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Celso Athayde: O berço do crime

março 1st, 2014 by mariafro
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Celso cantando “Sozinho” durante a apresentação de Caetano Veloso  em sua festa de aniversário de 50 anos na Favela do Sapo.

O Berço do Crime
Relato escrito por Celso Athayde em seu Facebook
“Mãe e Irmão. Vocês se foram. Mas combinamos lá atrás, na favela do sapo e quem seguisse iria honrar nossa história. Tô tentando. Esses 50 anos é mais um capitulo.”
_________________
Minha família chegou na Favela do Sapo, vinda de um conjunto residencial chamado Cesarão, Zona Oeste do Rio. Eu e meu irmão éramos garotos, minha mãe trabalhava como vigilante noturna. Foi uma época de muita luta. Nada diferente de hoje, mas, hoje, temos mais esperança no futuro, apesar da ausência física do meu mano.

Fagner, Preto Zezé e Celso Athayde durante a festa de 50 anos de Celso.

Naquele tempo, meu trabalho consistia em vender canudinho de coco ou leite condensado, cocada e sonhos. Minha mãe zelava muito pela nossa aparência, nos obrigava a trabalhar de roupas brancas, chapéu branco, e dizia para nunca falar com o tabuleiro aberto, para não voar saliva nas guloseimas. Aquilo tudo era meio mandrake, porque, a minha velha na hora de preparar os doces, nunca aparentava ter a tal dedicação pela saúde dos nossos clientes. Tão nossos, que ela nem os conhecia. Muitos com¬pravam só para nos ajudar. Seu Rogério e seu Tiguel eram nossos melhores clientes. Seu Rogério sofria de diabetes, mas, mesmo assim, além de comer, distribuía os doces para outras pessoas. Como no dia em que cheguei no campo de pelada da favela vizinha do Rebu: ele estava lá, assistindo ao jogo e, quando me viu, me pediu para sentar ao lado dele. A todos os amigos que chegavam, ele ofertava o meu produto. Eram, de longe, as melhores vendas, as mais volumosas. Sua morte causou uma grande comoção na favela.
Seu Rogério se foi, por causa do diabetes, no presídio de Bangu I. Ele era a liderança da favela, seu apelido era Bagulhão, e o sobrenome era Lemgruber, o famoso RL. Hoje conheço muitos jovens que enchem a boca com a expressão: “CV RL, tá ligado!!” São jovens que ajudam a mitificar um personagem, que eles não têm noção de quem foi porque não existem registros a respeito e também não existe nenhuma informação que não seja a sigla. Conheci jovens que quando eu perguntei o que significavam essas duas letras — RL — me disseram que não sabiam. Apesar de repeti-las com veneração religiosa, sem saber o que significam. Nunca souberam dos defeitos do seu Rogério ou de suas virtudes. Mas isso não importa. Os mitos servem como referência para o bem ou para o mal. Nesse caso, a referência do crime.
Seu Rogério foi fundador da Falange Vermelha e, quando estava de boa maré, reunia a molecada mais próxima para contar histórias. Nossas mães não podiam saber desse contato, porque ele era a representação viva da palavra crime. Ele era o crime. Mas essa palavra nada tinha a ver com matanças, maldades ou covardia. Crime, para ele, era cometer assaltos e praticar o tráfico para sustentar a base da organização e das suas famílias. Mas sem deixar de respeitar o cidadão comum.
Ele não admitia, por exemplo, assaltos a automóveis com mulheres ou crianças — mulher grávida, então, nem pensar. Mas o crime não era só isso. Tinha a questão social, que precisava ser desenvolvida. Ele dizia que isto não era para escravizar os mo¬radores, que era uma obrigação. Seu Rogério era um tipo que podemos chamar de mulato. Era alto e às vezes usava bigode. Quando passava, o silêncio tomava conta do ar. Para muitos, era quase um santo; para outros, era mais do que um demônio. Para mim, ele não era nem santo nem demônio. Era somente o homem que ajudava a pagar minhas contas. A verdade é que as nossas necessidades estão intimamente ligadas à nossa moral, e acabamos sempre interpretando os fatos ou decidindo as coisas a partir das nossas conveniências. Seu Rogério, uma vez, chegou com um long-play do Caetano Veloso e disse que todos nós tínhamos que ouvir. Acho que foi o meu primeiro contato com Caetano. Ele tinha os cabelos grandes e cara de maconheiro. Seu Rogério falava do Chico Buarque e do Geraldo Vandré. Ele dizia: “Não quero bandido burro aqui, não… Não quero favelado burro aqui, não… Nós que somos pretos, não temos nada, só as bocas de fumo, então temos que ser inteligentes.”
Se ele estivesse vivo, estaria vendo sua profecia ir pro brejo. Hoje, os playboys estão entrando e tomando conta do crime. Em pouco tempo, eles serão os donos dos morros e, aí, até a tese de que o crime é uma das poucas formas de mobilidade social possível para os pretos também vai cair por terra.
Nunca considerei o Sapo uma favela, mas um conjunto residencial. A questão é que a expressão favela passou a ser uma denominação para os locais onde existe tráfico, e não uma comunidade de construções precárias. Apesar de ter me criado lá, de ter sido da primeira geração da favela, eu não sei nada sobre sua história. Mas, agora, me animei a pesquisar sobre essa comunidade que me criou, a comunidade que é chamada e considerada o berço do crime, o nascedouro do Comando Vermelho.
Lembro que havia gente de vários lugares. Agora, me ocorre que um amigo nosso chamado Borel — um gordinho loirinho que não era da nossa quadrilha, mas adorava arrumar briga — devia ter esse apelido por ser oriundo do morro do Borel. A minha pesquisa, com a ajuda do Bagdá, vai esclarecer isso — espero que ele esteja vivo.
Eu fazia parte de uma quadrilha de garotos que tinha, entre os maiores crimes que cometia, brigar contra os meninos mais bem-sucedidos da rua de trás da favela ou quebrar as vidraças de lojas. No máximo, ameaçar de longe os seguranças do supermercado Mar e Terra, que tentavam prender as nossas amigas do pisa. O pisa era um tipo de roubo cometido por mulheres. Elas roubavam coisas no supermercado e traziam entre as pernas. Incrível, o volume de coisas roubadas que elas colocavam nas coxas! Era tão grande que se algum dia alguém me contasse que uma delas havia roubado uma geladeira, eu era capaz de acreditar. Bagdá, apesar de ser do bem, era o chefe da nossa quadrilha, que contava com um verdadeiro exército de arruaceiros. Entre eles, meu irmão César, Mineiro, Gabu, Zé Penetra, Purtuga, Marinho, Sinval, Gabu, Nélio, Marron, Mimi, Jorge Negão, Paulão, Geni, Calango e Jairo, só pra citar ¬alguns.
Muitas das nossas travessuras eram por conta da nossa amizade com o seu Rogério. Alguns integrantes da nossa quadrilha trabalhavam pra ele, fazendo serviços pessoais — como comprar pão, leite, cigarro — ou qualquer outra atividade sem risco aparente. Isso nos tornava amigos do rei. A maioria das pessoas quer ter esse privilégio. No nosso caso, ser amigo do rei era ser amigo do dono do morro.
Todos nós fazíamos parte de um bloco de carnaval chamado Dragão de Camará. Foi um período em que cada bloco na região saía com, no mínimo, 10 mil componentes. As pessoas de outros estados brasileiros podiam achar que o nosso carnaval só movimentava o Centro da cidade. Mas o carnaval do Rio de Janeiro movimentava todos os bairros. Era possível encontrar, num mesmo bairro, vários coretos de carnaval. Hoje, não, a violência não permite essa felicidade… Se bem que, mesmo no tempo da minha vó, a facada já comia nos blocos. Minha memória já registrou brigas sangrentas entre os componentes do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça — tradicionais blocos carnavalescos que desfilam no centro da cidade. E não era um caso isolado. Essas batalhas faziam parte de uma cultura dos blocos de carnaval. Era o caso dos grupos de Bangu, como Grilo, Passa a Régua e Farofa, compostos por mais de 15 mil pessoas. Quando a porrada comia — e sempre comia — não tinha polícia que ¬resolvesse.
Os ensaios do nosso bloco, o Dragão de Camará, aconte¬ciam na rua. Seu Rogério era o nosso líder, nosso presidente de honra. Dizem que nas escolhas do samba-enredo do bloco, bastava ele simpatizar para o samba levar o caneco. Mas pode ser uma de tantas outras lendas que ele deixou na favela.
O dia mais esperado por mim era sexta-feira — quando os chefes de todas as bocas vinham reverenciar o grande mestre, e eles jogavam cartas durante a noite. Nosso serviço era basicamente “tirar o pau”, que significava pegar a comissão da casa a cada rodada. Com essa comissão é que preparávamos os lanches, pagávamos os policiais, comprávamos maços de cigarros. As sobras eram partilhadas entre nós. É que Seu Rogério não queria ficar com o dinheiro, que deveria ser dele, já que era o anfitrião, o dono da casa. Só que ele era o Presidente Estadual do Crime, não ficaria bem pegar aquela merreca. Todos disputavam sua companhia. Perder para ele era motivo de orgulho. Afinal, ninguém estava ali para jogar, todos estavam ali para compartilhar a liberdade daquele homem que passou mais tempo de vida na cadeia do que fora dela. Sempre que alguém perguntava pelo seu Rogério, a resposta era rápida: “Tá na Ilha Grande.”
Sei que é absurdo dizer isso, mas o crime naquela época era romântico. Tanto o RL como seu irmão Tiguel recebiam queixas diárias dos moradores. Apesar de não eleitos, eram os representantes legais da comunidade. Seu Rogério era o prefeito, resolvia quase todos os problemas. É claro que isso o fortalecia na comunidade, tornando-a cada vez mais refém dessa lógica. Mesmo naquela época, a favela não concordava com o crime, mas se beneficiava dele, de alguma forma. Hoje, a chapa está muito mais quente e proteger o crime nem é uma opção, é uma necessidade de sobrevivência.
Houve um tempo em que os inimigos invadiam as favelas só com os comparsas. Atualmente, além de invadir e matar os rivais, trazem de suas favelas de origem centenas de famílias, expulsando as famílias locais — a idéia é se cercar de gente conhecida para ter o mesmo padrão de segurança que tinham antes. Isso faz com que o ódio entre os criminosos seja estendido aos moradores comuns. Vendo por esse lado, pior do que conviver com o crime é ter que se submeter a uma ocupação e a uma mudança de facção. Daí, os moradores acabam vestindo a camisa da facção que administra sua comunidade e se tornando parte dela.
Mas as coisas não podem continuar assim, o crime tem que fazer jus a seu nome, já que parece não ter fim. E essa falta de crença, no fim passa por um grande processo político, que deveria, entre outras coisas, proibir que os policiais recebam propinas, se tornem sócios em muitas ocasiões. Proibindo que os policiais vendam inimigos vivos de uma facção para outra quando são capturados. E mesmo impedir que a polícia entre nos morros e favelas junto com bandidos para expulsar a quadrilha local quando esses não querem mais arregar ou quando estão com dificuldade financeiras. Parece filme, mas não é. O fato é que não dá mais pra ficar desse jeito.
Hoje a cada invasão, a cada ataque dezenas de moradores morrem e não podem reclamar, não têm a quem recorrer, não há testemunhas. São milhares de fuzis na pista, em mãos inimigas. Sim, já que quem porta fuzil atira para todo lado e a única coisa que vale é a sua própria vida, apesar dos discursos humanos de todos os lados, dos bandidos residentes, dos bandidos invasores e dos bandidos fardados que deveriam ser protetores. Mas vou aqui fazer uma média, nem todos, só uns poucos maus exemplos da corporação. Só que, convenhamos, essas exceções se tornaram maioria, chega de demagogia né não?
O fato é que acabou o romance, do jeito que tá, em pouco tempo vai morrer todo mundo, não vai sobrar ninguém. Os mauri¬cinhos já não vêm mais aqui, eles abriram seus deliverys autorizados, eles já não sobem mais os morros em busca de drogas, só de diversões exóticas.
As favelas são auto-sustentáveis, pelo menos do ponto de vista do consumo de drogas. Temos que voltar a ter alguma ideo¬logia. Eu sempre tive a minha, seu Rogério foi quem me deu. A mim e aos outros moleques, ele dizia que era comunista convicto, que na prisão ele tinha conhecido umas pessoas que tinham feito até curso de guerrilha em Cuba. Aquela conversa me fascinava por ser um mundo distante do meu e por ser contada por ele.
Parecia que ser comunista dava mais ibope do que ser bandido. E como tudo que eu queria era reconhecimento, ibope, fama e dinheiro, era a minha chance de embarcar em mais uma viagem! Me filiei ao comunismo, ao menos na minha cabeça. Pintei uma bandeira com o martelo e a foice no meu quarto e pronto, minha mãe nunca reclamou, ela nunca soube sobre o MR8, Var Palmares, ALN, Carlos Lamarca… Nem eu sabia, só entendi depois de grande. Mesmo assim eu era um ¬revolucionário, embora não soubesse de fato o que isso significava, e para ser franco, ainda não sei. Era mais ou menos ser católico apostólico romano não praticante. Enfim, era a tentativa do crime se politizar, eu não era da política e não era do crime, era só um moleque que transitava nos vários segmentos da favela.
Seu Rogério arrumou um monte de livros, que ele dizia que eram de subversivos. Pô, essa expressão era foda, eu até me arrepiava só em ouvir!!
Li muito pouco, do que li, pouco entendi, mas descobri que a origem das posições esquerda e direita vinham da França. Depois da Revolução Francesa, os deputados conservadores sentavam-se à direita do orador, enquanto os mais radicalmente liberais ficavam à esquerda. Mais tarde, passou-se a usar, em todo o mundo, os termos esquerda e direita para designar as duas posições políticas opostas, o liberalismo e o conservadorismo. Depois, a esquerda passou ainda a ser relacionada com as noções de socialismo e comunismo. Na verdade eu tô falando o que li, só tô reproduzindo feito papagaio, Entenda-se também que o que se chamava de liberalismo, então, não significava o que o termo significa hoje.
Eu duvido que o seu Rogério entendesse essas coisas, apesar de que lá no Sapo tinha uns caras de óculos que eram inteligentes pra porra e tinha uns coroas lá que eram meio gênios. Muito embora do Sapo não tenha saído muita gente famosa, só me lembro do nosso vizinho “Rei Arthur”, o ex-jogador Arthur¬zinho, que morava no bloco 27, hoje ele é treinador do Vitória da Bahia, mas fez muito sucesso jogando futebol pelo Bangu, Fluminense, Vasco e Corinthians.
Eu não tinha coragem de perguntar para ninguém o que era ser de esquerda porque era muito óbvio. As poucas vezes que me arrisquei perguntar, quase passei a ser de direita de tão confusas que eram as respostas. É, mas não devia ser fácil entender os destros. Hoje muita gente diz que ser de direita é ser contra o modelo atual, mas eu fico confuso do mesmo modo porque o Luiz Eduardo Soares que é candidato a deputado federal pelo PPS, o Roberto Freire, o Chico Alencar e até o próprio Fernando Henrique são contra o modelo atual e não são de direita. Acredito que o Seu Rogério deveria deixar o comunismo e ir para o Hamas, já que era para ser tão complicado.
O fato é que continuo sendo comunista de terceira categoria, pois nem da escola eu consegui ser expulso, sempre que eu tentava uma revolução no colégio a professora Mariad ria de mim e mandava eu sentar e calar a boca. Apesar de tudo isso eu era fã do seu Rogério, do João Saldanha e do comunismo. Do crime não, desse eu só era próximo, mero vizinho. Claro que dá pra perceber que não sou nenhum cientista político, nem criminal, sou apenas um ignorante desinibido tentando lembrar do tempo em que o crime tentou ser politizado, antes de ser invadido pelo consumismo.
Hoje, na minha visão, tanto o crime quanto a política, só representam grupos e interesses que disputam o poder para benefício próprio. Eles sequer tentam fingir representar algum po¬sicionamento que contraste com os demais.
O que eu sinto é que nós estamos perdendo um puta tempo, você aí lendo essas linhas, ora duvidando se foi eu mesmo quem as escrevi, ou admirando a minha maneira única de falar sobre esse assunto e me achando o máximo, ou então, lendo tudo isso porque a professora da sua faculdade te obrigou e está achando tudo uma merda só. Não importa em que grupo você se enquadre, o que importa é que a vaca está dentro do brejo com rabo e tudo, e nós estamos juntos, com todo mundo, e se tiver isso claro na mente, já pode ser considerado um privilegiado. O barco tá sem governo, o estado, o crime, a polícia, estão todos à culhão, vivendo o momento, o conceito de sociedade virou romantismo, a profecia está se cumprindo.
Mas no fundo somos um bando de teimosos que tentam encontrar uma saída coletiva, mas só encontramos discurso, nada mais! A grande tristeza é ver que o crime, os partidos e a própria sociedade agem da mesma maneira.
Ninguém quer criar um partido de pobres e ser parte integrante dele.
Ninguém quer criar seus filhos para não serem os ¬melhores.
Ninguém quer criar facção criminosa para ser um soldado dela.
Como os países estão perdendo o sentido aos poucos, a globalização é um fenômeno que reflete a nova ordem: a grana. Sendo assim, só existe um tipo de partido, o dos ricos. Só existe um tipo de crime, o dos ricos. Só existe um tipo de sociedade, a dos ricos!!
E pra falar a verdade, a sociedade está tão pobre que está sem força.
Os Falcões estão tão pobres, que estão sem fé.
Os partidos estão tão desacreditados e despedaçados, que lhes falta o povo.
A nossa sorte e o nosso azar é que a sociedade e os Falcões estão tão sem tempo, que têm que trabalhar e muito nas padarias da vida ou nas bocas de fumo desesperadamente para não morrerem de fome.

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Cai castelo de cartas do ministro Barbosa

fevereiro 28th, 2014 by mariafro
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Cai castelo de cartas do ministro Barbosa

Breno Altman (via e-mail)

As palavras finais do presidente da corte suprema, depois da decisão que absolveu os réus da AP 470 do crime de quadrilha, soaram como a lástima venenosa de um homem derrotado, inerte diante do fracasso que começa a lhe bater à porta. A arrogância do ministro Barbosa, abatida provisoriamente pelo colegiado do STF, aninhou-se em ataque incomum à democracia e ao governo.

“Sinto-me autorizado a alertar a nação brasileira de que este é apenas o primeiro passo”, discursou o relator da AP 470. “Esta maioria de circunstância foi formada sob medida para lançar por terra todo um trabalho primoroso, levado a cabo por esta corte no segundo semestre de 2012.”

Sua narrativa traz uma verdade, um insulto e uma fantasia.

Tem razão quando vê risco de desmoronamento do processo construído sob sua batuta. A absolvição pelo crime de quadrilha enfraquece fortemente a acusação. Se não há bando organizado, perde muito de sua credibilidade o roteiro forjado pela Procuradoria Geral da República e avalizado por Barbosa. A peça acusatória, afinal, apresentava cada passo como parte minuciosa de um plano concebido e executado de forma coletiva, além de permanente, com o intuito de preservação do poder político. Se cai a tese de quadrilha, mais cedo ou mais tarde, as demais etapas terão que ser revistas. Essa é a porção verdadeira de sua intervenção matreira.

A raiva de Barbosa justifica-se porque, no coração desta verdade, está a neutralização da principal carta de seu baralho. O ex-ministro José Dirceu foi condenado sem provas materiais ou testemunhais, como bem salientou o jurista Ives Gandra Martins, homem de posições conservadoras e antipetistas. A base de sua criminalização foi uma teoria denominada “domínio do fato”: mesmo sem provas, Dirceu era culpado por presunção, oriunda de sua função de líder da eventual quadrilha. Absolvido do crime fundante, a existência de bando, como pode o histórico dirigente petista estar condenado pelo delito derivado? Se não há quadrilha, inexiste liderança de tal organização. A própria tese condenatória se dissolve no ar. O que sobra é um inocente cumprindo pena de maneira injusta e arbitrária.

Derrotado, Barbosa recorreu a um insulto: acusa o governo da República de ter ardilosamente montado uma “maioria de circunstância”, como se a fonte de sua indicação fosse distinta dos demais. Aponta o dedo ao Planalto sem provas e sem respeito pela Constituição. Atropela a independência dos poderes porque seu ponto de vista se tornou minoritário. Ao contrário da presidente Dilma Rousseff, que manteve regulamentar distância das decisões tomadas pelo STF, mesmo quando eram desfavoráveis a seus companheiros, incorre em crime de Estado ao denunciar, através de uma falácia, suposta conspiração da chefe do Executivo.

A conclusão chorosa de seu discurso é uma fantasia. Não se pode chamar de “trabalho primoroso” uma fieira de trapaças. O presidente do STF mandou para um inquérito secreto, inscrito sob o número 2474, as provas e laudos que atestavam a legalidade das operações entre Banco do Brasil, Visanet e as agências de publicidade do sr. Marcos Valério. Omitiu ou desconsiderou centenas de testemunhas favoráveis à defesa. Desrespeitou seus colegas e tratou de jogar a mídia contra opiniões que lhe contradiziam. Após obter sentenças que atendiam aos objetivos que traçara, lançou-se a executá-las de forma ilegal e imoral.

O ministro Joaquim Barbosa imaginou-se, e nisso há mesmo um primor, como condutor ideal para uma das maiores fraudes jurídicas desde a ditadura. Adulado pela imprensa conservadora e parte das elites, sentiu-se à vontade no papel do pobre menino que é glorificado pela casa grande por suas façanhas e truques para criminalizar o partido da senzala.

O presidente do STF lembra o protagonista da série House of Cards, que anda conquistando corações e mentes. Para sua tristeza, ele está se desempenhando como um Frank Underwood às avessas. O personagem original comete incríveis delitos e manobras para chegar à Presidência dos Estados Unidos, derrubando um a um seus adversários. O ministro Barbosa, porém, afunda-se em um pântano de mentiras e artimanhas antes de ter dado sequer o primeiro passo para atravessar a praça rumo ao Palácio do Planalto.

Acuado e sentindo o constrangimento de sua nudez político-jurídica, o ministro atira-se a vinganças, recorrendo aos asseclas que irregularmente nomeou, na Vara de Execuções Penais do Distrito Federal, como feitores das sentenças dos petistas. Delúbio Soares teve o regime semiaberto suspenso na noite de ontem. José Dirceu tem contra si uma investigação fajuta sobre uso de aparelho celular, cujo único propósito é impedir o sistema penal que lhe é devido. O governo de Brasília está sendo falsamente acusado, com a cumplicidade das Organizações Globo, de conceder regalias aos réus.

O ódio cego de Barbosa contra o PT e seus dirigentes presos, que nenhuma força republicana ainda se apresentou para frear, também demonstra a fragilidade da situação pela qual atravessam o presidente do STF e seus aliados. Fosse sólido o julgamento que comandou, nenhuma dessas artimanhas inquisitoriais seria necessária.

O fato é que seu castelo de cartas começou a ruir. Ao final dessa jornada, o chefe atual da corte suprema sucumbirá ao ostracismo próprio dos anões da política e da justiça. Homem culto, Barbosa tem motivos de sobra para uivar contra seus pares. Provavelmente sabe o lugar que a história reserva para quem, com o sentimento dos tiranos, veste a toga dos magistrados.

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“Alckmin, seu inferno, o metrô está mais quente que rosca de padaria”

fevereiro 26th, 2014 by mariafro
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Ontem vivi um périplo em três linhas do metrô, mas nada se compara ao ‘inferno’ da linha vermelha.

Na linha amarela escadas rolantes paradas, na vermelha o trem sem ar condicionado ficou longo tempo parado a ponto de eu conseguir gravar dois vídeos longos de uma moçada divertida, bem-humorada e criativa, mas nem por isso menos crítica às condições subumanas a que somos submetidos todos os dias pelo governo de São Paulo acusado de desviar 1 bilhão de recursos públicos em propinas no escândalo da Aston e Siemens.

Abaixo as fotos feitas na linha amarela e vermelha. Como já estava exaurida de tanto calor e aperto, atrasada da longa parada na linha vermelha,  acabei registrando a linha azul no entroncamento da Sé.



Trem vem e trem vai cheios de gente e a espera vai aumentando

Vários trens passaram lotados sem que desse para embarcar. E depois que consegui ir feito lata de sardinha e num vagão mais quente de que rosca de padaria como diz o rapaz no vídeo ficamos um tempão parados no túnel da estação Anhangabaú.

Além de vários andares do piso da rua até o embarque as escadas rolantes paradas na linha amarela.

Preste atenção #nãovaiterAlckmin! O povo de São Paulo cansou de ser tratado como ‘safados’, “vândalos, quando os safados e vândalos não pegam metrô, ao contrário, enriquecem com dinheiro público e torna nossas vidas um verdadeiro “inferno” como diz o bem-humorado jovem da Zona Leste.

Sobre pane no Metrô, secretário diz que ‘safados’ não podem fazer o que querem

Por: Jurandir Fernandes afirmou ainda não saber se equipamentos de emergência são para uso do público
Por: Caio do Valle – O Estado de S. Paulo
12/02/ 2014 | 16h 58

SÃO PAULO – O secretário estadual de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, afirmou nesta quarta-feira, 12, que “não sabe” se os botões de emergência localizados nas plataformas das estações do Metrô de São Paulo são para uso do público. Esses dispositivos, segundo ele, foram os responsáveis por paralisar o sistema no último dia 4, provocando caos na Linha 3-Vermelha. O dirigente também criticou o uso dos botões pelos passageiros e falou que não é pelo fato de estarem visíveis “que qualquer safado pode fazer o que quer”. Os botões ficam nas plataformas das estações.

Caos na Estação Palmeiras-Barra Funda durante a paralisação - Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Caos na Estação Palmeiras-Barra Funda durante a paralisação

As declarações foram feitas por Fernandes após a inauguração da Estação Adolfo Pinheiro, na Linha 5-Lilás, na zona sul da capital paulista. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) o acompanhou no evento.

“No dia do evento (paralisação do Metrô), foram acionados três botões de plataforma num intervalo de 15 ou 16 minutos, nas Estações Marechal (Deodoro), Anhangabaú e Santa Cecília. Há indícios de que alguma coisa aconteceu ali. Nem mesmo os que usam o Metrô normalmente, como eu e vocês, sabem da existência desses botões”, disse Fernandes. O dirigente declarou que os botões são ligados à gerência de segurança da empresa, controlada pelo governo do Estado.

Ainda de acordo com ele, orientações da polícia sugerem uma posição melhor para os botões de emergência das plataformas, para que eles sejam somente conhecidos e acessados pela equipe de segurança do Metrô.

Indagado sobre a facilidade de se encontrar esses botões atualmente – e que isso poderia induzir os passageiros a achar que podem usá-los -, Fernandes disse: “Ninguém falou que é difícil (localizar esses botões). Mas não é pelo fato de ser difícil ou fácil que qualquer safado pode fazer o que quer, não é verdade? Se é fácil, então dá direito de o cara fazer uma malandragem? Não é isso.”

O secretário foi perguntado se, afinal, os botões eram para uso do público em geral. “Não sei. Você já usou, alguém já usou? Não!”, respondeu à imprensa.

Aprendizado. Jurandir Fernandes ainda afirmou que o Metrô está “aprendendo” sobre o uso adequado dos botões e que há diversos modelos do aparelho instalados nas linhas da rede. Um deles tem uma tampa de metal que, segundo o secretário, dificulta o seu acionamento.

Veja também:
link Alckmin fala em sabotagem no Metrô e diz que pode aumentar policiamento 
link Secretário culpa ‘vândalos’ por paralisação e tumulto na Linha 3-Vermelha

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Vagner Freitas: COPOM: os trabalhadores têm de ser ouvidos

fevereiro 25th, 2014 by mariafro
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COPOM: os trabalhadores têm de ser ouvidos

Vagner Freitas, presidente Nacional da CUT

Elevação da Selic, prejudica classe trabalhadora, principalmente, quem ganha menos, e só serve ao capital especulativo

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) iniciou nesta terça-feira (25) a segunda reunião do ano para definir a taxa básica de juros, a SELIC. A decisão será divulgada nesta quarta (26).

Segundo os jornais, o mercado financeiro prevê uma taxa de 11,25% este ano e de 12%, em 2015. No ano passado, depois de centenas de artigos de analistas ligados ao mercado financeiro prevendo o caos econômico, o Copom elevou a SELIC em 2,75% – em janeiro, a taxa subiu 0,5% e ficou em 10,5%.

Para a CUT, a política de elevação das taxas de juros, além de não contribuir para controlar os índices inflacionários, prejudica o desenvolvimento sustentável do País, gerador de emprego e renda, reduz o mercado interno, encarece o crédito e serve apenas aos interesses do capital especulativo.

Só o sistema financeiro ganha com isso. Quanto maior o spread, ou seja, a diferença entre a taxa básica de juros (10,5%) e o índice de inflação (5,9%), maior o lucro dos especuladores. E quem mais ganha são os investidores externos porque, em seus países, o spread é baixo.

E quem mais perde são os/as trabalhadores/as, em especial os/as que ganham menos. Isso porque, junto com os juros sobem todos os preços das mercadorias e serviços. Com isso, cai violentamente o poder de compra da classe trabalhadora.

A CUT não quer inflação nem juros altos. A CUT quer que os/as trabalhadores/as tenham poder aquisitivo para investir na qualidade de vida, moradia, lazer, educação.

É por tudo isso que a CUT entende que o Copom não pode ser formado apenas por economistas do Ministério da Fazenda e outras instâncias do governo. Defendemos a participação da sociedade civil organizada – trabalhadores/as e empresários/as, inclusive do setor produtivo – para que o Copom não tome decisões influenciadas apenas pelo mercado financeiro e, sim, por toda a sociedade brasileira.

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