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A Entrevista de JB a Roberto D’Avila e as contradições entre discurso e prática, uma breve análise

março 23rd, 2014 by mariafro
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Curiosa esta entrevista de Joaquim Barbosa a Roberto D’Avila. O autorretrato que JB faz não condiz com sua prática. Curiosa também a escolha da personalidade política para estrear o programa de entrevistas da Globo.

O ministro afirma que preza a separação dos três poderes e está correto nisso, é gravíssimo quando Judiciário decide intervir no Congresso cassando um mandato, um risco imenso para a Democracia. Mas quando Joaquim Barbosa reduz a política ao moralismo, execra figuras públicas de trajetórias importantes, condena sem provas, amplia o discurso danoso para a conscientização política ele joga por terra seu próprio argumento.

Joaquim também critica o apedrejamento da vida pública, corretíssimo. Mas no início da conversa sobre o mensalão parece que Joaquim Barbosa fala de outra pessoa e não dele próprio, ele diz: foi um processo com uma “carga política intensa”, “turbinado pela mídia”. Usa exatamente essas expressões.  Mas, oh! Wait! quem foi o grande maestro do maior apedrejamento de figuras públicas durante o julgamento midiatizado da AP470? Quem foi que contribuiu para que os já despolizados repitam bordões como ‘político é tudo igual, são todos corruptos’? Quem se tornou o queridinho da mídia de uma hora para outra porque estava julgando petistas? 

Votei no PT a vida toda, me filiei justamente no julgamento da AP 470 num ato político contra o moralismo na política, reduzindo-a ao que há de mais despolitizador no debate público. Sob a batuta de Barbosa este discurso moralizador foi reverberado pela mídia conservadora que a honestidade é missão última do homem público. Honestidade é ponto de partida para figuras públicas que querem nos representar, ela é obrigação primeira, não é mérito, não é bandeira. 

Joaquim Barbosa fala do desgaste físico e mental dele próprio durante o julgamento da AP 470, sobre as longas horas gastas para convencer os demais sobre o que ele sabia mais que os demais.  E o desgaste, físico, mental, psicológico dos presos políticos que foram expostos à execração pública pelo relator que, inclusive, riu e fez piadas sobre os réus durante o julgamento? A completa ausência de qualquer respeito pelos réus talvez explique o descaso com que se deu a prisão daquele que sequer deveria ir preso, como Genoino.  

O ministro afirma que as penas aplicadas aos condenados na AP 470, vulgo “mensalão”, foram leves e convida os que criticam o rigor dele a examinar as penas aplicadas pelo STF aos cidadãos comuns. Barbosa também critica seus pares por dar habeas corpus para criminosos. Não há como não lembrar dos assassinos de irmã Dorothy, em Daniel Dantas, Roger Abdelmassih que foram soltos pelo STF…

Joaquim Barbosa não se vitimiza quando o foco é sua origem pobre. Ele afirma que as coisas foram acontecendo ‘naturalmente’ com ele: estudar na UNB, na Sorbonne, Columbia e outras universidades de prestígio. Reconhece que raros sãos os que tem esta oportunidade sejam pobres ou ricos e a aproveitam. Quanto ao racismo ele é direto: “racismo se sente sempre“.

A propósito ontem fiz um post sobre isso, afirmando que embora Joaquim Barbosa pertença à classe social mais privilegiada do país, não há como não ser alvo do racismo em país racista. E impressiona como gente ilustrada não consegue perceber o racismo de que ele é alvo. Na entrevista ele cita a ação contra Noblat.

O ministro cita Nabuco com propriedade e complementa: “Mente, é falta de honestidade intelectual dizer que o Brasil se livrou dessas marcas (da escravidão) elas estão presentes nas coisas mais comezinhas da nossa vida social. Basta você dar uma volta nos corredores do Supremo ou de qualquer outra repartição pública, você vai perceber a repartição de papéis (sociais) e o salário corresponde aos negros, os salários mais baixos”.

Barbosa chama a atenção para aquilo que todo racista de qualquer espectro ideológico nega, e por vezes faz uso até de Barbosa, (exemplo de uma completa exceção na realidade brasileira) como exemplo: “À medida que as profissões vão aumentando de importância, os negros vão rareando” e quando é citado como exemplo para anular a sua afirmação ele reforça: “sou exemplo único, uma exceção e jamais permiti que usasse a minha presença aqui como exculpatória para o racismo brasileiro.“ 

O único ministro negro na história do Supremo tem toda a razão, ele não deve nunca ser usado como desculpas para os que negam o racismo à brasileira. Mas não menciona que mesmo com seu currículo invejável, sua formação nas melhores universidades ele pôde quebrar o teto invisível do racismo também por uma escolha do presidente Lula que, ao meu ver, se mostrou o presidente mais sensível ao combate ao racismo no país.

Ao falar de Lula, Joaquim Barbosa diz que recusou várias vezes convites do presidente para acompanhá-lo em suas viagens à África. Segundo Barbosa isso não era comum no Supremo (talvez porque o Supremo antes do presidente Lula nunca viu o rosto de um negro como Ministro). Outro motivo alegado é por Barbosa para recusar os convites de Lula seria o de que o presidente o usava como estratégia de marketing para as lideranças africanas. Acho que Barbosa aqui faz alusões que não pode provar e desconhece o compromisso de Lula com o combate ao racismo.

A primeira lei sancionada por Lula assim que assumiu seu primeiro mandato foi a 10639/03, fruto de uma luta histórica que passou dez anos no Congresso. O governo Lula estabeleceu 10 políticas públicas voltadas pra educação da população negra e foi o governo que mais se aproximou do continente africano estabelecendo relações positivas entre estados africanos e o Brasil. O governo brasileiro montou fábrica de AZT em Moçambique, tem inúmeros projetos relacionados à saúde e a segurança alimentar em diferentes países do continente com apoio do Ministério da Saúde e Embrapa. 

Barbosa se contradiz quando confessa que ficou chateado a não ser convidado por Dilma pra ir ao enterro de Mandela. Por mais que tenha sido deselegante por parte da presidenta Dilma não formular o convite ao ministro, diante de tantas recusas que ele mesmo afirmou ter dado durante o governo Lula e após seu comportamento enviesado durante o julgamento da AP 470, creio eu que Barbosa deu justificativas para o comportamento da presidenta.

Ao final da entrevista, ele diz que se emocionou a ir a África. Não há de fato como não se emocionar. Lembro-me até hoje de como me senti ao desembarcar em Moçambique e ao partir do continente. Barbosa atribui um julgamento às motivações do presidente Lula ao convidá-lo diversas vezes para compor a comitiva nas viagens aos países africanos, reduzindo a marketing e não a possibilidade de o presidente, alvo de constantes preconceitos, saber verdadeiramente da importância que é para qualquer descendente negro pisar pela primeira vez no continente mãe. 

É curioso que Barbosa admire Getúlio e Napoleão como estadistas e embora saiba que ambos durante um período governaram em regime de exceção, expressa sua admiração a Napoleão e faz reservas a Getúlio e aos que o admiram por ser ditador! Algo como, o ditador francês é melhor que o “tupiniquim”.

Ao final da entrevista D’Avila volta ao tema do racismo e mais uma vez Joaquim Barbosa explicita didaticamente o racismo à brasileira. Diante de mais um exemplo citado por Barbosa, D’Avila tenta reduzir o problema do racismo no Brasil a uma questão econômica, esquecendo-se que Joaquim Barbosa ocupa hoje o topo da pirâmide social do país e nem por isso deixou de ser alvo do racismo. Na entrevista embora Barbosa pareça concordar com esta análise na edição feita, há cortes e seu pensamento fica incompleto, Barbosa não reduz o racismo a uma questão econômica.

D’Avila insiste ainda no debate racial, entendo um pouco a irritação de Barbosa ao falar do tema, ninguém ao entrevistar Gilmar Mendes questiona-o sobre os privilégios da branquitude por viver em um país racista. De todo modo, a resposta dele é bem interessante. Para ele sua presença no Supremo ajuda a desracializar o Brasil, ele cumpriria um papel pedagógico para mostrar que não é natural os papeis sociais exercidos por brancos e negros:

“Não acho que eu tenha vindo pra cá com essa missão de combate ao racismo. Eu sempre achei que a minha presença assim contribuiria para desracializar o Brasil, desracializar as relações para que as pessoas tivessem a sensação que não há papel predeterminado para A, B ou C. Eu espero que o dia que eu sair daqui os governos, os presidentes da Republica saibam escolher bem as pessoas que vem para cá e escolham os negros com naturalidade”

D’Avila pergunta se ele acha que entrou por uma cota no STF.  Barbosa nega e diz: “Dizer que eu entrei numa cota é uma manifestação racista, porque simplesmente as pessoas que fazem isso não olham meu currículo, aliás pouca gente olha o meu currículo. Não interessa, aliás só veem a cor da pele” E reforça o que disse antes sobre Lula e ao meu ver mais uma vez atribui a Lula um sentimento que não é de Lula e acaba atribuindo a ele um peso histórico de exclusão dos negros:

Espero que escolham homens e mulheres negras com naturalidade, não façam estardalhaço disso, não tentem levar a pessoa escolhida pra África para esconder uma realidade, a realidade triste  de que nós não temos representantes negros na nossa diplomacia, nos negócios. O Brasil não tem como se apresentar de maneira diferente porque não há representantes negros. Como é que pode um país com 50% de população negra não ter embaixadores negros para mandar para a África?

Ele está coberto de razão quando afirma a invisibilidade negra nas instituições de poder e nas posições socialmente valorizadas, mas novamente ele faz críticas duras a Lula e algo me chamou a atenção: a insistência de Barbosa em acusar Lula de querer usá-lo, de fazer “estardalhaço” sobre sua escolha.

Vejamos, é correto que Barbosa exija dos governantes que não usem as pessoas, não façam uso político do que é obrigação do Estado. Mas ele diz e aí ele retoma a acusação que fez anteriormente a Lula (de usá-lo para marketing) “não tentem levar a pessoa escolhida pra África para esconder uma realidade”. Ora, eu só fiquei sabendo que Lula havia convidado várias vezes Barbosa nesta entrevista e me julgo uma pessoa razoavelmente bem informada. Que estardalhaço Lula fez sobre isso? Quando Lula foi espalhafatoso e não agiu com naturalidade diante de ações que o presidente mesmo foi pioneiro no combate ao racismo? Não reconhecer os esforços do único presidente que começou a mexer nisso e ainda atribuir a ele segunda intenções acho bastante injusto.

De todo modo quando explicita o racismo à brasileira Barbosa mostra sua plena consciência racial, mas quando adentra o universo da política suas contradições entre discurso e prática se evidenciam. É inegável a formação sólida de Barbosa, mas ela não foi capaz de evitar nele, uma série de estereótipos sobre o país e o que acho mais danoso em seu discurso e postura: o reducionismo da política ao campo da moralidade. 

Vale a pena assisti-la. Vídeo aqui.

Acabo de ver que Flávio Furtado de Farias publicou a transcrição do primeiro bloco, aqui, o segundo aqui e o terceiro e último bloco, aqui

Joaquim Barbosa descarta candidatura nas eleições de 2014

Presidente do STF admitiu, no entanto, que pode disputar no futuro.
Barbosa foi entrevistado pelo jornalista Roberto D’Avila, da GloboNews.

Do G1, em São Paulo

23/03/2014

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa descartou que será candidato nas eleições de 2014, em entrevista ao jornalista Roberto D’Avila, que estreou na madrugada deste domingo (23) um programa semanal na GloboNews.

“Por enquanto, não”, disse o ministro ao entrevistador, acrescentando que deve ficar no Supremo até novembro deste ano.

“Recebo inúmeras manifestações de carinho, pedidos de cidadãos comuns para que me lance nessa briga, mas não me emocionei com essa ideia”, relatou Barbosa.

O ministro, no entanto, admitiu que pode lançar candidatura no futuro. “Eu disse recentemente em uma entrevista que não descartava a hipótese de me lançar na vida política, mas não para essas eleições de 2014”.

A entrevista de 48 minutos foi pontuada ainda pelos mais diversos temas, desde a infância em Paracatu (MG), o dia a dia da época em que morou na França, onde fez seu doutorado, até questões recentes como corrupção, eleições, racismo e mensalão.

A popularidade de Barbosa cresceu após sua atuação no julgamento do mensalão, no qual foi relator. O nome do ministro chegou a aparecer em algumas pesquisas de opinião para as eleições do ano que vem para presidente.

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O fotógrafo Davi Ribeiro sintetiza a Marcha com Deus (sic), Família e blablabla com uma única foto

março 22nd, 2014 by mariafro
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Foto Davi Ribeiro em seu Facebook

Atualização: AOS DESCEREBRADOS QUE DORMIRAM NA ÚLTIMA DÉCADA

Por: Conceição Oliveira

Vendo a foto fantástica clicada pelo Davi Ribeiro fico pensando, não há espírito democrático em mim que consiga respeitar estes babacas.

Neste post aqui relembrei um milímetro da trajetória de superação de minha mãe e hoje que o post voltou à tona, lembrei-me de como eu e Elisabeth Fernandes de Sousa encontramos forma de nos alimentar durante o período da universidade. Eu disse alimentar. Filhos de trabalhadores sem qualificação que ousaram dizer não à exclusão histórica que as políticas totalitárias da ditadura e do neoliberalismo nos impuseram. Dissemos não a elas e entramos na USP. 

Em 1984, inflação na casa dos 80%, meu pai dois anos desempregado e eu, mesmo dando aulas na Educação de Adultos da prefeitura de São Paulo, fiquei 3 meses sem receber salário. 

Se não fosse a Beth dividir o bandeijão da USP comigo eu teria uma refeição por dia.
Avalio o Brasil que temos hoje. Quando Lula assumiu a presidência disse: se eu garantir que todo brasileiro faça 3 refeições por dia ficarei feliz. Só quem já passou fome sabe o valor disso.

Comparo o Brasil de hoje com o Brasil da minha infância e juventude. Não há medida de comparação quando em uma década se tira 30 milhões da linha da miséria e pela primeira vez possibilita a esses trabalhadores a entrada no mercado de consumo. Não há comparação quando focamos as políticas públicas de inclusão feitas na última década voltadas especialmente para as mulheres, à população negra e para os jovens, especialmente na educação e saúde. Não há. Todas as críticas que se façam aos governos Lula e Dilma não podem negar esses ganhos.

Esses imbecis amestrados pela grande mídia não conhecem história, absolutamente nada da história do seu país. Não dá, de modo algum, para retroceder e negar os avanços que o Brasil passou na última década, nem com toda ginástica de má-fé que a grande mídia faz diariamente lavando o microcérebro desses descerebrados.

Vocês não são só ignorantes, vocês são desumanos, vocês negam a barbárie da ditadura militar, a morte, a prisão, a tortura e o exílio de trabalhadores e jovens que lutaram pela democracia, essa que permite que vocês dêem esse vexame histórico saindo às ruas para pedir golpe militar!

Vocês não têm nenhum deus no coração. Qualquer religião que se preze não despreza a solidariedade para os mais necessitados.

Vocês fazem parte do que temos de pior na classe média que queria ter nascido nos Estados Unidos, que lê Veja, Folha e assiste Globo e têm Sheherazade como ~jornalista~.

Vocês têm como ídolo homofóbicos do naipe do pulha do Bolsonaro.

Vocês são uma piada de mau gosto.

Deixem de ser imbecis, amor a pátria pressupõe amor a todos os que dela fazem parte: negros brancos, indígenas, héteros, homos, transgêneros, criança, idoso, dependente de crack, juventude negra.

Amor cristão não tem nada a ver com pactuar com a barbárie, negar o horror dos tempos sombrios dos porões da ditadura que dilacerou vidas e famílias inteiras que ainda sofrem sem poder enterrar seus mortos.

Vocês me dão um misto de pena e asco. Pena pela ignorância crassa, asco porque vocês com sua ignorância monstruosa apoiam o que há de mais cruel: um regime que nega a liberdade de pensamento. 

Agradeçam por ter uma presidenta que sabe o que é ser vítima de torturadores e sabe o valor caro da liberdade de pensamento. Agradeçam o republicanismo de Dilma Rousseff, suas figuras tristes.

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Adriano Diogo: 50 anos do golpe Lembranças de arrepios e lágrimas

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Adriano Diogo: 50 anos do golpe Lembranças de arrepios e lágrimas

março 22nd, 2014 by mariafro
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Azenha cobriu a Marcha de resistência aos golpistas em resposta aqueles que não aceitam o jogo democrático e querem reeditar o horror iniciado em 1964 e que atrasou o país durante décadas. Na Marcha anti-golpista, pedido por frente única de esquerda com movimentos populares.

Abaixo o texto do deputado Adriano Diogo, presidente da Comissão da Verdade em São Paulo. Quem sabe ao lê-lo esse bando de abestados veja um pouco de luz aos abestados que saíram hoje às ruas pedindo golpe militar.

Especial – 50 anos do golpe

Lembranças de arrepios e lágrimas

Por: Adriano Diogo, Carta Capital

20/03/2014

Presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, Adriano Diogo lembra como foi arrastado por homens à paisana, algemado sem roupa e torturado a caminho da prisão

No dia 30 de março de 1964, eu tinha acabado de fazer 15 anos. O rádio anunciava plantões dia e noite. Eu sabia que a situação era péssima. Depois do comício da Central do Brasil, que ouvi na íntegra a fala do presidente João Goulart, a perseguição começou de uma forma impressionante, amedrontando a todos. Eu morava na Mooca, um bairro de italianos e espanhóis operários. Todos os dias, atravessava as fábricas para chegar à escola. Estudava no Colégio Estadual Antônio Firmino de Proença, onde também participava do Grêmio estudantil. O diretor da Escola, o coronel Alfredo Gomes, não me via com bons olhos. E o professor de geografia, coronel Silvio Correia de Andrade, também chefe da Polícia Federal em São Paulo, não me suportava. Desde que participei da organização dos jogos Pan Americanos, em agosto de 1963, comecei a ser perseguido.

No dia do Golpe, na terça-feira 31 de Março, eu estava indo de ônibus para a escola quando o mesmo foi interceptado. Paramos na Avenida Presidente Wilson, a avenida das fábricas, da Arno, das grandes metalúrgicas. Descemos ali e continuei a pé por quase meia hora até o meu colégio, que ficava próximo ao Parque Dom Pedro. O que eu vi foi uma barbaridade, gente sendo presa aos montões. Eram cerca de seis horas da manhã. As pessoas começaram a ser presas na porta de seus trabalhos. Quando cheguei na escola, ela estava fechada. Então me juntei a outros colegas e fomos até o Sindicato dos Metalúrgicos, na Rua do Carmo, para ver como as coisas estavam. O sindicato havia sido tomado, tudo totalmente cercado. Foi aí que entendemos a gravidade do momento. No dia seguinte, já não pude mais entrar na escola. Eu havia sido suspenso por 15 dias e, depois, fui expulso, sem saber como explicar para a minha mãe. Ela não se conformava com a notícia. Para o meu pai era a maior vergonha de sua vida.

Meu pai tinha um pequeno restaurante próximo à Praça da República. No local, era comum a freqüência de diversas pessoas, mas aqui me lembro fortemente do pessoal de direita da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP). Nas proximidades havia também como polo da direita o conglomerado de jornais de Assis Chateaubriand. Na porta dos Diários dos Associados, havia a campanha “Ouro Para o Bem do Brasil”, na qual faziam uma espécie de pedágio, com as pessoas doando joias, alianças, anéis e brincos para o governo lutar contra o comunismo e pagar a dívida externa. Era esse o clima. Enquanto isso, quando fui transferido de escola, comecei a estudar à noite e trabalhar durante o dia. Mesmo assim, resolvi tirar um tempo e ir saber na outra escola o motivo da minha expulsão. Eu já sabia que dois professores, coronéis da polícia, não gostavam de mim. Minha participação nas atividades esportivas, tudo virou álibi contra mim. Minha ficha já estava suja e eu só tinha 15 anos.

Nas semanas subsequentes ao golpe, as pessoas continuaram sendo presas em casa sem formação de culpa. Eu não sabia como justificar para minha mãe e pai o motivo de eu ter sido expulso da escola e de ser considerado subversivo, já que nem eu sabia direito o significado dessa palavra. Tive que seguir e aprender sozinho o caminho das pedras. Nunca mais parei. Eu era apenas um jovem estudioso que gostava de política e me interessava pela independência do Brasil. Dentro do golpe, sofremos outro golpe, que foi o Ato Institucional nº 5 de 1968. Neste período, eu estava saindo do colegial e entrando na Universidade. Já estava com 19 anos e passei praticamente o tempo todo na Rua Maria Antônia. Eu organizava sessões de teatro e cinema e fazia cursinho pré-vestibular.

Os grupos que se encontravam na Maria Antonia decidiram apoiar a greve que estava sendo preparada em Osasco. Recordo-me que pelo menos mil estudantes foram para a preparação com antecedência de 15 dias. Nas casas, nas estações de trem, nas ruas, de bairro em bairro, fizemos ações distribuindo panfletos para conversar com a população, inclusive com as famílias dos operários. Muitas vezes tivemos que dormir no sindicato, pois passávamos horas conversando com os trabalhadores para entender o que era greve. Quando chegou o grande dia, ajudamos a organizar piquetes nas portas das fábricas. A greve, que ficou conhecida como Greve da Cobrasma, foi deflagrada no dia 16 de julho de 1968. Diversas fábricas aderiram e assumimos o papel de sair pela cidade por uma campanha de solidariedade nas ruas, pois houve enorme repressão aos trabalhadores em greve. Muitos ficaram presos e foram brutalmente torturados no Dops de São Paulo. Em 1969, consegui ingressar no curso de Geologia da USP. Eu não fazia ideia de que lá era o grande núcleo de resistência da dissidência do partido comunista, que depois virou a Ação Libertadora Nacional (ALN). Entre tantos amigos, lá estavam os companheiros Alexandre Vannucchi Leme e Ronaldo Mouth Queiroz. Com eles dividi grandes momentos nas atividades do curso de Geologia e no nosso inevitável envolvimento na luta contra a Ditadura instalada nesse país.

Acho que naquele momento não havia outra escolha. Na USP, assumi o papel de envolver pessoas nas atividades culturais que envolviam conscientização política. Andava pelos diversos centros acadêmicos, inclusive em outras faculdades, e fazia a pontes com nossos grandes grupos de teatro. Ajudei a organizar o Teatro Jornal. Na época, os jornais estavam sob censura e conseguíamos ter acesso ao que não era publicado e difundíamos nas peças teatrais as informações. Muitos companheiros estavam sendo presos e desaparecendo e a ditadura fazia isso, mas impedia que isso fosse sabido. Por isso, mesmo esse trabalho cultural de mobilizar pessoas para acompanhar as atividades era arriscado.

Aos poucos, muitas pessoas, inclusive próximas a mim, precisaram se esconder, vivendo clandestinamente, até que muitas delas foram presas. Minha hora estava chegando e eu sequer percebia isso, tamanho era nosso envolvimento nas atividades. Eu estava preparando a recepção dos calouros junto à organização do movimento estudantil da USP em 1973. Era algo grande, espetacular. Eu cheguei a ir para Diamantina em janeiro para fazer estágio de campo, fiquei o mês todo trabalhando. Voltei para São Paulo e para mim estava tudo tranquilo. Até que estranhos sinais na minha rua indicavam uma vigília na minha casa. Eu tinha acabado de me casar, fiquei com minha mulher pensando que deveríamos fugir, chegamos a fazer as malas, mas na verdade sequer tínhamos para onde ir. Neste dia, 17 de março, um sábado, eu estava tomando banho. Sai às pressas para atender a campainha que tocava insistentemente. Era hora do almoço. Ao abrir, policiais já vieram para cima com violência, fui arrastado por homens que estavam à paisana, enquanto outros saqueavam todo o apartamento, roubando tudo que tínhamos acabado de ganhar no casamento. Pegaram minha esposa, Arlete Lopes, nos jogaram no carro, fui algemado, sem roupa e apanhando já no caminho. Eram muitos homens que estavam nesse dia e, entre eles, estava o torturador Dirceu Gravina. Fomos levados para a Rua Tutóia, nº 921, onde funcionava o DOI-Codi de São Paulo. Quando cheguei ao pátio, o major Carlos Alberto Brilhante Ustra disse para mim: “Acabo de matar aquele filho da puta do ‘Minhoca’, o Alexandre Vannucchi Leme, mandei para a vanguarda popular celestial. Morreu naquela cela, ele estrebuchou.” Tirou um revólver da gaveta a disse: “Tá vendo isso aqui? Isso aqui é um Magnum. Vou te mandar para o mesmo lugar!” Em seguida, o major comandou pessoalmente minha tortura dando ordens aos policiais que estavam ali.

Alexandre Vannucchi havia acabado de morrer na pequena sala a qual eu fui levado. Vi pessoas lavando o local, puxando com um rodo o sangue do meu amigo e a partir dali era eu que estava sofrendo torturas. Enquanto me torturavam com choques ou no pau de arara, me perguntavam sobre os pontos, sobre a ALN, sobre as armas, sobre as ações, sobre um monte de nomes que eu nem conhecia. Me perguntaram sobre o Queiroz incisivamente, por conta da sua importante hierarquia na organização. Estavam atrás dele para matar como fizeram com o Alexandre. Foram 90 dias apanhando direto e depois jogado em uma solitária, sem a luz do dia e completamente nu. Dos nomes que perguntaram conhecia apenas o Queiroz e o Alexandre. Não sabia sobre armas e qualquer outra coisa, pois meu trabalho era no movimento estudantil. Recordo do ódio que Ustra ficou pela realização da missa de 7º dia do Alexandre. O major tirou todos nós das celas berrando contra Dom Paulo Evaristo Arns. “Aquela bicha louca”, gritava. Apanhamos ferozmente. Depois ainda fui levado para o Dops e vi o Edgar Aquino Duarte, desaparecido até hoje.

Mais de 40 anos depois, essas lembranças ainda causam arrepios e lágrimas silenciosas. Já vamos completar 50 anos do golpe e sigo lutando junto com outros companheiros na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” para que as gerações conheçam esse passado. Somente entendendo o que aconteceu poderemos promover a democracia com que sonhamos e queremos consolidar.

*Adriano Diogo é ex-preso político, foi militante da Ação Libertadora Nacional (ALN). Saiu da prisão em 1975 dedicando-se à carreira política, primeiro como vereador e atualmente como deputado estadual (PT) e presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” na Alesp. Seu texto faz parte de uma série de artigos que o site de CartaCapital publica sobre os 50 anos do golpe-civil militar de 1964
50 anos não é tanto tempo assimRetorno àqueles dias “mal-ditos”45 anos de um lento acender de luzes…
A ditadura vista da escola: uma memória

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Para #coxinhadejaleco a médica cubana deveria negar socorro à vitima, mas ela é MÉDICA e jurou salvar vidas

março 22nd, 2014 by mariafro
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Em novembro de 2013 discutimos neste blog como os #coxinhadejaleco ignoram por completo a ética médica e buscam a todo custo desqualificar o Mais Médicos mesmo que, sem estarem calcados nos fatos, exponham seus colegas. Foi o caso do médico cubano Isoel que participa do programa Mais Médicos em Feira de Santana (BA).

Ele foi acusado por seus pares, exposto, humilhado publicamente. Foi afastado para averiguação e depois se provou que ele não havia cometido erro e que havia orientado a mãe da criança corretamente: Médico cubano não receitou dose excessiva e volta a trabalhar segunda, diz prefeitura de Feira de Santana.

A mãe da criança, inclusive acusou as médicas do posto de agirem de má-fé: “Meu filho melhorou logo graças ao médico. Queremos o médico de volta, passamos mais de 2 meses sem médico e agora inventam coisa para tirar o médico daqui”.

Com o restabelecimento da verdade, a manifestação da mãe da criança e a mobilização da população atendida pelo posto integralmente ao lado do médico, porque bastou um médico comprometido com a saúde pública agir em benefício da população pra ela avaliar a diferença entre médicos verdadeiros, estrangeiros ou não, e os #coxinhasdejaleco só comprometidos com o seu corporativismo.

Isoel voltou a atender e a população continua satisfeita.

O caso recente da médica cubana,  Aliúska Alarcon, em Santa Catarina, que atendeu piloto em arrancadão lembra muito este caso.

O CREMESC denuncia a médica, mas a secretária de saúde a inocenta.

Secretária diz que médica cubana não trabalhou em arrancadão

Matéria do G1 SC  informou que a Secretaria de Saúde de Balneário Arroio do Silva divulgou nota em defesa da médica cubana do ‘Mais Médicos’ suspeita de ter trabalhado em uma empresa privada durante a 24ª Arrancada Internacional de Caminhões. Segundo a Secretária, a profissional não foi contratada por empresa privada e só estava prestigiando o evento.

Leia a íntegra:

A Secretaria de Saúde de Balneário Arroio do Silva, Sul catarinense, divulgou nota em defesa da médica cubana do programa ‘Mais Médicos’ suspeita de ter trabalhado em uma empresa privada durante a 24ª Arrancada Internacional de Caminhões. O evento ocorreu no último final de semana e terminou com a morte de um piloto, na tarde de domingo (16).

Edson Beber, de 46 anos, morreu durante a competição ao capotar, logo após cruzar a linha de chegada da prova, que ocorria em uma praia do município. Médicos da região denunciaram à delegacia de Araranguá do Conselho Regional de Medicina (Cremesc) terça-feira (18) à noite, que a profissional do Programa Mais Médicos teria auxiliado no socorro à vitima pois estaria trabalhando para uma empresa privada, o que é proibido por contrato do programa do Governo Federal.

A médica clínica geral atua na Unidade Básica Paulo Lupinn, desde 6 de dezembro de 2013, pelo Programa Mais Médicos Para o Brasil. Em nota, a Secretária de Saúde Patricia Paladini, afirmou que Aliuska Guerra Alarcon não foi contratada “por nenhum órgão privado”. Segundo o texto encaminhado à imprensa, a médica era expectadora do evento e teria ido prestigiar a competição na sexta-feira (14) e domingo (16).

De acordo com a informação do órgão municipal, a profissional estrangeira informou que a roupa da empresa contratada foi “utilizada somente no sábado (15) quando visitou e observou o trabalho dos profissionais de saúde que atuavam na pista”. Conforme a informação da secretária, ela teria retirado o uniforme após a dona da equipe responsável pelo atendimento médico informar que ele era exclusivo dos funcionários da empresa.

Patricia Paladini destacou ainda que a profissional foi autorizada a acompanhar os trabalhos da equipe médica e também visitou diferentes espaços do evento, pois teve acesso liberado pela Comissão Organizadora.

“No momento do acidente, a doutora Aliuska estava próxima do local e acabou ajudando a socorrer a vítima, sendo dito por ela mesma, após as denúncias, que diante da situação ‘não poderia omitir socorro e que jamais pensaria que poderia ser prejudicada por ter sido humana’”, destaca a nota que é finalizada com elogios à atuação e atenção aos pacientes da médica.

Abaixo a versão da médica que o Globo não fez questão de ouvir.  Aguardemos as investigações do Ministério da Saúde. Mas fique a questão: quando os #coxinhasdejaleco vão reconhecer que este jogo baixo só piora a própria imagem dos médicos brasileiros? Quando reconhecerão o que o mundo todo reconhece, a excelência da medicina de atenção básica e saúde da família feita pelos médicos cubanos?

“Eu sou médica e jurei salvar vidas”, diz médica cubana que atendeu piloto morto em arracandão no Sul de SC

Médica disse que estava em evento para conhecer e acabou participando do socorro à vítima. Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS

Diário de Santa Catarina

Em Balneário Arroio do Silva, no Litoral Sul do Estado, o clima é de tensão. Moradores da cidade com pouco mais de 10 mil habitantes estão apreensivos quanto ao futuro profissional da médica cubana Aliúska Guerra Alarcon, 34 anos. No domingo, ela fez o atendimento ao piloto de caminhões Edson Beber durante a XXIV Arrancada Internacional de Caminhões. Segundo Aliúska, ela não estava a trabalho, conforme denúncia de 12 médicos ao Conselho Regional de Medicina (Cremesc), mas tentou sim prestar socorro à vitima que morreu no local. Como profissional do Mais Médicos, ela não poderia trabalhar fora do posto de saúde. A ação de Aliúska também está sendo investigada pelo Ministério da Saúde.

Na pastelaria, no posto de saúde e por todos os locais o comentário geral é sobre o fato. Moradores não querem perder a médica. Se mostram satisfeitos com o trabalho que realiza no posto de saúde. Estão solidários a ela em relação às acusações.

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