Maria Frô

ativismo é por aqui

Maria Frô header image 4

CLAUS ROXIN, o jurista alemão responsável pela teoria ‘domínio dos fatos’, critica o uso que STF fez dela

novembro 11th, 2012 by mariafro
Respond

O leitor Sérgio Ricardo Carelli sugere  a entrevista transcrita a seguir, os juízes que usaram e abusaram de modo equivocado da teoria do ‘domínio dos fatos’ devem estar rubros ao ler o autor da teoria dizer que isso não é correto, que o Direito é outra coisa:

FRASES

“A posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato. O mero ter que saber não basta. Essa construção é do direito anglo-saxão e não a considero correta”

“É interessante saber que aqui também há o clamor por condenações severas, mesmo sem provas suficientes. O problema é que isso não corresponde ao direito. O juiz não tem que ficar ao lado da opinião pública”

ENTREVISTA CLAUS ROXIN: Participação no comando de esquema tem de ser provada

Cristina Grillodenise Menchendo Rio, Folha de São Paulo

11/11/2012

Um dos responsáveis por teoria citada no julgamento do STF, jurista alemão diz que juiz não deve ceder a clamor popular

Claus Roxin, que esteve há duas semanas em seminário de direito penal do Rio<
Daniel Marenco/Folhapress. Claus Roxin, que esteve há duas semanas em seminário de direito penal do Rio

Insatisfeito com a jurisprudência alemã -que até meados dos anos 1960 via como participante, e não como autor de um crime, aquele que ocupando posição de comando dava a ordem para a execução de um delito-, o jurista alemão Claus Roxin, 81, decidiu estudar o tema.

Aprimorou a teoria do domínio do fato, segundo a qual autor não é só quem executa o crime, mas quem tem o poder de decidir sua realização e faz o planejamento estratégico para que ele aconteça.

Roxin diz que essa decisão precisa ser provada, não basta que haja indícios de que ela possa ter ocorrido.

Nas últimas semanas, sua teoria foi citada por ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) no julgamento do mensalão. Foi um dos fundamentos usados por Joaquim Barbosa na condenação do ex-ministro José Dirceu.

“Quem ocupa posição de comando tem que ter, de fato, emitido a ordem. E isso deve ser provado”, diz Roxin. Ele esteve no Rio há duas semanas participando de seminário sobre direito penal.

Folha – O que o levou ao estudo da teoria do domínio do fato?

Claus Roxin - O que me perturbava eram os crimes do nacional socialismo. Achava que quem ocupa posição dentro de um chamado aparato organizado de poder e dá o comando para que se execute um delito, tem de responder como autor e não só como partícipe, como queria a doutrina da época.

Na época, a jurisprudência alemã ignorou minha teoria. Mas conseguimos alguns êxitos. Na Argentina, o processo contra a junta militar de Videla [Jorge Rafael Videla, presidente da Junta Militar que governou o país de 1976 a 1981] aplicou a teoria, considerando culpados os comandantes da junta pelo desaparecimento de pessoas. Está no estatuto do Tribunal Penal Internacional e no equivalente ao STJ alemão, que a adotou para julgar crimes na Alemanha Oriental. A Corte Suprema do Peru também usou a teoria para julgar Fujimori [presidente entre 1990 e 2000].

É possível usar a teoria para fundamentar a condenação de um acusado supondo sua participação apenas pelo fato de sua posição hierárquica?

Não, em absoluto. A pessoa que ocupa a posição no topo de uma organização tem também que ter comandado esse fato, emitido uma ordem. Isso seria um mau uso.

O dever de conhecer os atos de um subordinado não implica em co-responsabilidade?

A posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato. O mero ter que saber não basta. Essa construção ["dever de saber"] é do direito anglo-saxão e não a considero correta. No caso do Fujimori, por exemplo, foi importante ter provas de que ele controlou os sequestros e homicídios realizados.

A opinião pública pede punições severas no mensalão. A pressão da opinião pública pode influenciar o juiz?

Na Alemanha temos o mesmo problema. É interessante saber que aqui também há o clamor por condenações severas, mesmo sem provas suficientes. O problema é que isso não corresponde ao direito. O juiz não tem que ficar ao lado da opinião pública.

________________
Publicidade

Tags:   · · · · · 12 Comments

Cut: Genocídio da Juventude Negra

novembro 11th, 2012 by mariafro
Respond

Todo novembro é a mesma coisa: estatísticas atrás de estatísticas sobre a situação do negro no país. Nos últimos dez anos as políticas sociais dos governos Lula e continuadas no governo Dilma fizeram efeito em termos de distribuição de renda e combate à desigualdade. Mesmo os mais conservadores apontam o crescimento da renda da população negra acima da média da população branca. No entanto, o nível de desigualdade em todos os aspectos é tão gigante que a desigualdade econômica entre brancos e negros ainda permanece forte. É preciso atuar em muitas frentes pra diminuir de vez a desigualdade secular criada pelo racismo, por uma abolição sem indenização aos negros.

Durante a cobertura da campanha de Haddad para a prefeitura de São Paulo um dos momentos mais marcantes que vivenciei foi ouvir mães e jovens falando sobre o  Prouni.

Aqui mesmo neste blog reproduzi alguns vídeos.

James Hermínio, estudante de Direito na PUC- São Paulo, durante o evento na Uninove- Liberdade dos Estudantes com Haddad deu um dos depoimentos mais contundentes sobre a transformação possível da educação na vida de jovens negros.

A consciência política, social, étnico-racial deste jovem estudante impressiona. Se não tiver paciência pra ver todo o vídeo, comece a assisti-lo por volta dos 3 minutos e 30 segundos em diante e aprenda com este futuro advogado: a juventude negra não foi feita pra ser morta.

Infelizmente,  as políticas sociais dos governos petistas não conseguiram ainda atingir a segurança pública, não atingem a forma como a polícia militar, herdeira da ditadura militar e sob comando dos governadores é formada e age. É preciso desenvolver urgentemente políticas entre as três instâncias governamentais para atuar contra a violência institucionalizada pelo Estado por meio da violência policial.

Joguemos no lixo o racismo e aprendamos com James, nós não podemos naturalizar a imensa violência que vivemos e permitimos que ela atinja e extermine nossa juventude negra. Precisamos dar um basta nisso. 

Mais de 75% dos assassinatos registrados no País são de jovens negros

Por: Flaviana Serafim/CUT-SP

09/11/2012

O jovem negro que mora em bairros da periferia é o principal alvo da violência urbana no País. Do total de assassinatos registrados no Brasil, 53% têm jovens como vítimas e, destes, mais de 75% são negros, segundo dados do Ministério da Saúde.

A discriminação e o preconceito racial têm grande impacto nestas estatísticas alarmantes porque civis é que estão morrendo, porque jovens inocentes, sem nenhuma ligação com o crime, são as principais vítimas de uma polícia repressora, além de vítimas da ausência de políticas de segurança pública que há tempos deveriam ter sido adotadas pelo governo estadual. Falta segurança ostensiva e sobram o despreparo e a brutalidade presentes em boa parte da Polícia Militar paulista.

Rosana Aparecida da Silva, secretária de Combate ao Racismo da CUT São Paulo, alerta para o descaso contra esse tipo de violência. “O movimento negro tem feito várias ações para tentar mudar essa situação, mas não houve nenhuma resposta da Polícia Militar ou do Ministério Público Estadual paulista”, alerta a dirigente. A PM é responsável por uma média de 500 a 600 mortes por ano, segundo denúncia do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública de São Paulo.

Outro problema grave são os casos nos quais a cena do crime é alterada ou a perícia deixa de ser feita corretamente para “maquiar” os assassinatos cometidos por policiais contra pessoas inocentes, sem qualquer ligação com o tráfico.

Juventude Viva- No final de setembro o governo federal lançou o Juventude Viva, programa piloto que faz parte da primeira etapa do Plano de Prevenção à Violência Contra a Juventude Negra. O programa prevê diversas ações para os jovens, como adotar período integral nas escolas estaduais e a criação de espaços culturais. E, ainda, formação adequada para os profissionais que atuam com a juventude, incluindo os policiais militares. Para a secretária de Combate ao Racismo da CUT-SP, é urgente a implantação deste programa em São Paulo. Com a ausência de projetos estaduais e municipais, a iniciativa do governo federal pode ser um caminho para reduzir o extermínio da juventude negra – no momento, talvez a única esperança num Estado onde o governador diz que quem reagir à polícia vai morrer.

Sobre Prouni leia também: 

Até Helio Gaspari, anti-Lula ferrenho, reconhece que Prouni de HADDAD é um sucesso absoluto

Escrever ParaliZação contra Lula e Haddad pode, a gente esconde

Fernando Haddad na Vila Brasilândia: Em São Paulo é mais fácil ter acesso a ensino superior do que a creches

Haddad criou o Prouni, a direita quis acabar com Prouni: 9 em cada 10 homens com ensino superior estão empregados no Brasil

Ruy de Deus comenta os ataques de Reinaldo Azevedo ao Prouni

PROUNI 7 x DEM 1

DEM de novo no Supremo procurando dificultar o acesso dos pobres ao ensino superior

Gaspari: Dilma disse a verdade quando acusou o ex-PFL de tentar destruir o Prouni no STF

Enquanto o DEM quer pôr fim no Prouni, o programa segue formando médicos

#CotasSim: STF decide sobre validade de cotas raciais nesta quarta

Cotas (discriminação positiva) são esforços para reequilibrar situações concretas de desigualdade

Boaventura de Sousa Santos em carta aberta aos ministros do STF que julgam as terras quilombolas

Abaixo-assinado contra a aprovação da ADI 3239 no Supremo Tribunal Federal

Esqueça Demóstenes, Demétrios e os Demos em geral, veja, ouça, leia e aprenda: cota é legal!

E lá vai o DEM mais uma vez ao STF tentar retirar direitos da população negra!

Sobre a violência policial e do crime organizado que atinge São Paulo leia também:

Breve dossiê revela: onda de assassinatos que apavora Estado foi iniciada e radicalizada pela PM. Governo Alckmin omite-se. Mídia silencia

Moradores das periferias de SP: os mais vulneráveis à violência institucional e ao crime organizado

Alckmin que fala grosso com Pinheirinho é sujeito oculto na cobertura da Globo sobre a violência em SP

Será que os policiais assassinados nas últimas semanas e também os trabalhadores reagiram, governador Alckmin?

Maria Rita Kehl: Estado Violência, Alckmin usa a mesma retórica dos matadores da ditadura

Escalada de violência em São Paulo: Segurança Pública é um dos Direitos Humanos

Governos federal e de São Paulo criam agência integrada para conter violência no estado

Laudo da Polícia Civil derruba o “quem não reagiu está vivo” do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin

Em 25 dias 170 mortes em São Paulo: 20 agentes do Estado, 150 civis jovens, pobres, negros e periféricos

______________
Publicidade

Tags:   · · · · · 6 Comments

Calúnias contra Lulinha e sua empresa são arquivadas porque eram só calúnias sem prova alguma

novembro 11th, 2012 by mariafro
Respond

Eu fico muito, mas muito impressionada como a velha mídia trata aquilo que ela considera notícia e o que ela resolve se calar.

Durante sete anos Fabio Luis Lula da Silva, filho do presidente Lula, viu seu nome e de sua empresa serem jogados na lama pela revista Veja e pela reverberação de outros meios de comunicação da falsa denúncia que tem até verbete na Wikipedia! Mesmo agora que a denúncia foi arquivada pela PF e pelo MPF podemos ler uma série de matérias maldosas como a da Folha de São Paulo que mereceu inclusive uma nota do MPF. Parece que a Folha quer tornar regra a moda do STF de condenar sem provas, ‘pelo domínio dos fatos’.

Por outro lado denúncias contra Verônica Serra como a de quebra de sigilo bancário de milhares de brasileiros, nunca recebeu uma primeira capa.

Como este caso do ‘enriquecimento de Lulinha’ (notícia pra lá de falsa já que a GameCorp talvez por ter sido atacada desde a sua origem não teve chance alguma) é há sete anos usada em todas as eleições contra o PT nos mails apócrifos que circulam na rede, em sites detratores e na boca de eleitores mal informados que repetem as mesmas besteiras de que ‘Lula tem milhões, segundo a Forbes’ espalhando para ‘comprovar’ suas calúnias uma montagem grosseira de uma imagem feita em photoshop que não existe na Forbes,  deixo aqui o registro pra na próxima campanha servir como uma contribuição ao ESPALHE A VERDADE.

Parabenizo também o Fábio que ontem me passou a notícia via twitter bastante aliviado em finalmente ter recebido um pouco de Justiça.  

Como sabemos que Veja e seus papagaios jamais repercutirão a notícia com a força e a intensidade com que caluniaram Fábio, façamos circular a verdade com nosso trabalho de formiguinha pelas redes sociais.

Nota à imprensa: esclarecimentos sobre caso Gamecorp

Assessoria de Comunicação, Procuradoria da República no Distrito Federal

09/11/2012 18:02

Acerca da reportagem “Investigação sobre negócios de filho de Lula é arquivada”, publicada hoje, 9 de novembro de 2012, no jornal Folha de S. Paulo, a Procuradoria da República no DF (PR/DF) tem a esclarecer o seguinte:

Desdobramento cível

Embora a reportagem afirme que o objetivo do inquérito civil público (ICP) era “apurar suspeita de tráfico de influência em 2005”, o objeto da investigação era averiguar “suposta irregularidade na participação societária da Telemar Internet Ltda na empresa Gamecorp S/A, em virtude de eventual influência do BNDES, acionista da holding Telemar Participações S/A”, conforme expresso na portaria de instauração nº 313/2008, sob titularidade do 2º Ofício da Ordem Econômica e Consumidor da PR/DF, que não tem qualquer atribuição criminal.

Ressalta-se que não era objeto do ICP investigar tráfico de influência ou qualquer outro crime. Tratava-se de investigação de caráter cível, para analisar possível irregularidade na participação de uma concessionária de serviço público (Telemar) em empresa montada pelo filho do então presidente da República e seus possíveis reflexos na regulação do serviço telefônico fixo comutado, mormente diante da posterior fusão entre a Telemar e a Brasil Telecom. Assim, o foco da investigação conduzida pela PR/DF era verificar se o investimento realizado pela Telemar na empresa Gamecorp poderia ter violado alguma norma referente ao serviço de telefonia fixa e trazido algum prejuízo aos respectivos consumidores, sobretudo diante da suspeita de que a fusão entre a Telemar e a Brasil Telecom somente teria sido aprovada em razão do investimento na Gamecorp.

No curso da investigação, foi apurado que o BNDES não concedeu qualquer empréstimo nem efetuou aporte de capital para que a Telemar investisse na Gamecorp e tampouco participou daquela decisão empresarial. É importante notar que, como a Telemar e a Gamecorp são instituições privadas, são livres para investir e participar em outras empresas. A promoção de arquivamento elaborada pelo procurador da República Marcus Goulart, em novembro de 2010 (citada na matéria da Folha), deixa claro que “não foi possível obter qualquer prova que demonstre efetivamente que o investimento da Telemar na Gamecorp exerceu influência na posterior alteração da norma que veio a permitir a compra da Brasil Telecom” e que “tampouco se obteve prova de que o investimento se deu em razão da presença do filho do presidente da República no quadro societário da Gamecorp”.

a) instauração dos ICPs nº 1.16.000.001086/2008-38 (com foco na atuação da Anatel) e nº 1.34.001.003921/2008-46 (acompanhando investigação da Comissão de Valores Imobiliários – CVM);
b) expedição de duas recomendações à Anatel, questionando diversas omissões e contradições da agência;
c) realização de reuniões entre superintendentes da Anatel e o Grupo de Trabalho de Telefonia, da 3ª Câmara de Coordenação e Revisão da Procuradoria Geral da República (PGR), nas quais foi explicitamente questionado o indevido apressamento na análise da anuência prévia da fusão entre Brasil Telecom e Oi em função de prazo contratual privado;
d) tendo em vista o descumprimento das recomendações, o MPF ajuizou a ação nº 2008.34.00.040371-1, visando impedir a deliberação da anuência prévia antes da edição do Plano Geral de Metas de Competição, pedido posteriormente convertido em pedido de anulação da anuência prévia, infelizmente ainda sem sentença da Justiça;
e) diante da demora na decisão judicial, o MPF acompanhou o cumprimento das condicionantes impostas à fusão pela Anatel.

Desdobramento criminal

A investigação sobre possível tráfico de influência foi realizada no âmbito do Inquérito Policial 1094/2011-1, instaurado pela Polícia Federal em São Paulo, sem qualquer influência ou atuação da PR/DF. Referido inquérito foi arquivado em maio de 2012 pela Justiça Federal em São Paulo, por não haver provas que apontassem concretamente o recebimento ou promessa de vantagens a pretexto de influenciar a atuação de funcionário público.

Esclarecemos, ainda, que a colheita de depoimentos sugerida pela reportagem não teria qualquer utilidade probatória no inquérito, eis que inexistem testemunhas sobre a tal suspeita de tráfico de influência. Sem medidas de interceptação de comunicações telefônicas e de dados em tempo real, é quase impossível investigar esse tipo de ilegalidade, até porque não se espera que os investigados se dirijam à Polícia ou ao Ministério Público para confessar os fatos nem que registrem essas tratativas em documentos.

Quando não há provas para embasar acusações nem meios legais e reais de obtê-las, é dever do MPF proceder ao arquivamento dos autos, para não favorecer nem perseguir essa ou aquela agremiação política.

Assessoria de Comunicação

Procuradoria da República no Distrito Federal
(61) 3313-5460/5458
twitter.com/MPF_DF

_________________
Publicidade

Tags:   · · · · · · · 1 Comment

Saul Leblon: Parceria execrável do STF com a mídia afronta a justiça ao condenar suspeitos à revelia das provas

novembro 11th, 2012 by mariafro
Respond

A caça aos passaportes e o macartismo à brasileira

Escrito por: Saul Leblon, Carta Maior

09/11/2012

Parceria execrável do STF com a mídia afronta a justiça ao condenar suspeitos à revelia das provas

O ministro Joaquim Barbosa determinou aos 25 réus condenados no processo do chamado ‘mensalão’ que entreguem seus passaportes no prazo de 24 horas — além de incluí-los na lista de ‘procurados’ da PF. A alegada medida ‘cautelar’ está prevista em lei para determinados casos, como informou Carta Maior em reportagem de Najla Passos (leia aqui).

Neste, porém, a decisão vem contaminada de um ingrediente que orientou todo o julgamento da Ação Penal 470 e lubrificou a parceria desfrutável entre a toga e a mídia.

Trata-se da afronta ao princípio básico da presunção da inocência, esquartejado em nome de uma panaceia complacente denominada ‘domínio de fato’. Ou, ‘o que eu acho que aconteceu doravante será a lei’.

A caça aos passaportes sem que se tenha esboçado qualquer disposição de fuga (apenas um dos 25 réus ausentou-se do país antes do seu julgamento e, ao contrário, retornou a ele antes de ser condenado) adiciona a essa espiral um acicate político.

Trata-se de uma aguilhoada nos réus que formam o núcleo dirigente do PT, com o objetivo explícito de joga-los contra a opinião pública, justamente por manifestarem críticas à natureza do processo.

A represália é admitida explicitamente. Segundo o relator Joaquim Barbosa, os réus estariam “afrontando” a corte ao questionar suas decisões.

O revide inusitado vem adicionar mais uma demão à fosforescente tintura política de um processo, desde o seu início ordenado por heterodoxias sublinhadas pelo revisor Ricardo Lewandowski.

O propósito de provocar a execração pública com a caça aos passaportes e a inclusão provocativa na lista de ‘procurados’ da PF, remete a um método que se notabilizou em um dos mais sombrios episódios da democracia norte-americana: o macartismo.

O movimento da caça aos comunistas no EUA, nos anos 50, embebia-se de um contexto de violência gerado pela guerra fria, mas aperfeiçoaria suas próprias turquesas nessa habilidade manipuladora.

O senador republicano Joseph Raymond McCarthy, seu líder, tornou-se um virtuose na arte letal de condenar suspeitos à revelia das provas, liderando uma habilidosa engrenagem de manipulação da opinião pública, coagida pelo medo a aplaudir linchamentos antes de se informar.

Joseph McCarthy teve uma vida cheia de dificuldades até se tornar a grande vedete da mídia conservadora, cujo endosso foi decisivo para se tornar a estrela mais reluzente da Guerra Fria.

Sem a mídia, seus excessos e ilegalidades não teriam atingido um ponto de convulsão coletiva, forte o suficiente para promover a baldeação do pânico em endosso à epidemia de delatar, perseguir, acuar e condenar — independente das provas e muitas vezes contra elas.

McCarthy nasceu no estado do Wisconsin, no seio de uma família muito pobre da área rural. Estudou num estábulo improvisado em sala de aula. Sua infância foi de trabalhador braçal em granjas.

Quando pode mudou-se para a cidade, fazendo bicos de toda sorte para sobreviver. No ambiente de salve-se quem puder produzido pelo colapso de 29, era um desesperado nadando sozinho para não se afogar no desespero da Nação.

Nadando sem parar recuperou o tempo perdido em um curso de madureza que lhe adiantou quatro anos em um. Tornou-se advogado em 1936. Três anos depois, lutando sempre para não submergir, foi aprovado em um concurso como juiz; ingressou no Partido Republicano que o conduziria ao Senado, em 1946.

Ascendeu de forma aplicada e disciplinada, disposto a não regredir jamais à condição de origem. Aproveitando-se das relações partidárias aproximou-se do chefe do FBI, Herbert Hoover, pegando carona na causa anti-comunista que identificou como uma oportunidade em ascensão.

O resto é sabido.

Em dueto carnal com a mídia extremista, passou a liderar o Comitê de Atividades Anti-Americanas no Congresso. Desse promontório incontestável no ambiente polarizado da época, disparou sem parar a guilhotina anti-comunista.

Tornou-se um simulacro de Robespierre da ordem capitalista ameaçada pelo urso vermelho. Pelo menos era assim que vendia seu peixe exclamativo.

O arsenal do terror vasculhava todos os ambientes da sociedade. Mas foi sobretudo nos meio artístico e intelectual que o garrote vil implantou a asfixia das suspeição generalizada, em cujo caldeirão fervia o ácido corrosivo das perseguições e da coação insuportável, não raro deflagradora de episódios deprimentes de delações. Chaplin, Brechet, Humphrey Bogart foram algumas das vítimas da voragem anti-comunista.

As provas eram um adereço secundário no espetáculo em que se locupletavam jornais e oportunistas de toda sorte.

Nem era necessário levar os suspeitos aos tribunais. O método da saturação combinava denúncias com a execração pública automática. Num ambiente de suspeição generalizada o efeito era eficaz e destrutivo.

A condenação antecipada encarcerava os denunciados numa lista negra que conduzia a uma prisão moral feita de alijamento social, político e profissional. Frequentemente levava a um isolamento pior que as grades da penitenciária.

A ruptura da identidade produz a morte em vida. Algus preferiram o suicídio ao destino zumbi.

MacCarthy morreu em maio de 1958, desmoralizado por um jornalista conservador, porém sofisticado e corajoso, que resolveu afrontar seus métodos e arguir casos concretos de arbitrariedade.

Edward Murrow, cujo embate político com McCarthy inspirou o filme ‘Boa Noite e Boa Sorte’, tinha um programa na internet de então, a TV em fraldas.

No seu See it now, ele colhia provas de casos concretos de injustiça e esgrimia argumentos sólidos contra o denuncismo macartista. Não recuou ao ser colocado na lista negra e trincou blindagem do caçador de comunista a ponto de levá-lo a ser admoestado pelo Senado.

Em um confronto decisivo, Murrow emparedou o consenso em torno de McCarthy: ‘Se todos aqueles que se opõem ao senhor ou criticam seus métodos são comunistas – e se isso for verdade – então, senador MacCarthy, este país está coalhado de comunistas!’

O Brasil não é os EUA da guerra fria, nem está submetido a comandos de caça aos comunistas, como já esteve sob a ditadura militar, contra a qual alguns dos principais réus da Ação Penal 470 lutaram com risco de vida.

Certa sofreguidão condenatória, porém, ecoada de instâncias e autoridades que deveriam primar pela isenção e o apego às provas e, sobretudo, as sinergias entre a lógica da execração pública e o dispositivo midiático conservador –que populariza o excesso como virtude na tentativa de implantar um terceiro turno fredentor para refregas nas urnas– bafejam ares de um macartismo à brasileira nos dias que correm.

Foi o que advertiu com argúcia o jornalista, professor e escritor Bernardo Kucinski, autor do premiado ‘K’, a angustiante romaria de um pai em busca da filha nos labirintos da ditadura militar brasileira:

“Estamos assistindo ao surgimento de um macartismo à brasileira. A Ação Penal 470 transformou-se em um julgamento político contra o PT. O que se acusa como crime são as mesmas práticas reputadas apenas como ilícito eleitoral quando se trata do PSDB, que desfruta de todos os atenuantes daí decorrentes. É indecoroso. São absolutamente idênticas. Só as distingue o tratamento político diferenciado do STF, que alimenta assim a espiral macartista.

 O mesmo viés se insinua com relação à mídia progressista. A publicidade federal quando dirigida a ela é catalogada pelo macartismo brasileiro como suspeita e ilegítima. Dá-se a isso ares de grave denúncia. Quando é destinada à mídia conservadora , trata-se como norma.

O governo erra ao se render a esse ardil. Deveria, ao contrário, definir políticas explícitas de apoio e incentivo aos veículos que ampliam a pluralidade de visões da sociedade brasileira sobre ela mesma. Sufocar economicamente e segregar politicamente a imprensa alternativa é abrir espaço ao macartismo à brasileira”.

Leia também:

Nota de José Dirceu a respeito da decisão de Joaquim Barbosa apreender passaportes dos réus da AP470

José Dirceu: NUNCA FIZ PARTE NEM CHEFIEI QUADRILHA

Presidente da UNE, Daniel Iliescu: ‘A UNE nem ama nem odeia Dirceu’

Paulo Moreira Leite: A dosimetria da ditadura e o mensalão

Bob Fernandes: por que o que Valério diz sobre Lula chega às manchetes e 115 páginas de documentos verídicos não são nem notícia?

Valério entregou ao ex-procurador os nomes dos políticos do PSDB que receberam dinheiro

_______________
Publicidade

Tags:   · · · 8 Comments