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Tarso Genro: Para o gigante, já acordado, caminhar melhor

julho 14th, 2013 by mariafro
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Para o gigante, já acordado, caminhar melhor

Por Tarso Genro (*), Carta Maior

13/07 2013

A tese do “gigante acordou”, acarinhada pela direita conservadora e pela grande mídia no período das manifestações recentes, é uma fantasia manipulatória neoliberal. Ela tem por objetivo criar um caldo ideológico destinado a “naturalizar” a tese de que o Brasil precisa embarcar nas “reformas” que vem sendo feitas, atualmente, no continente Europeu.

Esta fantasia faz um jogo sujo, do ponto de vista histórico, para promover uma omissão que torna invisível o povo trabalhador e outros atores sociais progressistas, no processo das grandes lutas que precederam e sucederam a Constituição de 88.

As conquistas que dela derivaram, as lutas respondidas com assassinatos e torturas contra o regime militar, a luta pelas diretas, pela Constituinte, o “Fora Collor”, a eleição de Lula em 2002, promoveram extraordinárias conquistas políticas e sociais, com grande influência da esquerda que, para os promotores do “gigante acordou”, não passaram de um embuste, que agora os tecnocratas dos “ajustes” de segunda geração colocarão no seu devido lugar. Trata-se de iludir que, como gigante estava dormindo, nada ocorreu no período que precedeu as manifestações. E que a suposta “letargia” do país, até agora, abrir-se-á para uma dinâmica democrática nova, patrocinada como uma grande novela das oito, ajustada certamente com o tucanato e os zumbis pefelistas que ainda restam.

A leva de manifestações que antecedeu o dia nacional de lutas de 11 de junho, mobilizadora de milhões de pessoas no país, confrontada com a modesta mobilização conseguida pelas centrais naquela data, inclusive a denominada “Conlutas”, obriga a esquerda que governa dentro da democracia política – o que se dá necessariamente com alianças problemáticas – a repensar sua estratégia para o próximo período. As conexões entre “tática” e “ética” – no contexto de uma crise econômica mundial que não será solucionada com legitimidade nos quadros da atual democracia representativa – voltam com toda força.

Não se trata de desprezar alianças ou de avocar-se um “purismo” irreal para fazer política. Este “purismo” só existe como aparência, naquela parte das classes médias conservadoras, quando os seus líderes preferidos pensam em aumentar algum imposto ou não estão governando de acordo com os seus interesses imediatos. Trata-se, penso, de avaliar como se dará o sistema de alianças, necessário para o próximo período, considerando um Congresso majoritariamente conservador e desligado do mundo real. Um Congresso regionalizado nas suas relações políticas e que só se move perante uma forte pressão para salvar sua pele, seja para que “lado” for.

De outra parte, quando nos referimos às relações entre “tática” e “ética”, estamos falando de interdependência entre “fins” e “meios”. Ou seja, em que ponto da estratégia política as alianças deixam de ser táticas e passam a ser “taticismos”. Quando é que os meios (alianças), passam a ser um fim em si mesmo (estagnantes), apenas usados para manter uma certa hegemonia (esgotada) que, no concreto, já não faz mais o projeto avançar, bloqueando os fins do projeto pensado na Revolução Democrática? (Esta, significando a recuperação das funções públicas do Estado, a combinação dinâmica da democracia representativa com a democracia direta, a promoção de um modelo de desenvolvimento não tutelado pelo capital financeiro globalizado: mais políticas públicas de Estado, mais participação, mais igualdade, empregos, trabalho de qualidade e proteção social digna).

As amplas mobilizações sociais deste período, não só não devem ser desconhecidas, como também não podem ser desqualificadas pela fragmentação da sua pauta. As simpatias que elas suscitaram na grande mídia, a ausência de lideres visíveis ou mesmo a forte adesão dos setores mais conservadores da sociedade, que se manifestavam “contra tudo”, contra os políticos em geral e contra os partidos, não tira o seu valor político. Foi, ainda, uma manifestação em parte alienada, pois fulminava por igual as instituições partidárias, que mesmo apenas aderentes poderiam se opor às manipulações do senso comum pelo fascismo ou pelo anarco-direitismo, como ocorre com frequência nestas oportunidades.

A verdade é que, majoritariamente, foram manifestações populares de inconformidade e “mal estar”, pelas mais variadas causas. E tiveram o mérito de mostrar a desqualificação das estruturas de saúde pública e do transporte coletivo, principalmente nas grandes regiões metropolitanas, que não mereceram atenção responsável dos governantes, pelo menos nos últimos vinte anos. O movimento foi aproveitado para tentar reorganizar um sentimento de repulsa à esquerda e ao governo Dilma? Foi, é óbvio.

A grande mídia induziu-o, assim como fabricou a tese do “gigante que acordava”. E ela mesma vibrava de ira cívica e arrogância, até que se deu conta que também estava na linha de tiro: os controlados se rebelaram contra os seus controladores no processo de formação da opinião. Uma mobilização política daquela dimensão não emerge sem ter base, em alguma medida, nas fortes desigualdades sociais e nos contrastes entre pobreza e riqueza, que caracterizam o “capitalismo real”. Isso supõe, em consequência, um descontentamento com quem sempre defendeu os ajustes do sistema financeiro e a ordem social que promoveu as desigualdades, que também estavam sendo impugnadas nas ruas.

Um mero manifesto nas redes, como diz Manuel Castells, não mobiliza ninguém. As mobilizações ocorrem quando têm bases na vida diária das pessoas e no seu anseio efetivo por mudanças, que inclusive supõem a democratização da circulação da opinião e um sistema de informação plural, no âmbito das comunicações, atualmente controladas por quem apoia a globalização financeira do mundo, tal qual ela é orientada pelo Banco Central Europeu e pelo FED.

São os que promovem os “ajustes” em Portugal, Espanha, Grécia, Itália, extinguem empregos sem criar outros melhores e fazem-no com a mesma voracidade que submetem a democracia aos seus tecnocratas da especulação, tornando irrelevantes os governos e as eleições. Quando a grande mídia começou alertar que o “gigante acordou”, boa parte do povo nas ruas entendeu, na verdade, que se tratava -para esta “companheira de mobilização” – de desmantelar conquistas e não de avançar para um novo patamar de democracia e de ampliação dos direitos, conquistados nos últimos trinta anos de democracia e dez anos de governos progressistas no país.

Apanhado de surpresa com a intensidade do movimento o Governo Federal reagiu abrindo um diálogo formal e propondo medidas para incorporá-lo no patrimônio político da República. Esta estrutura política demonstrou, no entanto, estar mais atrasada, quanto ao seu sistema de representação, do que os movimentos “diretos” de rua, que clamavam por mais participação, mais Estado e Estado mais eficiente. Este “atraso” das instituições políticas da democracia representativa já está patente na digestão que o Congresso atual (pelas as suas maiorias partidárias) está fazendo do aspecto mais arrojado da proposta presidencial: o plebiscito.

O processo plebiscitário, que tanto pode servir de avanço para a participação da sociedade na resistência à crise econômica global, relegitimando pela reforma o Estado Democrático de Direito em franca crise, como para recuperar a dignidade da política – envilecida pelas maiorias partidárias e pelo financiamento empresarial das campanhas – parece que vai ser substituído pelo pragmatismo eleitoreiro, que envolve tanto a oposição conservadora como grande parte da base do governo.

Este é o ponto central, de cuja análise seremos capazes de desenhar uma estratégia para o próximo período, que envolva tanto as eleições presidenciais de 2014, os efeitos dos movimentos sobre elas, bem como a continuidade da ação das redes e das mídias, já como sujeitos determinantes e permanentes da luta política. Aquelas, as redes, com uma influência ainda maior -para o bem o para o mal- na formação da opinião, de forma externa à democracia de partidos que carregamos até agora.

O sistema de alianças atual, no plano nacional, foi montado para sustentar um governo que, no contexto do conservadorismo neoliberal mundial do início do século XXI, precisava ser extremamente defensivo para governar um país quebrado. Com uma relação Dívida x PIB alarmante, carente de infra-estrutura mínima (mesmo para dar um pequeno “salto para frente”), com inflação elevada, juros altíssimos e com total falta de credibilidade perante um sistema financeiro mundial asfixiante não se constituiu, no primeiro governo Lula, uma aliança programática explícita. Constituiu-se uma aliança pragmática, defensiva de uma governabilidade mínima, necessária para iniciar algumas mudanças no país, que o então Presidente conduziu a sua melhor possibilidade.

Hoje seria necessário que os partidos de esquerda se unissem e promovessem um processo inverso: as alianças a partir do programa. Não mais um programa “espontâneo” que coopte alianças de sobrevivência, que em 2002 foram inevitáveis, mas desenhar um programa de avanços, tanto no modelo de democracia política, como no modelo de crescimento com inclusão e pleno emprego, apontando de forma clara a origem dos recursos para áreas “chaves”.

Formar as alianças com um programa capaz de dar um novo impulso ao iniciado em 2002: fundos específicos e vinculados para a reforma agrária; para a mobilidade e o transporte coletivo urbano; para a saúde pública e a educação, com os percentuais do PIB respectivos – crescendo ano a ano – para cada setor, vislumbrando o ponto ótimo à médio prazo. Colocar, assim, explicitamente em lugar dependente, os demais compromissos orçamentários e inverter, desta forma, a hierarquia orçamentária atual, que tem na dívida e não no povo, o seu fator determinante.

No plano político o programa deveria explicitar as novas formas de participação direta, presencial e virtual, as políticas de referendo, plebiscito e consulta, abrindo caminhos para uma democracia de alta intensidade e participação, com estabilidade e previsibilidade. Hoje seria necessário, portanto – para que o próximo governo não seja um governo de crise – desenhar as alianças a partir de um programa claro, não confeccionar as alianças para daí resolver o que fazer.

É preciso, para que isso ocorra, que o PT como partido majoritário da esquerda, volte a ser um partido-sujeito, de governo, de luta e de movimento. Não seja apenas um “partido-apoio”, que até agora pode ter cumprido uma boa missão, mas que está visivelmente esgotada. Não é que “o gigante acordou, finalmente”, como sugeriu a grande mídia, pois ele já estava bem alerta. É que agora ele quer caminhar por paisagens mais verdejantes, que o neoliberalismo e o conservadorismo em geral, não tem a menor possibilidade de oferecer. Pode, o PT?

(*) Governador do Rio Grande do Sul

Leia também:

“PT precisa ouvir as ruas e enfrentar acomodação e burocratização interna”

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“O povo novo quer muito mais do que desfile pela paz”

julho 14th, 2013 by mariafro
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Vi esta belezura na página da Nina da Matilha Cultural, fui atrás e encontrei esta matéria do Vermelho.


Povo novo, de Tom Zé, alerta contra a direita

Vermelho

28/06/2013

Tom Zé lançou, estes dias, a canção Povo Novo, inspirada protestos que acontecem pelo país, e disponibilizada online nesta terça-feira (25).

A parceria é com Marcelo Segreto. Tom Zé ainda dá o crédito a Marília Moscou. “75% da música foi praticamente orientação do site dela. As estrofes ‘quero gritar na próxima esquina’ e ‘olha, menino, que a direita já se azeita’. De forma que se ela me cobrar direitos autorais na Justiça não terei muito como me defender”, justificou. A canção ainda teve colaboração de Marcus Preto, Paula Mirhan e da socióloga Marília Moscou.

Tom Zé acaba de lançar outro EP, Tribunal do Feicebuqui, que pode ser obtido gratuitamente na web. Foi uma resposta às críticas daqueles que reclamaram de sua participação no comercial da Coca-Cola. O cachê do comercial, de 80 mil reais, foi doado a uma associação de músicos .

Povo Novo, música de Tom Zé inspirada nos recentes protestos pela revogação do aumento da tarifa do transporte público em todo o Brasil, está disponível gratuitamente para download no site oficial do músico.

(Tom Zé / Marcelo Segreto)

Povo Novo

A minha dor está na rua
Ainda crua
Em ato um tanto beato, mas
Calar a boca, nunca mais!

O povo novo quer muito mais
Do que desfile pela paz
Mas Quero muito mais
Quero gritar na

Próxima esquina
Olha a menina
O que gritar ah, o
Olha menino, que a direita
Já se azeita,
Querendo entrar na receita, mas
De gororoba, nunca mais
Já me deu azia, me deu gastura
Essa politicaradura
Dura,
Que rapa-dura!

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Nau Web no #DiaNacionaldeLuta #ocupaRedeGlobo

julho 14th, 2013 by mariafro
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Reportagem da Moçada da Nau Web do 11/07 #ocupaRedeGlobo, #DiaNacionaldeLuta

A vida não está nada fácil para Globo e suas afiliadas: Abaixo a monocultura do pensamento

Escracho da RBS pelos ativistas da democratização da mídia foi ato ecológico, o documentário A carne é fraca é prova disso

Hitler: “Não tenho nada a ver com este processo, nem conheço a funcionário que sumiu com ele da Receita Federal”

DaSérie #OcupaRedeGlobo e toca seus repórteres de tudo que é canto: RBS na Câmara de POA

Estudantes da UFBA, Consulta Popular, Marcha Mundial de Mulheres, Levante Popular da Juventude, Quilombo dos Macacos, CUT, MST e o Sinterp-BAno 0cupam a Rede Bahia 

“Amanhã vai ser maior”  1º Grande Ato Contra o Monopólio da Mídia

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Crônica: A primeira dor de amor diante da multidão estúpida!

julho 14th, 2013 by mariafro
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A primeira dor de amor diante da multidão estúpida!

João Pedro tem seis anos. É um menino articulado, sabe tudo sobre pítons e dinossauros. Adora desenhar e é muito bom nisso. Recentemente ele se interessou pela escrita.

Gosto de conversar com ele e já tive vários bons papos. Gosto de ouvir e apreender o mundo de sua perspectiva. Geralmente nos encontramos na hora do almoço quando ele volta da escola com a sua irmãzinha Sofia. E enquanto todos nós saboreamos o cardápio preparado pela Mel, sua mãe e eu vamos ouvindo suas histórias e as de Sofia.

João Pedro gosta da Carol, sua colega de classe. Seu sonho é que os pais de Carol aceitem o convite dos seus para que sua amiga vá passear na praia e brincar com ele nas férias.

Na noite anterior ele escolheu uma flor bem bonita do vaso de sua mãe. Uma gérbera. Interessante a escolha da gérbera, flor que cresce na América do Sul, África, incluindo Madagascar e na parte tropical da Ásia. Para quem não a conhece, a gérbera é parecida na textura e formato com uma margarida, só que bem maior. Aliás, a gérbera é da mesma família das margaridas, não é por outro motivo que a primeira espécie registrada em 1889 no Curtis Botanical Magazine por Joseph Dalton Hooker, naturalista inglês e amigo de Darwin, é conhecida pormargarida-do-transvaal.

A gérbera que João escolheu era de uma cor rosa bem vivo, próxima ao lilás. A escolhida para recebê-la, claro, era a Carol. Uma flor do nosso continente para o primeiro amor é sempre um bom começo. Mas é uma tarefa e tanto esta, mesmo para o menino que sabe desenhar minotauros.

Na hora do almoço João chegou transtornado. Quando ele está chateado o primeiro termômetro são suas bochechas. Elas ficam bem vermelhas, seu rosto ganha uma risada nervosa e ele muda a voz, fala mais grosso, com os dentes cerrados.

O coração de sua mãe, como de toda mãe, já havia adivinhado, por algum motivo, a escolhida havia rejeitado a flor do seu filho amado.

João mal conseguia falar, seu corpo estava inteiro rijo e, embora, necessitasse tanto de um abraço, era impossível recebê-lo. Não havia consolo para aquela dor, ele só queria de alguma forma expulsá-la de seu peito juntamente com a vergonha da rejeição pública. Repetia quase num mantra reverso, mal abrindo a boca, com uma voz cavernosa e nervosa: ‘ela não aceitou, eu mandei os homens jogarem a flor no lixo’.

Em uma micro-catarse João pegou um papel do escritório da mãe e escreveu com toda a raiva: Carol eu te odeio, sua idiota, sua burra!’ Amassou o papel, jogou ao chão e saiu batendo o pé, a porta e tudo mais que encontrou pela frente.

Ficamos ali sentadas eu sua mãe sem termos muito o que falar. A dor de João era legítima e de alguma forma ele precisa purgá-la para voltar a respirar novamente.

Sofia sem se abalar e para quebrar o silêncio instaurado conta-nos a novidade: o Vitor Fai aceitou a gérbera que ela havia lhe dado. Sofia e se o Vitor não quisesse a flor? Quisemos saber e ela sem delongas: ‘ele ficaria sem a flor, ora!’

Sofia é o projeto da mulher do século XXI, aos três anos estava preparada para o não. Vitor talvez seja o homem do século XXI e saiba que é bom receber flores.

Mais tarde telefono para Carla, quero saber do João. Ela me conta mais detalhes da história da primeira dor de amor de seu filho.

Todo o problema residiu na manifestação da ‘multidão estúpida’. João estava um pouco envergonhado para dar diretamente a flor à Carol, pediu ajuda ao amigo descolado, Caetano, que como só os pragmáticos são capazes, sem rodeios, deu um berro na sala: ‘Carol, o João quer te dar uma flor’. Carol surpreendida com a atenção de todos voltada para ela, ficou em silêncio e outra amiga respondeu por ela: ‘Carol não quer flor nenhuma’.

As dores de amor das crianças têm o tempo de alguns pares de horas. À noite, mais calmo e com a ajuda do pai experiente, João resolveu a questão. Sentou-se à mesa do escritório, pegou um lindo papel de carta e redigiu algo bem diferente do bilhete rasgado da hora do almoço:

“ Carolina,

Você me deixou sem graça no meio da multidão estúpida! (grifado com marca texto amarelo para não deixar dúvidas).

Fiquei muito chateado que você não pegou a flor que eu te dei.

Mesmo assim você ainda é minha amiga.

Um abraço, boas férias.

Assinado: João Pedro.”

Para não correr riscos de a carta também virar foco da ‘multidão estúpida’ João combinou com o pai que a missiva será postada apenas na semana que vem (todos já estarão de férias escolares). Seguirá pelo correio como convêm às cartas desta importância.

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