Ruy de Deus comenta os ataques de Reinaldo Azevedo ao Prouni

Maria Frô
Por Maria Frô julho 19, 2012 22:27 Atualizado

Reinaldo Azevedo resolveu entrar na campanha municipal e para isso pretende destruir o legado do candidato Fernando Haddad no Ministério da Educação nos governos Lula e Dilma.

Escolheu como alvo de ataque o Prouni e no post Milagres da dupla Apedeuta-Haddad: 2,4 milhões de universitários quase alfabetizados e 255 mil quase analfabetos! Tudo com o seu dinheiro! descontextualiza os dados e os apresenta de maneira crua: a margem de erro dos índices de analfabetismo, por exemplo foi totalmente ignorada em seu texto-ataque.

Em seu panfleto tucano Reinaldo Azevedo  fez questão de esquecer o rombo deixado por FHC, tanto na carreira docente quanto na universidade como um todo.

Há diferentes estudos acadêmicos (nenhum deles citado por Reinaldo Azevedo) que analisam criticamente o ProUni, especialmente no que se refere ao controle de ofertas de vagas. No entanto colocar na conta do governo Lula/Dilma o rombo no ensino superior público e o modelo de expansão privado mercantil não dá, já que os créditos devem ser dados a FHC, especialmente por conta do Fundef que inflou o fundamental e sacrificou  a qualidade do médio e do superior. Isto Reinaldo Azevedo fez questão de esquecer. E esqueceu outros dados que o pesquisador Ruy de Deus,  no artigo abaixo, resolveu lembrar:

“Acidentalmente esquecido…”

Por Ruy de Deus

Foi com grande surpresa que me deparei com o artigo de Reinaldo Azevedo sobre o ProUni e a expansão do Ensino Superior no Brasil, pois considero fundamental que este debate seja travado em amplas esferas, especialmente quando fundamentado pelas mais diversas fontes – sejam elas progressistas, conservadoras ou (supostamente) neutras.

Deixando de lado meu natural interesse profissional pelo tema, trato como estritamente necessária uma ampla discussão sobre os rumos do sistema de ensino superior brasileiro como um todo, em especial no que tange sua(s) mais recente(s) política(s) de expansão.

Quase que em tempo integral, me dedico a discutir/estudar o modelo de expansão do ensino superior brasileiro que, em parte, é pautado em relações público-privadas que dada sua fragilidade fiscal e legal, permitem uma série de irregularidades inclusive beneficiando instituições que deveriam estar fechadas e/ou nunca deveriam ter sido abertas. Assim como Reinaldo tentou, por muitas vezes fui – diria que ainda sou – crítico ao frágil mecanismo de distribuição e controle de vagas que ainda permite às instituições “picaretas” de ensino superior oferecer vagas que muitas vezes não deveriam nem existir. Por outro lado, me deixou preocupado à análise feita pelo reconhecido colunista em relação ao Índice de Analfabetismo Funcional (Inaf) e ao estudo pautado neste índice como parâmetro de avaliação de uma política pública. Não sei se pelo calor do momento, ou se por pura falta de atenção, o autor esqueceu-se de dar destaque à parte dos dados apontados pelo relatório do Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa, inclusive esquecendo que estava se utilizando de um estudo com um propósito diferente do direcionamento dado pelo colunista.

Não sei bem o que aconteceu, mas Reinaldo se esqueceu de destacar dados e informações apresentadas no estudo, levando-me, de forma quase didática, a tentar recuperar informações necessárias para uma melhor compreensão do tema.

Partindo do pressuposto que foi um descuido do autor – eu não seria capaz de afirmar outra coisa – me chocou o fato de dados tão básicos terem sido negligenciados. Antes que me perguntem, não estou falando que o famoso colunista deveria desconfiar da impossibilidade técnica de comparação entre dados estimados de forma distinta, até por que ele não deve ter percebido que no referido estudo a metodologia da Teoria de Resposta ao Item (TRI) só foi adotada em 2006 e não desde 2001 e que para isto foi feita uma “adaptação” dos dados anteriores com o intuito de fazer, segundo o próprio texto, uma “melhor comparabilidade” em uma série histórica. E, partindo da suposta ideia de comparação dos dados, também não criticaria o experiente colunista por ele ter deixado passar despercebido o fato de o estudo ter uma margem de erro de 2.2 pontos percentuais (pra cima ou para baixo), o que colocaria os índices de 2% e 4% (destacados por ele) em condição de “igualdade” dentro da pesquisa – acredito que, no calor do momento, o colunista terminou por não perceber que era diferente dizer que os índices de analfabetismo dobraram, ao invés de dizer que eles se mantiveram constantes e próximos à zero. Certo?

Sinceramente, eu consigo perdoá-lo! É o tipo de desatenção que decorre de certo desconhecimento técnico, ok? Por conta disto, ainda partindo da suposta possibilidade de comparação dos dados entre 2001 e 2011, também consigo relevar ao fato do colunista ter se esquecido de mencionar que, no que se referem ao ensino superior, os “N – amostrais” distintos e tão pequenos (167 e 289 casos), quando comparados a um universo amostral de 18.303.883 pessoas (PNAD, 2009), se torna muito difícil estimar alguma coisa com significância representativa – o que, em estudos mais localizados e bem delineados, pode apresentar melhores resultados, especialmente quando não desviados do propósito inicial de análise. Somente desatenção/desconhecimento fariam o colunista esquecer que para um estudo especifico sobre o ensino superior seria preciso uma amostra representativa direcionada. Eu continuo tendendo a acreditar que foi desatenção e falta de experiência com este tipo de estudo, até porque, vindo de renomado colunista, eu não seria capaz de suspeitar de nenhuma outra razão para tal distorção, não é?

A minha decepção começa realmente quando deixamos um pouco de lado o “metodologês” e a provável desatenção/desconhecimento do autor quanto a isto que, repito, consigo perdoar. O que realmente me espanta são ausências de informações explicitadas no referido estudo. Como é possível que o experiente colunista não tenha se lembrado de destacar que a escala adotada, para o nível de alfabetização denominado “básico” pelo estudo, fala sobre pessoas que possam ser consideradas “funcionalmente alfabetizadas, pois já leem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo que seja necessário realizar pequenas inferências, leem números na casa dos milhões, resolvem problemas envolvendo uma sequência simples de operações e têm noção de proporcionalidade. Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações” e que, por conta da não lembrança, Reinaldo tenha trocado os níveis da escala, apontando que estudantes neste nível “não conseguem ler direito um texto e se expressar com clareza”, ou seja, em um estágio de alfabetização muito mais próximo ao nível de alfabetização denominado pelo estudo como “rudimentar” que aponta se tratar de um indivíduo que tenha “capacidade de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares (como, por exemplo, um anúncio ou pequena carta), ler e escrever números usuais e realizar operações simples, como manusear dinheiro para o pagamento de pequenas quantias ou fazer medidas de comprimento usando a fita métrica”. Na verdade, eu só comecei a ficar realmente triste ao perceber que a desatenção do colunista começou a interferir na sua capacidade de reproduzir na íntegra à pesquisa, ou seja, a esta altura eu deixei de lado a esperança de vê-lo fazendo críticas realmente contundentes ao ProUni – tal qual acredito que devam ser feitas, já que o Programa carece de aprimoramentos urgentes.

Eu sei que parece repetitivo, mas é que passei bom tempo me perguntando como ele pôde ter se esquecido de destacar os comentários feitos explicitamente no texto do estudo em questão? Eu aceitei o fato de que ele não sabia da metodologia por trás do artigo. Também aceitei o fato de que passaram despercebidos por ele coisas como a margem de erro e o tamanho da amostra… Mas, como ele pode ter se esquecido de destacar dados tão óbvios na pesquisa? Como ele pôde ter deixado de colocar que o estudo aponta para quedas nós níveis de analfabetismo pleno (pela metade – 12 pra 6%) e de alfabetização rudimentar (de 27 pra 21%)? Como ele pôde ter se esquecido de dizer que para jovens entre 15 e 24 anos, ou seja, faixa que inclui pessoas em idade “ideal” ao ensino superior (18 – 24 anos), o índice de analfabetos funcionais, independente do nível de formação, caiu pela metade?

Enfim, chegamos a um ponto em que não consigo mais contar com a ajuda do iluminado autor no combate aos problemas – seriíssimos, diga-se de passagem – do modelo de expansão do ensino superior adotado no Brasil, pois eu já não sei se posso mais confiar na capacidade de atenção dele. Na verdade, eu fico com pena. Cheguei a pensar que a popularidade do colunista pudesse servir como estopim da discussão efetiva do(s) modelo(s) de expansão do ensino superior brasileiro adotado(s) nos últimos 20 anos. O fato é que sua falta de atenção/memória me deixa claramente desconfiado desta possibilidade, até porque, pensem comigo, se alguém não consegue lembrar-se de dar destaque a trechos de um texto que acabou de ler, como podemos cobrar que ele lembre-se da educação superior brasileira na década de 90? Fica realmente complicado!

Depois disto tudo, eu assumo que fiquei receoso. Será este o futuro de todos os colunistas que tenham destaque nacional? Será que um dia outros também começarão a esquecer-se, e deixarão de ter a capacidade de dar destaque aos dados encontrados nos estudos? Minha preocupação enquanto pesquisador aflorou neste momento – talvez seja este um novo trauma adquirido.  Não sei, mas acho que justamente por temer um futuro pautado na memória de alguns colunistas, não tive coragem de clicar na matéria, indicada por ele, sobre a justíssima greve dos professores das Universidades Federais. Poderia então a desatenção do autor fazer com que ele se esqueça, mais uma vez, de passar informações importantes e, por conta de tal descuido, termine por deturpar, mais uma vez, os dados?

Definitivamente, já não posso confiar na capacidade de memória/atenção de alguns colunistas que tenho lido… Só espero que não seja um sintoma de algo contagioso.

*Ruy de Deus  é Doutorando em Educação na FEUSP,  mestre em Educação pela UFPE (PROUNI: Dimensão nacional e perfil dos estudantes em Pernambuco) e tem se dedicado na pesquisa do impacto das políticas de acesso ao ensino superior para estudantes de baixa renda brasileiros, analisando o impacto destas na vida dos estudantes contemplados.

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Maria Frô
Por Maria Frô julho 19, 2012 22:27 Atualizado
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2 Comentários

  1. Victor Farinelli julho 21, 01:47

    Os caras da Veja são assim porque não sabem debates, o lance deles é monólogo. Ontem vi um vídeo de um debate em Pernambuco entre o Fernando Morais e o tal de Leandro Narloch. Deu pena do garoto…

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