo por considerar de suma importância à população negra do Brasil. E não considero que seja uma dívida social, tenho certeza que se trata de uma OBRIGAÇÃO da sociedade. Sou professora universitária e durante toda esta semana tenho discutido esse assunto com meus alunos. Inclusive, ontem fiz um aluno que era contra as cotas se calar, os argumentos que utilizou eram preconceituosos e acentuavam a desigualdade racial.
    Parabéns!
    Grande Abraço!
    Simone

  • Adorei sua materia ‘A carne mais barata do mercado é a carne negra‘ Eu só quero saber: até quando?’
    Lavei minha alma, pois sou militante a favor das cotas raciais e quero ressaltar que jamais serei benefiaciada por sistemas de cotas. No entanto, defendo por considerar de suma importância à população negra do Brasil. E não considero que seja uma dívida social, tenho certeza que se trata de uma OBRIGAÇÃO da sociedade. Sou professora universitária e durante toda esta semana tenho discutido esse assunto com meus alunos. Inclusive, ontem fiz um aluno que era contra as cotas se calar, os argumentos que utilizou eram preconceituosos e acentuavam a desigualdade racial.
    Parabéns!
    Grande Abraço!
    Simone

  • Sorry, usarei 1 palavra batida: isso é delinqüência http://bit.ly/dq8Q0u || Chamar anti-cota de anti-cotista: fazer c/ q negros sintam ODIO.

  • RT @aarles: A @maria_fro arrebentou! "A carne mais barata do mercado é a carne negra" http://bit.ly/dq8Q0u

  • "A carne mais barata do mercado é a carne negra" > http://mariafro.com.br/wordpress/?p=1923

  • 'A Carne mais barata do mercado é a carne negra' http://mariafro.com.br/wordpress/?p=1923 (via @maria_fro)

  • Que triste: para ela, quem pensa diferente é pq ñ sabe nada, ñ viu nada, é um energúmeno y otras cositas más http://bit.ly/dq8Q0u

  • RT @renata__garcia: Quer dar opinião sobre cotas? Leia antes: RT @dcalazans: "A carne mais barata do mercado é a carne negra" (@maria_fro) http://bit.ly/dq8Q0u

  • A Carne mais barata do mercado é a carne negra’ http://mariafro.com.br/wordpress/?p=1923
    (@maria_fro)

  • Excelente texto sobre racismo e cotas. Espero que o @viomundo tbm publique. (@maria_fro) http://mariafro.com.br/wordpress/?p=1923

  • Cotas não são apenas modos de corrigir desigualdade social, mas de educar para a igualdade: http://mariafro.com.br/wordpress/?p=1923