Sábado, dia 12, às 11h, na Praça da Paz Universal, em Santos (SP), “Mães de Maio” cobram justiça e paz às periferias

Maria Frô
Por Maria Frô maio 11, 2012 19:38 Atualizado

Em evento, “Mães de Maio” cobra justiça e paz para as periferias

Central do Hip Hop

Ato pela vida e contra a impunidade lembra assassinatos de 2006

Neste sábado, dia 12, às 11h, na Praça da Paz Universal, em Santos (SP), o Movimento Mães de Maio reúne artistas e outros movimentos sociais para refletir e lembrar o assassinato de jovens em 2006, durante ação da polícia e de grupos de extermínio. Grupos e militantes do hip-hop como Versão Popular, Família Ducorre, Cientistas MC’s, Anexo Verbal, Guerreiroz do Capão, Yzalú  e representantes do Sarau da Ademar, Sarau da Brasa, Elo da Corrente, Marginaliaria, Mesquiteiros, Suburbano Convicto, Perifatividade e Vila Fundão também marcarão presença.

Numa entrevista concedida ao CHH, a mãe Débora Maria e o militante Danilo Dara, ambos do Mães de Maio, falam sobre os seis anos de luta do movimento, entre outros assuntos. Leia abaixo.

CHH: O Movimento Mães de Maio nasceu como reação aos Crimes de Maio de 2006, um ataque aos jovens das periferias de São Paulo realizado por policiais e grupos de extermínio. O Mães de Maio sofreu algum tipo de represália nos primeiros anos de resistência?
Movimento Mães de Maio: Em primeiro lugar obrigado pelo espaço. O movimento Mães de Maio é uma rede de Mães, Familiares e Amigas de vítimas do estado brasileiro, como já dito por vocês. Uma Rede surgida aqui na Baixada Santista,  em São Paulo, logo após a trágica matança policial de Maio de 2006. Para se ter uma ideia, naquele mês, em apenas 8 dias agentes policiais e grupos de extermínio ligados ao estado mataram mais de 500 pessoas em São Paulo, mais do que os 20 anos de ditadura civil-militar assassinou no país inteiro nas fileiras dos resistentes a ela. Naqueles dias eles intensificaram brutalmente uma prática assassina que, no entanto, eles seguem fazendo todos os dias do ano, até os dias de hoje.

Vocês perguntam se nós sofremos algum tipo de represália “nos primeiros anos de resistência”. E dizemos que, desde os primeiros momentos e até hoje sofremos uma série de pressões e represálias. Desde o racismo e as humilhações em todo tipo de repartição pública que passamos a frequentar (hospitais, IML, Delegacias, Tribunais e demais órgãos do estado), muitas vezes tratados como familiares de “bandidos” e “vagabundos”; o silêncio e o descaso da grande imprensa e dos chamados “formadores de opinião”, a maioria dos quais ainda hoje se fazendo de surdos e mudos sobre o quê aconteceu; os “conselhos” de que esta luta “não pode dar em nada”, que é “melhor largar isso de lado”…; além das ameaças mais abertas que recebemos até os dias de hoje.

Nesse meio-tempo, duas de nossas Mães tiveram flagrantes forjados e prisões realizadas, obviamente em retaliação ao seu levante por Justiça. Foi o caso da Vera, mãe da grávida Ana Paula (assassinada aos 9 meses de gestação, junto a sua bebê Bianca, prestes a nascer em Maio de 2006), Vera que ficou presa por mais de 2 anos, saindo arrebentada psicologicamente da prisão. Foi o caso também da Nalva, que felizmente nós conseguimos reverter e provar sua inocência, desrespeitada pela farsa de uma montagem. Nada derruba a nossa luta por Verdade, Justiça e Liberdade!


CHH: Como analisam estes seis anos de luta?
Movimento Mães de Maio: Tem sido 6 anos muito difíceis. Muito mais dores, problemas e desafios do que vitórias efetivas. A sensação que temos é de que, para se dar um pequeno passo concreto, é preciso mover montanhas inteiras, num esforço cotidiano sem tamanho.Para se ter uma ideia, até hoje, apesar de tudo que já conseguimos comprovar sobre a matança de Maio de 2006 contra centenas de jovens pobres e negros, ainda assim muita gente não conhece a verdadeira história, a imensa maioria dos processos segue arquivada, nenhum responsável direto ou indireto devidamente julgado e punido. Também muito pouco se caminhou na Federalização das Investigações dos Crimes de Maio, algo que cobramos desde 2006 do Governo Federal.

Também temos lutado muito, no cotidiano, pelo fim dos registros de “resistência seguida de morte” (em SP), de “auto de resistência” (no RJ) e demais brechas similares no Brasil inteiro, algo que acreditamos ter se tornado na prática uma verdadeira “licença para matar” dada a policiais do Brasil inteiro. Hoje o país é campeão mundial em número de homicídios por ano – cerca de 48.000 mortes desta maneira, além e ser o 4º país com mais pessoas presas no mundo, mais de 500.000, em sua grande maioria jovens e primários presos por pequenos delitos. Contra esses massacres é que seguimos lutando cotidianamente, apesar de todas as dificuldades!

CHH: Quais foram as respostas ou propostas dadas pelo Estado? A impunidade continua?
Movimento Mães de Maio: O Estado não tem nos dado praticamente nenhuma resposta concreta. O máximo que conseguimos foi o ganho parcial, em primeira instância, da ação movida no caso de Edson Rogério da Silva, levada adiante junto à Defensoria de São Paulo, na qual conseguimos um Acórdão do TJ de São Paulo responsabilizando o Estado como um todo por aquela série de mortes violentas de Maio de 2006. Esta “vitória” jurídica num caso individual, porém, além de conter absurdos revoltantes – como a estipulação de uma indenização mensal de mísero 1/3 de salário mínimo (!), cerca de R$ 207,00, pra dar conta do sustento da família da vítima, nós temos plena certeza de que não basta. Queremos Verdade, Justiça e Reparação pra todos os casos de Maio de 2006, e uma mudança radical nas políticas de (in)segurança pública. Queremos, na real, uma transformação profunda nesta sociedade militarizada movida pelo dinheiro, pelo poder e por interesses que tem levado práticas contínuas de genocídio da população pobre e negra. Na falta dos direitos mais básicos das pessoas (moradia, saúde, educação, transporte); nas torturas cotidianas cometidas por agentes repressores; no aprisionamento em massa, em especial de nossa juventude; nas execuções sumárias.

CHH: A mídia continua omissa em relação aos casos de violência na periferia?
Movimento Mães de Maio: De forma geral a grande mídia comercial continua bastante omissa em relação à violência na periferia. No meio da euforia toda do “crescimento do país”, futebol, Olimpíadas e Copa do Mundo, quando a questão da violência na periferia aparece, ela vem ou nas notas de roda-pé dos jornais, ou na forma do “programa do Datena”: pedindo mais violência contra a periferia. Ou seja: para parte da grande imprensa nós somos um detalhe pontual, insignificante; pra outra parte nós somos a encarnação do mal, sobre a qual a polícia deve “descer mais a porrada”, prender e violentar ainda mais.

Felizmente, porém, temos encontrado cada vez mais um número significativo de jornalistas – não apenas nos jornais independentes ou progressistas – mais sérios e comprometidos com a verdade, que tem buscado denunciar os abusos e as violências, principalmente do Estado, contra a população periférica. Esses têm buscado apurar, tem cobrado explicações das autoridades e do poder público, e tem cumprido um  papel fundamental para a boa informação da sociedade, e pro fortalecimento de nossa luta.

CHH: Como é a organização do Movimento Mães de Maio? Vocês possuem sede? Como articulam e divulgam as lutas nas redes sociais?
Movimento Mães de Maio: Nós funcionamos como uma Rede de Solidariedade cotidiana, muito inspirada na Rede de Comunidades e Movimentos Contra Violência, nossa família no Rio de Janeiro. Não temos sede, e nos organizamos a partir da luta concreta, com reuniões periódicas, e uma rede de acolhimento, solidariedade, de núncia e proteção cada vez mais forte, com a participação de centenas de pessoas e entidades aliadas. Felizmente, sob este ponto de vista, temos conseguido dar cada vez mais passos na ampliação e fortalecimento dessa rede de denúncia, solidariedade efetiva e proteção a todos nossos militantes. Uma Rede que envolve aliados de todos os cantos que vocês podem imaginar, do Centro e, sobretudo, da Periferia. Um dos bons desdobramentos recentes tem sido nossa participação na construção da Rede 02 de Outubro – pelo fim dos massacres, que trata da questão carcerária aqui em SP – em razão dos 20 anos do Massacre do Carandiru; o Comitê contra o Genocídio da População Negra, também aqui em São Paulo. E a Rede Nacional de Familiares e Amig@s de Vítimas do Estado Brasileiro, que estamos buscando consolidar até aqui junto aos estados do RJ, MG, BA, ES e PA.

Sobre a articulação e divulgação nas Redes Sociais, nos revezamos pra dar conta das várias tarefas nessa área. Achamos que pode ser uma ferramenta importante de denúncia, troca de informações e mobilização. Mas a diferença sempre esteve e sempre estará nas Ruas mesmo, nas Comunidades, na Luta Diária.

CHH: A juventude negra e periférica ainda é a maior vítima de abusos por parte da polícia e de grupos de extermínio. O que mais dificulta a ação do Movimento Mães de Maio em relação ao trabalho junto aos jovens?
Movimento Mães de Maio: Acreditamos que um dos principais problemas enfrentado no diálogo com jovens atualmente é a desinformação, a cultura do consumo e do individualismo. E não culpamos necessariamente os jovens, embora não passamos a mão na cabeça de ninguém. A molecada deveria entender que ao não zelar por se educar e se informar de maneira independente; ao ficar reproduzindo a cultura do consumismo e do dinheiro, atrás do último celular e do último tênis; e ao ficar cada um correndo apenas pelo seu, sem olhar pro lado na comunidade, sem participar de qualquer organização coletiva, no bairro, na escola ou no trabalho, ao reproduzir tudo isso, estamos fazendo exatamente o quê o sistema quer que a gente faça, pras coisas continuarem assim, de mal a pior.

Então, sem uma atitude diferente, depois não adianta reclamar da vida, reclamar que a situação está difícil ou, no pior dos cenários, se lamentar quando a violência do estado bater de forma amis pesada na sua porta. Literalmente. Pra prender ou matar algum amigo ou familiar seu. Por que esperar isso acontecer, se todos nós vemos e convivemos com várias situações como estas cotidianamente?! Quando vamos nos levantar, no Brasil  e dizer basta a esta situação, reivindicando e construindo coletivamente aquilo que é nosso por direito e dever?! Quando lutaremos mais juntos por uma sociedade verdadeiramente Justa e Livre?!

CHH: A classe artística tem apoiado o trabalho do Movimento Mães de Maio?
Movimento Mães de Maio: Manos e manas da Central Hip-Hop, quando vocês falam assim “classe artística”, vocês estão se referindo a o quê?! Porque geralmente quando falam esse nome pomposo aí se referem aos grandes artistas da indústria cultural, e desses até hoje nós temos muito pouco apoio. Infelizmente são raros entre eles que se sensibilizam. A maioria só tá preocupada com a gozolândia mesmo.

Agora se por “classe artística” vocês se referem a músicos populares, rappers, poetas periféricos, trabalhadores da cultura, que é a classe artística que realmente nos interessa porque é igual a gente, faz parte do mesmo contexto: aí sim temos construído uma solidariedade cada vez amis forte e efetiva. É o caso, por exemplo, da Rede de Saraus Periféricos que existe hoje em São Paulo, originada com a Cooperifa há mais de 10 anos, e que hoje conta com dezenas de saraus que, via de regra, trincam com a gente e a gente também busca trincar com eles: Sarau da Ademar, da Adelpha, do Binho, da Brasa, da Casa, da Cooperifa mesmo, Elemento, Literarua, Marginaliaria, Mesquiteiros, da Ocupação da São João, Perifatividade, Praçarau, Recanto Cocaia, Suburbano Convicto, Vila Fundão, e tantos mais que trincam com a gente… É o caso de vários grupos de teatro e cultura, como a Trupe Olho da Rua, a Zagaia, a Cia. Kiwi, o Folias, a São Jorge, e tantas mais. Vários grupos de rap sempre somam também da maneira que podem, como o Versão Popular, Cientistas MC’s, NSN, Du Guetto, QI Alforria, Fantasmas Vermelhos, Família Ducorre, Yzalú, Anexo Verbal, Guerreiroz do Capão, D’GranStilo, DiQuintal, A Família, GOG, Dexter, a família Racionais MC’s e tantos mais. Bebemos da fonte dos mais velhos também, e figuras como Milton Sales e King Nino Brown são grandes referências pra nós.

Duas das coisas que mais nos emocionam são quando vemos esse intercâmbio se concretizando na forma de obras de arte, como a participação de vários poetas em nossos livros. Ou quando vemos essa corrente toda se transformando em música, como no rap “Jardim sem Flores”, do Anexo Verbal, e numa futura música surpresa da guerrêra Yzalú.

CHH: Como o movimento lida com a dura realidade dos jovens no tráfico? Existe alguma saída?
Movimento Mães de Maio: A gente sempre diz que não tem nada a ver com o tráfico, nossa caminhada de Familiares e Amigas de vítimas do Estado é na luta autônoma pela Memória e pela Verdade sobre a história de nossos meninos, por Justiça e Reparação relacionada à violência do Estado contra eles, e por uma sociedade verdadeiramente Livre. No fundo, a gente luta mesmo é pra VIVER EM PAZ! “Eu só quero é ser feliz…”. Viver tranquila e dignamente. A gente não passa a mão na cabeça de ninguém, e apontamos no cotidiano uma forma que acreditamos muito de se viver, que é buscar se organizar, estudar, se formar, e construir coletivamente espaços e formas autônomas de se viver – e de melhor resistir contra as opressões do sistema capitalista que nos massacra no dia-dia, de diversas formas.

O esquema está armado, há muito tempo, pra tratar as pessoas em duas categorias antagônicas de ser humano: antes eram os “homens livres” e os “escravos”, agora são os “cidadãos” e os “favelados”, como disse recentemente um comandante de UPP no Rio de Janeiro pra uma parcêra nossa da Rede Contra Violência: você quer se tratado como cidadão ou como favelado?”. E se o cara é nascido e criado na favela, ele é “suspeito” por natureza de classe e pela cor da pele, e o sistema está inteirinho armado pra engoli-lo em poucos anos.

Nossa cara é se organizar pra transformar coletivamente e pela raiz a sociedade como um todo, porque já vimos que se continuar cada um tentando correr por si só, pensando apenas no seu, as estruturas de dinheiro, poder e armas que as elites têm continuarão a nos massacrar. A gente precisava entender melhor quem está nos explorando e de fato nos oprimindo, e com quem a gente precisava se organizar, de igual pra igual, pra transformar a sociedade como um todo. Ou encontramos juntos este caminho certo, nós por nós; ou nossa juventude não terá qualquer futuro. Contra esta falta de horizonte é que o movimento Mães de Maio busca se levantar


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