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Cyberpunks, Cyberwar, 9/11, Assange, faceburka e outras cositas

junho 11th, 2012 by mariafro

Marco Aurelio diz que foi censurado no Face com este post, vamos repostar:

Cyberwar – ECHELON: Importante relatório do Parlamento Europeu sobre o ECHELON

10/09/2001 – 12:00 ( Brasília )
O Parlamento Europeu apresentou formalmente o Relatório final sobre o Programa ECHELON. Este Relatório foi adivulgado em 07 de setembro de 2001. Certamente os eventos do dia 11 deveriam dar um outro curso neste documento.

Está  em Português Lusitano o que não atrapalha a perfeita compreenção deste importante documento.

Documento com 1,2 MB e em linguagem PDF, link Defesa Net
quarta-feira, 6 de junho de 2012


Assange entrevista No. 8 – “Cypherpunks [1]” (Parte 1)

5/6/2012, Rússia Today TV, vídeo – 26’22”
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu
Assista também:

Mais sobre esse assunto em:

13/11/2011, redecastorphoto – “30 anos de hacking político” com Sabine Blanc e Ophelia Noor entrevistando Andy Muller-Maguhn.
Julian Assange: Está em curso uma furiosa guerra invisível. Todos os dias surgem novas tecnologias cada vez mais refinadas para recolher dados privados dos netcidadãos. E o que, hoje, significa(ria) a privacidade?
Cypherpunks é movimento que se originou da e-lista Cypherpunks’ Electronic Mailing List , criada por ativistas para melhorar as condições de privacidade e de segurança na internet, mediante o uso proativo da criptografia. É movimento ativo desde os anos 1980s. WikiLeaks é um dos muitos projetos que brotaram da lista Cypherpunks.
Aqui estão Andy Muller-Maguhn, membro do coletivo alemão de hackers Chaos Computer Club; Jeremie Zimmermann, um dos cofundadores do grupo francês La Quadrature du Net, que defende a livre circulação do conhecimento na internet; e Jacob Appelbaum [2], pesquisador independente de segurança de computadores, norte-americano, ativista que atualmente trabalha no projeto Tor, que visa a criar um sistema que assegure o anonimato online.
Quero perguntar a eles sobre o futuro da Internet.
PARTE 1
Julian Assange: Quero examinar um pouco três liberdades fundamentais. Quando entrevistei o chefe do Hezbollah, Hasan Nasrallah, perguntei a ele sobre…
Jacob Appelbaum: O que há aqui por cima?
Julian Assange: Ele também vive numa espécie de prisão domiciliar e não pode sair do lugar onde vive clandestino.
Jacob Appelbaum: Acho que não se pode comparar. Por favor, vamos comparar outras coisas…[risos]
Jeremie Zimmermann: Depois, você pode cortar essa parte, certo?
Julian Assange: Não, não não… Quero voltar a essas três liberdades fundamentais: a liberdade de comunicação, a liberdade de movimento e a liberdade de interação econômica. Se observamos a transição de nossa sociedade global para a Internet, quando fizemos essa transição: a liberdade de movimento pessoal manteve-se essencialmente inalterada, a liberdade de comunicação melhorou muito, em alguns sentidos, porque agora podemos nos comunicar com muito mais pessoas. Mas, por outro lado, piorou muito, porque já não há privacidade e nossas comunicações podem ser espionadas e são espionadas e armazenadas e, como resultado, podem ser utilizadas contra nós.
Andy Müller-Maguhn: A privacidade está disponível, mas custa dinheiro.
Julian Assange: Sim. É uma espécie de militarização dessas interações e de nossas interações econômicas, que sofreram precisamente as mesmas consequências.
Andy Müller-Maguhn: Julian, concordo com o que você diz, mas não tenho muita certeza de que se possa realmente demarcar alguma diferença entre o ponto 2 [a liberdade de movimento] e o ponto três [a liberdade de interação econômica], porque a Internet é agora uma infraestrutura presente em todos os aspectos de nossa vida: sociais, econômicos, culturais, políticos, enfim, em todos. Por isso, qualquer que seja a arquitetura da comunicação, o dinheiro é só uma parte, quero dizer: se trata simplesmente de usar a Internet.
Julian Assange: Andy,você estudou por muitos anos criptografía na comunicação telefônica, segurança da comunicação por telefone, a vigilância massiva que está aplicada nas telecomunicações. Qual é o estado da arte, hoje, no que se refere à inteligência do governo, à indústria da vigilância?
Andy Müller-Maguhn: Sim, armazenamento informativo massivo de dados significa guardar todas as telecomunicações que…
Julian Assange: Você diz todas as chamadas de voz e…
Andy Müller-Maguhn: É. Todas as chamadas de voz, todas as conexões por Internet. De fato, é preciso entender que, se se comparam o orçamento militar e o custo da vigilância; o custo dos cibersoldados e dos sistemas de armamento habituais… O armamento tradicional é imensamente mais caro, se comparados ao custo de cibersoldados. A vigilância massiva é muito mais barata, é super barata, se comparada ao custo de um avião militar, que custa…
Julian Assange:… centenas de milhões.
Jeremie Zimmermann: Sim, mas aqui há dois problemas. Também temos o exemplo do “Eagle”, o sistema da empresa francesa Amesys, que foi vendido à Líbia de Gaddafi; mas nos documentos de venda chamava-se “mecanismo de intercepção nacional”. É uma caixa grande. Você põe onde quiser e ouve todas as comunicações de todos. Podemos discutir tecnologia, estou muito interessado nisso…
Julian Assange: Há dez anos, pareceria fantasia. Pensava-se que só doidos poderiam acreditar que isso fosse possível. Mas o custo de construir esses instrumentos caiu tanto que até a Líbia, com relativamente poucos recursos, pôde comprá-lo: tecnologia francesa.
Jeremie Zimmermann: Exatamente. Hoje, é fato. A tecnologia torna possível a vigilância total de todas as comunicações. Logo, a outra cara da moeda é o que fazemos com isso. Poderíamos admitir que, para o que chamamos de objetivos tácticos, pode existir um uso realmente legítimo: os investigadores que caçam os “bandidos” [risos] e gangues de delinquentes pode precisar, supervisionadas pela autoridade judicial, do direito de usar esses instrumentos. Mas a questão é como estabelecer a supervisão judicial, como conseguir que os cidadãos controlem o uso dessas tecnologias. Aí já é uma questão política. E quando nos aproximamos desses temas políticos, como dissemos, vêm os políticos e logo escrevem e aprovam leis sem entender a tecnologia que seja usada.
Jacob Appelbaum: Por isso é que tanto se fala em ciberguerra: porque algumas pessoas que têm poder começam a falar de tecnologia como se entendessem do que falam. E essa gente só fala de ciberguerra. Nenhum deles, nem um único, fala de construir a ciberpaz. Nenhum deles fala de coisa alguma que tenha a ver com a construção da paz. Só falam de guerra, porque a guerra é o negócio deles. Por isso tratam logo de associar a tecnologia à guerra. O caso é que, se não controlamos a tecnologia, aquelas pessoas que só pensam em usá-la para seus objetivos, e sobretudo para a guerra, começam a andar na direção de coisas muito aterrorizantes.
Julian Assange: O que vejo é que está sendo feita a militarização do espaço cibernético, porque já temos intercepção através das fronteiras nacionais…
Jacob Appelbaum: Sistemas TARGET.
Julian Assange:… e há hackers militarizados que trabalham sem cessar para atacar várias partes da Internet e espionar várias seções da Internet.
Andy Müller-Maguhn: Será que posso discordar sobre usar a palavra “hackers” nesse contexto? Você está falando de soldados que usam computadores como recursos militares. Isso não é hacking, nem hackers. [risos]
Julian Assange: Bom, não vamos entrar na definição de “hacker”. O que importa é que são civis. Não há tanques entrando na casa das pessoas (essa sala talvez seja caso especial), mas a maioria das pessoas não vê tanques dentro da casa, nem microfones ocultos na sala ou em suas comunidades locais. Mas publicamos toda nossa vida pessoa em Facebook, nos comunicamos por Internet, por telefones celulares que são conectados à internet. E os militares controlam, ou as agências de inteligência controlam esses dados e os examinam. Houve, me parece, uma espécie de militarização da vida civil.
Andy Müller-Maguhn: Exatamente.
Jeremie Zimmermann: A pergunta é se se deve regulamentar a compra e a posse dessas tecnologias ou usá-las…
Julian Assange: Você está falando do equipamento de intercepção que se pode usar num país ou numa cidade ou…
Jeremie Zimmermann: Como as armas nucleares. Ninguém pode comprar e vender facilmente armas nucleares. Alguns países já enfrentam problemas só por que alguém teme que quererem construí-las. É uma tecnologia regulamentada e seu uso também está regulamentado. Acho que podemos discutir se temos de considerar essa tecnologia como uma tecnologia de guerra.
Jacob Appelbaum: É uma arma. Disso não há dúvida, em lugares como Síria ou Líbia. Usam os equipamentos de vigilância para perseguir pessoas na Líbia e perseguem pessoas também no Reino Unido, usando equipamento francês, que os franceses consideram arma de uso controlado. Venderam, sabendo o que estavam vendendo.
Andy Müller-Maguhn: E não os venderiam?
Jacob Appelbaum: E foram capturados por causa de seus próprios documentos internos, os arquivos secretos. [risos]
Julian Assange: Jeremie…
Jeremie Zimmermann: As autoridades do Estado e os civis. Esse realmente é um tema que questiona a própria estrutura de todas as democracias e seu funcionamento. Mas… Agora não é o momento adequado para lembrar que também existe vigilância privada e compilação e armazenamento massivos de informação privada?
(voz off) Vejam o Google.
Jeremie Zimmermann: Sim. Se você é usuário comum, a empresa Google sabe com quem você se comunica, quem você conhece, que tipo de coisas interessam você, provavelmente sabe sua orientação sexual, sua religião e filosofia, sabe mais de você que sua mãe e sabe muito mais, de você, que você mesmo. A empresa Google sabe quando você está e não está conectado.
Andy Müller-Maguhn: Você não sabe o que você estava procurando há dois anos, três dias e quatro horas. Você não sabe. Google sabe. [risos]
Jeremie Zimmermann: Eu não uso Google precisamente por essas razões. Mas quero dizer que não é só a vigilância patrocinada pelo Estado. É questão de privacidade, de como terceiros utilizam a informação e o conhecimento real das pessoas e do que fazem com esta informação.
Julian Assange: Jeremie, você também sabe tudo sobre o Facebook?
Jeremie Zimmermann: Também não uso Facebook e não sei grande coisa. Mas agora, graças à empresa Facebook é possível conhecer a atividade recente dos usuários que estão maravilhados porque podem compartilhar qualquer tipo de informação pessoal e, é claro que não têm ideia do que fazem, quando publicam fotos deles mesmos bêbados, por exemplo. Duvido que estejam conscientes do efeito de todo mundo, durante muito tempo, ter acesso e poder usar essa informação. A empresa Facebook fez seu negócio com um instrumento que apaga a linha entre a privacidade, a amizade e a publicidade e também armazena dados que você distribuiu, pensando só em alguns poucos amigos e pessoas queridas.
Julian Assange: Essa linha entre o Governo e as empresas comerciais está se apagando. Basta ver a expansão do setor de fornecedores privados que trabalham para os militares no ocidente, nos últimos dez anos. A Agência de Segurança Nacional dos EUA, a principal agência de espionagem do mundo, tinha dez principais empresas privadas que lhes vendiam bens e serviços. Agora tem… há dois anos, tinha mais de mil. A coisa está expandindo-se, apagando as fronteiras ente Governo e…
Jeremie Zimmermann: E nem se discute que as agências norte-americanas de espionagem têm acesso a toda a informação armazenada na empresa Google.
Julian Assange: Claro que têm.
Jeremie Zimmermann: E, também, a toda a informação armazenada na empresa Facebook. Claro que, de certo modo, as empresas Facebook e Google já são extensões do Estado.
Julian Assange: Elas estão processando você?
Jacob Appelbaum: O que sei é que…
Julian Assange: Ontem recebemos duas notificações.
Jacob Appelbaum: No nosso caso com a empresa Twitter… Infelizmente, não posso falar disso, porque a verdade é que não vivo num país livre.
Julian Assange: Usam também o conceito de informação restrita? Descobriu-se que é conceito inconstitucional, não foi?
Jacob Appelbaum: Não, completamente, não. É que… O caso da [empresa] Twitter veio a público, quando nos negaram
hospedagem, porque dissemos que divulgar essa informação para o Governo causaria dano irreparável e o Estado nunca mais esqueceria essa informação, se a recebessem. O Governo então disse: então, a hospedagem está negada. A empresa Twitter tem de revelar a informação. Estamos recorrendo contra eles, concretamente, sobre tornar sigilosa a informação. Não posso falar disso, porque o processo está em andamento.
Mas, no pé em que estão as coisas hoje, o tribunal descobriu que eles alegaram que, na internet, ninguém tem o direito de esperar ter privacidade, se voluntariamente revela informação a terceiros. (A propósito: na internet, todos são terceiros.) E dizem que a situação é a mesma, também no caso da privacidade bancária e números telefônicos. Você voluntariamente revela o seu número telefônico à empresa de serviços de telefonia, cada vez que você usa o telefone. E você sabe disso, não é? Então, ao usar o telefone, você obviamente declararia: “não espero que a minha privacidade seja preservada, se digito esses números sem qualquer proteção”.
Mas ninguém sabe como funciona a internet. Muito menos sabem como funcionam as redes telefônicas. Mas os tribunais têm decidido repetidas vezes que as coisas são assim. É loucura completa pensar que nós revelamos todos os nossos dados pessoais a essas empresas comerciais e, em seguida, as empresas repassam os nossos dados ao Estado. É como se a polícia secreta tivesse sido privatizada.
No caso da empresa Facebook, democratizamos a vigilância e, em vez de eles nos pagarem por isso, como fez a Stasi no seu país [para Andy Muller-Maguhn], nós é que pagamos a eles com um certo tipo de cultura. E agora estão todos presos nessa cultura. Eles denunciam os teus amigos, que esse ficou noivo, que aquele se divorciou, ah, agora já sei a quem devo telefonar, não é assim?
E aí está a diferença entre a política de privacidade e a privacidade por uma abordagem de design para criar sistemas de segurança. Quer dizer: quando se trata de perseguir gente, e você sabe que vive num país que explicitamente persegue gente, então… Se a empresa Facebook tivesse instalado seus servidores numa ditadura oficial… seria negligente, temerária e faria mau negócio.
Trata-se, de fato, de saber que essas empresas têm grande responsabilidade ética, que surge do fato de que constroem esses sistemas. Mas não têm nenhuma preocupação ética e só escolheram por critérios econômicos, principalmente para vender seus produtos a usuários. Portanto, aqui não se trata da tecnologia.
Não é questão de tecnologia: é questão econômica. E decidiram que é mais importante colaborar com o Estado e vender os dados dos usuários – e violar a privacidade dos usuários e ser parte de um sistema de controle e ser paga por ser parte da cultura de vigilância e controle – do que se opor ao sistema e à cultura da vigilância e controle. Então construíram o sistema que hoje exploram, e são parte dele e são cúmplices dele e são processáveis por isso.
Julian Assange: Quero falar sobre isso. Vejo uma diferença entre as perspectivas do movimento “Cipherpunk” dos EUA e do movimento europeu, e acho interessante. A 2ª Emenda da Constituição dos EUA trata do direito de portar armas. Há pouco tempo, num vídeo sobre o direito de possuir armas nos EUA, via-se, na entrada de uma loja que vende armas, uma placa em que se lia “Democracia carregada e engatilhada” [risos]. Assim se asseguram de que não vivem em  regime totalitário; todos estão armados. E, se acham que estejam sendo atacados, pegam as armas e retomam o controle, pela força. Se voltamos à questão de elaborar códigos criptografados, secretos, que o Estado não consiga decifrar, de fato foi uma espécie de munição na guerra dos anos 1990s para conseguir que a criptografia esteja acessível a todos, que nós, de fato, vencemos…
Jacob Appelbaum: No ocidente.
Julian Assange: Sim, no ocidente. É uma guerra que vencemos, em grande parte, em cada navegador, mas que agora, talvez, nem se menciona e que foi desencaminhada. É a ideia de que não podemos confiar em que o Governo implemente as políticas que prometeu. E que, por isso, temos de usar como uma espécie de arma as ferramentas ocultas, criptográficas, que controlamos, para que, se os ‘cripto’ [orig. os cyphers] são bons, o Governo não se possa intrometer em nossas mensagens, por mais que tente. O risco é que ponham microfones ocultos nas casas…
Jacob Appelbaum: A força da autoridade deriva da violência. Mas as pessoas têm de entender de criptografia. A violência não vai resolver o problema matemático.
Julian Assange: Exato.
Jacob Appelbaum: E isso é chave. Não significa que não possam torturar você ou por um microfone na sua casa, ou marcar a sua casa. Significa que, se encontram uma mensagem criptografada, não importa quanta força ou quanta autoridade tenham para fazer seja o que for, nunca poderão resolver um problema matemático nem pela força nem pela autoridade. As coisas são assim, mas isso é incompreensível para quem nada tenha a ver com a tecnologia. Por isso é preciso explicar tudo mais detidamente.
Se pudéssemos resolver todos os problemas matemáticos, a história seria outra e, claro, se qualquer um pudesse resolver os problemas matemáticos, o governo também poderia resolvê-los. A diferença está aí. Isso é o que muda tudo.
Julian Assange: Mas há fatos. Assim como se podem construir bombas atômicas, o fato de que se podem gerar problemas globais é real. E é real também que os estados  mais fortes poderão tentar resolver os problemas de forma direta. Acho que isso foi muito divulgado e ganhou grande popularidade entre os populistas fundamentalistas [orig.libertarians] da Califórnia e outros que acreditam nesse tipo de “democracia carregada e engatilhada”. E aqui temos um modo intelectualizado, inteligente, de fazê-lo, de um par de indivíduos que, com a criptografia, enfrentam o poder absoluto das superpotências mundiais, e continuamos fazendo, pelo menos um pouco.
Mas acho que o resultado possível de tudo isso é que… são forças econômicas e políticas realmente tremendas, como o Jeremie dizia, e a eficiência real de suas tecnologias, em comparação com os seres humanos, levará a que, pouco a pouco, acabemos numa sociedade que viverá sob vigilância totalitária. Com a palavra “totalitária” quero dizer “vigilância total”. Talvez as últimas pessoas livres que restarão serão as que saibam usar a criptografia, para lutar contra esse controle global. Não é essa a direção rumo à qual estamos andando?
Jeremie Zimmermann: Primeiro, se olhamos pela perspectiva do mercado, estou convencido de que há aí um campo de privacidade para o mercado, que ainda não foi explorado. É possível que haja, para as empresas, motivos econômicos para desenvolver ferramentas que darão aos usuários a possibilidade de controlar as próprias mensagens e a própria informação. Essa talvez seja uma das maneiras de resolver o problema, Não tenho muita certeza de que funcione sozinha, mas talvez aconteça, e nós ainda não sabemos.
Também é interessante que você fale do poder dos “hackers”, em certo sentido, e são os “hackers” no sentido primário da palavra, não no sentido de “criminosos”. “Hacker” como o entusiasta da tecnologia, alguém que gosta de saber como as coisas funcionam, para não virar escravo delas e para conseguir que funcionem melhor. Suponho que quando tinham cinco, sete anos, tinham uma chave de fenda e gostavam de abrir os aparelhos eletrônicos e ver como eram por dentro, não? Pois isso é ser “hacker”, e os “hackers” criaram a Internet por muitas razões, mas, também, porque era divertido, e a desenvolveram e nos deram, de presente, a todos. E, então, empresas como Google e Facebook viram a oportunidade, deram-se conta de que podiam montar um negócio só recolhendo informação pessoal dos usuários.
O que vemos hoje é que os “hackers” ainda têm em mãos uma forma de poder. E o que mais me interessa é que hoje vemos que os “hackers” vão ganhando mais influência, mais poder também nas arenas políticas.
Julian Assange: Quanto à radicalização política rebelde da juventude da Internet, sobretudo nos últimos dois anos, você tem viajado pelo mundo, falando com gente que quer ser anônima e ter a própria privacidade respeitada pelos Governos. Esse é um fenômeno que você, fatalmente, já observou em muitos países. É importante?
Jacob Appelbaum: Claro. Acho que é primordial. Estive em Túnis, depois da queda do governo de Ben Ali. Há um despertar, está acontecendo. Discordo do que você disse, que tenha acontecido nos últimos dois anos. Lamento ter de dizer isso no seu próprio programa [porque parece bajulação], mas você é parte do processo da radicalização da minha geração. Se eu estivesse metido nisso, eu seria a terceira geração dos “Criptopunks”.
O trabalho que você fez com Ralf, sobre o sistema de arquivos Rubberhose foi, em parte, o que me inspirou a trabalhar com criptoanálise. O sistema de arquivos cifrados que você escreveu foi a resposta às forças da pesquisa de regulamentação do Reino Unido, quando o Estado decidiu que uma regulamentação negativa seria uma solução contra a criptografia, você sabe, desde que conhecessem a senha de cada um.
No caso de Julian, quando vocês criaram aquilo, criaram porque os regimes opressores estavam torturando gente para obter as senhas e contrassenhas, e as pessoas eram obrigadas a entregar tudo, para não serem torturadas.
Quando vi o que vocês estavam fazendo, dei-me conta de que era possível usar a tecnologia para empoderar as pessoas, para que as pessoas pudessem mudar o mundo, dia a dia.
Portanto, o movimento dos Cypherpunks é muito mais antigo que dois anos. Você sabe disso, daquela lista antiga de e-mails, as mensagens de Tim May. E também as coisas que você [Assange] publicou, as publicações antigas…
Quero dizer… Começou ali uma geração de pessoas, cada vez mais radicais, porque se davam conta de que já não estavam isoladas, dissociadas, que valia a pena usar o tempo para escrever um programa que poderia dar alguns poderes a milhões de pessoas. Mas o uso dessas ferramentas tem algumas consequências não previstas. O pessoal que criou o Google não o criou com a intenção de criar a maior máquina de vigilância que jamais existiu, mas, afinal, criaram exatamente isso. E quando todos se deram conta, todos começaram a escrever à Agência de Segurança Nacional.
Jeremie Zimmermann: Há três coisas cruciais no que você disse [Applebaum: Só três? (risos)]… dentre outras [risos]. Uma coisa é o regime autoritário e o poder que tem na era das tecnologias digitais. O caso do regime de Ben Ali é obvio, e pode-se observar também em muitos outros regimes. O regime pode ditar a informação que as pessoas podem saber e com quem cada um pode comunicar-se. É um poder imenso e é preciso opor-se a esse poder. A Internet, a Internet gratuita, é ferramenta de resistência. E vocês são especialistas nisso, em criar ferramentas para uma melhor tecnologia, uma tecnologia que pode escapar de forças como a da censura, uma ferramenta que seja parte da infraestrutura que nos ajuda a derrubar ditaduras.
E outra coisa são as histórias que os políticos contam, a evidência de que, cada dia mais, usam os meios de comunicação como pretexto, como meios, literalmente, para comunicar suas histórias… “Seguinte: os terroristas vão matar todo mundo, e, portanto, precisamos do Patriot Act! A pornografia infantil está em todos os cantos! Os pedófilos nazistas [risos, risos] estão de olho em você pela internet, portanto, precisamos de censura…”
Jacob Appelbaum: Amaldiçoados pedófilos nazis [risos, risos].
Jeremie Zimmermann: Esqueça. Já reservamos o domínio pedonazi.com [risos, risos] E todos os artistas vão morrer, e o cinema vai morrer e teremos de dar a Hollywood o poder de censurar a Internet etc. etc.
Acredito que, mais uma vez, a internet é uma ferramenta e pode ser o antídoto para as fábulas que os políticos inventam. A narrativa dos políticos baseia-se no irracionalismo, em emoções e têm de ser instantâneas, sem que as pessoas tenham tempo de raciocinar. A informação aparece e desaparece no máximo em 24 horas e já é substituída por outra.
Com a internet, tenho a sensação de que estamos criando o que chamo de “o tempo internet”. Dado que a imensa internet nada esquece, nunca, dia após dia, ano após ano, por anos e anos, podemos construir dossiês. Isso, precisamente, é o que fizemos contra o ACTA, durante três anos. Usamos o tempo internet e traçamos nossa própria linha política, análise precisa, muito trabalho braçal, conectando as pessoas para que também participem.
Julian Assange: Nós ganhamos a narrativa, mas, por trás das cortinas, criaram-se tratados bilaterais secretos que têm o mesmo objetivo, por todos os meios. É destrutivo… [protestos gerais]
Jacob Appelbaum: Acho que temos que destacar que as pessoas que lutam contra o ACTA estão utilizando a tecnologia que lhes permite fazer oposição. Mas o importante nisso é o agenciamento das pessoas comuns, não a “bolha dos especialistas em tecnologia” [orig. technobubble] , as pessoas que realmente estão usando a tecnologia que lhes permite resistir e fazer oposição. O que importa é que as pessoas se envolvam na narrativa e a modifiquem, enquanto ainda podem. O mais importante de tudo é o fator humano.
Assim como é importante que WikiLeaks tenha publicados documentos que permitem fazer oposição e que todos tratem de compartilhar a informação. Mas são as pessoas que tomam essa informação que veem como importante e que a fazem andar adiante. Porque ainda há o argumento de que vivemos num regime democrático, que somos livres, que somos governados com nosso consentimento. As pessoas ainda não entenderam o que está acontecendo, ainda não descobriram que muita coisa se faz sem nosso consentimento. Quanto mais entendam isso, mais difícil será aprovar as tais leis pressupostas legais e fazer o que fazem sem o consentimento das pessoas que são governadas.
Jeremie Zimmermann: Trata-se de aumentar o custo político dessas decisões erradas, para os que tomam as decisões erradas. E isso nós podemos fazer, todos juntos, enquanto tivermos internet grátis.
Julian Assange: Calma. Esperem aí…
Jeremie Zimmermann: Espere, espere, acho que… Antes de você recomeçar com seus argumentos negativos, acho que…
[Fim da primeira parte. CONTINUA!]

Notas dos tradutores
[1] A melhor tradução talvez seja (?) “Criptopunks”. Aceitam-se sugestões e comentários.
[2] Sobre ele, ver O Homem Mais Perigoso do Ciberespaço, Rolling Stone Brasil, 7/12/2010.

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