Não à terceirização

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Gustavo Anitelli e suas experiências com o Fora do Eixo

agosto 13th, 2013 by mariafro
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Gustavo Anitelli

Em seu Facebook

10/08/2013

Pessoal, fiquei off estes dias todos e hj passei minha time line lendo uma série de denuncias e defesas da rede Fora do Eixo. Tenho amigos e colegas de ambos os lados e quero fazer uma contribuição sincera para esquerda e para o Fora do Eixo.

Conheci a organização a cerca de 5 anos atrás, na época em que eles atuavam exclusivamente na música, momento que nós do Teatro Mágico iniciávamos o movimento Música Pra Baixar. Tive um impacto grande com a organização da moçada, acordos e possibilidades de parcerias, mas as desavenças surgiram, o que é natural em qualquer lugar, o que as vezes me incomodava era o clima de guerra, faltava cultura política na minha opinião.

A partir de um certo momento me cansei do cenário político, a luta pela música livre foi ganha, não por nós mas pelo próprio mercado, passou a ser burrice para qualquer artista não liberar seu conteúdo na rede. Também me vi organizando palco para uma séria de bandas iniciantes apresentarem suas canções, vezes reproduzindo discursos do censo comum que reforçavam uma sociedade injusta e desigual, isso me desanimou, não queria gastar minha energia militante desta forma, o Fora do Eixo era de fato mais competente que nós para lidar com isso. Mergulhei numa profunda reflexão sobre minha atuação, o partido, o governo, me distanciei de alguns espaços de atuação política também por conta de meu mestrado e o cuidado com meu falecido irmão. Nesse meio tempo vi o Fora do Eixo crescer muito, crescer , crescer , crescer……acho que as críticas apontadas esta semana tem muito a ver com este fenômeno, quando eram somente uma iniciativa isolada, não detinham tanta importância para tantas criticas, mas quando se colocam de alguma forma como uma alternativa para o atual momento, daí surgem as cobranças, expectativa é a mãe do vai dar merda.

Eu nunca entendi muito bem a posição deles, me pareciam pragmáticos demais a uma certa altura, vi o Capilé em seu twitter pessoal a 3 anos atrás declarar voto na Dilma e no deputado federal do PSDB na época Mauro Mendes(um dos políticos mais ricos do país) , isso me deixou intrigado, mas a vinda deles a São Paulo mudou a atuação do grupo, que passou a assumir pautas mais políticas e uma aproximação forte com a campanha do Haddad, tendo importância na indicação do secretario da cultura e até mesmo de Rodrigo Savazoni (chefe de gabinete do Juca), que fez mestrado comigo na UFABC.

Até aí não vejo nenhum problema de ordem ética, é uma força política disputando espaço. No entanto, acredito que as críticas levantadas sejam relevantes para o crescimento da rede e também para a transparência destes gestores que se colocam claramente a favor do movimento. A postura da não aceitação dos apontamentos levantados revelam um problema de 2 ordens ; a) se recebem recursos públicos por serem uma rede, por trabalhar com a economia solidária, as pessoas tem o direito sim de saber se este investimento do estado esta sendo revertido para sua finalidade, a juventude sai as ruas por mais transparência no estado, na mídia, é natural cobrar o movimento, b) não são princípios de transformadores sociais a marginalização daqueles que defendem um outro ponto de vista. Chamar as pessoas de elite, rancorosas, invejosas, é só uma prova de que não aceitam qualquer forma de questionamento, e disso eu tenho muito medo.

As pessoas saem as ruas em julho também cansadas da velha política dos gabinetes, dos acordos as escuras, da falta de transparência, e portanto é de direito cobrar publicamente uma organização que se utiliza do discurso do novo, mas que para tanto não pode possuir a velha forma de se fazer política. A pauta institucionalizada do Fora do Eixo, dialogando com uma série de políticos de variados partidos causa desconfiança nas pessoas que já são descrentes destes velhos modelos, o que parece ser uma organização não partidária, torna se um grupo de todos os partidos, na medida em que estes possam trazer benefícios e recursos para a realização de suas atividades. Se até a Globo e os demais partidos são rechaçados pela falta de transparência, não é uma organização política com cara nova que vai ter o privilégio de passar desapercebida.

Percebo também que quem esta se colocando não é a Veja e o Capital que estão sendo desestruturados pela maneira anticapitalista, mas sim pessoas que já trabalharam com o pessoal, artistas, produtores, militantes, feministas, mulheres, gente de bem.

De qualquer modo, coloco aqui alguns questionamentos para que possamos refletir, e sem dúvida superar estas duvidas de modo que a rede continue. Afirmo que o Fora do Eixo também é importante para o desenvolvimento da cultura no país, tenho amigos lá dentro e nós enquanto Teatro Mágico já realizamos apresentações em parceria com coletivos provenientes do Fora do Eixo ( eventos nossos que convidamos o pessoal para contribuir na produção e receber financeiramente por isso).

Acho que transparência tem q ser o foco agora da rede, Capilé no Roda Viva relata alguns dados que sabemos que não são a realidade , quando afirma que vários artistas surgiram do Fora do Eixo como Criollo, Emicida ou GAby Amarantos. Ainda não conheço nenhum artista que tenha surgido a partir da rede do Fora do Eixo e consiga sobreviver para além desta. Esta falta de transparência serve para convencer gestores do investimento na rede como forma de desenvolver o mercado da música no Brasil, o que de fato não acontece.

Também é fato que muitos dos recursos são provenientes sim do financiamento do estado e de agencias internacionais e nisso não existe nenhum problema, mas é interessante que isso seja dito, senão da margem para as pessoas se sentirem enganadas.

Acho ainda que os espaços onde a rede se estabeleceu tem de possuir uma abertura na participação de outros agentes, para que não se monopolize uma visão de cultura ou não de margem para o contra ataque e assim crie esta cisão que parece existir hj de quem é pró e quem é contra o Fora do Eixo. A prefeitura de São Paulo é um exemplo, acredito que na próxima Virada Cultural, a curadoria tem que ser discutida publicamente, assim não precisa existir uma hegemonia do grupo Fde na escolha dos artistas para o evento mais importante da cidade.

Por fim, gostaria de fazer um apontamento pessoal de visão do mundo não só para os colegas do Fora do Eixo, mas para todos aqueles que acreditam numa atuação descompromissada com as pautas velhas e antigas da esquerda.

Se por um lado, os partidos se tornaram velhos e engessados, com sua direção já estabelecida nos sindicatos, prefeituras e demais entidades publicas, também não sou grande entusiasta das novas formas de fazer política, desprovidas de uma visão geral de mundo.
Para mim, não vale de nada a música livre, a internet livre ou mais verbas para cultura se continuarmos reproduzindo os valores de uma sociedade injusta, desigual e violenta. Não consigo entender a falta de compromisso de alguns ao se depararem com casos de violência contra a mulher, assedio moral entre outros. São elementos que jamais irei admitir e entendo que exista em todas as organizações, só não entendo a falta de combate das lideranças frente a estes casos. Num momento aonde os partidos de esquerda não são suficientes para dar respostas claras sobre as transformações do mundo, tão pouco a política do diálogo amplo, com qualquer partido, sem um compromisso geral seja uma alternativa . Nessa confusão de caminhos, as pessoas precisam assumir lado, e o meu é de uma sociedade igualitária, anti patriarcal, anti homofóbica , anti racista, anti capitalista.

Tenho muito rancor no meu coração porque as injustiças me deixam indignado, para tanto é o momento sim de assumirmos nossa posição no mundo, sermos companheiros das outras lutas que tentam salvar a juventude negra e periférica, as mulheres e os demais setores marginalizados e violentados nessa sociedade desigual e tão naturalmente aceita que é o Brasil.
abraços

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Tiago Pimentel: Os barões da mídia, os ninjas e os ninguéns…

agosto 13th, 2013 by mariafro
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Os barões da mídia, os ninjas e os ninguéns…
Tiago Pimentel, em seu Facebook

De pedra à vidraça, a guerrilha de memes voltou-se contra os guerrilheiros. Na mesma semana em que o Eixo Ninja dá um baile na velha (mas ainda grande) mídia, toma um baile das redes sociais.

Primeiro colocam em xeque o poder dos conglomerados de comunicação de representar os anseios da rua. Logo em seguida vêem o seu próprio papel de (novo) mediador colocado em questão.

A crise de representação parece ter fechado seu ciclo.

Já não se trata apenas da disputa entre ninjas e velhos barões da mídia.
Uma nova batalha agora parece ter lugar entre os “ninguéns” anônimos e aqueles que se coloquem como novos mediadores, aqueles que, de alguma forma, tentem apropriar-se das múltiplas forças da multidão anônima.

O que está em questão agora é que ninguém mais parece poder ‘representar’ os anseios das redes distribuídas, especialmente se isso significar a reinvenção de centros de mediação.

Fazer com que todos os anônimos se tornem ninjas parece ser o caminho para que todos os ninjas se tornem anônimos….

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Polêmica Fora do Eixo: a nota do coletivo

agosto 13th, 2013 by mariafro
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Ainda sobre o Fora do Eixo.

Nota do Fora do Eixo:

Pablo Capilé, em seu Facebook

Somos Fora do Eixo: Rede de coletivos abertos a sempre refletir e aprofundar nossas práticas

Nos últimos dias, a partir da entrevista concedida por Pablo Capilé e Bruno Torturra ao Roda Viva, o Fora do Eixo e a Mídia NINJA passaram a ser o epicentro de um debate nacional. Nossa existência e nossas ações, que já somam quase uma década de atuação no Brasil e na América Latina, foram questionadas e defendidas, principalmente nas redes sociais.

A partir dos relatos da cineasta Beatriz Seigner e da jornalista Laís Bellini, que apresentaram suas experiências de trabalho com a Rede, a revista Veja iniciou uma série de matérias que visam a nos atingir: só na última sexta-feira, dia 9, foram publicadas oito matérias através de seu veículo online e no sábado mais uma matéria a partir de seu veículo impresso.

Entendemos que aquilo que Beatriz e Laís relatam precisa de resposta. Ainda mais considerando o grande número de pessoas que compartilharam essas análises parciais de nossa experiência. Há outros lados nesse processo. Para que isso fique claro, apostamos no diálogo franco e transparente de posições e idéias. Sempre foi essa a nossa atitude.

Os integrantes dos coletivos que compõem a nossa rede se entregaram a uma ampla reflexão e auto crítica sobre os acontecimentos. A partir disso, produzimos, a muitas mãos, a carta a seguir:

1 – Sobre autoritarismo e seita religiosa

As diversas acusações sobre a presença de uma liderança autoritária são uma tentativa de caricaturizar, desqualificar e neutralizar um processo político. A Rede Fora do Eixo, como outros coletivos e organizações, é baseada tanto em dinâmicas horizontais quanto na valorização de diversas lideranças. Pablo Capilé é um dos fundadores e conceituadores do Fora do Eixo, que por sua vez é uma rede que possui lideranças em todos os seus coletivos.

As acusações nesse campo desqualificam os demais integrantes dos coletivos da rede e sua autonomia e dinâmicas próprias.

Causa estranhamento o fato da revista Veja cobrar da rede Fora do Eixo uma horizontalidade maior de sua organização, sendo que nem ela, nem a mídia tradicional brasileira, possuem um histórico de apoio a este tipo de articulação coletiva, descentralizada e horizontal, tampouco se enquadram nessas características.

Repudiamos também a tentativa de classificar as experiências das Casas como seitas religiosas, numa busca explícita de difamar o projeto. A criminalização de experiências dos coletivos e redes com princípios comunitaristas, prejudicam não só o Fora do Eixo mas todos que buscam alternativas concretas de colaboração fora dos padrões convencionais do mercado.

2 – Trabalho Escravo

Nenhum morador, colaborador, parceiro ou qualquer pessoa relacionada aos coletivos da rede jamais foi submetido a trabalho escravo. A adesão a qualquer atividade e/ou projeto da rede se dá de forma livre, consciente e esclarecida.

A formação cultural e as expertises desenvolvidas durante os trabalhos constituem capital simbólico que inclui contatos, redes de relação, conhecimento de territórios e novas ferramentas no campo das tecnologias sociais.
Qualquer um desses artistas, produtores ou gestores, ao saírem da dinâmica do Fora do Eixo, estão aptos a exercerem suas habilidades e vocações em uma carreira individual ou em outros coletivos, se assim desejarem.

É notório que, mesmo após uma semana de denúncias públicas e grande repercussão nas redes sociais e na imprensa, nenhum membro ativo, colaborador ou vivente decidiu se retirar da rede sob nenhuma prerrogativa.

3 – Sobre o Fora do Eixo Card

O Fora do Eixo Card é uma moeda complementar e não uma forma exclusiva de pagamento de salário ou remuneração. O Card é uma possibilidade de viabilizar as necessidades dos coletivos e seus integrantes a partir de trocas de serviços que não aconteceriam se dependessem exclusivamente de recursos em moeda corrente.

A moeda social, como é conhecida essa tecnologia, se norteia pelos princípios da Economia Solidária. Os empreendimentos envolvidos nesse tipo de relação podem fazer o uso dessas moedas para garantir seu sustento e desenvolvimento. O Fora do Eixo é composto de empreendimentos solidários que criaram suas próprias moedas sociais e são hoje conectadas pelo Card. O sistema considera o próprio trabalho e os produtos resultantes da sistematização dele na rede como fonte de renda e não de lucro.

O pagamento de alguns cachês tidos como “simbólicos” em Reais, ganham corpo considerável quando somados aos pagamentos em Card, ou seja, em serviços prestados, como divulgação, hospedagens, alimentação, transporte, internet, bebidas, produtos, assessorias, ensaios, produção, aluguel de equipamentos e tudo que é de fruição e uso do artista, produtor e empreendores da cultura em geral. O Card é uma solução para compensar a lacuna da remuneração escassa em Reais vivida no cenário cultural independente brasileiro. Muitos shows foram e serão pagos em Reais, não só provenientes de recursos públicos como de recursos privados.

O Card é uma possibilidade oferecida, sem qualquer obrigação de ser aceito. Todas as negociações em Card são acompanhadas e reportadas através do e-mail card@foradoeixo.org.br

4 – Relação com partidos políticos e campanhas eleitorais

A rede Fora do Eixo não possui filiação nem alinhamento compulsório a qualquer partido político. Nossa posição se constitui na cultura de criação de espaços de diálogos abertos e transparentes, divulgados em redes sociais e transmitidos ao vivo sempre que possível.

Cada integrante de coletivo ou morador de Casa Fora do Eixo tem liberdade completa de fazer suas próprias escolhas partidárias, tanto em processos eleitorais, quanto no dia a dia. Neste sentido, as confluências com partidos e movimentos se dão a partir das pautas e lutas que a rede pode aderir.

Respeitamos o processo democrático e não apoiamos nenhuma tentativa de criminalizar o fazer político, assim como repudiamos a inibição de militantes partidários em sua livre manifestação pública.

5 – Sobre recursos públicos

O Fora do Eixo acessa recursos públicos disponíveis através de editais e concursos, nunca executamos nenhum convênio ou termo de parceria direto com o governo federal. Todo o recurso captado junto ao poder público é apresentado aos órgãos financiadores através de relatórios regulares e prestações de contas tal como demanda a Lei.

Desde os primórdios da Rede Fora do Eixo defendemos e acreditamos que Políticas Públicas para a Cultura, Comunicação, Juventude, Meio ambiente e Direitos Humanos são fundamentais para um processo mais justo de desenvolvimento do país. O atual debate, criminaliza o uso de recurso público, prejudicando o avanço do empoderamento da sociedade civil em sua atuação nesses campos.

Estamos lançando o portal de transparência da Rede Fora do Eixo, dando início às publicações de documentos comprobatórios referentes à utilização de recursos públicos, privados e solidários pela rede.

6 – O Caso Beatriz Seigner I

A Rede Fora do Eixo é um ambiente de produção colaborativa e compartilhada. Não é uma empresa e por isso não se baseia numa prestação de serviço comercial de distribuição. Construímos uma dinâmica de compartilhamento e troca e estimulamos a circulação de produtos culturais a partir das pessoas e espaços conectados à rede.

O diálogo com a cineasta Beatriz Seigner tinha como objetivo estabelecer uma relação em que a Rede Fora do Eixo ativaria suas conexões para divulgar e exibir seu filme em espaços alternativos.

Realizamos as tarefas e serviços necessários para a promoção e distribuição do filme nos pontos de exibição. Telefonemas, produção local para exibição, articulação com cineastas, assessoria de imprensa, produção de peças publicitárias, divulgação das exibições e traslados foram algumas das tarefas executadas para cumprir o compromisso com Beatriz Seigner.

Esses serviços, que seriam normalmente computados em Reais no mercado tradicional, são sistematizados no Fora do Eixo como cards, e fazem parte da troca negociada com a cineasta no primeiro momento. Nunca foi prometido a Beatriz que os cards seriam entregues como pagamento ou cachê. Como já foi dito os cards correspondem aos serviços que foram prestados e investidos pela rede para fazer o filme circular.

O investimento realizado pelo Fora do Eixo na difusão do filme “Bollywood Dreams” teria custo superior a R$100.000,00 se fosse calculado e cobrado por uma empresa comum. A proposta de aplicar a marca do Fora do Eixo em seu filme se deu a partir de nossa compreensão dessa troca. Beatriz não aceitou, cobrando da rede sua cota mínima de patrocínio de R$50.000,00 em moeda corrente. Mesmo com sua recusa, entendemos que era importante realizar o investimento para fortalecer nossa parceria e fomentar o audiovisual independente.

A Revista Veja fala em “estelionato” – obtenção de vantagem, causando prejuízo a outrem; utilizando um ardil, induzindo alguém a erro – quando o fato é que se tratou de um acordo baseado em trocas de serviço.

O filme de Beatriz circulou, através do Fora do Eixo, em 35 cidades, com 40 exibições computadas, alcançando o público de 1463 pessoas.

No link abaixo está disponível o balanço financeiro e outras informações sobre a circulação do longa-metragem Bolywood Dreams no projeto Compacto.Cine:

http://bit.ly/14Hl9Vp

7. Caso Beatriz II – SESC

As duas sessões realizadas em unidades do Sesc, que contavam com pagamento de cachê para o realizador, estavam inseridas dentro de um circuito de 11 exibições que aconteceram com a presença da diretora, que viajou em uma turnê, dentre todas as datas, essas eram as únicas com remuneração direta.

Todo o valor dos cachês foram gastos com os custos da própria circulação e alimentação da cineasta, garantindo que Beatriz Seigner exibiria presencialmente o filme em 11 cidades sem nenhum custo. Esse era o nosso único acordo inicial e foi devidamente cumprido.

8. Caso Beatriz III – “O Desrepeito à arte e aos artistas.”

O Fora do Eixo valoriza os artistas e defende sua remuneração quando trabalham dentro da lógica de mercado. A rede, no entanto, se baseia por uma outra lógica: a construção de redes e circuitos alternativos com base na economia das trocas, moedas complementares e troca de serviços.

As críticas de Beatriz Seigner vão na direção oposta ao modo como as novas gerações e os grupos alternativos se colocam frente à ideia de cultura, valorizando seu aspecto informal e cotidiano, não como produto simplesmente, mas como modo de ver e estar no mundo. Assim como acontece em diversos grupos e redes como os Pontos de Cultura, Povos Indígenas, Povos de Terreiros, Griôs, etc.

As criticas de Beatriz Seigner podem dar a interpretar a existência de um mundo dividido entre alta e baixa cultura, que trata a arte como tema exclusivo para especialistas. Não são esses os princípios da cultura de rede e de nosso entendimento. Compreendemos que a formação cultural se dá também no cotidiano das casas, com exibição de filmes, debates, vivências, leitura individual e coletiva de textos e livros, filmes e músicas baixados e vistos diretamente pela internet.

Quando questiona o fato dos participantes do Fora do Eixo não assinarem suas produções e realizações artísticas reduz o entendimento de criação a uma ideia individualista de autoria. O Fora do Eixo não trabalha com esses parâmetros e toda sua produção é assinada coletivamente, como acontece com diversos outros coletivos de arte e cultura. Trata-se de uma compreensão comunitarista, que estimula a valoração do trabalho e esforço coletivos na produção de obras e produtos culturais.

Nunca negamos a condição de artista a nenhum participante do Fora do Eixo e nunca houve nenhuma espécie de política da rede no sentido de coibir práticas do campo artístico. Pelo contrário, nos últimos anos diversos talentos emergiram das estruturas da rede de forma espontânea e conectada com nossas ações e lutas. Fotógrafos, videomakers, designers, ilustradores, músicos, Djs, iluminadores, rappers e dançarinos moram em Casas Fora do Eixo e incidem diretamente em nossas atividades.

O Fora do Eixo atua como alternativa à deficiência estrutural nos sistemas de distribuição da cultura brasileira, que não permite a circulação e fruição dos processos e produtos de maneira igualitária.

Entendemos, como rede, que é preciso fortalecer os canais de distribuição dos bens culturais nas pontas e circular suas produções, ou seja, que se torne possível aos coletivos e organizações das pequenas cidades usufruir do que é produzido no país, assim como criar e produzir novas experiências que possam também circular nos diversos territórios. Valorizamos a experimentação nas artes e na cultura e estimulamos a ampliação de repertórios e formação artística e cultural.

9 – Sobre o caso Laís Belini

É importante esclarecer que a experiência da Laís Bellini como moradora da Casa Fora do Eixo São Paulo foi de cerca de 3 meses e não de 9 meses, conforme noticiado pela Revista Veja. O restante do tempo se passou no coletivo Enxame, de Bauru, ao qual ela não dirige nenhuma de suas acusações. É comum que alguns jovens – a partir de expectativas conceituais – tenham dificuldades de se adaptar ao ambiente coletivo e fiquem desiludidos com a convivência na prática.

A informalidade e as conversas francas podem ter contribuído para que eventuais situações e comportamentos individuais, num ambiente livre e aberto, sejam lidos de forma equivocada como regra ou comportamento do grupo.

Lamentamos a experiência de Laís e a de qualquer outra pessoa que tenha vivido algo semelhante em nossa rede. Ao refletirmos e exercitarmos a autocrítica, entendemos a importância de aperfeiçoar os mecanismos de vivência e de afastamento do Fora do Eixo.

Trabalhamos diáriamente para que situações como a dela não ocorram, o protagonismo de cada indivíduo sempre foi um farol a guiar nossas ações.

10 – Relações afetivas

Os integrantes dos coletivos da rede Fora do Eixo não fazem uso de nenhum tipo de manipulação sexual a qualquer pessoa. Não há qualquer tipo de restrição às diversas formas de relações, independente de gêneros, que as pessoas estabelecem dentro ou fora da rede. Existe amor livre, monogâmico, entre gays, héteros e bissexuais, ou seja, são múltiplas visões sobre o tema dentro dos coletivos. Não há posições institucionais sobre isso.

Lamentamos se no decorrer de nossa trajetória e construções possamos ter soado frios ou menos humanos de qualquer maneira. Nosso vigor e capacidade produtiva se baseiam em um profundo sentimento de amor e de transformação da realidade, transcendendo algumas vezes as relações pessoais em prol de uma visão mais ampla da sociedade. Não nos interessa aqui justificar qualquer ação relatada, mas nos expor enquanto indivíduos e coletivos abertos a sempre refletir e aprofundar nossas práticas através do debate e da absorção das críticas do maior número de pessoas possíveis.

11 – Considerações Finais

Essa carta foi escrita durante dias, a partir de uma ampla discussão e reflexão sobre os mais variados temas, com ampla participação de integrantes dos coletivos. Estamos abertos a quaisquer outras perguntas, dúvidas, críticas e sugestões.

Nesse tempo diversos depoimentos de participantes do Fora do Eixo foram lançados na rede, participamos de entrevistas e estamos lançando o portal de transparência da rede.

Temos consciência que o debate sempre marcou nossas relações na busca pela coerência entre o discurso e a prática. Buscamos encarar as críticas como combustível para nossas reflexões e incentivo à reinvenção diária à que nos dispomos. Estamos em processo e temos consciência das dores e das delícias à que estamos expostos.

Consensuamos também que se a engenharia de informações da rede estivesse melhor arquitetada, parte das dúvidas já estariam sanadas.

Esperamos que esses episódios possam contribuir para a inteligência coletiva social, tão cara num país ainda tão profundamente marcado por desigualdades, preconceitos e medo.

Estamos à disposição para dar continuidade aos debates e outros esclarecimentos necessários. As Casas Fora do Eixo e coletivos estão abertos para pesquisa, vivência, ouvidorias, ou o que mais for desejado.

Para outras informações: contato@foradoeixo.org.br

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Dríade Aguiar para Beatriz Seigner: Que tal debater comigo que sou apenas uma escrava pós-moderna?

agosto 13th, 2013 by mariafro
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Não vou ficar nenhum pouco surpresa se a cineasta resolver processar Dríade por calúnia e difamação, porque né, é muita petulância da “escrava pós-moderna” questionar um relato autorreferenciado vendido como ‘provas’ contra Capilé, o líder da seita demoníaca Fora do Eixo.

Publico também a Dríade e linko o texto de Beatriz, porque tenho CERTEZA que o texto da ‘escrava negra pós-moderna’ não vai ser republicado pelo Tio Rei, assim como as 8 matérias que Veja fez sobre a debateria.

Eu sou uma das escravas do Fora do Eixo

Por: Dríade Aguiar, Facebook

Você que vai ler este texto provavelmente não me conhece. Eu sou a Dríade Aguiar e tenho 23 anos. Sou negra e nasci na periferia de Cuiabá. Hoje moro na Casa de Brasília, vivendo o Fora do Eixo, grupo ao qual pertenço desde os 16. Por dois anos morei na Casa de São Paulo, onde conheci e convivi por quase um ano com a Beatriz Seigner. A quem eu já tive como uma amiga.

Faz vários dias que estou escrevendo este texto. E pensando se devo ou não publicá-lo. Depois de tudo que tenho visto nos últimos dias, decidi que não vou ficar mais com essa angústia guardada só pra mim.

Eu sou uma das escravas do Fora do Eixo. A Beatriz não, ela é alta, branca, bonita e vem de uma família de elite. Por isso ela pode escolher. Ela sabe o que quer. E por isso pode dizer que eu sou apenas uma escrava que segue ordens de um líder de uma seita. Por isso talvez em breve ela apareça na capa da Veja, como a moça corajosa que denunciou os bárbaros do Fora do Eixo. E salvou os escravos que agora poderão ser seus assalariados, no máximo assistentes de sua direção.

Tô impressionada como algumas pessoas passaram a nos atacar a partir de um relato repleto de invenções fraudulentas de alguém que eu ja achei que foi parceira. De alguém com quem trabalhei lado a lado por quase um ano de graça, sem receber nada dela, fazendo planos de comunicação pra divulgar seu filme e ajudando a agendar exibições. E ao mesmo tempo, quando ela ficava tempo o suficiente perto, dividindo pensamentos, ouvindo música, fazendo rango e planejando junto.

A Beatriz entrava na nossa casa na hora que bem entendia. E ficava o quanto desejava. Quem conhece nossas moradias coletivas sabem que elas são abertas, que tem sempre um monte de gente nelas. Que todos podem entrar e sair a qualquer momento.

Aliás, a Beatriz não fala no texto dela, mas ela teve uma relação com um dos moradores. Não era um namoro, era um outro status, mas teve. E agora ela e a Laís vêm dizer que quem mora na casa do Fora do Eixo só pode ficar com quem é de lá. Como assim? Ela não era da casa e ficava com um morador de lá. Mas isso não interessava dizer. O que importavam era nos transformar em monstros.

Como alguém pode ter guardado tanta mágoa e não se incomodar nem um pouco em mentir loucamente pra acabar com um projeto? Um projeto de vida. Sim, eu vivo no Fora do Eixo porque eu quero, porque gosto, porque tenho feito coisas que nunca faria se não estivesse nele.

Já li muitas vezes o seu texto Beatriz. Umas quinze, vinte vezes. E sempre paro no ponto onde você nos chama de escravos pós-modernos. Se alguém escravizou alguém nessa história foi você. Eu investi minha força de trabalho, trabalhei pra você sem cobrar nada pensando que éramos parceiras, que estava construindo algo pro cinema e pros cineclubes brasileiros.

Você tem coragem de dizer na minha cara que eu não dei um duro danado para divulgar o seu trabalho? Tem coragem de dizer na minha cara que não éramos parceiras? Tem coragem de dizer na minha cara que eu não fiz um plano de comunicação que levou o seu filme a ser exibido em lugares que ele nunca iria passar nem perto?

Eu adoraria poder te dizer um monte de coisas frente a frente. Se você é tão corajosa assim pra nos difamar, pra nos chamar de escravos, porque você não aceita um debate franco sobre o nosso projeto de cultura? Porque não expõe de forma clara sua lógica financista de cultura? Porque não diz claramente que se acha artista e que por isso tem que ganhar muito mais que eu pra manter seu status quo?

Beatriz, você poderia ser mais honesta. Poderia dizer que tudo que você decidiu “denunciar” não tem a ver só com o que fazemos ou com o que você diverge das nossas propostas. Tem a ver com outras questões subjetivas. E você misturou tudo pra tentar acabar com um projeto.

Você está sendo mimada e egoísta, Beatriz. Pense nisso. E como você tá dizendo que não debate com o Pablo, que tal debater comigo? Que sou apenas uma escrava. Uma escrava pós-moderna.

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