Obama: o presidente que se rende

Maria Frô
Por Maria Frô agosto 5, 2011 17:53

O presidente que se rende

Mehdi Hasan, The New Statesman, UK, Tradução: Vila Vudu

1/8/2011
O ‘acordo’ de Obama não é acordo: é capitulação. E havia alternativas.

“Conseguimos 98% do que queríamos” – disse o Republicano John “o lado escuro da força” Boehner, presidente da Câmara de Deputados, sobre o acordo da dívida firmado entre Obama e os Democratas e Republicanos do Congresso.

No resumo feito pela BBC[1], o acordo inclui:

* Cortes de 900 bilhões nos gastos do governo, divididos entre gastos da Defesa e outros gastos;

* Criação de um “supercomitê” bipartidário no Congresso, para recomendar outros 1,5 trilhão de dólares de gastos a serem cortados ao longo de 10 anos, contados a partir de novembro; e

* Cortes em áreas chaves, entre as quais defesa e educação, a serem implantados automaticamente, se o supercomitê não conseguir construir acordo.

É difícil não concordar com Boehner. Obama começou por pedir aumento “limpo” no teto de $14,2 trilhões para o endividamento; depois, passou a pedir que houvesse cortes correspondentes nos impostos e nos gastos. Nada conseguiu. Sequer conseguiu que os doidos do Tea Party aceitassem abolir a isenção de impostos sobre jatos privados![2]

O déficit no orçamento dos EUA será pago pelos mais pobres. Eis o que se lia na página Hedgefund.net[3]

“Administradores e gerentes de empresas de hedge e derivativos, como muitos outros no mundo dos investimentos, respiraram aliviados quando o presidente Barack Obama anunciou no domingo à noite, um acordo provisório para elevar o teto do endividamento dos EUA”.

Os defensores de Obama reagiram contra críticas ao presidente, perguntando sem parar “e que alternativa havia?” “Qual seria a SUA alternativa?”

Ora, ora… Para início de conversa, como diria Jack o Estripador, “Eu não teria começado por aí.”

Paul Krugman dá alguns detalhes[4]:

“O presidente, dessa vez, tinha alternativas? Sim.

Primeiro, podia e devia ter exigido o aumento no teto de endividamento em dezembro. Perguntado sobre por que não o fez, respondeu que tinha certeza de que os Republicanos agiriam responsavelmente. Grande ideia!

E mesmo depois, o governo Obama poderia ter recorrido à manobra legal de desconsiderar o teto de endividamento, usando qualquer de várias opções. Em circunstâncias ordinárias, teria sido passo extremo. Mas ante a realidade do que já estava acontecendo, a saber: a declarada chantagem, praticada por um partido que, afinal de contas, só controla a Câmara e não controla o Senado, teria sido perfeitamente justificável.

No mínimo, o presidente Obama poderia recorrer a qualquer de várias manobras legais para fortalecer sua posição. Fez? Não. Desde o início o presidente descartou todas essas possibilidades.”

Como escreveu Robert Reich[5], professor e ex-secretário do Trabalho dos EUA (governo Bill Clinton):

“Mas outra parte da resposta está com o presidente – e sua incapacidade para, ou nenhuma vontade de, usar a tribuna para informar os norte-americanos sobre a verdade e mobilizá-los para fazer o que tem de ser feito.

Barack Obama é dos homens mais eloquentes e mais inteligentes que jamais habitou a Casa Branca, o que torna ainda mais intrigante e frustrante para nós o seu fracasso, ao escolher não contar aos eleitores a história de nossa geração. Muitos dos que votamos nele em 2008 (inclusive eu) fomos seduzidos pelo poder de suas palavras e de sua visão de América – seu discurso na convenção dos Democratas em 2004, sua autobiografia e, depois, seu livro de política, o que disse sobre racismo e outros temas decisivos durante a campanha.

Todos nos entusiasmamos à perspectiva de um presidente educador – um “educador-em-chefe” que usaria a tribuna para explicar o que aconteceu nos EUA nas últimas décadas, para onde temos de andar e por quê.

Mas o homem que ocupa o Salão Oval desde janeiro de 2009 é alguém completamente diferente – é homem que parece navegar sem bússola, não se entende para onde; tático que um dia anda numa direção, dia seguinte volta atrás, um dia para a esquerda, dia seguinte para a direita, fazedor de ‘acertos’ dentro dos círculos do poder, que jamais explica seus compromissos à rua nem, jamais, fala de seus objetivos maiores.

No discurso de posse, Obama alertou que “a nação não prosperará enquanto só favorecer os prósperos”. Privadamente, diz entender que a crescente concentração de renda e riqueza no ponto mais alto da pirâmide roubou da classe média o poder de compra de que precisaria para manter ativa a economia. E que isso distorceu a política norte-americana.

Sabe perfeitamente bem que a Grande Recessão fez desaparecer $7,8 trilhões no valor das moradias, esmagou os ovos no ninho,  eliminando a poupança que permitiria que a classe média continuasse a consumir apesar da queda real no valor dos salários. – E que a quebra no consumo é diretamente responsável pela anêmica ‘recuperação’ que se vê.

Mas, em vez de explicar isso ao povo norte-americano, Obama une-se à ala mais reacionária dos Republicanos para oferecer ao povo uma farsa, uma falsa redução do déficit público, e envolve-se numa patética encenação de penas arrepiadas com os Republicanos… deixando crescer o suspense e a angústia nacional, sobre se o teto do endividamento seria ou não aumentado.

Obama sequer se deu o cuidado de explicar aos cidadãos por que a redução do déficit, de repente, se converteu em prioridade econômica de seu governo. Aos cidadãos, só restou concluir que os Republicanos devem ter razão… e que reduzir o déficit poderá (só deus sabe como!) reviver o crescimento da economia e criar empregos.”

E então surge Bill Clinton[6], Bubba em pessoa, hoje cedo, para dizer o que teria feito se ainda estivesse na Casa Branca:

“O ex-presidente Bill Clinton diz que, fosse ele, teria invocado a chamada opção constitucional para elevar o teto do endividamento “sem hesitar; e teria obrigado as cortes a me processarem”, para impedir o calote, no caso de Congresso e Presidente não chegarem a algum acordo antes do prazo final de 2 de agosto”.

Mas Obama fugiu de usar a 14ª Emenda[7]. Talvez, como Reich sugere, porque:

“Obama simplesmente não tem coragem de contar a verdade. Quer ser visto mais como adulto responsável, do que como resistente. Por isso acaba sempre se deixando prender nas situações – a mais recente, o imbróglio do teto de endividamento – às quais teria de responder. E nunca é o líder que modela as situações, desde o primeiro passo.

Obama não consegue mobilizar os EUA, em outras palavras, porque sempre tenta adaptar-se à ideia dominante. Isso não é presidir.”

NOTAS
[1] BBC

[2] Hedgefund

[3] Hedgefund

[4] NYTimes

[5] HuffingtonPost

[6] NationalMemo

[7] TNR

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Maria Frô
Por Maria Frô agosto 5, 2011 17:53
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3 Comentários

  1. Victor Farinelli agosto 5, 17:56

    Obama, o presidente que tem medo!! Apesar que o título é melhor, minha frase é injusta porque o Obama não é o único presidente com medo. O Piñera aqui no Chile está morrendo de medo – a diferença é que o Obama morre de medo dos republicanos e o Piñera morre de medo dos estudantes, e do povo.

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  2. vander resende agosto 5, 22:31

    Alguns articulistas e comentaristas estadunidenses já chegaram a dizer que Obama é um conservador infiltrado nos Estados Unidos. Como um presidente eleito pelo partido democrata ele consegue fazer reduções drasticas em políticas sociais, que um conservador jamais conseguiria fazer passar. Vide nao só esse acordo tragico para a elevação do déficit, mas também o projeto Medicare, que era afinal, uma versão de um projeto de um governador republicano, que agora é pré-candidato a presidencia dos estados unidos, Mitt Romney.
    Obama esta fazendo pelos conservadores, o mesmo que Blair (primeiro ministro britânico, do partido trabalhista, na década de 1990) e outros da social-democracia européia e porque não brasileira fizeram

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  3. vander resende agosto 6, 18:09

    Sobre Obama, vale a pena ler na carta maior:
    http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18152

    A emboscada de Obama contra os direitos sociais
    Wall Street sabe que para ter votos suficientes no Congresso para destruir o New Deal, o Social Security, o Medicare e o Medicaid, é preciso ter um presidente democrata no comando. Um congresso democrata bloquearia qualquer tentativa republicana de fazer o tipo de corte que Obama está propondo. Mas a oposição democrática fica paralisada quando o próprio presidente Obama – o presidente liberal por excelência, o Tony Blair americano – age como o chefe de torcida para cortar direitos e outros gastos sociais. O artigo é de Michael Hudson.
    > LEIA MAIS | Internacional | 31/07/2011

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