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“o sorriso amarelo dos coveiros de Lula e do PT é um dado preocupante de nosso momento político”

outubro 9th, 2012 by mariafro
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Olha o tom do mail que recebi hoje. Não foi endereçado a mim, mas a uma pessoa que mandou um mail coletivo com os endereços de todos a vista. Conclusão:  um eleitor 45 ‘educado’ respondeu a todos, daí esse tipo de mail cair em minha caixa de entrada. O texto de Paulo Moreira Leite, logo abaixo mostra um pouco o porquê deste comportamento cheio de amor dos 45.

Quem Tem Medo das Mensagens das Urnas

Por: Paulo Moreira Leite, em sua Coluna Em Época
09/10/2012

Confesso que o sorriso amarelo dos coveiros de Lula e do PT é um dado preocupante de nosso momento político.

Explico. Nos tempos da ditadura, o grande Ulysses Guimarães, personalidade maior da resistência, dizia que era preciso ouvir a voz das ruas. É que naquele tempo, com a imprensa censurada, os deputados cassados, os partidos reprimidos, o país falava pelas ruas. Eram passeatas, protestos e greves.

Quem ouviu a voz das ruas se deu bem. Percebeu o rumo da história, modificou prioridades, apostou na direção do futuro. Quem não entendeu isso ficou olhando a vida passar pela janela.

A voz das urnas de 2012 é muito clara. Olhe só:

a) o PT recebeu o maior número de votos da campanha. Ou seja: no país inteiro, 17, 3 milhões de brasileiros saíram de casa, há dois dias, para votar em candidatos deste partido; o PSDB teve 3 milhões de votos a menos;

b) o PT ganhou 14% a mais de prefeituras, enquanto o PSDB perdeu 12% e o PMDB perdeu 14%;

c) entre as cidades de mais de 200 000 habitantes, o PT foi melhor que os outros; emplacou 8 prefeitos no primeiro turno e disputará 22 prefeituras em segundo turno; o PSDB, que ficou em segundo, ganhou 6 e disputa 17;

d) entre partidos menores, o PSB cresceu muito. O número de prefeituras aumentou 43%. Vamos lembrar: o PSB não é um partido de oposição nem é neutro. Faz parte da base do governo Dilma e colhe os benefícios do crescimento do Nordeste, acelerado a partir de 2003. A maior vitória do PMDB ocorreu no Rio de Janeiro e envolve uma aliança federal e municipal entre o Planalto e os pemedebistas de Sérgio Cabral e Eduardo Paes. Eles também são aliados de Lula e Dilma. Numa cidade célebre por seu oposicionismo, onde se vaia até minuto de silêncio, a situação teve 64% dos votos.

e) o PSD surgiu hoje como a quarta legenda. Vamos lembrar: quando Gilberto Kassab disse que ia fazer um partido que não era de esquerda nem de direita, ele queria dizer que estava indo da direita para a esquerda – e se aproximava de Dilma. Tomou porrada por isso. Não por uma suposta impureza ideológica.

Estes dados me parecem sólidos o suficiente para dizer quem ganhou a eleição. Em função do segundo turno, é cedo para medir o resultado pelo número final de prefeituras conquistadas. Este aspecto é importantíssimo.

Mas para medir a vontade do eleitor, este é o melhor momento. Todo mundo teve direito de levar sua mensagem a TV, dar porrada, levar porrada, e o saldo está aí.

Voltando à mensagem da rua e das urnas.

Quem não entendia a mensagem da rua, no tempo da ditadura, partiu para a ignorância. O povo dizia que queria democracia e eles até atrapalhavam a abertura lenta e gradual. Matavam presos políticos para criar crises e elevar a tensão. Promoviam atentados terroristas, com a mesma finalidade. Fizeram a bomba do Rio Centro, explodiam bancas de jornal. Assassinaram dona Lida, secretaria da OAB. Infiltravam-se em greves, assembleias, passeatas.

Essa reação criminosa é inaceitável mas pode ser explicada. Incapaz de dar respostas à história, o que dificulta até o dialogo com os próprios filhos, o sujeito procura ressuscitar o passado através de ações criminosas.

É aquela cena de filme de terror classe B em que o morto vivo ressurge de dentro da terra.

Também temos, em 2012, quem não consegue sequer ouvir a voz das urnas.

E isso é um problema?

Eu acho. Não digo que leva o cidadão para o terrorismo. Não obrigatoriamente rsrsrsrs.

Mas leva ao jogo sujo. Leva a mentira, a trapaça. Por que? Porque a pessoa parou de trabalhar com a realidade, deixou de olhar para aquilo que eu e você podemos ver – e que o números de domingo mostram – para jogar com sua própria fantasia. Não aceita que a maioria dos cidadãos aprove um governo que realizou mudanças modestíssimas, precárias, etc, mas que lhe permite viver um pouco melhor, comer um pouco melhor e assim por diante.

E é da democracia aceitar que a maioria – mesmo a mais humilde, menos educada formalmente – tem o direito de optar por seu destino. É democrático procurar entender o que a maioria diz e pretende. Até para tentar convencê-la a mudar de pensamento, se for o caso.

Quem não enxerga a maioria, não compreende o que ela diz, tem reações autoritárias. Parte para o baixo nível, o jogo sujo, a mentira.

E é este, só este, meu receio para o segundo turno. Negar o que as urnas disseram, há dois dias, é procurar um caminho para a baixaria que todos conhecemos e lamentamos. Ou será que para alguns não há alternativa?

Deu para entender, certo?

Leia também:

‘Mãos ao alto: Serra quer tratar de valores’ e a memória da campanha de 2010

A ‘inteligência’, a ‘coerência’, o ‘conhecimento’ de Serra, o gestor ‘democrata’

Folha: Peso do mensalão nesta eleição foi próximo de zero

Joaquim Barbosa: ‘Lula é um democrata, de um partido estabelecido. As credenciais democráticas dele são perfeitas’

Ministro Joaquim Barbosa herói de Veja

Grande mídia derrotada: “O eleitor mostrou, mais uma vez, que adora rir por último”

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‘Mãos ao alto: Serra quer tratar de valores’ e a memória da campanha de 2010

outubro 9th, 2012 by mariafro
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Em 2010 Serra prometeu aos evangélicos que vetaria o PL122 (Projeto Lei para tornar a homofobia um crime):

Folha: Em convenção na Assembléia de Deus, Serra promete vetar a lei da homofobia


Malafaia Usa a homofobia para pedir votos a Serra

Mãos ao alto: Serra quer tratar de valores

Saul Leblon, Carta Maior

09/10/2012

Serra estreou a sua falta de jeito e carência programática no segundo turno da disputa municipal em SP, revelando certa afoiteza diante do vazio. Entrou no salão, cuspiu no assoalho e engatilhou a única arma de que parece dispor para superar a pior votação recebida em casa nos últimos anos.

O tucano avisou que vai usar o STF como cabo eleitoral para atacar Haddad ‘na questão dos valores’. Atente-se: quem está dizendo isso chama-se José Serra. A palavra valores não lhe cai bem. Exceto, talvez, quando a quantia é mencionada, mas neste caso, Paulo Preto seria o interlocutor mais adequado, não Haddad.

Afoitezas e cifras à parte, não seria descabido indagar: ademais de obras e ações urgentes, quais valores éticos ostentados por um prefeito poderiam fazer a diferença em uma cidade como São Paulo?

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman cunhou a palavra ‘ mixofobia’ para descrever aquele que seria, em sua opinião, o medo típico das grandes cidades contemporâneas: a fobia de se misturar com outras pessoas. Em que medida um caráter como o de Serra contribuiria para romper essa galvanização individualista, matriz de desdobramentos políticos, sociais e culturais de gravidade presumível?

Um exemplo aleatório: na manhã do último domingo, enquanto o Brasil comparecia às urnas, um travesti era arrastado pelo carro de um provável cliente na zona Sul de São Paulo. Morreria em seguida, em consequência dos ferimentos.

Segundo a ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) foi a 86ª vítima de uma série de assassinatos de travestis registrados em todo o Brasil este ano. Em 2011, a violação de direitos humanos contra LGBTs somou 6.806 casos.

Entre as origens do fenômeno encontra-se a sensação de impunidade desfrutada em ambiente contaminado pelo ódio à diferença, irradiado ou sancionado por lideranças e figuras públicas.

A guerra é o exemplo clássico dessa dinâmica deformadora: contra inimigo, tudo. A permissividade bélica transfigura indivíduos aparentemente normais em máquinas mortíferas. Se é legítimo bombardear uma cidade inteira, por que não o seria torturar e degradar peças individuais do estoque? Abu Ghraib: o ponto dentro da curva.

Um barão do século XVIII, Montesquieu, já sinalizara que a virtude não está nos indivíduos, mas nas instituições (o que torna especialmente hipócrita, diga-se, um tribunal encenar rigor no varejo, e omitir-se diante da usina indutora de caixa 2 que é a legislação eleitoral vigente).Caçadores de pecados, auto-ungidos em guardiães dessa moral das conveniências, abundam. Do alto de seus púlpitos –ou debaixo das togas– comandam milhões de almas desprovidas de outro abrigo de identidade, num meio social evanescente.

O pastor Silas Malafaia é um dos centuriões armados de borduna e tacape espiritual. Sua especialidade é impedir a educação para a tolerância, talvez um dos valores mais importantes para reverter a mixofobia de Baumann, da qual a matança denunciada pela ABGLT pode ser uma expressão clínica.

Malafaia, que usa gravatas de um dourado ofuscante, e lenço combinando, nem pisca. No 1º turno, twitou ordens sagradas de voto em Serra; ‘contra o kit gay’, comandava. O tucano não desautorizou a associação do seu nome à figura do ‘caçador de kit gay’.

Não se pode responsabilizar ninguém pela loucura no seu entorno. Mas o intercurso de Serra com a intolerância extrapola a ordem unida disparada por Malafaia.

A esposa do tucano fez da caça ao aborto seu bordão de campanha na disputa presidencial de 2010 . Disse Monica Serra a um transeunte na Baixada fluminense, em 14-09-2010: “Ela (Dilma) é a favor de matar criancinhas” (Estadão). Não só. O braço direito de de Serra , Andrea Matarazzo, transformou as impiedosas rampas anti-mendigo em um dos símbolos do higienismo social adotado na fugaz passagem do tucano pela prefeitura de São Paulo, que abandonou com um ano e meio de mandato para concorrer ao governo do Estado, em 2006.

Kassab, saído da mesma cepa, vice campeão nacional em rejeição, proibiu há pouco a distribuição de comida aos moradores de rua – ‘por questões de higiene’.

O conforto de Serra nessa curva reveladora não se resume à esfera dos costumes. Dentro do próprio PSDB o candidato é conhecido como uma pessoa que tem na intolerância um traço de caráter e um método político.

É esse personagem que pretende levar a discussão de ‘valores’ ao 2º turno em SP. Não se subestime a octnagem da mixofobia entranhada num ajuntamento de 11 milhões de pessoas que compartilham (majestático) o mesmo espaço urbano em São Paulo. Menos ainda se subestime o efeito conflitivo que uma prefeitura pautada pelos ‘valores’ de José Serra pode acarretar nesse ambiente.

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A ‘inteligência’, a ‘coerência’, o ‘conhecimento’ de Serra, o gestor ‘democrata’

outubro 9th, 2012 by mariafro
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Cada vez que ouço o trololó autoritário deste eterno candidato, sem nenhuma sustança (o que foi aquele discurso pós primeiro turno do ‘olhar para o presente e futuro‘ repetindo mil vezes o mesmo lugar comum, a mesma frase feita???? eu me pergunto como as pessoas com algum capital cultural que vivem na cidade de São Paulo permitem ser enganadas desta maneira. A periferia não se deixa enganar, mas aqueles com ensino superior, acesso a bens culturais, viagem ao exterior repetem mantras tucanos e não param um único momento para refletir? Será que o preconceito de classe causa danos que impedem sinapses?

Porque, na boa, nenhum desses eleitores de Serra pararam para avaliar os erros de previsão feitos pela mídia grande, a manipulação das pesquisas de intenção de voto, distantes dos resultados das urnas? Será que não incomoda a esta parte do eleitorado também ser enganada?

Experimente fazer um execício de atenção, preste atenção  quantas mil vezes você ouviu e leu a palavra MENSALÃO, quantas horas todas as tevês e quantas páginas todos os jornais e revistas tocaram a mesma tecla: MENSALÃO, MENSALÃO, MENSALÃO, MENSALÃO,MENSALÃO …. 

Será que não há ruídos? Será que esta mídia repetitiva e insistente está me contando tudo, será que o que os grandes meios de comunicação me contam é exatamente o que ocorreu? Por que não dedicam o mesmo tempo e empenho para falarem do mensalão tucano, do mensalão do DEM, para falarem da Privataria Tucana, do Cachoeira (Serra e Delta), do Paulo Preto, dos mais de cem imóveis comprados pelo secretário indicado por Serra, Aref, do rombo causado aos cofres públicos pela Controlar… Esses temas não são importantes? Não são de interesse público?

Dois dias antes do primeiro turno (como também fez em 2010 com os panfletos reacionários do bispo de Guarulhos impressos em gráfica tucana) Serra espalhou panfletos apócrifos contra o PT (e antes uma cartilha contra Russomanno e o contra o PT) e também como fez em 2010 Serra conseguiu calar a imprensa operária à força (em 2010 empastelou a Revista do Brasil) na última sexta à noite foi a vez da Folha Bancária. Serra quer calar a blogosfera!

Imagine se fosse o PT a fazer algo do gênero, a calar na marra uma voz dissonante, a censurar a imprensa,  como é que a grande mídia e o PSDB tratariam estas práticas autoritárias? Vai pensando aí…

Serra também não cumpre o pouco que promete:

Serra se apropria de inúmeros projetos que não criou e que durante muito tempo ele utilizou como bandeiras de campanha e não foi questionado pela grande mídia, como por exemplo a criação do FAT, dos Genéricos, nada disso foi feito por ele.

Como se tudo isso não bastasse o provincianismo de Serra me assusta, sério!

Eu não conhecia Haddad, no máximo acompanhei sua atuação no MEC, mas nunca havia ouvido ele falar sobre administração das cidades, orçamento, planos de governo, cultura, transporte, mobilidade urbana… Quando ele se tornou candidato apurei os ouvidos para conhecer e ver se valia a pena. Me surpreendi, Fernando Haddad não é apenas um rostinho bonito, o homem tem ginga e sustança. Impressiona o quanto ele é bem informado, culto, cidadão do mundo. Perto de Haddad, Serra é de um provincianismo primário, um cidadão da Mooca quando muito com todo respeito à Mooca.

Se você acha que isso é papo de petralha governista, vou refrescar a sua memória. As gafes de Serra impressionam, elas demonstram preconceito e ignorância (traços de provincianismo). Recorro a algumas frases proferidas por ele durante a campanha presidencial de 2010. Serra trocou nome de políticos e de cidades, fez defesa da traição conjugal “com discrição” (por que será?); afirmou que defendia o aborto e logo em seguida negou; fez considerações sobre uma suposta migração de nordestinos “para o Brasil” e a pérola de um ‘verdadeiro estadista”: a camisinha chinesa que cheirava a “pena de galinha fervida”.

A Campanha em Gafe

Por: MÁRCIO FALCÃO e RANIER BRAGON, , da Folha Poder

JOSÉ SERRA
- DISCRIÇÃO
“Ontem, foi apresentado nosso Indio para a vice-presidência, um homem jovem, preparado, com experiência, que vai crescer muito e ter muita responsabilidade (…) Tem uma namorada e, me disse por telefone, “não tenho amantes”. Eu até disse, também não precisa exagerar. O que tem que ser é uma coisa discreta. Não estou aqui pregando pular cerca no casamento, mas também não precisa exagerar”
1.jul, em sabatina na CNA (Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária).

- CONTRA E FAVOR
“Nunca disse que sou contra o aborto porque sou a favor”
6.out, em encontro com líderes da oposição, se corrigindo logo em seguida: “Ou melhor, nunca disse que era a favor do aborto porque sou contra o aborto.”

- CHEIRO DE PENA
“A camisinha cheirava a pena de galinha fervida, cheia de buracos [...] . Os chineses devem gostar, no momento apropriado, do cheiro de pena de galinha, mas nós não”
25.mai, durante sabatina na CNI (Confederação Nacional da Indústria), ao falar de licitação que fez no Ministério da Saúde para compra de camisinhas. Segundo ele, a imprensa preparava reportagem para denunciar que havia uma opção, chinesa, mais barata.

- GOIANÊS
“Temos três problemas: estou longe [da imprensa], não estou te ouvindo direito e não estou entendendo o seu sotaque”
19.jul, durante visita a Goiânia

- TRAVA-LÍNGUA
“Por que vocês defendem carinho e amizade com o Ahma… Ahmanijedad?”
12.set, em debate Folha/RedeTV!, tropeçando na pronúncia do nome do ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad

- QUASE LÁ
“Perdão. Ribeirão Preto eu ainda vou”
27.set, em entrevista coletiva, após trocar Presidente Prudente (560 km de São Paulo) por Ribeirão Preto

- TROPEÇO
“De fato, eu aprendi a fazer política quando morei no Rio de Janeiro e vivia o tempo todo em Minas, Bahia e Pernambuco. Na terra do Marcelo Alencar, Aécio, Sergio Guerra, do Juthay… [alguém da plateia grita "Jatene'] e na terra do Jatene, que é Rondônia. [pausa, escuta correção da plateia] O Jatene é do Pará? Ele me disse que era de Rondônia”
10.abr, no lançamento de sua candidatura, em Brasília, ao se referir ao tucano que lidera as pesquisas ao governo do Pará

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Marco Aurélio Weissheimer: Questões pertinentes à esquerda de POA e aos demais governos progressistas

outubro 9th, 2012 by mariafro
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Excelente o texto de Marco Aurelio sobre a privatização do espaço público e o vazio político de candidaturas de esquerda que foram incapazes de pautar esta discussão. A esquerda precisa retomar sua identidade, a juventude brasileira (ao menos aquela que não está entorpecida pelo consumismo não está feliz com o cerceamento de sua expressão. Ela reage sempre a privatização das ruas e a tentativa de disciplinar sua liberdade de expressão, seu tempo, lazer. 

O que ocorre em Porto Alegre, hoje, está longe de ser fato isolado, em São Paulo, o crescimento da candidatura de Haddad dá-se exatamente por propor um enfrentamento à privatização do espaço público, à redução do que significa cultura e, principalmente, por abrir bem os ouvidos e os olhos ao clamor de boa parcela da população que reage à cidade proibida criada por Kassab.

Que governos progressistas fiquem atentos a isso. A juventude faz política de uma maneira nova, é bom que se aprenda a entender seus códigos.

Por: Marco Aurélio Weissheimer, via Correio do Brasil

Na reta final da campanha eleitoral, Porto Alegre vive uma situação paradoxal. Se, por um lado, as pesquisas dão amplo favoritismo ao atual prefeito José Fortunati (PDT), nas ruas eclodiu um movimento social formado basicamente de jovens protestando contra a privatização de espaços públicos e culturais da cidade e também contra o crescente cerceamento de espaços e tempos de lazer.

Protesto no Largo Glênio Peres terminou em repressão policial

Na quinta-feira à noite, quando Fortunati passeava tranquilamente pelo debate da RBS, cujo formato permitiu que ele fosse questionado uma única vez pela deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB) e nenhuma vez pelo deputado estadual Adão Villaverde (PT), as duas principais candidaturas da oposição, o protesto que iniciara no final da tarde em frente à prefeitura terminou em choque com a polícia no Largo Glenio Peres, na área agora sob a responsabilidade da Coca-Cola, onde estava instalado um boneco inflável do Tatu-Bola, mascote da Copa de 2014.

Para quem não vive em Porto Alegre, as referências podem ser confusas. A prefeitura de Porto Alegre repassou para a Coca-Cola a tarefa de “cuidar” do Largo Glênio Peres, uma das áreas mais tradicionais do centro da capital e espaço histórico de manifestações sociais, culturais e políticos. Em troca de algumas “obras” no Largo, como um insólito conjunto de chafarizes, cujo maior feito até agora foi alagar o comício de encerramento do candidato Villaverde, a Coca Cola está explorando publicitariamente o Largo.

A iniciativa não é isolada. Outros espaços públicos da cidade estão sendo repassados pela gestão Fortunati para a iniciativa privada, como é o caso do Auditório Araújo Viana, agora sob os cuidados da produtora Opus. O ufanismo empreendedorista embalado pelas “obras da Copa” justifica a invasão privada de espaços públicos na cidade.

Na terça-feira desta semana, uma inacreditável manchete do jornal Zero Hora afirmava em tom de denúncia: “Norma que restringe altura dos prédios impede a capital de crescer na Zona Norte”. Como bem observou Cristóvão Feil, no Diário Gauche, o grupo RBS perdeu todo o pudor, reivindicando diretamente os interesses da livre especulação imobiliária selvagem em Porto Alegre. RBS que tem um braço no setor imobiliário chamado Maiojama.

Nos últimos anos, boa parte dos chamados formadores de opinião dos veículos do Grupo RBS cumpre o papel de defender com denodo os interesses comerciais e econômicos estratégicos de seus patrões, silenciando sobre os atropelos de normas urbanísticas ou ambientais ou defendendo abertamente tais interesses. Não foi nada surpreendente, portanto, que surgidas as primeiras notícias sobre o confronto no largoGlênio Peres, jornalistas da RBS já denunciassem os “vândalos” que estavam destruindo o boneco do Tatu Bola. Alguns deles se apressaram a associar ao episódio à destruição do relógio dos 500 Anos, durante o governo Olívio.

Mas voltemos ao paradoxo da reta final dessa eleição. Uma das razões possíveis pelas quais Fortunati transitou com relativa tranquilidade pela campanha eleitoral foi a não tematização dos assuntos citados acima pelas principais candidaturas da oposição. O vazio, na política, sempre cobra seu preço. Vazio, neste caso, causado por escolhas feitas pelos principais partidos de oposição. Escolhas, aliás, que não se limitam ao processo eleitoral. A crescente privatização de espaços públicos em Porto Alegre passeia também com relativa tranquilidade pela Câmara de Vereadores, com algumas honrosas exceções no PT e no PSOL, insuficientes porém para gerar um debate público na cidade.

Diante da fragilidade política dos partidos, as ruas começam a canalizar a insatisfação que vem se acumulando há alguns meses. Aí está o paradoxo. Fortunati poderá ser eleito neste domingo com uma fraca oposição partidária, mas já com uma forte oposição social nas ruas.

Cabe um registro ainda sobre a ação da Brigada Militar no episódio. Os vídeos que circularam durante todo o dia pela rede são suficientes para expor a violência desmedida por parte dos brigadianos. Mesmo diante de eventuais excessos por parte de alguns manifestantes, não há nenhuma justificação para as cenas que se vê, incluindo agressões contra quem estava filmando o episódio (o que, aliás, não é a primeira vez que acontece). Erra o governo do Estado ao não proferir nenhuma palavra crítica à ação da Brigada que, infelizmente, parece sempre pronta a demonstrações de força equivocadas, contra quem deveria proteger. Nos últimos anos, entre outras coisas, matou um sindicalista e um sem-terra aqui no Rio Grande do Sul em função dessa truculência. As fotos de quinta à noite mostram uma barreira de viaturas e policiais para defender o Tatu-Bola dos “vândalos”.

De fato, Porto Alegre vem sendo alvo de uma onda de vandalismo. Os espaços públicos da cidade estão sendo privatizados. A especulação imobiliária avança sobre áreas públicas e de preservação ambiental. A população mais pobre está sendo empurrada cada vez mais para a periferia. A criminalização das áreas frequentadas pela juventude é crescente. O maior grupo midiático da cidade defende abertamente a subordinação do interesse público aos interesses comerciais do setor imobiliário. E as chamadas forças de segurança estão aí para defender essa agenda e seus agentes públicos e privados. Mas as ruas começam a opor resistência aos vândalos e ela pode estar só começando.

Marco Aurélio Weissheimer é editor-chefe da Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)

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