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Como a esquerda pode conciliar ideias socialistas com o movimento das massas na sociedade em rede? Manuel Castells: Não pode.

junho 11th, 2013 by mariafro
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Zero Hora: Como a esquerda pode conciliar ideias socialistas com o movimento das massas na sociedade em rede?
Manuel Castells: Não pode. Cada tipo de sociedade tem a sua esquerda. E a esquerda atual se formou em uma sociedade que não existe mais, embora a opressão e a exploração continuem existindo. A transformação do sistema político no mundo todo está em curso, como resultado de um processo de mudança gerado na sociedade. E não sabemos qual será sua evolução. A direita não será tão afetada porque sempre defende os interesses dominantes sob diversas formas. Mas a socialdemocracia está desaparecendo porque se supunha que defendia os interesses populares, e agora é aliada das financeiras globais e não defende mais o estado de bem-estar que era sua marca registrada.

Manuel Castells e a política da nova era – entrevista

por Carlos André Moreira/ZH, Canal Fronteiras

08/06/2013

Sociólogo espanhol, Manuel Castells é o convidado do Fronteiras do Pensamento desta semana (POA, 10/06; SP, 11/06). Em sua conferência homônima à sua mais recente obra, Redes de indignação e esperança (lançamento previsto para setembro no Brasil), Castells aborda os movimentos sociais na era da rede. Em entrevista à Zero Hora, discutiu privacidade e internet, a esquerda atual, capitalismo, dentre outros temas.

Dividimos a matéria do jornalista Carlos André Moreira em duas partes. O texto inicial, que interliga o pensamento de Castells ao contexto de Porto Alegre – pelo coordenador do curso de Comunicação Digital da Unisinos, Daniel Bittencourt, e Maria Clara Aquino Bittencourt, pós-doutoranda do PPGCom da Unisinos), e a entrevista com o sociólogo.  Abaixo, leia a entrevista ou acesse o PDF para ver no formato original (impresso, ZH).

Zero Hora: O senhor já discutiu o conceito de “informalidade global”, referindo-se ao modo de produção e ao trabalhador flexíveis, e à descentralização administrativa, à individualização e à horizontalização das hierarquias. Como o senhor percebe, hoje, a “informalidade global” na organização da sociedade contemporânea?

Manuel Castells: Capitalismo é um conceito muito genérico. Para determinar um contexto, temos que definir que tipo de capitalismo, quando e onde. A informalidade não é global, mas específica de um contexto institucional. São informais as atividades que operam fora da regulamentação existente em um determinado contexto. O que é informal em uma sociedade pode não ser em outra. A flexibilidade é diferente. É uma forma de organização das empresas e das administrações. Os regimes de trabalho flexíveis, a individualização das condições de trabalho e da estrutura da rede de negócios e processos de trabalho são o que caracteriza as novas formas de produção de nosso tempo. Enquanto ainda há trabalho em linhas de produção padronizadas, tudo o que pode ser automatizado está sendo e, portanto, o que sobrevive é a prestação individualizada e insubstituível.

Zero Hora: Seu conceito de “sociedade em rede” ganhou novas nuanças devido ao fenômeno das redes sociais e à cultura colaborativa da internet?

Manuel Castells: Propus, em 1996, o conceito de sociedade em rede para caracterizar a estrutura social emergente na era da informação, substituindo gradualmente a sociedade da era industrial. A sociedade em rede é global, mas com características específicas para cada país, de acordo com sua história, sua cultura e suas instituições. Trata-se de uma estrutura em rede como forma predominante de organização de qualquer atividade. Ela não surge por causa da tecnologia, mas devido a imperativos de flexibilidade de negócios e de práticas sociais, mas sem as tecnologias informáticas de redes de comunicação ela não poderia existir. Nos últimos 20 anos, o conceito passou a caracterizar quase todas as práticas sociais, incluindo a sociabilidade, a mobilização sócio-política, baseando-se na Internet em plataformas móveis.

Zero Hora: Nos primeiros dias da Internet comercial, muito se discutiu o risco à privacidade na sociedade conectada. Hoje, dados pessoais, histórico de navegação na web e até mesmo mensagens individuais são ferramentas orientadas de marketing. A privacidade tornou-se um produto de mercado?

Manuel Castells: Obviamente, na era da internet, não há mais privacidade, ainda que seja necessário continuar protegendo-a com leis. Os governos interferem legalmente ou ilegalmente na rede, as empresas utilizam os dados pessoais e os vendem, e quem pode inteirar-se da vida dos outros por meio da rede o faz. O que é novo é que antes só o poder podia espionar, e agora, qualquer cidadão com um celular pode gravar os poderosos. E, realmente, os dados pessoais são mercadorias e as empresas de internet prestam serviços que são pagos com dados pessoais. Existem hoje no Vale do Silício pequenas empresas inovadoras que protegem dados pessoais em troca de poderem vendê-los eles próprios com melhores condições de privacidade.

Zero hora: O senhor já disse em entrevistas anteriores que falta interesse político aos governos para efetivar um controle dos mercados financeiros. O senhor acha que algo mudou nesse sentido depois da crise de 2008?

Manuel Castells: A gestão da crise de 2008 mostrou que os governos ao redor do mundo estão decisivamente influenciados pelas financeiras. E, como as instituições financeiras operam melhor em uma situação de desregulamentação total, as barreiras para o controle do Capital estão aumentando. Os países do G-20 não chegaram a um acordo, e os esforços da União Europeia para impor a taxa Tobin seguem fracassando. Além do mais, os paraísos fiscais, onde se pratica a evasão fiscal das grandes multinacionais, continuam sem controle efetivo por parte das instituições internacionais.

Zero Hora: A internet é aclamada como uma ferramenta para a expressão democrática, mas permanece sob controle e censura em países como China e Irã. Uma ditadura com o necessário grau de persistência e recursos pode controlar o potencial literário da rede?

Manuel Castells: Definitivamente não. A rede não garante a liberdade, mas torna mais difícil a opressão. A censura permite identificar e punir o mensageiro, mas não pode deter a mensagem. No Irã, em 2009, em condições de censura total, houve um movimento democrático muito forte que, apesar de reprimido, deixou sementes de rebelião que voltaram a se manifestar. Na China, têm havido milhares de revoltas populares nos últimos tempos e, em janeiro de 2013, houve uma ampla mobilização na internet e nas ruas de Guangzhou para defender com sucesso a liberdade de expressão da revista Southern Weekly.

Zero Hora: Em recente visita a Porto Alegre, Slavoj Zizek disse, a respeito de movimentos como o Occupy Wall Street: “quando se tem revolta e não há um projeto de esquerda aceito pelas pessoas, a vitória é da direita radical.” Os movimentos sociais da sociedade em rede tem projeto de longo prazo?

Manuel Castells: Essa é uma concepção velha de política, a de que sem vanguardas, líderes e programas não há eficácia. Movimentos sociais em rede, característicos do nosso tempo, rejeitam tais fórmulas políticas porque, de acordo com eles, reproduzem o mesmo modelo antidemocrático de representação, seja de esquerda ou de direita. Não são movimentos para defender um programa, e sim para mudar a sociedade e a política. Seu projeto está sempre em desenvolvimento, pois para eles o processo (ou seja, a deliberação democrática e ampla na rede e nas ruas) é o produto. Os movimentos existem no espaço público do ciberespaço e no espaço público urbano. Quando a repressão é forte, buscam refúgio na rede e depois voltam a emergir sob novas formas. Por isso eu os chamo rizomáticos. Quem menos os compreende são os intelectuais de esquerda, que sempre sonharam em produzir o programa para massas sem consciência, mas esse tempo já passou, porque a consciência é coletiva e coevolui na rede.

Zero Hora:Como a esquerda pode conciliar ideias socialistas com o movimento das massas na sociedade em rede?
Manuel Castells: Não pode. Cada tipo de sociedade tem a sua esquerda. E a esquerda atual se formou em uma sociedade que não existe mais, embora a opressão e a exploração continuem existindo. A transformação do sistema político no mundo todo está em curso, como resultado de um processo de mudança gerado na sociedade. E não sabemos qual será sua evolução. A direita não será tão afetada porque sempre defende os interesses dominantes sob diversas formas. Mas a socialdemocracia está desaparecendo porque se supunha que defendia os interesses populares, e agora é aliada das financeiras globais e não defende mais o estado de bem-estar que era sua marca registrada.

O que Manuel Castells tem a ver com Porto Alegre – texto inicial à entrevista
Manuel Castells é o próximo convidado do Fronteiras do Pensamento 2013
Não basta um manifesto nas redes sociais para mobilizar as pessoas (entrevista à Folha de S.Paulo)

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Nova Série de Luiz Carlos Azenha: As Crianças e a Tortura

junho 11th, 2013 by mariafro
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Vi ontem o primeiro episódio da série especial no Jornal da Record As Crianças e A Tortura do repórter Luiz Carlos Azenha.

Reportagem dolorida, com depoimentos fortes de vítimas do regime militar, regime de exceção que não poupou nem crianças.

É uma história que ainda está por ser contada e Azenha, como sempre, ajuda-nos a começar a revelá-la.

Não perca hoje o segundo episódio com os depoimentos de Ivan Seixas que foi preso quando era adolescente, mesmo sem nenhum envolvimento com a resistência ao Regime Militar. Ele viu seu pai ser barbaramente assassinado. Ivan já revelou como soube que seu pai seria morto, é grotesco e nos mostra como a grande mídia foi coparticipante deste regime, colaborando com os torturadores.

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UNESP EM GREVE

junho 11th, 2013 by mariafro
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Há também notícias sobre o movimento nesta página do Facebook: https://www.facebook.com/greve.unesprioclaro

Nas últimas semanas diversos campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista) entraram em greve.

Alunos, funcionários e professores, estão em luta contra o projeto de Universidade proposto pelo Estado que não contempla a população como um todo.

Um projeto de Universidade voltada apenas para uma minoria privilegiada da população. Seja através do ensino público precarizado, pelo acesso através do vestibular ou pela permanência estudantil, não são só os muros que impedem a população de fazer parte do ambiente universitário. Todo conhecimento nela produzido também se volta ao mercado que fornece migalhas a classe trabalhadora. Esta não possui recursos suficientes para usufruir dessas “novas tecnologias” fundamentais para o progresso que direcionam as políticas públicas em nosso país. Ou seja, quem a financia, não usufrui da produção do conhecimento e nem ao menos do produto gerado pelo conhecimento.

Sendo nossa mobilização, de âmbito estadual, é inadmissível e totalmente esperada, a omissão dos meios de comunicação tradicionais. Seria contraditório observar a mídia conservadora e elitista noticiando sem criminalizar os movimentos sociais entre eles o Movimento Estudantil.

Entendemos que os donos de tais meios reproduzem os valores que sustentam as desigualdades de nossa sociedade, e esses mesmos donos dos meios de comunicação são imensamente privilegiados por essa política.

Por isso, viemos por meio desta pedir à mídia alternativa que nos ajude, dando voz e repercussão para que possamos atingir nossas reivindicações, para que possamos construir o que acreditamos ser uma Universidade e uma sociedade cada vez mais democrática e para todos.

Algumas notícias e blogs sobre as greves:
http://jornalcidade.uol.com.br/rioclaro/educacao/vestibular/105163-Universitarios-de-Rio-Claro-entram-em-greve
http://meunesprc.blogspot.com.br/
http://greveunespourinhoss.blogspot.com.br/
http://www.une.org.br/2013/04/estudantes-da-unesp-de-ourinhos-estao-em-greve-por-tempo-indeterminado/
http://greve-ocupacaounespmarilia2013.blogspot.com.br/
http://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2013/05/estudantes-da-unesp-de-marilia-e-ourinhos-sp-permanecem-em-greve.html
http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/05/03/alunos-de-quatro-campi-da-unesp-estao-em-greve.htm

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Promotor Zagallo já afirmou em documentos que “ladrão tem de ir para o inferno” e que os homossexuais são abertos a ‘experiências ardentes’

junho 10th, 2013 by mariafro
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É longa a ficha corrida do promotor que fala demais por não ter nada a dizer: na sexta a noite ele sugeriu, no Facebook, que a tropa de choque da PM atirasse para matar manifestantes do Movimento Passe Livre que ele arquivaria inquérito!

Em 2011 ele lamentava a mira do policial que não matou o ladrão já que este tem de “ir para o inferno”. Como se não bastasse o discurso da violência nos documentos oficiais de um profissional cujo trabalho é promover a Justiça em outro documento judicial o promotor ironiza homossexuais, reforçando estereótipos sobre comportamento promíscuo dos gays que segundo ele são: pessoas “modernas e abertas a novas experiências, sobretudo aquelas ardentes capazes de ruborizar aos mais indiferentes moais da Ilha de Páscoa.”

“Bugios”… “moais”, “abichornar”,  “iniciativa do penetrante”, “meu tribunal”…  o promotor que já sofreu uma investigação em 2011, agora é alvo de outra tanto na Corregedoria do MP Paulista como na do Conselho Nacional do MP.

A matéria a seguir foi sugerida por Cy Garcia via Facebook

Promotor ironiza gays em documento

Após afirmar que ladrão tem de ir pro inferno, Zagallo diz que homossexuais são abertos a experiências ardentes

Denúncia foi feita em processo de homicídio; procurado, promotor não quis se pronunciar

AFONSO BENITES, DE SÃO PAULO, Cotidiano 

02/10/2011

Após escrever em uma denúncia que um policial civil deveria melhorar sua mira e mandar um ladrão para o inferno, o promotor Rogério Leão Zagallo, do 5º Tribunal do Júri de São Paulo, cunhou novas expressões polêmicas.
Agora, a denúncia de homicídio envolve dois homossexuais. O réu é o segurança Fábio Luiz dos Santos, 29. A vítima, o agente de modelos Jefferson Garbeline, 34, o Jeff.

Conforme o documento assinado por Zagallo, os dois se conheceram em uma boate frequentada por pessoas “modernas e abertas a novas experiências, sobretudo aquelas ardentes e capazes de ruborizar aos mais indiferentes moais da Ilha de Páscoa”.

A denúncia, aceita pela Justiça, foi feita em abril deste ano e o crime ocorreu em março do ano passado.

O promotor escreveu ainda que Jeff era um “homossexual cheio de entusiasmo, de ardor e de vivacidade” e que levou o segurança para sua casa porque queria ser “penetrado” por ele.

ABICHORNAR

Segundo as investigações, o motivo do crime foi que o segurança não conseguiu ter ereção para transar com a vítima. Na interpretação de Zagallo, o segurança decepcionou a vítima que “queria, a todo custo, praticar a sodomia com seu algoz”.

“Irresignado com a malsucedida iniciativa do penetrante denunciado, Jeff não se abichornou [acovardou] e, assumindo uma postura viril, começou a cobrar-lhe empenho para a reversão da derrocada”, escreveu Zagallo.

Santos confessou o crime, mas alegou que agiu em legítima defesa porque fora atacado com uma faca.

DIRETO
Para Beto de Jesus, diretor da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), o promotor poderia ser direto em seus argumentos sem desrespeitar os dois envolvidos no crime.

“Essa atitude me causa escárnio. Se ele quiser fazer deleite para si mesmo, que escreva um livro, não faça isso em um documento judicial.”
Para o diretor, o promotor zombou dos homossexuais e de sua prática sexual.

A coordenadora do Centro de Referência da Diversidade, Irina Bacci, afirma que para avaliar o posicionamento do promotor Zagallo, seria necessário analisar todo o processo judicial do qual essa denúncia faz parte.

“Ele pode ter querido criar uma licença poética ou ter agido de uma forma estúpida colocando cinismo e sarcasmo em seu texto só porque os dois envolvidos no crime eram homossexuais”, disse.

OUTRO LADO
Procurado anteontem, Zagallo não quis se manifestar. A assessoria de imprensa do Ministério Público informou que o promotor já está sendo investigado pela Corregedoria da instituição.

A investigação começou na semana retrasada, depois de a Folha revelar que o promotor sugeriu para um policial melhorar sua mira para mandar bandido para o inferno. Nesse caso, o policial foi assaltado por dois homens armados e, ao reagir a disparos, matou um dos ladrões.

Leia também: 

Corregedoria Nacional do MP também instaura reclamação contra o promotor que fez incitação ao crime no Facebook

MP abre processo contra promotor que incita crime na rede sugerindo que a PM matasse manifestantes do MPL

Promotor sugere no Facebook que PM atire em manifestantes do Movimento Passe Livre que ele arquivaria inquérito!

MPL: “se a tarifa não baixar, a cidade vai parar”

Nota pública do Movimento Passe Livre sobre a luta contra o aumento

Nota à Imprensa: Movimento Passe Livre de São Paulo

Denúncia: Polícia impede que manifestantes presos do Movimento Passe Livre falem com seus advogados

Movimento Passe Livre: #ExisteAumentoemSP

Renato Rovai: “A revolta é de jovens. E muitos pobres. E com raiva. E isso ninguém me contou. Eu vi.”

Aos que querem desqualificar a luta da juventude por uma cidade de direitos

Sérgio Bruno: Ao promotor Zagallo, de colega para colega

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