Maria Frô

ativismo é por aqui

Maria Frô header image 4

Pepe Escobar: O Amado Líder e o Oleodutostão

setembro 5th, 2011 by mariafro
Respond

Vila Vudu que fez a tradução pergunta: que “Lei das Comunicações” conseguirá superar o insuperável problema da IGNORÂNCIA dos jornais e jornalistas brasileiros?!

O Amado Líder e o Oleodutostão
Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
5/9/2011

Dado que o mundo – e as manchetes dos noticiários – só tinham olhos para a guerra “humanitária” contra a Líbia, poucos perceberam quando um senhor, de 69 anos, de túnica à Mao Tse Tung e óculos escuros, desembarcou de um Mercedes preto, blindado, no fundo do fundo da Sibéria.

Nosso personagem é, claro, o inimitável Amado Líder da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) [ing. Democratic People’s Republic of Korea (DPRK)], Kim Jong-Il. Conhecido por detestar aviões, Kim viajou pela tundra no mais esplendoroso estilo Velho Mundo, em carro que seu pai, fundador da RPDC, ganhou de presente de ninguém menos que Joseph Stálin.

Ano passado, na Coreia do Norte, vi o carro – e, sim, é perfeita obra prima dos anos 1950s; mas agora, segundo a Agência Interfax, “foi reformado com requinte”, o que inclui conexão permanente com o mundo, por internet e telas de plasma, daquelas fininhas, em lugar das Sony Trinitrons démodées.

O Amado Líder rodou até Sosnovy Bor (“Floresta de Pinheiros”), base militar, 50 km a leste da capital da República de Buryatia, Ulan-Ude, na Sibéria oriental, junto ao Lago Baikal, sem sorrir. Acabava de fazer, segundo a duvidosa expressão da Associated Press, “uma fun trip”; não há dúvida de que não se serviu desse americanismo para dizer o que disse, em coreano, aos seus anfitriões russos.

Mas, ao deixar Sosnovy Bor depois de reunir-se com o presidente da Rússia Dmitry Medvedev, o Amado Líder, certamente estava de bom humor.

Acabava de oferecer a Medvedev um saco de doces: luz verde para o gambito[1] de um grande Oleodutostão transcoreano, uma moratória na produção e teste de armas nucleares e a promessa de reiniciar conversações nucleares “sem condições”.

Claro que persiste uma questão incômoda. O destino de Muammar Gaddafi foi selado quando renunciou, em 2003, ao seu programa nuclear – seguindo os conselhos de seus arrogantes filhos europeizados – e entregou a sobrevivência de seu regime nas mãos da OTAN.

Nem o Espírito Santo em pessoa conseguiria convencer o Amado Líder a seguir o mesmo caminho e livrar-se de seu arsenal nuclear, Mas essa é outra história.

Gás ou plutônio?

Medvedev adorou – e como não adoraria? – o encontro (as conversações foram “abertas” e “substantivas”). Quanto ao imperscrutável Kim, ia feliz da vida, exultante: que grande jogador tático ainda é!

A Coreia do Norte ainda deve $11bn à Rússia, restos da era soviética. Medvedev deve ter ficado tão excitado, que ninguém nem falou sobre isso. Pelo sim, pelo não, já a partir do início de agosto, a Rússia estará embarcando 50 mil toneladas de grãos para a Coreia, por mês, para combater a fome. A RPDC não tem meios – por enquanto – para pagar as dívidas.

Exportar gás siberiano através da península coreana é situação de ganha-ganha. É ideia que está no ar há pelo menos vinte anos.

O falecido Chung Ju-yung, fundador da Hyundai (nascido, aliás, no norte), foi o primeiro a testar essas águas quando visitou a Coreia do Norte em 1989. Mas estava anos-luz à frente de seu tempo.

O problema é que o ódio mútuo entre as duas Coreias aumentou exponencialmente nesses últimos anos. Além disso, o encontro Kim-Medvedev nem bem havia acabado, e já apareceram os suspeitos de sempre, cabeça-de-Guerra Fria, com a mesma velha conversa sobre a “inaceitável” alavancagem comandada pela dinastia Kim.

Ainda assim, o gambito do Oleodutostão é, com certeza, abordagem mais inteligente, que prender o Amado Líder contra as cordas, como animal ferido, e, por isso mesmo, dar-lhe espaço mais do que suficiente para jogar com plutônio suficiente para pelo menos seis bombas e a possibilidade de montar uma bomba nuclear num míssil Taepodong de longo alcance.

O subtexto também é fascinante. Medvedev pode ter usado a Coreia do Norte para mandar uma mensagem à China, pressionando Pequim a finalizar suas próprias negociações de gás para dois gasodutos que partem da Rússia.

Esses dois gasodutos não são exatamente alta prioridade para a China, se se considera que a China confia nas vastas quantidades de gás que importa do Irã e da Ásia Central.

Mas os gasodutos são, sim, prioridade, como parte da blitzkrieg da Gazprom pelo Oleodutostão da Ásia: apostar num mercado em inacreditável expansão, se comparado aos infinitamente problemáticos, além de estagnados, mercados europeus.

Imediatamente depois do encontro Kim-Medvedev, Pequim anunciou que, até 2015, planeja construir 7.000 km extra do Gasodutostão da Ásia Central, com o que estará dobrando suas importações de gás.

Isso significa que a China estará importando 60 bilhões de metros cúbicos de gás ao ano da Ásia Central – praticamente a mesma quantidade que a Rússia havia oferecido como fornecimento pelos dois gasodutos.

Quanto ao mapa do caminho

O atual mapa do caminho é alguma coisa o seguinte.

A China de fato está competindo diretamente com os EUA, pelo título de maior economia do mundo.

A Rússia, antes de tudo, precisa impulsionar a própria economia, diversificando as exportações de energia. Se a Rússia liga a ferrovia Trans-siberiana às duas Coreias, impulsiona a economia de suas áreas do extremo oriente.

Para vender gás e óleo à voraz Coreia do Sul, é imperativo que algum óleo-gasoduto russo atravesse a Coreia do Norte.

A Coreia do Sul, fortemente industrializada, importa todo o óleo que consome; é o 5º maior importador do planeta, e o 2º maior de gás natural liquefeito (LNG), atrás só do Japão. A Coreia do Sul não tem qualquer conexão com o Gas-oleodutostão: tudo chega em super navios-tanques.

A Coreia do Norte pode receber mais de $500m por ano, em taxas de trânsito só do gás, pelo gasoduto. Além dos 1.100 km do gasoduto – incluídos os 700 km na Coreia do Norte – pode combinar um negócio crucial, de eletricidade, com os russos, aumentando a grade energética da RPDC para suas indústrias. E o fato de que a RPDC também diversifica e diminui sua dependência da China também ajuda.

Politicamente, a China apóia o Norte. Os EUA apóiam o Sul. A Rússia apóia os dois.

Assim sendo, deem boas vindas a uma nova “sunshine policy”[2] com legendas em russo – e Moscou no papel de pacificadora.

Timing impecável

Até Pequim, pelo que já transpirou, parece ter gostado da coisa toda – já se ouvem comentários vazados, de que é o fim da Guerra Fria e Pequim e Moscou precisam trabalhar juntas e coordenar ações na Coreia do Norte.

Para Kim, que detesta aviões, sair de Pyongyang sempre só significou três possibilidades. Para o sul, rumo a Seul: não, ainda não. Para a China: nos últimos tempos lá esteve três vezes. Restava, agora, a Rússia, rumo nordeste. E ele partiu para lá.

O Amado Líder deveria ter aproveitado para visitar Skovorodino, seria útil. É o ponto de partida de um oleoduto de 1.000 km rumo à China e à costa russa no Pacífico. Optou por uma rota de contorno.

Seja como for, seu sentido de timing e de oportunidade foi simplesmente espantoso. Pequim tinha certeza de ser a única apoiadora certificada de Pyongyang. Até que o Amado Líder fez todos os jogadores lembrarem que ele é muito, muito bom, na arte de jogar uma super ou média potência, contra outra.

A RPDC continua, é claro, hiperparanoica, em tudo quanto tenha a ver com influências vindas da suspeita, corrupta, “gangue-fantoche” capitalista ocidentalizante da Coreia do Sul.

Mas no que tenha a ver com um óleo-gasoduto pancoreano – e fornecimento de energia – está OK. Como observou Aidan Forster-Carter, especialista em Coreia do Norte, “tudo que Pyongyang tem de fazer é sentar e recolher um gordo aluguel. Ou, se sentir-se entediada, fechar a torneira, de vez em quando – só para dar umas risadas”.[3]

A Coreia do Norte está, de fato, obcecada com 2012. Serão os 100 anos de nascimento de Kim Il-Sung. Estabelecer bom relacionamento com Rússia e China será como conquistar a Copa do Mundo das “relações públicas”.

Hoje, a bola está no campo do Sul. Também haverá eleições na Coreia do Sul em 2012. O presidente Lee Myung-bak é pato manco: não pode concorrer à reeleição e, além disso, sua política ‘linha-dura’ contra o Norte fracassou miseravelmente.

Significa que o novo homem em Seul terá de tentar algum tipo de apaziguamento. Encontrará, à mão, como apaziguador-mór, o gasoduto pancoreano. Aviso de amigo, a todos os Amado-Liderólogos: não se metam a jogar pôquer com ele.

______________

[1] “Gambito”. Manobra, no jogo de xadrez, em que se sacrifica uma peça, para adquirir vantagem de posição, romper a posição central do adversário ou organizar um ataque mais rápido ou eficiente (Houaiss) [NTs].

[2] A Sunshine Policy [aprox. “política do raio de sol”] foi a política exterior da Coreia do Sul, para a Coreia do Norte, até a eleição de Lee Myung-bak à presidência, em 2008. Foi articulada em 1998 pelo então presidente da Coreia do Sul Kim Dae Jung e resultou em maior contato político entre as duas Coreias, com alguns eventos históricos para toda a península. As duas Coreias realizaram reuniões em Pyongyang (em junho de 2000), que abriram caminho para vários negócios importantes, e houve rápidos encontros entre famílias coreanas separadas. Em 2000, Kim Dae Jung recebeu o Prêmio Nobel da Paz, pelos resultados obtidos de sua “Sunshine Policy” [NTs, com informações de Wikipedia, onde se encontram mais detalhes].

[3] 26/8/2011, Aidan Foster-Carter, “Kim Jong-il: Tactical genius”, Asia Times Online, em inglês.

_______
Publicidade



Tags:   · · · · · · · · 1 Comment

Marcos Coimbra: A imprensa tratou a queda de juros como se Banco Central tivesse cometido um crime

setembro 4th, 2011 by mariafro
Respond

Política e política econômica
*Marcos Coimbra, Correio Braziliense, via Clipping Planejamento
04/09/2011

“O bê-á-bá da economia ensina que ela, como todas as políticas públicas, é um exercício de escolhas. Ninguém consegue dizer, com segurança, o que é melhor, a cada momento, para um país”

Foi com surpresa que o mercado reagiu à decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros em 0,5%, na reunião do Comitê de Política Monetária realizada na quarta-feira. Na grande imprensa, mais que surpresa, houve estupefação. Parece que todos tinham absoluta certeza de que a taxa seria mantida em 12,5% até, pelo menos, a reunião marcada para setembro.

Não foi a primeira vez e, certamente, não será a última que o mercado aposta em uma coisa e acontece outra. Faz parte de sua natureza tentar antecipar eventos futuros, para obter o melhor resultado possível. Por mais competentes que sejam seus analistas, no entanto, isso não funciona em 100% dos casos. Iria longe quem procurasse contabilizar as situações em que foram incapazes de adivinhar o que ia ocorrer.

Aliás, nos bancos e consultorias, ninguém deve ter sido demitido por não ter conseguido imaginar que o BC traria a taxa de 12,5% para 12%. Ou que o fizesse agora e não daqui a um mês. Se a decisão representasse uma mudança extraordinária, não detectada pelos profissionais, talvez rolassem cabeças. Do jeito que foi, nenhum incompetente precisou ser mandado embora.

Na imprensa, a decisão foi tratada quase como se o BC tivesse cometido um crime. Ao noticiá-la, os jornais paulistas e cariocas usaram expressões normalmente reservadas às páginas policiais: “BC alega crise …”, “Por mais que tente se explicar….”, “BC tenta justificar…”. Não é assim que se fala de alguém flagrado em atitude suspeita?

O curioso nas reações da mídia é que elas parecem dizer que só existe uma maneira de fazer política econômica. Que ela a conhece e o governo não. Que, em Brasília, todos são cegos.

É no primeiro ano de escola que se aprende não existirem certezas na política econômica.

O bê-á-bá da economia ensina que ela, como todas as políticas públicas, é um exercício de escolhas. Ninguém consegue dizer, com segurança, o que é melhor, a cada momento, para um país. Não existe uma só resposta, pois não há um diagnóstico consensual sobre o que atrapalha e o que auxilia uma economia da complexidade da brasileira a crescer e se manter próspera.

Depois de ter passado os últimos anos se queixando da política de juros altos praticada pelo BC, nossos comentaristas não hesitaram em criticar a redução, usando o argumento de que a hora é inadequada.

Lembram os que, na época do “milagre econômico”, diziam concordar com a distribuição de renda, mas só “depois de o bolo crescer”. Enquanto isso, os pobres que esperassem. Seria como os juros: devem cair, mas só depois de a inflação ser controlada.

O problema nesse raciocínio é que, talvez, o único caminho para chegar à efetiva redução seja fazer a redução (à semelhança do crescimento, que só veio depois de começar a distribuição de renda). Não são poucos os economistas que pensam dessa maneira.

Salvo alguns “profissionais do mercado”, o país reagiu bem à decisão. O Brasil real não entrou em estado de choque após o anúncio.

Os principais políticos da oposição preferiram não se manifestar. Seria estranho vê-los defendendo a manutenção dos juros nos patamares atuais, tendo-os chamado (com razão) de estratosféricos. Por isso, apenas escalaram o líder do PSDB na Câmara para uma declaração ex officio.

Empresários e sindicalistas, quase unanimemente, mostram-se a favor. Os consumidores vão agradecer. Os investidores na bolsa gostaram.

O que foi resolvido poderia ter sido adotado se Armínio Fraga, ex-presidente do BC no governo FHC, ainda estivesse lá. Semana passada, ele havia elogiado o que chamou “melhora no mix da política macroeconômica” do governo Dilma: abrir espaço para fazer os juros caírem por meio do controle de despesas públicas, sem se limitar à ortodoxia anti-inflacionária.

Não parece haver motivo para descrer da autonomia do BC quando ele tomou a decisão, embora seja óbvio que a redução era um desejo (há muito anunciado) da presidente. Ou a única forma de ser livre era manter os juros onde estavam?

Não autônomo ele seria se continuasse preso a uma receita de política econômica que só “o mercado” (com seus porta-vozes) recomenda para o país.

*Marcos Coimbra é Sociólogo e Presidente do Instituto Vox Populi

Tags: 1 Comment

Emir Sader: Como principal partido da esquerda brasileira, qual a função do PT no período político que se abre?

setembro 3rd, 2011 by mariafro
Respond

E agora, PT?

Por: Emir Sader, em seu blog

03/09/2011

O PT realizou os objetivos a que se propunha quando se fundou como partido: elegeu e reelegeu seu principal dirigente, Lula, como presidente e elegeu sua sucessora. Conseguiu recolher o Brasil numa profunda recessão, com as desigualdades acentuadas na sociedade um Estado reduzido à sua mínima expressão, o perfil internacional reduzido à sua mínima expressão. Chegou ao final do governo Lula com a diminuição sensível das desigualdades, com o desenvolvimento econômico retomado, o Estado recuperando seu papel de indutor do crescimento econômico e se projetando como nunca no plano internacional com uma política externa soberana.

Tudo foi feito no marco de um governo de alianças de centro esquerda, sem poder alterar elementos estruturais herdados, como a hegemonia do capital especulativo, o peso determinante do agronegócio no campo, a ditadura da mídia privada na formação da opinião pública, entre outros.
Como principal partido da esquerda brasileira, qual sua função no período político que se abre?

Como partido de esquerda, sua função essencial é lutar pela hegemonia da esquerda no marco dessas alianças de governo. Mas o que isso significa?

Parece haver um consenso geral no PT em torno de iniciativas importantes, como a diminuição substancial da taxa de juros, a aprovação de uma reforma política que inclua o financiamento público das campanhas e outras iniciativas democratizantes, a aprovação da Comissão da Verdade, a rejeição das reformas do Código Florestal com a anistia para o desmatamento, a aprovação do marco regulatório da mídia. Representa um conjunto importante de posições.

Mas qual o marco estratégico geral pelo qual lutamos? Qual o tipo de sociedade pela qual lutamos? Que tipo de Estado necessitamos para isso?

A característica fundamental do mundo contemporâneo é a hegemonia do modelo neoliberal no marco do capitalismo. Esse modelo transformou profundamente nossas sociedades. A América Latina foi vítima privilegiada desse modelo. Depois de ditaduras militares que quebraram a capacidade de resistência do movimento popular em alguns dos principais países do continente, da crise da dívida que atingiu a todo o continente, vieram os governos neoliberais que se generalizaram praticamente por toda a região.

As transformações regressivas acumuladas incluíram a fragmentação social, em particular do mundo do trabalho; a redução do Estado a suas mínimas proporções; a desproteção dos mercados internos; a desnacionalização das economias, entre outras. Porém o modelo neoliberal se esgotou de forma mais ou menos rápida. A crise mexicana de 1994, a brasileira de 1999 e a argentina de 2002-03, decretaram sua falência. Foi nesse marco que foram surgindo os governos de reação contra o neoliberalismo, que receberam, no entanto, pesadas heranças.

O neoliberalismo tratou de mercantilizar todas as relações sociais, incluindo o próprio Estado. O objetivo da esquerda hoje é superar o neoliberalismo, gerando as condições de uma sociedade solidária, integrada, democrática, soberana, uma sociedade pós-neoliberal.

A avaliação do período atual, do momento em que nos encontramos e das tarefas de um partido de esquerda decorrem da avaliação de quanto avançamos na superação do neoliberalismo, das conquistas, que são pontos de apoio para avançar, e dos obstáculos a superar.

Um elemento estratégico do modelo neoliberal é a hegemonia do capital financeiro. Ao promover a desregulamentação, o neoliberalismo favoreceu essa hegemonia, porque liberado de regulamentações, o capital não se dirigiu à produção – o capital não é feito para produzir, mas para acumular, já nos ensinava Marx -, mas à especulação, onde ganha mais, com menos impostos e liquidez praticamente total.

Quebrar essa hegemonia e impor uma dinâmica predominante de crescimento econômico com expansão do mercado interno de consumo popular, com a correspondente distribuição de renda é um objetivo estratégico da luta da esquerda hoje. O capital especulativo não produz bens, nem empregos, é essencialmente um capital parasitário, que vive as custas dos outros setores, fragiliza a soberania do Estado, chantageia a sociedade, induz os piores aspectos da globalização para dentro do país.

Combinar regulamentação da circulação do capital financeiro com taxações e uso de outros mecanismos é a forma de obter esse objetivo, ao lado da indução da expansão produtiva e do crescente fortalecimento das demandas do mercado interno de consumo popular. A obtenção da taxa de juros de 2% ao final do mandato – compromisso da Dilma – será o termômetro para medir o quanto avançamos nessa direção essencial.

O poder do agronegócio no campo, com todas suas consequências negativas em termos de concentração de terras, da sua deterioração, em detrimento da economia familiar, que produz alimentos para o mercado interno e gera empregos é outro dos elementos de um modelo que tem que ser superado. O que significa avançar na democratização do acesso à terra e de apoio à economia familiar em ritmo maior do que a demanda chinesa pela exportação da soja.

O marco regulatório da mídia pode permitir no avanço para a formação democrática – e não a monopólica atualmente existente – da opinião pública, sem a qual nunca haverá uma democracia real no Brasil.

Esses aspectos são alguns dos que representam superar o processo de mercantilização generalizada que o neoliberalismo buscou impor, fortalecendo a esfera dos direitos, aquela que busca estender os direitos da cidadania a todas as esferas da sociedade.

Para isso não precisamos apenas com uma reforma democrática do processo eleitoral. Preciso de um novo tipo de Estado. O Estado que temos foi construído para perpetuar o domínio das minorias, ele tem que ser radicalmente reconstruído, refundado, para dar lugar à construção de um Estado que reflita as novas relações de poder na sociedade, governos que expressam os interesses da maioria da sociedade, em um processo de democratização que tem que se estender a todos os rincões do país, incluído o próprio Estado.

Um partido de esquerda tem que centrar sua luta na superação do neoliberalismo, na construção de um tipo de sociedade não fundado na mercantilização na competição generalizada de todos contra todos, na subordinação aos interesses externos, mas na solidariedade, na fraternidade, na generalização dos direitos a todos, no humanismo.

Tags: 1 Comment

Venício Lima: Até quando no Brasil a mídia será um poder acima de todos os outros?

setembro 2nd, 2011 by mariafro
Respond

DEBATE ABERTO

Ética e credibilidade de uma profissão

Por Venício Lima, na Carta Maior

Apenas algumas semanas depois do escândalo provocado pelas revelações de ações criminosas do tablóide “News of the World” na Inglaterra, o tipo de jornalismo reiteradamente praticado pela revista Veja acende uma perigosa luz amarela no campo da comunicação.

Desde o dia 7 de julho pp. a Comissão de Ética (CE) do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) tem em suas mãos um pedido de abertura de processo por violação do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros contra o jornalista Gustavo Ribeiro da sucursal de Brasília da revista Veja. O pedido foi protocolado por um dos membros da comissão que redigiu o novo Código de Ética em vigor desde 2007 (disponível emhttp://www.fenaj.org.br/federacao/cometica/codigo_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros.pdf) e também um dos fundadores do Movimento Pró-Conselho de Comunicação Social no Distrito Federal (MPC), o jornalista Antonio Carlos Queiroz.

O pedido original tinha por base a matéria intitulada “Madraçal no Planalto”sobre a Universidade de Brasília e seu reitor, publicada na Veja com data de capa de 6 de julho.

Tanto do ponto de vista técnico como ético, a referida matéria é um exemplo acabado de mau jornalismo. Editorializada e adjetivada, a matéria não cumpre as regras elementares básicas do jornalismo e foi desmentida por “fontes” cujos nomes nela aparecem, além de ter recebido repúdio quase unânime da própria comunidade acadêmica da UnB (cf.http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=5317). Mais ainda. Uma das “fontes” e articulador da matéria de Veja, conhecido adversário político do atual reitor, publicou em seu blog o seguinte post:

“Parabéns à revista VEJA por este inestimável serviço ao Brasil, mostrando o que faz o reitor Zé do MST (ligado ao PT) com a educação superior no país. Está agora na hora da oposição (DEM, PSDB e PPS) colocar a boca no trombone! — PS: Ajudei a VEJA com essa reportagem (tem uma declaração minha na 4. página), eu e mais de 20 professores, lógico que apenas alguns apareceram”[cf. cienciabrasil.blogspot.com post de 3 de julho).

Jornalista não sindicalizado
No dia 9 de agosto pp. a CE respondeu ao jornalista Antonio Carlos Queiroz informado haver decidido pela não abertura do processo tendo em vista que Gustavo Ribeiro “não é filiado ao SJPDF”.

Trata-se de um equívoco da CE de vez que a filiação aos sindicatos da categoria não é requisito para o exercício profissional e o Código de Ética, por óbvio, se aplica a toda a categoria, não somente aos jornalistas sindicalizados. Aliás, está escrito no próprio CE:

Art. 17. Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.

Parágrafo único – Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.

O equívoco da CE motivou um recurso impetrado pelo jornalista Antonio Carlos Queiroz no SJPDF solicitando a reconsideração da decisão.

Reincidência
Enquanto se aguardava uma resposta da CE ao recurso, o mesmo jornalista Gustavo Ribeiro, aparece novamente como um dos responsáveis por matéria aparentemente envolvendo práticas ilícitas, publicada na mesma revista Veja com data de 31 de agosto pp. Trata-se, como se sabe, de matéria de capa sob o título “O Poderoso Chefão” sobre o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que padece dos mesmos vícios da matéria anterior sobre a UnB. O jornalista está agora sendo formalmente acusado de tentativa de invasão de domicílio e falsidade ideológica pelo Hotel Naoum de Brasília, onde escritório de advocacia associado ao ex-ministro José Dirceu mantém um apartamento alugado.

Naturalmente o novo episódio envolvendo o jornalista Gustavo Ribeiro provocou o encaminhamento de um “agravo” à CE do SJPDF.

O que está em jogo?
Apenas algumas semanas depois do escândalo provocado pelas revelações de ações criminosas do tablóide “News of the World” na Inglaterra, o tipo de jornalismo reiteradamente praticado pela revista Veja acende uma perigosa luz amarela no campo da comunicação.

O Grupo Abril, ao qual pertence a revista Veja, criou recentemente o IAEJ – Instituto de Altos Estudos em Jornalismo que, em parceria com a ESPM, oferece o Curso de Pós-Graduação com Ênfase em Direção Editorial “um programa sem precedentes no Brasil, (que) tem a ambição de contribuir para a melhoria da imprensa no país” (cf.http://www.espm.br/Candidato/Cursos/SP/Pages/jornalismodirecaoeditorial.aspx).

Por óbvio, matérias como as referidas acima não são publicadas sem o conhecimento da direção da revista e, portanto, não são de responsabilidade apenas dos jornalistas envolvidos. Trata-se de uma determinada visão de jornalismo e de seu papel que confrontam toda a retórica liberal sobre a liberdade de imprensa na democracia.

Está na hora das organizações sindicais darem o primeiro passo e aplicarem exemplarmente o Código de Ética da profissão se pretendem zelar pela dignidade profissional mínima que sustente a credibilidade dos jornalistas.

E está mais do que na hora dos próprios empresários de mídia e do Estado brasileiro dialogar sobre a inadiável necessidade de uma ampla e democrática regulação do setor. Não dá mais para “fazer de conta” que no Brasil é diferente do resto do mundo e que aqui a mídia será sempre um poder acima de todos os outros.

A ver.

*Venício Lima: Professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.

Tags: 1 Comment