Do leitor Jair de Souza uma tradução do texto de Marc H. Ellis para Obama e seu discurso na ONU

Maria Frô
Por Maria Frô setembro 25, 2011 13:08

Estimada Conceição de Oliveira, estou enviando à continuação um artigo de Marc H. Ellis sobre o discurso de Obama nas Nações Unidas sobre a questão palestina. Fiz a tradução ao português a partir do original em inglês (original que também envio para que você possa cotejar com a tradução). Se você julgar que vale a pena, ficaria muito feliz se pudesse publicá-lo em Maria Frô. Marc H. Ellis é um professor universitário e teólogo do judaísmo bastante conceituado entre os setores progressistas dos Estados Unidos.

Um abraço e obrigado.
Jair de Souza
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Sr. Presidente

por Marc H. Ellis, sábado, 24 de setembro de 2011.

(Traduzido ao português por Jair de Souza)

“Para o senhor, Sr. Presidente, os palestinos e a Palestina são problemas que devem ser encarados. Não pude sentir de sua palestra que haja um problema real que precisa ser exposto e corrigido. Como foi necessário no caso dos judeus. Como continua sendo necessário no caso dos judeus… Parece que sua lousa presidencial está repleta de judeus e história judaica. Quando o senhor decide falar sobre os palestinos, volta-se para a lousa e escreve “Problema”.

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Vamos encarar o fato, Presidente Obama, seu discurso nas Nações Unidas desta semana foi tão somente enrolação, essência de política doméstica com vistas ao ciclo eleitoral estadunidense de 2012. Aqui, eu me refiro principalmente à questão do reconhecimento de um Estado Palestino.

Sr. Presidente, o senhor já foi acusado de ser excessivamente profissional. Eu sei que os políticos precisam ser eleitos ou reeleitos para que tenham êxito. Gente de consciência que fica sentada ao lado do campo político têm de soltar as rédeas do político. Ainda assim, com seu perdão, eu lamento seu desempenho opaco em relação com uma variedade de pontos. O senhor parece não estar disposto a jogar duro politicamente com respeito às questões que nosso país está enfrentando.

Sim, eu sei que as coisas poderiam ser piores. Sim, posso imaginar um dos principais contendentes republicanos, suponhamos Rick Perry, fazendo o discurso nas Nações Unidas depois de ter sido eleito em 2012. Sim, eu me lembro do Presidente Bush. Eu moro no Texas. Posso imaginar o Presidente Rick Perry. Eu entendo seu ponto claramente. Eu deveria ter cuidado ao fazer minhas críticas.

Mesmo assim, eu tenho uma pergunta básica para o senhor. E eu a faço como judeu. Mesmo administrando as artimanhas políticas necessárias para navegar no cenário político estadunidense, o senhor realmente crê em suas próprias palavras com respeito ao Estado Palestino?

Eu estou fascinado, Sr. Presidente. Sua discussão sobre o reconhecimento do Estado Palestino centra-se fundamentalmente sobre o Estado de Israel, a história judaica e o Holocausto. Por quê isso, Sr. Presidente? Eu escutei suas palavras com interesse.

“Mas entendam isto também: O compromisso dos EUA com a segurança de Israel é indestrutível. Nossa amizade com Israel é profunda e duradoura. E, assim, cremos que qualquer paz duradoura deve reconhecer as preocupações muito reais que Israel enfrenta a cada dia.

Vamos ser honestos conosco mesmos: Israel está rodeado de vizinhos que lhe livraram repetidas guerras. Cidadãos israelenses foram mortos por foguetes lançados sobre suas casas e por homens bombas em seus ônibus. As crianças de Israel ficam adultas sabendo que por toda a região outras crianças são ensinadas a odiá-las, um pequeno país de menos de oito milhões de pessoas olha para fora a um mundo onde os líderes de nações muito maiores ameaçam varrê-lo do mapa. O povo judeu carrega o fardo de séculos de exílio e perseguição e as recordações frescas de saber que 6 milhões de pessoas foram eliminadas simplesmente por serem o que eram.

Esses são os fatos. Eles não podem ser negados.

O povo judeu ergueu um Estado exitoso em sua pátria histórica. Israel merece ser reconhecido. Merece ter relações normais com seus vizinhos. E os amigos dos palestinos não lhes fazem nenhum favor ao ignorar esta verdade, assim como os amigos de Israel devem reconhecer a necessidade de buscar uma solução de dois estados com um Israel seguro junto a uma Palestina independente.”

Eu leio também o resto de seu discurso. Fecho meus olhos por um momento e o vislumbro em seu modo professoral. Eu o ouço discursar, de uma perspectiva judaica, sobre por que Israel é importante para os judeus. O senhor recita o que quase se tornou mecânico em minha comunidade. O senhor está certo quando fala sobre séculos de exílio e perseguição, a devastação e o Holocausto e o retorno à pátria antiga.

E logo, o senhor se refere aos palestinos. Ouço com expectativa. Mas, Sr. Presidente, fico frustrado. Parece que em sua interpretação histórica os judeus, o Holocausto e a história judaica simplesmente desabam sobre os palestinos. Ou melhor, há a história judaica e, então, há os palestinos, que também merecem um estado.

O fato de os judeus terem expulsado os palestinos e tomado sua terra parece ser um incidente para o senhor. Na verdade, o senhor nunca menciona isso. O senhor não emprega a expressão “limpeza étnica”, que ocorreu com os palestinos na criação do Estado de Israel.

Para o senhor, Sr. Presidente, os palestinos e a Palestina são problemas que devem ser tratados. Não pude sentir de seu discurso que há questões de carne e sangue que precisam ser expostas e corrigidas. Assim como foi necessário para os judeus. Assim como continua sendo necessário para os judeus.

Parece que sua lousa presidencial está repleta de judeus e história judaica. Quando o senhor se refere aos palestinos, volta-se para a lousa e escreve – “Problema”. Como o senhor se referiu ao “problema” várias vezes, em minha imaginação, o senhor também o envolve num círculo. Daí, o senhor volta a seu assunto principal – a história judaica.

Foguetes sendo lançados sobre Israel a partir de Gaza. Sr. Presidente, o senhor se esqueceu da Operação Chumbo Derretido, a invasão de Gaza por Israel logo após o senhor ser eleito presidente?

Árabes falando mal de Israel. O senhor deveria me acompanhar em uma de minhas giras de palestras. O senhor ouviria o que as audiências de judeus e não-judeus estadunidenses têm a dizer sobre árabes, muçulmanos e palestinos. Em momentos desprevenidos e frequentemente em público, o senhor procurou ouvir as discussões sobre os palestinos na “única democracia do Oriente Médio”, nosso grande aliado, Israel?

Sr. Presidente – e com todo o devido respeito – permita-me dizer claramente que o senhor não fala por mim nem por muitos outros judeus que não acham que “algo” aconteceu aos palestinos como se fossem simplesmente um subproduto da história judaica. Nós não pensamos que os palestinos existem sem uma história ou sem um destino dentro de sua própria terra.

Certamente, como o senhor diz, poderia ser pior, Sr. Presidente. Mas, talvez, já seja pior. Quando eu ouvi suas palavras, eu pensei que o final tinha chegado. Eu segurei minha cabeça com as mãos – a história judaica não deveria acabar nisto. Eu queria abafar suas palavras. Eu queria que o senhor falasse sobre outras coisas das quais o senhor entende melhor ou, pelo menos, que lhes são mais próximas do coração. Eu queria algo mais do que a rotação do ciclo político.
Sim, os judeus realmente carregam séculos de exílio e perseguição. Os judeus europeus sim sofreram seis milhões de mortes. Eu sei disso como judeu. Eu cresci com essas recordações. Mas Sr. Presidente, como uma criança que aprende nossa história, eu nunca imaginei que os judeus fossem usar esses séculos de exílio e perseguição, nossos seis milhões de mortos, como um instrumento cego contra um outro povo. Nunca! Nem mesmo em minha imaginação mais selvagem. Não!

Ao ouvi-lo, eu imaginei como as coisas terminam. Como a história judaica terminou – em limpeza étnica e ocupação.

Mas, Sr. Presidente, isto também pode ser nosso começo. Esse começo somente vai vir quando a verdade for contada pelos judeus e pelos palestinos juntos. E sim, talvez um dia, pelo Presidente dos Estados Unidos da América.

Fonte original: http://americas.mediamonitors.net/content/view/full/89992

Marc H. Ellis é professor universitário de Estudos Estadunidenses e Judaicos e Diretor do Centro para Estudos Estadunidenses e Judaicos da Baylor University, de Waco, Texas. Ele ofereceu este artigo a Media Monitors Network (MMN)
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Mr. President!
by Marc H. Ellis
(Saturday, September 24, 2011)

“For you, Mr. President, Palestinians and Palestine are problems to be dealt with. I didn’t get the sense from your lecture that there is a flesh and blood issue that needs exposure and redress. Like what was necessary for Jews. Like what is still necessary for Jews….It seems your presidential chalk board is filled with Jews and Jewish history. When you come to Palestinians, you turn to the board and write – “Problem.”

Let’s face it, President Obama, your speech to the United Nations this week was all fluff, domestic political gist for the 2012 American election cycle. I refer here especially to the issue of Palestinian statehood.

Mr. President, you have been accused of being too professorial. I know that politicians have to be elected or reelected to be successful. Thoughtful people sitting on the political sidelines have to cut politicians slack. Still, if I may, I bemoan your lackluster performance on a variety of issues. You seem to be unwilling to play political hard ball on the issues facing our country.

Yes, I know things could be worse. Yes, I can imagine one of the Republican front-runners, say Rick Perry, giving the United Nation’s speech after being elected President in 2012. Yes, I remember President Bush. I live in Texas. I can imagine President Rick Perry. I hear you loud and clear. I should be careful when I criticize.

Still, I have a basic question for you. And I ask you this as a Jew. Even factoring in the political spin necessary to navigate the American political scene, do you really believe your own words on Palestine statehood?

I am fascinated, Mr. President. Your discussion about Palestinian statehood mostly revolves around the state of Israel, Jewish history and the Holocaust. Why is that? I listened to your words with interest:

But understand this as well: America’s commitment to Israel’s security is unshakable. Our friendship with Israel is deep and enduring. And so we believe that any lasting peace must acknowledge the very real security concerns that Israel faces every single day.

Let us be honest with ourselves: Israel is surrounded by neighbors that have waged repeated wars against it. Israel’s citizens have been killed by rockets fired at their houses and suicide bombs on their buses. Israel’s children come of age knowing that throughout the region, other children are taught to hate them. Israel, a small country of less than eight million people, look(s) out at a world where leaders of much larger nations threaten to wipe it off the map. The Jewish people carry the burden of centuries of exile and persecution, and fresh memories of knowing that 6 million people were killed simply because of who they are.

Those are facts. They cannot be denied.

The Jewish people have forged a successful state in their historic homeland. Israel deserves recognition. It deserves normal relations with its neighbors. And friends of the Palestinians do them no favors by ignoring this truth, just as friends of Israel must recognize the need to pursue a two-state solution with a secure Israel next to an independent Palestine.

I read the rest of your speech as well. Closing my eyes for a moment, I picture you in your professorial mode. I hear you lecturing, from the Jewish perspective, about why Israel is important to Jews. You recite what has almost become rote in my community. You are right when you speak about centuries of exile and persecution, the devastation of the Holocaust and the return to our ancient homeland.

Then you turn to the Palestinians. I listen with anticipation. But Mr. President, I am disappointed. It seems that in your historical rendering Jews, the Holocaust and Jewish history simply land on the Palestinians. Or rather there is Jewish history and then there are Palestinians who also deserve a state.

That Jews dislocated Palestinians and took their land seems incidental to you. In fact, you never mention this. You don’t use the term “ethnic cleansing,” – what happened to the Palestinians in the creation of the state of Israel.

For you, Mr. President, Palestinians and Palestine are problems to be dealt with. I didn’t get the sense from your lecture that there is a flesh and blood issue that needs exposure and redress. Like what was necessary for Jews. Like what is still necessary for Jews.

It seems your presidential chalk board is filled with Jews and Jewish history. When you come to Palestinians, you turn to the board and write – “Problem.” Since you came back to the “problem” several times, in my mind’s eye you circle it as well. Then you return to your main subject – Jewish history.

Rockets falling into Israel from Gaza. Mr. President, have you forgotten Operation Cast Lead, Israel’s invasion of Gaza just after you were elected president?

Arabs demeaning Israel. You should accompany me on one of my lecture tours. You would hear what Jews and non-Jewish American audiences have to say about Arabs, Muslims and Palestinians. In unguarded moments and often in public, have you listened in on the discussion about Palestinians in the only democracy in the Middle East, our great ally, Israel?

Mr. President – and with all due respect – may I say clearly that you do not speak for me or many other Jews who do not think that “something” happened to Palestinians simply as a byproduct of Jewish history. We don’t think that Palestinians exist without a history or without a destiny in their own land.

Indeed, as you say, it could be worse, Mr. President. But perhaps it already is. When I heard your words I thought that the end had come. I held my head in my hands – Jewish history couldn’t have to come to this. I wanted to shut your words out. I wanted you to speak about other things that you know more about or at least are closer to your heart. I wanted something other than the political spin cycle.

Yes Jews do carry centuries of exile and persecution. European Jews did suffer six million slaughtered. I know this as a Jew. I grew up with these memories. But Mr. President, as a child learning of our history, I never imagined that Jews would use these centuries of exile and persecution, our six million dead, as a blunt instrument against another people. Never. Not even in my wildest imagination. No!

Hearing you I thought of how things end. How Jewish history has ended – in ethnic cleansing and occupation.

But, Mr. President, this can also be our beginning. That beginning will only come when the truth is told by Jews and Palestinians together. And yes, perhaps one day, by the President of the United States of America.

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Maria Frô
Por Maria Frô setembro 25, 2011 13:08
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2 Comentários

  1. Francisco Niterói setembro 25, 14:08

    Obrigado ao Jair e a Fro por este texto que jamais encontraria na mídia convencional. Aliás, este trecho só reforça o meu desacordo com o pensamento tradicional de que a volta dos republicanos seria uma tragédia. Discordo: se estes criaram a prisão em Guantánamo, o Obama a manteve. A única diferença entre eles é que os republicanos rasgaram a máscara da hipocrisia e eu acho melhor lidar com quem assume as suas posições, mesmo que sejam as piores possíveis.

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  2. Francisco Niterói setembro 25, 14:18

    “obrigado ao Jair e à Frô”. Faltaram a crase e o “chapeuzinho do vovô”. O “acadêmico” merval poderia me mandar pro pelourinho! Rsrsrs. Falando nesta praga, em sua posse na ABL o Eduardo Portela discursou na linha “a mídia está salvando o Brasil pois a oposiçaão esta fraquinha” da judith Brito. E ainda atacou o Bolsa Família! Babaca que foi ministro da ditadura.

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