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Paula: Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha?

junho 23rd, 2010 by mariafro

Recebo um relato da historiadora Paula Rafaela: no último sábado dia 19/06, por volta das  21hse 15 min, na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, com convites em mãos ela foi impedida de entrar em um jantar promovido pelo Centro Tradicionalista Gaúcho (CTG). Leiam seu impressionante relato e descubram por que ela foi impedida de entrar. Minha questão: em que século vivem os gaúchos do CTG?


saia lápis
(Segundo o CTG esta é uma arma mortal!)

BARRADA NO BAILE

Por Paula Rafaela da Silva*

Escrevo com o objetivo de tornar público o constrangimento que vivi; vamos aos fatos: resido em Santa Maria e na semana anterior eu, meu esposo e meus pais fomos convidados para um jantar italiano de rodada de massas, sopas e vinho (uma beleza!). O local do jantar era o Centro Tradicionalista Gaúcho (CTG) Sentinela da Querência em Santa Maria, em razão disso fomos alertados que as mulheres não deveriam usar calça e homens não poderiam ir de calça jeans, também estavam liberadas as pilchas tradicionalistas. Pois bem, eu que, apesar de gaúcha, nunca freqüentei CTGs, obviamente não tenho vestido de prenda, assim que, vesti uma saia lápis (para quem não sabe é um modelo decintura alta e de comprimento 2 a 3 cm acima do joelho muito usado por executivas e para ocasiões formais e, portanto, não curta), uma blusa gola alta, manga longa, juntamente com um casaco de couro, meia-calça fio 40 preta (portanto, as pernas completamente cobertas) e, por fim, nos pés um sapato de salto fechado e nada de bijus. Enfim, eram visíveis meu rosto e minhas mãos. Assim que, chegamos ao local e, sem receber “boa noite”, pegaram nossos convites e nos deixaram literalmente plantados na porta, quando outra menina (que estava de vestido curto) saiu me olhou constrangida por estar sendo retirada de dentro do salão e  me disse: “Você não poderá entrar”.

golaalta

Então, tomei a iniciativa de perguntar para as pessoas da recepção que disseram que eu teria que ir para casa trocar de roupa. Em vão, expliquei que eu não tinha traje tradicionalista e que me avisaram que não poderia ir de calça, além do que, não informava no convite sobre saias. (No convite dizia o seguinte: Não é permitido: Jeans, tênis, legs e sobre legs, blusas de alça, roupas transparentes e homens com faca, brincos, chapéu ou tiara). Resultado: constrangida e revoltada, exigi meu dinheiro de volta (40,00 por pessoa) e acabamos nos retirando do local. Por fim, enquanto esperava em frente ao CTG o meu esposo vir com o carro do estacionamento ouvi uma prenda referir-se a mim como: ela estava “linda”, mas não pode entrar porque estava vestida para matar! (?)

Poderia eu, usar argumentos cujos tenho autoridade pela profissão, isto é, retomar a construção do mito do gaúcho, da invenção histórica que é o tradicionalismo que o MTG propaga, e nisso entram as vestimentas, especialmente as vestimentas femininas, visto que o vestido deprenda é uma adaptação conservadora que não está de acordo com as mulheres que lidavam no campo com o gado, enfim, uma história muito diferente daquela que o MTG insiste em contar.

No entanto, me posto aqui como cidadã, gaúcha, que vê em momento de copa do mundo o técnico da seleção brasileira ser julgado pessoalmente pela identificação com o seu estado deorigem – no caso o RS – chegando a ser acusado (erroneamente) de reacionário pelo ex-jogador Sócrates, conforme acompanhamos a repercussão na última semana. Também sou gremista que canta o Hino Riograndense no Olímpico, justamente por entender que, apesar das contradições históricas promovidas pelo tradicionalismo, a cultura e a identidade são fundamentais para a uniãode seres históricos e para a formação que caracteriza determinado povo, por isso, reconheço a importância do CTG, do 20 de setembro e do hino cantado pelas torcidas da dupla GRE-NAL como ações culturais e identitárias da população riograndense.

Contudo, não me parece admissível que na sociedade em que vivemos, onde tantas foram as lutas traçadas em nome da liberdade civil e tanto se debate sobre a preservação dos direitos individuais dos cidadãos, que uma organização, como o MTG siga pregando conceitos preconceituosos e segregadores. Fiquei pensando como seriam recepcionados um casal de gays ou uma pessoa de fora do estado do RS, que desconhece as normativas tradicionalistas. Seriam barrados também? Sob qual argumento? Afinal, era um jantar italiano informal aberto ao público geral e não um evento para os sócios do CTG.

Desconheço as questões legais sobre esse tipo atitude, contudo considero preocupante sob o ponto de vista da civilidade e da importância do movimento tradicionalista enquanto formador de opinião para muitos gaúchos. Sinto-me absolutamente contrariada diante de uma suposta autoridade que tem como base um discurso moralista para regular uma escolha que é absolutamente individual em um evento que é aberto ao público. Dessa forma fico com a impressão que as vestimentas estão associadas para o MTG a uma possível sexualidade ameaçadora, homens de tiara e brincos são associados a gays (gaúchos não podem ser gays), calças e xiripá para mulheres masculinizadas, e saias acima do joelho e blusas de alça para prostitutas. Por outro lado, as prendas usam vestidos longos, com saias de armação que escondem o corpo aos moldes da burca muçulmana.

Ok, posso estar me apresentando de forma radical, mas penso se há outra forma de se manifestar diante de uma atitude tão absurda? Na minha modesta opinião seguir promovendo esse tipo de ação e de valores significa fechar os olhos para uma prática social que vem sendo combatida veementemente desde o final do século XVII, quando as mulheres iniciaram uma longa luta política pela igualdade de direitos políticos, civis e sexuais.

Sei, também, que machismo soa como uma palavra démodé, que muitas pessoas podem associar a uma prática do passado ou de vitimização feminina e que qualquer membro do Movimento Tardicionalista Gaúcho (MTG) ao ser questionado sobre isso negará com firmeza a acusação. No entanto, gostaria de provocar uma reflexão: Afinal, em que contribui para o RS, para a cultura e para a identidade gaúcha a valorização de práticas que promovem ações segregatórias e preconceituosas?

*Paula Rafaela da Silva – Historiadora formada na UFSM, bolsista pela Capes, no mestrado da PUCRS.

paula.rafaela@gmail.com

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21 responses so far ↓

  • Agnaldo, tem certeza que esse comentário se aplica a este post?

  • Faca pode ser usada….No mundo em que estamos

  • Eu estava nessa duvida se poderia ou não ir de vestido 2 ou 3cm acima do joelho, meia calça, ombros completamente tapados… No mesmo CTG! O baile é hoje e eu iria ir no lugar da minha mãe com meu pai, mas pelo visto não poderei acompanha-lo, meu vestido de prenda não serve mais, tenho apenas 13 anos, não tenho calça social ou algo do tipo, e provavelmente não dará tempo de achar alguma coisa!

  • Sinto muito por vc naõ ter entrado no BAILE.
    Sou Paulista o bonito é ser normal sem exageros.
    Mas vou te contar um segredinho,vou a muitas festas deste tipo,me considero uma pessoa bonita e estou fazendo um mestrado fica entendido……
    Procuro seguir as regras dos gaúchos e as , vou toda certinha sabe o que as gúrias fazem …vão de roupas bem curtinhas e tiram sarro da gente a noite toda.
    Mas no fundo naõ conhecem a história do próprio local. Barbaridade

  • Agora entendo todo o constragimento que passei em minha ultima reuniao de trabalho. Eu vestia uma dessas saias no primeiro dia e percebi que os gauchos do grupo (especialmente) condenavam-me duramente com os olhos. Durante todo o periodo de trabalho – foram 2 dias e eu nao os conhecia antes – senti que me julgaram arduamente por minha aparencia. Pra mim, que moro no ES e estava trabalhando no RJ – nao que estes dois estados estejam livres do preconceito – esse tipo de vestimenta e bastante comum, especialmente entre executivas e advogadas.
    Meu desconforto com a forma com que fui tratada foi bastante grande e tenho entendido cada vez mais o motivo.

  • Sou catarinense e aqui se vive muito a tradição gaúcha. No CTG que frequento prezamos pelas raízes tradicionalistas,mas quando há eventos que permitem outros públicos diferentes do tradicionalista não somos radicais a esse ponto.

  • Paula: Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha? http://bit.ly/cDYF8D (via @maria_fro)

  • RT @TopsyRT: Paula: Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha? http://bit.ly/cDYF8D (via @maria_fro)

  • RT @TopsyRT: Paula: Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha? http://bit.ly/cDYF8D

  • Após 37 anos, nascido e morador de Porto Alegre, visitante de cerca de 80 dos 444 municípios do RS, penso um pouco diferente da Paula: por mais gremista que eu seja, me nego a canta esse hino de letra hipócrita, que saúda uma “revolução” na qual fizeram os negros de bucha de canhão e que, até hoje, os herdeiros desses oligarcas seguem mandando na prte mais miserável do Estado.

    É com profundo pesar que revelo que ainda não tenho motivos para pensar diferente: pra mim, grande parte da classe média urbana do RS come galinha e arrota faisão. Somos reconhecidos nacionalmente por uma escolaridade um pouco acima da média e por toparmos qualquer parada (nem todos, claro). Muitos gostam do nosso sotaque, dizem que a nossa mistura genética faz de boa parte de nós um pouco mais bonitos do que a média nacional, essas coisas.

    Porém, se isso for MESMO verdade, nada disso me envaidece, pois o gaúcho é o povo politicamente mais dócil do país. É o mais reverente ao malandro que enriqueceu ilicitamente e virou autoridade e o faz sem perceber.

    + de 80% da população do RS votou NÃO no plebiscito pelo estatuto do desarmamento. Não é um povo reacionário, careta e revanchista?!

    A Feira do Livro cantada em verso e prosa como a maior em céu aberto da América Latina, tem como best sellers livros de culinária e esotéricos. Que raio de povo “culto e politizado” é esse?!

    Garanto que qualquer trabalho de inclusão social e de tentativa de reabilitação de ex-presidiários é, por causa dessas crenças absurdas, o mais difícil e perigoso do país.

    Mas eu tô nessa, pois acredito que o estado que anda de costas para o Brasil ainda tem salvação.

    []‘s,
    Hélio

  • http://tinyurl.com/2fsyqqz <- isso fora a homofobia. ih… disso nem se fala…

  • mais ou menos sec. XV. ó! rt @camargoeb Paula:Barrada no Baile. em q século vivem os centros de tradição gaúcha? http://tinyurl.com/2fsyqqz

  • RT @camargoeb: Paula: Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha? – http://tinyurl.com/2fsyqqz

  • RT @maria_fro: Paula "vestida para matar": Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha? – http://tinyurl.com/2fsyqqz #sexismo

  • RT @TopsyRT: Paula: Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha? http://bit.ly/cDYF8D

  • RT @pennycilane: Paula: Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha? http://bit.ly/cDYF8D

  • Paula: Barrada no Baile. Em que século vivem os centros de tradição gaúcha? – http://tinyurl.com/2fsyqqz

  • Atitudes ridículas, segregadoras e xenófobas. Estamos em 2010 e tem gente que vive no século passado sob a proteção da palavra “tradição”. Não há tradição no mundo que pregue o desrespeito.
    A garota que escreveu o texto deveria chamar a polícia.
    Por isso que eu tenho muito orgulho de São Paulo, um estado sem preconceitos, livre de segregação racial, religiosa, regional. Um estado que sabe receber turistas, imigrantes e todos sem apontar ou julgar.
    São Paulo é hoje o maior estado (região) da América Latina, vocês gaúchos deveriam olhar para nós a aprender conosco.
    Vocês são ótimas pessoas, possuem uma cultura muito bonita e sabem fazer as coisas, porém precisam aprender a olhar para o futuro, para o novo.
    Não estou aqui dizendo para abandonarem suas tradições culturais, apenas digo que está na hora de adaptá-la ao mundo que mudou, acordem.

    Um abraço.

  • Nenhum CTG permite saia acima do joelho. É algo fácil de deduzir. Nunca mudará. Vai quem quer. CTG é um gueto conservador em um mundo ultra-liberal. Cada um no seu canto.

  • convivo em londres com um MONTE de gauchos e digo que isso aí nao é NADA. ouço coisas que me deixam meus ralos cabelos de pé. terrível!