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Memórias de uma campanha tucana: Dilma, de ‘retrovisor’ à ‘trajetória admirável’ ou os atuais afagos entre Dilma e FHC

julho 2nd, 2011 by mariafro

Em 23 de julho de 2010 escrevi no Blog da Mulher um longo texto intitulado “Sexismo emburrece e mata” é de lá que destaco este trecho:

“Fernando Henrique Cardoso e seus aliados de partido não deixam por menos. É recorrente no discurso do demotucanato que Dilma é ‘sombra’, ‘boneco’, ‘retrovisor’, ‘poste’ de Lula. Enfim, em vários textos e discursos, antes mesmo da largada para a campanha eleitoral, pululam termos que buscam desqualificar a mulher e a política Dilma Rousseff como uma candidata sem méritos próprios.

Em fevereiro de 2010, FHC, em artigo publicado na imprensa nacional, disse que “eleições não se ganham com o retrovisor“, comparando Dilma a um ‘boneco manipulado’ pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Naquele mesmo mês, na tribuna do Senado Tasso Jereissati (PSDB-CE) disse que a petista “é uma liderança falsa, de plástico, de silicone”.

FHC esqueceu a elegância da Sorbonne e até da sociologia de que tanto se orgulha e novamente focou a imagem feminina de Dilma com veios de ironia:

a encenação para a eleição de outubro já está pronta. Como numa fábula, a candidata do governo, bem penteada e rosada, quase uma princesinha nórdica, dirá tudo o que se espera que ela diga, especialmente o que o mercado e os parceiros internacionais querem ouvir”.

O ex-presidente, que nem o PSDB sabe o que fazer com ele, pinta Dilma como uma mulher fútil, que é só aparência, vazia de conteúdo, não é um sujeito histórico, não pensa por si, é facilmente manipulada, mas não pára por aí. Sua misoginia usa também da ironia em relação à idade de Dilma. A candidata do PT é uma mulher que brevemente será avó e, mesmo assim, sua figura é comparada à imagem de uma ‘princesinha’. (Leia o artigo na íntegra aqui).

Hoje, Rosângela Basso me envia um link da Isto É, no mínimo surpreendente, apreciem:

Por que Dilma ama FHC

Depois dos afagos mútuos, a presidente e o ex estreitam relações, enquanto tucanos e petistas torcem o nariz. Agora ela se prepara para escalá-lo em missões de Estado, assim como fez com Lula

Por: Sérgio Pardellas, IstoÉ Independente
01/07/2011
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Havia mais de oito anos que o telefone do Palácio do Planalto não registrava uma conversa informal entre um presidente da República e seu antecessor. Mas no dia 13 de junho, uma segunda-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a presidente Dilma Rousseff mantiveram um animado diálogo. FHC ligou de São Paulo para agradecer a carta recheada de elogios por meio da qual a presidente o cumprimentara pelo aniversário de 80 anos. “Queria dizer que fiquei extremamente feliz e aproveito para lhe dizer que também admiro sua trajetória.” Ao que Dilma devolveu, segundo pessoas que testemunharam o fato: “Meu querido, não disse nada que você não merecesse.” O telefonema, em tom mais do que amistoso, representou a afirmação de uma relação de respeito mútuo construída desde o início do ano, quando Dilma assumiu a cadeira já ocupada pelo líder tucano.

A relação entre os dois anda tão boa que Dilma começará, agora, a prestigiar FHC não só com elogios públicos. O próximo passo da presidente será no­mear Fernando Henrique para chefiar uma missão especial do governo brasileiro fora do País. A deferência será semelhante à que foi feita a Lula, que, na condição de ex-presidente, comandou a delegação nacional na Assembleia-Geral da União Africana, na Guiné Equatorial. O convite se inspira na tradição dos EUA, onde a experiência de ex-presidentes é utilizada em missões honorárias, independentemente da coloração partidária. Dilma, ao contrário do que ocorria com Lula, tem uma afinidade intelectual com FHC e não vê necessidade de esconder isso. Ambos estiveram juntos no combate à ditadura militar nos anos 60 e pagaram caro pelas suas ações – Dilma com a prisão, FHC com o exílio. Com formação de economista, Dilma reconhece ainda a importância que teve o Plano Real dos tucanos para acabar com a inflação no País e não sofreu o desgaste de um confronto direto com FHC nas urnas, como aconteceu com Lula.

Carinhos e afagos:

FHC: “Fiquei extremamente feliz e aproveito para dizer que também admiro sua trajetória”

Dilma: “Meu querido, não disse nada que você não merecesse”

Diálogo entre a presidente e o ex em telefonema no último dia 13

Os recentes afagos públicos entre a presidente e o papa dos tucanos podem levar a crer que a renhida relação entre PT e PSDB esteja se apaziguando. Puro engano. Os dois principais partidos do país continuam com a mesma postura belicosa das úl­timas duas décadas. E pior: nos dois lados da trincheira já há quem se incomode com tratamento tão cordial dado ao adversário. No círculo da presidente, todos são categóricos em afirmar que a atitude dela não encontra eco no PT. “Dilma é ela e suas circunstâncias. Foi um gesto pessoal. FHC é uma pessoa que ela admira e com a qual quer manter uma boa relação”, explicou à ISTOÉ uma fonte do Palácio do Planalto.
Uma prova de que também pelo lado tucano o clima permanece beligerante foi dada no evento em comemoração aos 80 anos de FHC na quinta-feira 30, em Brasília. Em seu pronunciamento, Serra elevou o tom, afirmando que Fernando Henrique “jamais passou a mão na cabeça de aloprados” e “foi sempre um servidor público em vez de se servir do público”. Na sessão em sua homenagem, Fernando Henrique evitou fazer críticas ao seu antecessor e, mais uma vez, elogiou Dilma. “O gesto dela deixou claro que nós somos brasileiros, temos que nos entender. Não vale a pena um destruir o outro.”

Nos bastidores, no entando, FHC tem sido um crítico contumaz de Lula. Nos últimos anos, FHC sempre reclamou do seu sucessor pelos cantos, dizendo que, nesse tempo todo, Lula nunca o havia convidado sequer para tomar um cafezinho no Palácio do Planalto. “Eu cedi a ele a Granja do Torto, mesmo antes de ele ser presidente. Mas o Lula só me chamou para ir ao enterro do papa”, esbravejou recentemente FHC. Lula e FHC nunca se encontraram desde que Dilma assumiu a Presidência. Ela até tentou. Na visita de Barack Obama ao Brasil a presidente convidou todos os ex-presidentes vivos para a recepção oferecida ao mandatário americano. Os senadores José Sarney e Fernando Collor, assim como FHC, compareceram, ao contrário de Lula, que preferiu ignorar a ocasião.

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  • Ok, essa carta é um chute num local onde dói muito, mas eu confesso que me preocupa, mas me preocupa menos o puxasaquismo desnecessário dela prá com a Folha e com o FHC (me preocupa pelo artificial, e por saber que eles já pisaram nela antes e vão pisar depois caso seja necessário), e me preocupa muito mais a deslealdade prá com o Lula, e mais especificamente prá com o projeto de país que ela defendeu até o ano passado.

    A politica externa do Lula, de fortalecimento da soberania, foi totalmente abandonada em nome de um meio alinhamento com Washington pero no mucho, ou não mui descarado. As demandas sociais não encontram mais no Planalto o mesmo diálogo de outrora. O povo aos poucos já não vai se sentindo tanto no palácio, que era o que mais o Lula sentia orgulho, fazer com o que povo pudesse ser participante do diálogo pelas políticas de estado, o que fazia dele o presidente com maior capacidade de entender o que é a democracia real, a democracia participativa que hoje é exigida no Egito, na Grécia, na Espanha e em diveros outros países.

    Quando um ministro tucano infiltrado no governo chama a própria presidenta e o ex-presidente de “idiotas” e não lhe acontece absolutamente nada, é porque os “idiotas” sequer são capazes de impor um mínimo de respeito. E essa incapacidade simboliza a falta de lealdade do atual governo com o legado do melhor governo que o Brasil já teve, e que foi responsável por este atual governo estar onde está.

  • Rosângela e Victor:
    Carta da Presidenta ao FHC cumprimentando-o pelos seus 80 anos:

    “Em seus 80 anos há muitas características do senhor Fernando Henrique Cardoso a homenagear.
    O acadêmico inovador, o político habilidoso, o ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica.
    Mas quero aqui destacar também o democrata. O espírito do jovem que lutou pelos seus ideais, que perduram até os dias de hoje.
    Esse espírito, no homem público, traduziu-se na crença do diálogo como força motriz da política e foi essencial para a consolidação da democracia brasileira em seus oito anos de mandato.
    Fernando Henrique foi o primeiro presidente eleito desde Juscelino Kubitschek a dar posse a um sucessor oposicionista igualmente eleito. Não escondo que nos últimos anos tivemos e mantemos opiniões diferentes, mas, justamente por isso, maior é minha admiração por sua abertura ao confronto franco e respeitoso de ideias.
    Querido presidente, meus parabéns e um afetuoso abraço!”

  • Vou me manter na minha nesse caso. Não quero ser injusto, e portanto quero deixar o tempo passar e mostrar se isso é só uma estratégia do PIG prá tirar a Dilma do lado do Lula e colocar do lado do FHC, ou se é isso mesmo, e a imprensa só está dando um empurrãozinho. Caso isso se converta em realidade, por uma via ou por outra, será a maior estupidez já cometida pela Dilma, por isso espero que seja desmentida a quanto antes.

  • Penso que a revista IstoÉ exagera nas tintas e tons, vi também a revista Óia promover esse “namorico” que ela também está querendo fazer em detrimento ao eterno Presidente Lula.