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Denúncia: Paulo Fonteles Filho: Se algo me ocorrer – ou à minha família e companheiros – a responsabilidade deve imputada aos antigos agentes da repressão política cortadores de cabeças no Araguaia, os dirigentes obscuros da ABIN no Pará

novembro 23rd, 2013 by mariafro
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Nesta grave denúncia, Paulo Fonteles Filho mostra que os aparatos da ditadura não foram desmantelados nos governos democráticos. 

As ameaças e a ABIN no Pará

Por Paulo Fonteles Filho em seu blog

22/11/2013

Nesta noite de 21 de Novembro, em torno das 21: 40 horas, fui seguido por um Fiat Palio preto no bairro da Cremação, em Belém.

Desde 2010 temos denunciado tais acontecimentos de pressões e intimidações, seja no Grupo de Trabalho Araguaia do Governo Federal, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), na Polícia Federal, no Ministério Público Federal, na Comissão Nacional da Verdade (CNV) e na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, onde, aliás, fizemos para a própria Ministra Maria do Rosário um extenso relato sobre tais eventos em 11 de Maio de 2011.

Eu e Sezostrys Alves da Costa, principal dirigente da Associação dos Torturados na Guerrilha do Araguaia (ATGA), estivemos acompanhados pelo Presidente Nacional do Partido Comunista do Brasil, Renato Rabelo e pelo ex-Deputado Constituinte Aldo Arantes, também do Comitê Central do PC do B.

Naqueles dias minha morte fora anunciada em rede social depois de um longo depoimento em Processo Administrativo Disciplinar (PAD) da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), onde reafirmei a denuncia de que Magno José Borges e Armando Souza Dias – antigos agentes da repressão política com atuação no terrível DOI-CODI durante o processo da Guerrilha do Araguaia – estavam por trás do recolhimento de ossadas, em 2002, provavelmente de desaparecidos políticos, nas obras de requalificação do Forte do Castelo, centro histórico de Belém do Pará.

Quem recolheu tais ossadas fora o policial militar do DF, Walter Dias de Jesus, que retornou à Brasília depois de cumprida a tarefa de se passar por funcionário da Secretaria de Cultura do Pará (Secult), usando o codinome ‘Léo’, segundo a memória do então Presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil daqueles tempos, Moacir Martins.

As cópias dos documentos internos produzidos sobre este fato – testemunhado pelo ex-chefe da Abin Pará, Gladston Gonçalves Vilela de Andrade às fls 2.222 do processo n° 011.80000.565/2004 – vêm sendo pedidas ao GSI-PR e ABIN desde maio de 2011 por meio do processo n° 011.80000.508/2011  (revisão do processo n°565/2004), mas, tragicamente o incêndio ocorrido em 26 de Agosto de 2012 no prédio do Ministério da Fazenda, em Belém do Pará, deve ter destruído todos os documentos e eventuais despojos guardados ilegalmente nas instalações da ABIN Pará, que localizava-se no 13° andar do referido edifício.

Um estranho incêndio, iniciado às onze horas da noite de um domingo revelam que sempre haveremos de ter pulgas atrás das orelhas, como ensina o ditado popular. Na época, o Deputado Estadual Edmilson Rodrigues (PSOL) fez a grita na Assembléia Legislativa do Pará (ALEPA), mas já era tarde demais na medida em que a chefia da operação de limpar quaisquer indicações de incêndio criminoso ficou a cargo de Antônio Cláudio Farias, ex-agente do SNI e então chefe de inteligência da Secretaria de Segurança Pública (SEGUP) no governo tucano de Simão Jatene.

Por coincidência a Comissão Nacional da Verdade havia marcado audiência pública para três dias depois, 29 de Agosto, com as presenças de Paulo Sérgio Pinheiro e Claudio Fonteles, evento organizado pelo Comitê Paraense pela Verdade, Memória e Justiça, Fundação Mauricio Grabois, OAB, Levante Popular da Juventude, UNE e Universidade da Amazônia (UNAMA).

Um pouco mais de um mês depois, em junho de 2011, um ex-mateiro recrutado pelas Forças Armadas, Raimundo ‘Cacaúba’, fora assassinado na Serra Pelada depois de colaborar com o Grupo Federal destacado para localizar os heróis do Araguaia. Estranhamente, dias antes do assassinato soubemos que o Major Curió esteve naquela região, que na década de 1980 se constituiu no maior garimpo a céu aberto do mundo, em reunião com aqueles que até hoje lhes são fiéis.

Mais do que nunca, depois de aprovada a Comissão da Verdade do Pará, é preciso que a sociedade paraense saiba que na atual Casa das Onze Janelas – hoje espaço sofisticado – funcionou a V Companhia de Guardas do Exército, local de torturas e toda sorte de violações aos Direitos Humanos – inclusive assassinatos – dos presos políticos na década de 1970.

Não é a primeira vez que isso acontece no curso destes últimos três anos, já deixaram até uma vela no quintal da casa de Sezostrys, em São Domingos do Araguaia, local onde estava hospedado, em Setembro de 2011. Para quem conhece a cultura da violência sabe o que isso representa no Sul do Pará.

Ocorre é que nada têm sido feito para desmontar tal ação, clandestina e criminosa, que ocorre por dentro do estado brasileiro e que são como verdadeiros núcleos fossilizados de vigilância e intimidação pagos a soldo do dinheiro público, sempre através de verbas sigilosas que só eles controlam: coisa dos tempos da guerra-fria, ante-sala da corrupção.

Infelizmente as autoridades brasileiras há muito sabem destas e de outras histórias bem mais cabeludas e a ação institucional não passa de mera profissão de fé e nenhuma medida concreta de enfrentamento é realizada, ao contrário, cada vez mais me convenço que essa gente se assemelha às cláusulas pétreas, dispositivos que no mundo do direito revelam irremovibilidade e permanência.

Não tenho dúvidas de que a visão de inimigo interno ainda está bastante em voga na cabeça de parcela significativa da arapongagem brasileira até porque muitos dos que atuaram no antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) continuam na ativa: é um engano achar que aqueles que promoveram desaparecimentos forçados estão de pijamas, como velhos decrépitos dentro de suas confortáveis casas.

Muitos membros da antiga comunidade de informações são bastante ativos e sempre atuaram, na fronteira da ocupação humana na Amazônia ao lado do latifúndio e das grandes mineradoras, principais beneficiários das riquezas geradas no Pará nos últimos 40 anos. É por isso que metade do povo paraense vive abaixo da linha da pobreza e a miséria campeia nos sertões e nas periferias destas nossas cidades.

Os inquéritos, como exemplo, que apuraram as mortes de meu pai, Paulo Fonteles, advogado de posseiros no Araguaia e do Deputado João Batista – que em poucos dias estará completando 25 anos de assassinado -, tiveram como figura central o bandidesco James Sylvio de Vita Lopes, ligado à Operação Bandeirante (OBAN) nos anos 70 e ao SNI nos anos 80. Dias antes de meu pai ser morto, Vita Lopes jantou com ex-Senador Romeu Tuma, então Delegado-mor da Polícia Federal, no Hilton Hotel, centro de Belém.

Será acaso? Creio que não.

Aqui, em terras nortistas, a covardia do poder econômico das grandes empresas, nacionais e estrangeiras, sempre contou com o apoio intelectual e logístico das forças de segurança do estado através de figuras que, ao formarem milícias da jagunços, foram se tornando campeões da violência, sempre com a anuência do judiciário em suas togas da mais vil impunidade. Os recentes casos do ‘Dezinho’ e dos ambientalistas de Nova Ipixuna comprovam tal afirmação.

Não é à toa que o Pará continua ostentando, por muitos anos seguidos, os pérfidos títulos brasileiros do trabalho-escravo e da pistolagem. Há cinco anos São Félix do Xingú é o município que mais desmata no país, tendo consumido – quase sempre para a exportação, que configura hediondo crime contra a soberania e as riquezas nacionais – mais de um milhão e meio de quilômetros quadrados de floresta no mesmo período, segundo dados do próprio Ministério do Meio Ambiente.

Na atualidade a alça de mira dessa gente, paga com o dinheiro de todos nós, também está direcionada, no Pará, aos movimentos sociais, em particular o MST e aos indígenas, alvos permanentes de vigilâncias e preocupações, como se a luta social camponesa e de nossos primeiros habitantes, historicamente avançadas, fossem uma ameaça à democracia.

Verdadeira ameaça é a presença de Daniel Dantas e de seus milhares de hectares de terras na Amazônia, contraídas durante o entreguismo – este sim, o maior caso de corrupção em todos os tempos no Brasil – dos dois governos de FHC, o príncipe das privatizações.

Ao invés do Zé Dirceu e do Genoíno, quem deveria estar preso mesmo era os emplumados tucanos e os felpudos direitopatas da grande mídia brasileira.

No curso de mais de quarenta anos de vida, tendo nascido nas prisões políticas, depois de ver meu pai assassinado – figura brilhante e inconteste lutador do povo – , assim como diversos outros queridos amigos como o ‘Gringo’, João Canuto, João Batista e Expedito Ribeiro de Souza, aprendi que não podemos vacilar ou dobrar o espinhaço aos violentos.

A arma que dispomos é a voz e a confiança na consciência social avançada, capaz de transformar as velhas estruturas sempre no sentido de mudanças profundas, de dimensão democrática.

Mais do que nunca é preciso superar a covardia política e enfrentar aqueles que, por dentro do estado brasileiro, atuam tal qual meliantes sempre no sentido de fazer a valer o esquecimento e as brutalidades cometidas durante o período civil-militar, hiato mais tenebroso da vida nacional no período republicano.

Se algo me ocorrer – ou à minha família e companheiros – a responsabilidade deve ser imputada aos antigos agentes da repressão política, cortadores de cabeças no Araguaia, Magno José Borges e Armando Souza Dias, dirigentes obscuros da ABIN no Pará.

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Para elite econômica brasileira o SUS não é direito, é castigo: Chiquinho Scarpa manda Genoino se tratar no SUS

novembro 22nd, 2013 by mariafro
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FONTE: FACEBOOK DO CONDE

É sempre assim, Lula adoece e além de desejar a morte dele um certo grupo reacionário nas redes sociais e nos comentários dos grandes portais manda Lula tratar seu câncer no SUS.  Como se a burguesia quando seus planos caríssimos de saúde e inteiramente deduzidos no imposto de renda nega pagar procedimentos caríssimos, ela não desse o famoso jeitinho de conversar com um médico amigo e ser tratada pelo SUS no Einstein ou no Sírio ou na Beneficência ou no Santa Catarina.

Embora essa turma ache que seus preconceitos livrem-na de doenças como câncer e de que todos somos otários e não percebemos o preconceito de classe por trás de sua fúria justiceira. Aliás chega a ser comovente como a turma do ‘bandido bom é bandido morto’ de repente passou a se preocupar com os direitos humanos dos presos que não são políticos petistas. De repente esta turma ficou craque em apontar as péssimas condições carcerárias de presídios cada vez mais privatizados para sustentar campanha de um certo partido. 

Mas voltemos ao SUS, a direita e seus tucanos amestrados na mídia e no Show Business acham que SUS não é direito conquistado, é castigo. Foi esta ideia a de Luana Piovanni que se achou no direito de mandar o ex-presidente petista tratar-se no SUS: Luana Piovani tive meu bebê pelo SUS e recomendo. José de Alencar que era político, e não tinha curso superior como Lula também passou 13 anos em tratamento de um câncer e ninguém o mandou se tratar no SUS, por que será?

Isso explica em parte o porquê dos #coxinhasdejaleco agirem como vêm agindo. Eles precisam da renda proveniente do Estado Brasileiro, mas trabalhar em postos de saúde, UPAS, para os mesmos é degradante, coisa de pobre, resultado de uma sociedade de consumo que invade inclusive as escolas de medicina que abandonam a formação humanista e fornecem ao mercado de trabalho jovens médicos carregados de preconceitos.  

Seus defensores, como o leitor Gabriel neste post aqui não fazem questão alguma de disfarçar o ódio que sentem dos pobres e de políticos que promovem políticas públicas para todos (incluindo os pobres).  Ao ler a notícia de que a mãe da criança atendida por um médico cubano, acusado de prescrever dosagem errada de remédio, (acusação falsa) defendeu o  profissional, Gabriel disparou: 

Sinceramente a população é estúpida demais para saber que o programa Mais Médicos é uma farsa. A população é estúpida demais para saber que os “médicos” cubanos( sim, existem vários inquéritos provando que muitos deles nem médicos são) não têm qualificação para estar aqui. A população é burra demais para perceber que a Dilma está tirando os médicos brasileiros para colocar uma mão de obra completamente desqualificada e barata para tratar o povão e ainda ver o povo aplaudir ela por isso. A população não sabe que muitos médicos que trabalham no interior estão sendo demitidos para colocar os cubanos no seu lugar. A população é burra suficiente para dizer que qualquer prova que seja contra o Mais médicos foi forjada ,e vive no seu mundinho não querendo aceitar que está sendo enganada pela presidAnta que temos. VocÊs que acreditam num programa desses…sim vocês são os estúpidos e burros.

Esse preconceito de classe que associa a coisa pública a algo ruim, de má qualidade tem causas: políticos neoliberais que liquidaram o Estado e privatizaram serviços públicos essenciais; espírito opositor e irresponsável do Congresso que tirou 40 bilhões da Saúde Pública numa canetada; mídia bandida que defende interesses rentistas e noite e dia incute na mente dos Gabrieis que tudo que é público, administrado pelo Estado é ruim, mal feito, corrupto.

Para a direita produzir a descrença na política,  passando rolo compressor em todos os governos como se todos fossem iguais é essencial para que 11 famílias que dominam a comunicação no país, concentrem poder econômico e mantenham o status quo daqueles que sempre dominaram.

O PT há 10 anos no poder vem tentando restabelecer minimamente o Estado desmantelado por governos neoliberais e rendidos ao capital internacional, mas vive cedendo ao espírito neoliberal em suas concessões. De todo modo, resolveu enfrentar ao menos um debate público e venceu: Programa Mais Médicos. Não é a toa que o  programa é atacado diuturnamente pelo que há de mais reacionário no país.

Destruindo a confiança na população nos serviços públicos essenciais como o SUS, sujeitos como Chiquinho Scarpa podem continuar tendo seu plano de saúde caro financiado por nós, sim, porque se ele deduz tudo que gasta com seu plano no imposto de renda (isso se Chiquinho Scarpa não sonegar impostos). Nós bancamos a saúde dele nos Sírios Libaneses e o governo deixa de investir este dinheiro para melhorar o atendimento no SUS, que seres como Chiquinho acham que é castigo e que serve apenas para pobre, preto, puta, presidiário e petista e olhe lá/ alguns deles acham mesmo que Genoino, por exemplo, deveria morrer na prisão ilegal sem socorro médico. 

 Leia também:

Médico cubano não receitou dose excessiva e volta a trabalhar segunda, diz prefeitura de Feira de Santana

“Meu filho melhorou logo graças ao médico. Queremos o médico de volta, passamos mais de 2 meses sem médico e agora inventam coisa para tirar o médico daqui”

Janio de Freitas: CNJ, presidido por Joaquim Barbosa, que investe contra juízes que erram, fará o mesmo contra JB? Afinal, dizem que o Brasil mudou e acabou a impunidade. Ou, no caso, não seria impunidade?

Finalmente, Sr. Joaquim Barbosa! Resista, Genoino, resista para viver e ver sua honra restabelecida.

Miruna Genoino denuncia: STF nega socorro a Genoino

MANIFESTO DE REPÚDIO ÀS PRISÕES ILEGAIS

Miruna Genoíno: “meu pai dedicou sua vida à política, esperamos que a política não tire a vida dele”

“Num país onde Paulo Maluf e Brilhante Ustra estão soltos, enquanto Dirceu e Genoino dormem na cadeia, até um cego percebe que as coisas estão fora de lugar”

Nem os ministros do STF endossam a decisão de Barbosa que produziu presos políticos em plena Democracia

Felipe Demier: “As duas prisões de José Dirceu”

Coletivo Graúna presta solidariedade a Dirceu Jenoíno, Delúbio e João Paulo

Carlos Melo: Genoíno fazia parte de um Brasil mais generoso e hoje é alvejado por um outro país, que, paradoxalmente, ele próprio ajudou a construir: melhor em vários aspectos, mas também piorado, sobretudo, no plano da convivência política

Nem depois de morto e absolvido a Folha respeita a memória de Gushiken

AOS QUE SE FORAM DEVIDO A MINHA DEFESA IRRESTRITA A GENOINO

O dia que o jornalismo emporcalhou a história: UOL e “a capa de Genoino”

Genoino resiste!

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Juliana Bueno baixa o aplicativo Lulu e faz sua avaliação: Por que estamos usando isso?

novembro 22nd, 2013 by mariafro
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Excelente o texto de Juliana Moura Bueno analisando o novo aplicativo Lulu que assim que foi lançado já se tornou polêmica nas redes sociais.

Curioso o fato de a empresa lançar primeiro um aplicativo voltado ao consumo das mulheres, até nisso a estratégia de mercado que transforma inclusive as relações pessoais em mercadoria visa antecipar as críticas feministas. Mas não se enganem, a versão Bolinha já deve ter sido feita, inclusive antes da versão Luluzinha.

“Lulu”: Por que estamos usando isso?

Por: Juliana Moura Bueno*, Especial para o Maria Frô

Ontem mesmo um amigo comentou comigo sobre esse tal aplicativo, para meninas, chamado “On Lulu”. O receio dele era sobre o fato dele estar sendo avaliado, o que ele também não via com bons olhos. Eu, não entendendo nada do que estava acontecendo, disse que iria baixa-lo, para ver como funcionava.

Assim como toda ‘viagem exploratória’ dos aplicativos e gente precisa fuçar pra entender como ele funciona, justamente. Você é recepcionada por um layout rosa e um pedido para “sincronizar seu perfil do aplicativo com o facebook” para que ele possa listar seus amiguinhos (ou exs, ou decepções amorosas, ou fdps que passaram na sua vida, ou crushes, enfim). Depois disso você é apresentada a uma tela na qual aparecem várias fotos e perfis que já tem notas, estrelas e “hashtags”, tanto de conhecidos quanto de desconhecidos.

Na ferramenta de busca, há filtros que você pode utilizar como “meus amigos”, “meus favoritos”, “minhas reviews”, “garotos nas cercanias”, “os mais pops do aplicativo”, ‘últimas reviews”, “melhores notas”, “piores notas”, “divertidos”, “gostosões”, “garotos doces”, panteras sexuais”, “bons beijos”, “inteligentes” – sim, esse por acaso é um dos últimos filtros na lista dos oferecidos, assim como os “fiéis”.

Além disso, você também pode favoritar os meninos que aparecem, assim, eles sempre ficarão no seu “radar”. Já as “reviews” ou “avaliações” são a parte mais complexa do aplicativo. Fiz uma avaliação teste em um amigo (que, em tempo, não conclui) para ver qual é o procedimento exato. De início, você é apresentada a uma tela na qual você escolhe qual sua relação com o cara em questão. A garantia é de que todo o processo de avaliação é anônimo e a autoria das avaliações nunca será revelada.

Ao contrário do que muitos homens devem estar pensando, ao verem suas características e performances avaliadas com números que contém até casa decimal, as mulheres não dão notas. Elas respondem a perguntas que tem um gradativo semi-evidente e o próprio aplicativo faz o cálculo da nota em cada categoria.

Um outro amigo ainda (sim, são tantas pessoas falando sobre o aplicativo que não sei nem contar quantos amigos/as já citei, ou ainda citarei nesse texto) disse que nunca viu tamanha histeria de seus colegas homens. Há desde aqueles que sabem que “a nota vai baixar”, até aqueles que estão tristes porque ainda não foram avaliados. Ou aqueles que agora cogitam quem pode ter feito quais avaliações, resgatando os episódios nos quais eles não foram “tão gentis assim” de suas passagens. Acho que é ai que entra, como ele bem apontou, o caráter da situação de vulnerabilidade a que os homens estão agora sendo expostos. E, pelo jeito, e pela histeria, a situação é bem nova. Nunca antes os homens foram colocados nessa corda bamba, e o que pode atingir mais um homem, nesse mundo machista que valoriza aquele que “pega mais meninas”, “os garanhões”, ou os que “comem mais” do que ser avaliado, por vezes negativamente, sobre sua performance? E o que fica de fora das avaliações também há de sofrer com o mundo machista, não é mesmo? Porque se ele não é avaliado, significa que ele não “pega ninguém”. Ao torturar o ego do homem e colocar em questão sua forma de relacionar nas já pré-determinadas categorias do aplicativo, cria-se no avaliado uma vulnerabilidade que muitos, provavelmente, nunca sentiram. Mas ao atingir as pessoas de forma tão diferente, o aplicativo acaba trazendo questões perenes nas nossas relações (em especial as entre homem e mulher, mas não só) e que muito se relacionam ao machismo, afinal, sofre o avaliado, sofre o não-avaliado, sofre a avaliadora que precisa refrescar a memória com as experiências possivelmente ruins que teve e sofrem, eventualmente, aquelas que agora se relacionam com os avaliados.

Ouvi de umas amigas que já estavam “baixando a nota de vários caras”. Eu perguntei, curiosa, “Por quê? Por que você quer fazer isso?” E a resposta que ouvi foi “Os que foram filhos da p&%$ merecem, vai?”. Ao mesmo tempo, também tenho relatos de amigos e amigas que acham o aplicativo um absurdo, uma forma de reafirmar a objetificação das relações. É o retrato da revanche das oprimidas: são as mulheres dando o troco da objetificação cotidiana com… voilá: objetificação.

Afinal, seria isso mesmo a que nossas relações foram reduzidas? O tipo de análise que está sendo feita nesse aplicativo lembrou-me daquelas comandas de restaurante que respondemos após o jantar, sugerindo que o serviço seja avaliado, do estilo “Dê uma nota de 0 a 5” e as perguntas: “Você gostou ou não gostou do nosso restaurante?”; “A comida estava boa?”; “O serviço estava bom?”, “Você voltaria ao nosso restaurante?”. Acho que essa é a parte inevitável da transformação das nossas relações em mercadoria, algo que já é presente, mas que um aplicativo como esse mostra como essa concepção de relacionamento interpessoal é tão comum que nem nos questionamos sobre, ou achamos uma boa idéia, avaliar nossos amigos, amantes, namorados, ex-namorados, paqueras, destruidores de nossos corações, etc, da mesma forma com a qual responderíamos uma pesquisa de mercado sobre um absorvente “hum, gostei”, “formato bom”, “confortável”, “nota 4”, “ótimo material”.

Amigas, ninguém gostaria que fizessem isso com mulheres. Já pensaram o rebuliço? E já pensaram também o tipo de coisa que apareceria em um aplicativo que faz avaliações de mulheres? Também imagino que seria bem pior do que o “Lulu”, mas isso não vem ao caso, pelo menos não por agora. Mas se não gostamos, se nos sentimos desrespeitadas, humilhadas e expostas quando fazem isso conosco, porque achar legal quando isso é feito com homens?

Sim, eu sei. Acho que muitas meninas estão se sentido como se agora fosse mesmo a hora da revanche. Que hora mais feliz! – ou não. E isso tem sim um pouco de verdade (a do sujeito, não a universal). Porque desde os casos de “revenge porn” (A exemplo da menina Fran, que considero algo um pouco mais extremo, e dos casos mais recentes das duas meninas que se suicidaram após terem suas intimidades expostas na internet) à exposição da sexualidade da mulher, dos comentários nas conhecidas rodas de “machos” sobre as performances, o julgamento de seu corpo, os cheiros, os trajes, ou basicamente toda e qualquer característica da mulher antes, durante e após os momentos de intimidade são, como bem sabemos, muito comuns. Mas muito comuns mesmo. Fico pensando inclusive que não há caso que eu conheça de homem que teve que mudar de escola ou faculdade depois que suas fotos em momentos íntimos circularem caixas de emails e grupos de whatsapp (e se houver algum caso desse, que alguém tiver notícia, me comunique e eu me retratarei), como ocorre constantemente com as mulheres.

Eu realmente tento deixar de lado o meu sentimento de “agora é a vez de vocês sofrerem” ao escrever esse texto, ao pensar em avaliar alguém (sim, eu já tive péssimas experiências íntimas que me fazem cogitar escrever uma review bem péssima, mas estou me segurando) que mereceria umas notas péssimas, em me “vingar” pelos constrangimentos que já sofri, mas que não foram muitos, porque ou eu aprendi (sim, isso demanda um tempo, acho) a escolher bem com quem eu me relaciono e esses caras nunca fariam algo/falariam algo que pudesse me expor ou tenho sorte de nunca ter chegado ao meu ouvido nada desse tipo. Ao mesmo tempo em que reluto em afirmar que “acho bom” que os homens (e sinceramente sabemos que é algo razoavelmente localizado, há um recorte de classe no acesso ao aplicativo, está restrito a certos grupos sociais, vide o fato da maioria dos meus amigos que está sendo avaliado pertencer a grupos muito bem delineados) agora estejam passando por isso, que se sintam vulneráveis, que “provem do próprio veneno”, que arranquem o cabelo pensando “aquela menina lá que eu transei, tirei foto, falei mal para todo mundo e obviamente nunca mais liguei” pode ir no aplicativo e falar mal de mim. Mas a menina que foi “bem tratada” (pros padrões patriarcais, claro), para a qual ele abriu a porta, pagou a conta, enfim, seguiu todo o protocolo da nossa sociedade que ainda insiste em questionar a conduta das mulheres principalmente no âmbito sexual, (e muitos de nós ainda insistimos em reproduzir esses valores), pode ir lá e equilibrar a nota.

Meninas, honestamente, o que estamos fazendo? Fazer com os homens o que eles fazem conosco não nos faz melhores e também não contribuirá para que soframos menos violência (física ou simbólica) no cotidiano. A questão é que ao aceitarmos o papel dado a nós de “vingativas” reafirmamos que as relações homem-mulher funcionam sempre nesse mesmo padrão no qual nunca estamos em pé de igualdade: sofremos, somos humilhadas, e agora queremos fazer com que eles “paguem por isso” já que as relações de poder entre os gêneros não devem mudar mesmo. Ao reconhecermos que a avaliação “vexatória” é algo válido, entramos no mesmo jogo a que somos cotidianamente submetidas, e sabemos que, isso, em hipótese alguma, é algo bom ou minimamente construtivo na luta por uma sociedade mais igualitária.

E para aquelas que me dirão “o aplicativo é bom porque agora eu sei quem eu devo sair e quem eu não devo”, eu digo: será que realmente chegamos ao ponto de, para além da “revanche” que o aplicativo pode proporcionar, nos deixarmos levar e fazer nossas escolhas com base nas experiências que ocorreram na vida de outras meninas e que, não necessariamente precisam ser replicadas nas nossas possíveis futuras experiências e intimidades com esse alguém? Porque, afinal, se relacionar não é exatamente isso? Quebrar a cara, sofrer, se alegrar com pequenas coisas, ficar ansiosa, arriscar, tomar a iniciativa – e as vezes só esperar, descobrir o que nos faz bem e o que não nos faz, gostar, perder o encanto, nos surpreender, nos apaixonar?

Ps: E para você que leu o texto e está desesperado com a possibilidade de ser avaliado,não se preocupe, é só você entrar em contato com a equipe do aplicativo e eles retiram seu perfil das listas das meninas – em até 72h.

Ps2: O pessoal que traduziu o aplicativo para o português já confirmou que, com o sucesso do Lulu, em breve um aplicativo para avaliar mulheres será lançado por aqui.

*Juliana Moura Bueno tem 24 anos, é cientista social formada pela USP, seus temas de pesquisa são política brasileira e comportamento eleitoral, classe e gênero. Tem especial apreço pelos debates sobre a condição da mulher na sociedade. Seu twitter é @ju_bueno1.

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Vitor Teixeira: Interesse privado a serviço da população

novembro 22nd, 2013 by mariafro
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Ainda acho que não dá para comparar Haddad a Alckmin, PT a PSDB, mas inegavelmente temos de nos livrar de grandes corporações.

Reforma política Já. Financiamento Público de Campanha Já!

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