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É preciso diferenciar as coisas nas manifestações no Brasil e aqui em São Paulo, mas fiquem à espreita

junho 21st, 2013 by mariafro
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Por Hugo albuquerque, em seu Facebook

É preciso diferenciar as coisas nas manifestações no Brasil e aqui em São Paulo. Não é hora de pânico, mas também não é hora para distração. A Cada novo dia surge um cenário diferenciado, mas sempre instável. Há, de fato, uma grande flutuação de ânimo. Existe uma vontade muito grande de transformar, sem no entanto, uma determinação clara — e não estou clamando por “ideologia”, “programa” ou “liderança”, é mais simples, falta um ânimo claro e distinto, “sentido” (que não se confunde com “direção” nem com “significado”). Não basta a multidão sair à rua, é preciso multidão e senso de comum, nas pautas, nas práticas, no método.

O vazio de dentro de fora que nos atravessa impeliu milhões para a rua, num processo social que é político nos atos, mas não é um processo. Tanto que aconteceu essa reviravolta dos últimos dias aconteceu. E aconteceu mesmo. É ilusório se animar com um processo social, por mais belo que seja, sem que haja um processo político desenhado e desenhante. Nas Diretas, no Impeachment, havia, dentro das limitações do quadro, este “sentido”, agora não. E a esquerda fabulou, se superestimou, se atacou até perceber que, na hora H, apanha todo mundo junto. Depois da tempestade vem o silêncio, não o novo mundo.

A retórica estranha do “Brasil Acordou” esconde um pouco de equívoco — bem, quem acordou cara-pálida? Os partidos e os movimentos sociais sempre estiveram por aí — e um pouco de maledicência — o que exatamente acordou? Isto que provocou este giro discursivo (e autoritário) nas pautas do movimento? É evidente que você pode não gostar de partidos, pode discordar deles estarem ali, mas daí a atacá-los? E não sejam paranoicos, mas fiquem à espreita, quando se vê uma Comissão Especial do Congresso aprovando, NESTE QUADRO, a regulamentação das eleições depois de vacância, com a votação indireta devendo ocorrer em céleres 48 horas é tenebroso.

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Chico Bicudo: DEFENDER A DEMOCRACIA. NÃO PASSARÃO.

junho 21st, 2013 by mariafro
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DEFENDER A DEMOCRACIA. NÃO PASSARÃO.

Por Chico Bicudo em seu blog
21/06/2013
Lênin já dizia que ‘não há prática revolucionária sem teoria revolucionária’. Não se trata apenas de bravata, de frase feita, de palavra de ordem. Em política, há momentos em que a gente acumula forças e tensiona, e há situações em que a gente se encontra para pensar e conversar, para debater e formular. Ação e reflexão, combinadas de forma inteligente.
As manifestações contra o aumento nas tarifas de transporte público, chamadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) e que tomaram as ruas do país nos últimos dias, nasceram bonitas, cheias de vida, arrebatadoras. Tinham pauta. Tinham foco. Tinham lado. Eram contra os aumentos das passagens, mas não eram só os vinte centavos – era também o desejo de destravar a discussão sobre mobilidade urbana, qualidade do transporte público, sistema de gerenciamento e lucros das empresas. Os atos mostraram uma faceta fundamental da política, com a qual talvez já não estivéssemos mais acostumados, a premissa progressista de que a cidade, a pólis, se faz e se inventa também nas ruas.
Era uma agenda de esquerda, de ampliação de direitos e de radicalização da democracia – e também por isso as primeiras manifestações foram duramente reprimidas pela Tropa de Choque da Polícia Militar. Foi bonita a festa, pá (a festa política, com conteúdo, não o oba-oba de desfiles em passarelas, como se passou a ver depois, sobretudo ontem). E importante vitória foi alcançada – a revogação do aumento, com as passagens voltando a custar três reais, por conta da pressão popular.
Mas, e aqui já escrevi exatamente dessa maneira, o destravar a caixa de bondades representou também abrir simultaneamente a caixa das maldades, e dela pularam coisas fétidas e horrorosas, sobretudo um fascismo que já andava por aí à espreita, latente. Fizemos o jogo da direita? Não. Atuamos no espaço público para ampliar direitos. Mas, e vale como autocrítica, talvez tenhamos subestimado ou avaliado equivocadamente o grau de insatisfação com a política, com os partidos, um rancor e ressentimentos profundos em nossa sociedade, ódios incontidos, e não consideramos a capacidade rápida de as forças reacionárias se apropriarem do movimento, de darem outro sentido às manifestações. Os sinais do fascismo eram evidentes – mas, sinceramente, não considerei que as raízes já pudessem ser tão profundas.
Ontem, nas ruas, ao menos aqui em São Paulo (e pelos relatos que ouço e leio não foi muito diferente no resto do Brasil), o fascismo venceu. Tomou conta da avenida Paulista. Deu o tom das manifestações. Fez valer o ‘sem partido’. Arrancou e queimou bandeiras. Atacou militantes de esquerda. Hostilizou os movimentos sociais, o movimento negro, os homossexuais. Escancarou sua intolerância. Berrou a plenos pulmões que ‘meu partido é o Brasil; o povo unido não precisa de partido’, em truculenta negação do ideal de democracia. Ficou perigoso.
Está tudo muito estranho. As ruas estão estranhas. Os discursos estão estranhos. As redes sociais estão estranhas. As narrativas midiáticas estão estranhas. É hora de serenar. De arrefecer os ânimos. De acumular. Não de abandonar a luta, mas de carregá-la para outros espaços – olhar mais para dentro do que para fora. É preciso voltar a juntar, a reunir, ler, pensar, duvidar, refletir, conversar. É tempo de fazer avaliações, de tecer e costurar novas pautas, da autocrítica, do balanço de acertos e erros. Pausa para a reflexão.
Contra a barbárie, ofereço a ideia. É o que está a nosso alcance. Vamos debater? Conheço muitos que vivem as mesmas angústias, que estão na mesma sintonia, com as mesmas preocupações. Tem uma moçada muito interessante e inteligente que participou pela primeira vez de manifestações e está ávida por discutir política. Vamos juntar?
Não vou brigar com os democratas. Não vou brigar com a democracia. Nossa tarefa coletiva e histórica é defendê-la e protegê-la, contra o avanço dos fascistas – dos que são assumidos, dos enrustidos e até daqueles que não sabem que são, mas são. Não passarão.

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Ivana Lima Regis relata a experiência autoritária que a esquerda viveu ontem na Paulista

junho 21st, 2013 by mariafro
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Fascistas, Fascistas! Não passarão!!!

Por: IVANA LIMA REGIS, em comentário no blog

Acabo de voltar da passeata na Av. Paulista, convocada pela direção nacional do PT. Éramos não mais de 200 militantes.

Quando cheguei à concentração, na Av. Angélica, vi que talvez não conseguíssemos caminhar nem 100 metros… O ódio dos que estavam na Paulista e que ocupam as ruas há dias era total. Mas esse ódio não era direcionado apenas ao PT. Era contra qualquer bandeira, qualquer movimento social organizado. A CUT estava presente. O Movimento Passe Livre. E a UNE também.

Durante a passeata, várias bandeiras foram atacadas, rasgadas e queimadas sob gritos de “Fora PT, vai tomar no cu!”, “o povo acordou”, “oportunistas” e, last but not least, “mensaleiros”!!!

Desde o início, foi necessário formar um cordão humano para “proteger” o final da passeata. Às vezes, formava-se um cordão também na lateral.

Os ataques acompanharam toda a passeata. Fomos vaiados na maior parte do tempo. O silêncio só veio quando cantamos um trecho do hino nacional. Também gritávamos: “Sem violência”, “Democracia”, “Vem pra rua, vem contra a tarifa”, “olha que loucura, contra partido, parece ditadura” e “R$ 3 não dá, contra a tarifa, é passe livre já”.

Durante o trajeto, tentaram invadir a passeata, ameaçaram, provocaram, partindo para a agressão, xingando o tempo todo. Foi tenso. Deu um medo danado.

Um dos gritos que se expandia com muita facilidade, espalhando-se pela Paulista, era: “O povo unido não precisa de partido”. Enquanto gritavam, as pessoas, que ocupavam as laterais da avenida, colocavam os braços para cima, em gesto típico do nazismo/fascismo.

Seguimos até o Masp. Não sei nem dizer como conseguimos. Nessa hora, os gritos de “abaixa a bandeira” tornaram-se cada vez mais fortes. E os ataques também. Chutes e ameaças, de um grupo de “carecas” e fortões, que seguiu a passeata durante todo o trajeto, tornavam a cena totalmente assustadora.

Na altura da estação Trianon-Masp fomos cercados. A passeata tornou-se, praticamente, um cordão humano, de um lado e de outro. Começaram a jogar rojões em cima da gente e bolas de papel com fogo.

Nessa hora, correram avisos para que a gente guardasse as bandeiras. Eu, por exemplo, estava empunhando uma bandeira da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (acho que era isso) e desfilei o tempo todo enrolada numa bandeira do PT. Alguém pegou a bandeira da UEE e outro me avisou para tirar a bandeira do PT e guardar na mochila (para evitar linchamento e coisas do tipo, caso a passeata se dispersasse).

Para vocês terem uma ideia, eu estava compondo o segundo cordão no fim da passeata. Não foi nada fácil.

Nesse momento surgiu o grito: “Fascistas, Fascistas, Não Passarão!!”.

O grito foi entoado em uníssono, com muita força. Embora o momento não fosse propício, cheguei a rir quando uma moça, que estava atrás de mim, soltou: “gente, não adianta gritar isso, eles não sabem o que é, vão achar que é só provocação e, ao que parece, somos minoria!!”.

E éramos. Depois de alguns minutos, abaixamos as bandeiras, a passeata foi invadida. Dispersamos.

Voltei para casa, com a bandeira na mochila, pensando. Pensando muito. Lembrei do Allende.

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Valter Pomar: A direita também disputa ruas e urnas

junho 21st, 2013 by mariafro
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Se tivesse o poder que alguns companheiros assustados estão dando a mim, ao Renato Rovai, ao Azenha, ao Renam Brandão, ao Arles, ao Sergio Amadeu teria desburocratizado o PT, tirado as verbas publicitárias da grande mídia, impedido aliança com ruralistas, com marginais da fé, impedido a privatização de portos, aeroportos, leilão de petróleo. Teria feito reforma agrária, demarcado terra indígena e quilombola, aprovado o PL122…

Sei que estão apavorados, mas isso não lhes dá o direito a tanta cegueira política. Isso não lhes dá o direito de criminalizar o MPL e confundi-los com estes descerebrados cínicos que tomaram a Paulista a partir de terça.

Criminalizar os meninos do Passe Livre hoje acuados pela esquerda temerária e pela direita desonesta, que de peito aberto há anos gritam por qualidade de transporte público, pelo direito de ir e vir, e que já estão calejados de tanto apanhar da polícia, que experimentam uma maneira legítima de fazer política, manifestando-se nas ruas, ocupando o espaço público e, por vezes, equivocam-se, mas perto das inúmeras cagadas que a velha militância fez em sua trajetória de aprendizado político não é nada, não vai aplacar o medo de vocês. A única saída pra este imbróglio é, como diz o Valter Pomar, pela esquerda.

Quem militou ou estudou os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964 sabe muito bem que a direita é capaz de combinar todas as formas de luta. Conhece, também, a diferença entre “organizações sociais” e “movimentos sociais”, sendo que os movimentos muitas vezes podem ser explosivos e espontâneos.

Já a geração que cresceu com o Partido dos Trabalhadores acostumou-se a outra situação. Nos anos 1980 e 1990, a esquerda ganhava nas ruas, enquanto a direita vencia nas urnas. E a partir de 2002, a esquerda passou a ganhar nas urnas, chegando muitas vezes a deixar as ruas para a oposição de esquerda.

A direita, no dizer de alguns, estaria “sem programa”, “sem rumo”, controlando “apenas” o PIG, que já não seria mais capaz de controlar a “opinião pública”, apenas a “opinião publicada”.

Era como se tivéssemos todo o tempo do mundo para resolver os problemas que vinham se acumulando: alterações geracionais e sociológicas, crescimento do conservadorismo ideológico, crescente perda de vínculos entre a esquerda e as massas, ampliação do descontentamento com ações (e com falta de ações) por parte dos nossos governos, decaimento do PT à vala comum dos partidos tradicionais etc.

Apesar destes problemas, o discurso dominante na esquerda brasileira era, até ontem, de dois tipos.

Por um lado, no petismo e aliados, o contentamento com nossas realizações passadas e presentes, acompanhada do reconhecimento mais ou menos ritual de que “precisamos mais” e de que “precisamos mudar práticas”.
Por outro lado, na esquerda oposicionista (PSOL, PSTU e outros), a crítica aos limites do petismo, acompanhada da crença de que através da luta política e social, seria possível derrotar o PT e, no lugar, colocar uma “esquerda mais de esquerda”.

As manifestações populares ocorridas nos últimos dias, especialmente as de ontem 20 de junho, atropelaram estas e outras interpretações.

Primeiro, reafirmaram que os movimentos sociais existem, mas que eles podem ser espontâneos. E que alguns autoproclamados “movimentos sociais”, assim como muitos partidos “populares”, não conseguem reunir, nem tampouco dirigir, uma mínima fração das centenas de milhares de pessoas dispostas a sair às ruas, para manifestar-se.

Em segundo lugar, mostraram que a direita sabe disputar as ruas, como parte de uma estratégia que hoje ainda pretende nos derrotar nas urnas. Mas que sempre pode evoluir em outras direções.

Frente a esta nova situação, qual deve ser a atitude do conjunto da esquerda brasileira, especialmente a nossa, que somos do Partido dos Trabalhadores?

Em primeiro lugar, não confundir focinho de porco com tomada. As manifestações das últimas semanas não são “de direita” ou “fascistas”.

Se isto fosse verdade, estaríamos realmente em péssimos lençóis.

As manifestações (ainda) são expressão de uma insatisfação social difusa e profunda, especialmente da juventude urbana. Não são predominantemente manifestações da chamada classe média conservadora, tampouco são manifestações da classe trabalhadora clássica.

A forma das manifestações corresponde a esta base social e geracional: são como um mural do facebook, onde cada qual posta o que quer.

E tem todos os limites políticos e organizativos de uma geração que cresceu num momento “estranho” da história do Brasil, em que a classe dominante continua hegemonizando a sociedade, enquanto a esquerda aparentemente hegemoniza a política.

A insatisfação expressa pelas manifestações tem dois focos: as políticas públicas e o sistema político.

As políticas públicas demandadas coincidem com o programa histórico do PT e da esquerda. E a crítica ao sistema político dialoga com os motivos pelos quais defendemos a reforma política.

Por isto, muita gente no PT e na esquerda acreditava que seria fácil aproximar-se, participar e disputar a manifestação. Alguns, até, sonhavam em dirigir.

Acontece que, por sermos o principal partido do país, por conta da ação do consórcio direita/mídia, pelos erros politicos acumulados ao longo dos últimos dez anos, o PT se converteu para muitos em símbolo principal do sistema político condenado pelas manifestações.

Esta condição foi reforçada, nos últimos dias, pela atitude desastrosa de duas lideranças do PT: o ministro da Justiça, Cardozo, que ofereceu a ajuda de tropas federais para o governador tucano “lidar” com as manifestações; e o prefeito Haddad, que nem na entrada nem na saída teve o bom senso de diferenciar-se do governador.

O foco no PT, aliado ao caráter progressista das demandas por políticas públicas, fez com que parte da oposição de esquerda acreditasse que seria possível cavalgar as manifestações. Ledo engano.

Como vimos, a rejeição ao PT se estendeu ao conjunto dos partidos e organizações da esquerda político-social. Mostrando a ilusão dos que pensam que, através da luta social (ou da disputa eleitoral) seriam capazes de derrotar o PT e colocar algo mais à esquerda no lugar.

A verdade é que ou o PT se recicla, gira à esquerda, aprofunda as mudanças no país; ou toda a esquerda será atraída ao fundo. E isto inclui os que saíram do PT, e também os que nos últimos anos flertaram abertamente com o discurso antipartido e com certo nacionalismo.

Vale lembrar que a tentativa de impedir a presença de bandeiras partidárias em mobilizações sociais não começou agora.

O rechaço ao sistema político, à corrupção, aos partidos em geral e ao PT em particular não significa, entretanto, que as manifestações sejam da direita. Significa algo ao mesmo tempo melhor e pior: o senso comum saiu às ruas. O que inclui certo uso que vem sendo dado nas manifestações aos símbolos nacionais.

Este senso comum, construído ao longo dos últimos anos, em parte por omissão e em parte por ação nossa, abre enorme espaço para a direita. Mas, ao mesmo tempo, à medida que este senso comum participa abertamente da disputa política, criam-se condições melhores para que possamos disputá-lo.

Hoje, o consórcio direita/mídia está ganhando a disputa pela pauta das manifestações. Além disso, há uma operação articulada de participação da direita, seja através da presença de manifestantes, seja através da difusão de determinadas palavras de ordem, seja através da ação de grupos paramilitares.

Mas a direita tem dificuldades para ser consequente nesta disputa. O sistema político brasileiro é controlado pela direita, não pela esquerda. E as bandeiras sociais que aparecem nas manifestações exigem, pelo menos, uma grande reforma tributária, além de menos dinheiro público para banqueiros e grandes empresários.

É por isto que a direita tem pressa em mudar a pauta das manifestações, em direção à Dilma e ao PT. O problema é que esta politização de direita pode esvaziar o caráter espontâneo e a legitimidade do movimento; além de produzir um efeito convocatório sobre as bases sociais do lulismo, do petismo e da esquerda brasileira.

Por isto, é fundamental que o PT e o conjunto da esquerda disputem o espaço das ruas, e disputem corações e mentes dos manifestantes e dos setores sociais por eles representados. Não podemos abandonar as ruas, não podemos deixar de disputar estes setores.

Para vencer esta disputa teremos que combinar ação de governo, ação militante na rua, comunicação de massas e reconstruir a unidade da esquerda.

A premissa, claro, é que nossos governos adotem medidas imediatas que respondam às demandas reais por mais e melhores políticas públicas. Sem isto, não teremos a menor chance de vencer.

Não basta dizer o que já fizemos. É preciso dar conta do que falta fazer. E, principalmente, explicar didaticamente, politicamente, as ações do governo. Marcando a diferença programática, simbólica, política, entre a ação de governo de nosso partido e os demais.

O anúncio conjunto (Alckmin/Haddad) de redução da tarifa e a oferta da força pública feita por Cardozo a Alckmin são exemplos do que não pode se repetir. Para não falar de certas atitudes conservadoras contra os povos indígenas, da atitude complacente com setores conservadores e de direita, dos argumentos errados que alguns adotam para defender as obras da Copa e as hidroelétricas etc.

Para dialogar com o sentimento difuso de insatisfação revelado pelas mobilizações, não bastam medidas de governo. Talvez tenha chegado a hora, como algumas pessoas têm sugerido, de divulgarmos uma nova “carta aos brasileiros e brasileiras”. Só que desta vez, uma carta em favor das reformas de base, das reformas estruturais.

Quanto a nossa ação de rua, devemos ter presença organizada e massiva nas manifestações que venham a ocorrer. Isto significa milhares de militantes de esquerda, com um adequado “serviço de ordem”, ou seja, militantes que terão como tarefa proteger o conjunto da militância contra os paramilitares da direita.

É preciso diferenciar as manifestações de massa das ações que a direita faz dentro dos atos de massa. E a depender da evolução da conjuntura, nos caberá convocar grandes atos próprios da esquerda político-social.

Independente da forma, o fundamental, como já dissemos, é que a esquerda não perca a batalha pelas ruas.

Quanto a batalha da comunicação, novamente cabe ao governo um papel insubstituível. No atual estágio de mobilização e conflito, não basta contratacar a direita nas redes sociais; é preciso enfrentar a narrativa dos monopólios nas televisões e rádios. O governo precisa entender que sua postura frente ao tema precisa ser alterada já.

Em resumo: trata-se de combinar ruas e urnas, mudando a estratégia e a conduta geral do PT e da esquerda.
Não há como deslocar a correlação de forças no país, sem luta social. A direita sabe disto tanto quanto nós. A direita quer ocupar as ruas. Não podemos permitir isto. E, ao mesmo tempo, não podemos deixar de mobilizar.

Se não tivermos êxito nesta operação, perderemos a batalha das ruas hoje e a das urnas ano que vem. Mas, se tivermos êxito, poderemos colher aquilo que o direitista Reinaldo Azevedo aponta como risco (para a direita) num texto divulgado recentemente por ele, cujo primeiro parágrafo afirma o seguinte: “o movimento que está nas ruas provocará uma reciclagem do PT pela esquerda, poderá tornar o resultado das urnas ainda mais inóspito para a direita”.
Num resumo: a saída para esta situação existe. Pela esquerda.

Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT

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