Maria Frô - ativismo é por aqui

Maria Frô header image 4

Eduardo Campos o traíra da vez?

março 16th, 2013 by mariafro
Respond

Por sugestão de Julio Cesar Macedo Amorim reproduzo (sob protestos devido a fonte onde foi publicada a matéria) o texto de André Singer. Mas não sem antes traçar minha humilde opinião a respeito da bola da vez: Eduardo Campos sair da base do governo de coalização encabeçado pelo PT e concorrer à presidência.

Primeiro é preciso fazer um esclarecimento: que base? Porque esta que Dilma tem é mais um bando de gangsteres que só apronta e queima o seu  filme  tornando a presidenta mais reacionária e antipática à luz dos movimentos sociais, da esquerda, dos militantes de seu próprio partido, esta base é pura chantagem de ruralistas, fundamentalistas e oportunistas que  só vive dando rasteira nos momentos em que ela mais precisa.

De todo modo acho que Eduardo Campos não vai trair Lula (Dilma ele dá facadas pelas costas com gosto) porque se se voltar contra Lula se arrependerá amargamente e porque grande parte de seu sucesso em Pernambuco ele tem de dividir os louros com o ex-presidente.

Não colocará o carro na frente dos bois, nordeste é uma base eleitoral pequena perto do Sudeste e aqui ele tem de disputar espaço com Aécio; com os tucanos serristas, e ainda com a rede itaú, ops! natura, ops! ecocapitalista de Marina que agrada da zona Sul do Rio aos jardins de SP. É muito bico pra poucos aliados.

Nas bases em que o sistema político brasileiro se encontra o socialismo moreno de Eduardo Campos minguaria fácil, fácil porque precisaria de aliança com a direita como fez o PT em seus governos de coalização e aí seu novo papo ‘estou do lado dos sindicatos e das centrais contra as privatizações’ dançaria sem mesmo a música começar.

Enfim, acompanhemos.

PS. Paulo Henrique tem outra opinião, aqui: EDUARDO SE FAZ CANDIDATO PARA EMPRESÁRIOS DE SP: Ele fala mal da Dilma, do Lula e da Petrobrás. E está mais para Bláblárino que para Aécio

Base governista?

Por: André Singer, na Folha Ditabranda

16/03/2013

Fosse a política brasileira menos acomodatícia, a reforma ministerial em gestação implicaria a retirada dos cargos entregues ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), que a esta altura, aliás, nada mais tem de socialista afora o nome. Os últimos gestos do presidente da sigla, Eduardo Campos, indicam a intenção de criar, sempre que pode, embaraços ao governo federal, que supostamente apoia.

Há 15 dias, o governador de Pernambuco estabeleceu uma surpreendente aliança com Paulo Pereira da Silva, o principal dirigente da Força Sindical, para barrar a privatizante MP (595) dos portos. Em seguida, na quarta passada, liderou 16 governadores em uma proposta de onerar a União em R$ 4,5 bilhões para resolver o problema criado com a derrubada no Congresso do veto presidencial sobre a divisão dos royalties do petróleo.

Campos vem sendo procurado por descontentes, à direita e à esquerda, com a presidente Dilma Rousseff. De empresários do agronegócio a representantes da estiva, passando por candidatos à presidência da Câmara, é extensa a romaria dos que viajam a Recife. A todos o neto de Arraes acolhe com magnânima boa vontade, mesmo que nada tenham a ver com a sua plataforma modernizante de eficiência gerencial.

O caso dos portos é exemplar. O mais coerente para quem defende o uso de métodos empresariais na gestão pública seria apoiar a medida privatizante. Mas Eduardo decidiu secundar o movimento dos trabalhadores, que têm nova greve marcada em uma semana com o objetivo de barrar o que consideram a privatização do setor. Para o cúmulo da ironia, o ministro encarregado da Secretaria de Portos é do PSB.

O objetivo evidente do jovem político nordestino é ampliar as bases para uma postulação presidencial de centro, provavelmente já no ano que vem. Portador de altíssima aprovação em seu Estado, ainda é pouco conhecido no resto do Brasil. Mesmo depois do bom desempenho do partido nas eleições municipais de 2012, Campos tinha apenas 3% das intenções de voto no país. Por isso, precisa aparecer.

A disputa de 2014 será difícil para um candidato fora das grandes agremiações (PT e PSDB), considerando-se que Marina Silva também correrá pelo meio. Com pouco tempo de TV, Campos terá baixo poder de fogo. O seu trunfo é o suporte que recebe dos que querem desgastar Dilma, o que pode crescer caso a situação econômica patine. O mesmo explica, por sinal, a hesitação do PSD, de Kassab, em aderir à recandidatura da presidente.

O governo parece alimentar a ilusão de que pode recuperar a lealdade de Campos mais à frente. A lógica indica, entretanto, que só a terá se e quando não precisar mais dela.

ANDRÉ SINGER escreve aos sábados nesta coluna, e-mail: avsinger@usp.br

Tags:   · · · 10 Comments

Valter Pomar: “Temos quer voltar a ser um partido que atua também nos anos ímpares”

março 16th, 2013 by mariafro
Respond

Por sugestão de Renam Brandão, reproduzo uma longa entrevista com Valter Pomar, membro do Diretório Nacional do PT e Secretário Executivo do “Foro de São Paulo”, que congrega hoje quase 80 partidos de esquerda em toda a América.

E como destaca Paulo Henrique em trechos do Conversa Afiada, além de falar sobre a retomada do papel dos núcleos de base, sua importância e os desafios que ensejaria sua retomada como forma de organização pela base do partido, depois de duas décadas de organização apenas em torno das estruturas previstas na legislação eleitoral, Pomar  faz duras críticas à atuação do seu próprio partido em relação às comunicações. Que eu tenha conhecimento é a primeira vez que um dirigente do Diretório Nacional é tão incisivo, apesar de já ter ouvido Rui Falcão fazer críticas na mesma linha.

Pomar diz que o PT não pode continuar funcionando apenas só nos anos pares (nas eleições), destaca a necessidade de dar prioridade à construção de um jornal diário e de outros de meios de comunicação de massa próprios, essa ultima aliás, outra “blasfêmia” em tempos de Dilma, Paulo Bernardo e Helena Chagas  e ao detalhamento do que são as reformas estruturais, pois “reforma” é uma palavra desgastada pelo uso.

Entrevista com Valter Pomar: PT, um partido ímpar

Página 13

11/02/2013

Valter Pomar

 Entrevista concedida a redação do Página 13

“Temos quer voltar a ser um partido que atua também nos anos ímpares e que sabe combinar luta social, luta ideológica, construção e partidária, com disputa eleitoral, ação parlamentar e governamental”.

O jornal Página 13 entrevista nesta edição Valter Pomar, membro do Diretório Nacional do PT e Secretário Executivo do Foro de São Paulo. O dirigente petista faz uma análise da trajetória do partido que completa 33 anos, no dia 10 de fevereiro. Fala sobre os dez anos do partido frente ao Governo Federal; e a necessidade de que o Processo de Eleições Diretas, que será realizado este ano seja capaz de formular uma nova estratégia para o PT enfrentar a atual situação política, nacional e regional e mundial.

PG13 – O PT completa 33 anos no dia 10 de fevereiro. Qual é a diferença do PT de 1980 e de hoje?

Valter Pomar – A principal diferença é que hoje somos governo nacional e temos melhores condições para materializar nossas propostas. Mas conquistamos a presidência de República em condições muito diferentes daquelas que existiam em 1980 ou em 1989. O PT é diferente, o Brasil é diferente, a América Latina e o mundo são diferentes.

PG13 – O que mudou desde fundação do PT para cá?

Valter Pomar – De maneira geral, a onda neoliberal que começou nos anos 1970 afetou negativamente o mundo do trabalho, as nações em desenvolvimento, o estado de bem estar europeu, o socialismo de tipo soviético e causou imensos estragos na cultura progressista, democrática, de esquerda em todo o mundo. Tudo isto constrange o potencial de um governo de esquerda.

PG13 – Como, apesar deste contexto negativo, o PT ganhou as eleições presidenciais?

Valter Pomar – Há várias causas. O neoliberalismo chegou tardiamente no Brasil, quando já estava refluindo no resto do mundo. Em parte por isto, em parte por nossas virtudes, conseguimos impedir os tucanos de implementar o neoliberalismo até o fim: por exemplo, preservamos estatais importantes, como o Banco do Brasil e a Petrobras. O que quer dizer que a correlação de forças aqui não era tão negativa quanto em outras partes. Por outro lado, apesar de também ter sido impactado, o PT conseguiu ampliar sua influência eleitoral nos anos 90, o que funcionou como um contraponto ao refluxo das lutas sociais naquele mesmo período e funcionou como um acúmulo de forças fundamental para entender a vitória de 2002. E, por fim, há um fato importantíssimo: uma parte da burguesia brasileira estava descontente com o fundamentalismo neoliberal de FHC e não fez contra Lula 2002 o que havia feito contra o Lula 1989. Essas são algumas das causas que nos levaram a vencer. A correlação de forças não impediu o PT de ganhar as eleições presidenciais de 2002, mas produziu um governo muito diferente do que faríamos, por exemplo, se tivéssemos vencido em 1989. Naquela época teríamos um governo de esquerda, já a partir de 2003 tivemos um governo de centro-esquerda.

PG13 – Em que o PT avançou?

Valter Pomar – Aqui é preciso distinguir as coisas. O PT nos anos 80 era o partido da luta contra a ditadura e contra a transição conservadora, um partido de oposição, ancorado nas lutas sociais e no socialismo como objetivo. Já nos 90 nos convertemos em alternativa de governo contra o neoliberalismo. E a partir de 2003, viramos o partido do presidente da República. Assim, do ponto de vista de massa, nossos êxitos se confundem com os êxitos do governo, que de maneira muito resumida consistem em ter melhorado a vida do povo, recuperado o papel do Estado e adotado uma política de integração regional. Numa frase, estamos nos desfazendo da herança maldita do neoliberalismo. Mas o Partido não pode ser avaliado apenas pelo que fez ou deixou de fazer enquanto governo. Temos objetivos históricos que vão muito além daquilo que um governo é capaz de fazer. E, neste aspecto, o balanço é mais contraditório.

PG13 – Você acha que nesses anos o PT retrocedeu?

Valter Pomar – As pesquisas, inclusive as nossas, mostram que o PT segue sendo o partido com maior apoio popular, 24%, muito à frente do segundo colocado, que é o PMDB, com 6%. Mas somos os maiores, num ambiente em que cai o número de brasileiros e brasileiras que manifestam preferência por algum partido: 61% em 1988, 44% em 2012. De maneira geral, podemos dizer que nos últimos dez anos melhoraram as condições materiais de vida do povo brasileiro, mas a subjetividade popular não acompanhou o ritmo. Por subjetividade, eu me refiro ao ambiente cultural em geral, à postura dos meios de comunicação e da indústria cultural, à qualidade da educação pública, à auto-organização social, à democratização da política e à vida interna dos partidos. No concreto: hoje no PT temos mais filiados-eleitores que filiados-militantes. E nossa vida interna, nosso debate, está longe, muito longe, da que necessitamos para governar e principalmente transformar profundamente o país.

PG13 – Apesar disto, podemos falar que o PT é hoje o maior partido de esquerda da América Latina e um dos maiores do mundo?

Valter Pomar – Eu evito usar esta expressão, porque me recorda uma frase de um ministro da ditadura militar acerca da Arena. Brincadeiras a parte, o PT não é dos maiores partidos do ponto de vista numérico. Pode ser que esteja enganado, mas acho que o percentual de brasileiros filiados ao PT é inferior ao de uruguaios filiados à Frente Ampla. Aliás, o PT precisa crescer muito em número de filiados, o que exigirá garantir a existência de núcleos, de formação e de comunicação partidária. Mas voltando a tua pergunta, embora numericamente possamos não ser os maiores, ao menos proporcionalmente, do ponto de vista político o PT é visto hoje como um dos partidos mais importantes do mundo e da América Latina. Não apenas porque governamos o Brasil, com os êxitos já citados, mas também porque expressamos uma esquerda que soube resistir relativamente bem à crise do socialismo soviético e da social-democracia.

PG13 – Quais os principais desafios do Partido para o próximo período?

Valter Pomar – Um dos desafios é não viver do passado glorioso, nem se conformar com o presente exitoso. Noutras palavras: o PT não pode virar um partido que tem um grande passado pela frente. Até porque, se fizermos isto, seremos derrotados pela direita, que está se renovando, se reciclando, nos atacando e experimentando caminhos para nos derrotar. Outro desafio é deixar de ser um partido de anos pares, ou seja, um partido que vive fundamentalmente em função dos processos eleitorais, dos governos, dos mandatos parlamentares e do pagamento das dívidas das campanhas anteriores. Temos quer voltar a ser um partido que atua também nos anos ímpares e que sabe combinar luta social, luta ideológica, construção e partidária, com disputa eleitoral, ação parlamentar e governamental. Foi com esta combinação de formas de luta que acumulamos forças para vencer em 2002. Um terceiro desafio é construir uma estratégia que nos permita passar para uma nova etapa, uma etapa de reformas estruturais no país. Aqui, em minha opinião, trata-se de atualizar o programa e a estratégia democrático-popular e socialista que o PT elaborou nos anos 80. Até porque, o sucesso relativo de nossa ação governamental está recolocando os dilemas estratégicos que o Brasil viveu naquela época. Evidentemente, um quarto desafio é a reeleição para a presidência em 2014, ampliar nossa presença nos governos estaduais e nos parlamentos.

PG13 – Neste ano, além das comemorações dos 33 anos do PT, o partido realiza o Processo de Eleições Diretas. Qual é a importância do PED?

Valter Pomar – Depende. Se o regulamento do PED for respeitado, ou seja, se houver debate, democracia interna e, principalmente, se pararmos de importar para dentro da nossa vida interna práticas oriundas das eleições tradicionais, se tudo isto for feito, o PED pode ser muito importante para formular uma nova estratégia para o PT enfrentar a nova situação política, nacional e regional e mundial. Resumidamente: em parte por causa dos efeitos da crise, em parte porque a burguesia não gosta da combinação de salários altos e desemprego baixo, está ocorrendo uma mudança na postura do grande capital frente ao governo federal encabeçado pelo PT. Ou seja, estão deixando de existir aquelas condições excepcionais que permitiram a um governo de centro-esquerda, liderado por Lula, melhorar a vida dos pobres e garantir grandes lucros aos ricos. O PED é o momento de debater esta nova situação e de decidir que caminho seguir. Claro que haverá os que defendem que o caminho a seguir é fazer concessões ao capital, via concessões, desonerações, subsídios e flexibilizações na legislação trabalhista e social. Confio, entretanto, que a maioria do Partido vai optar por outro caminho: mais democracia, reformas estruturais, fortalecer o mundo do trabalho, reafirmar nossos compromissos socialistas.

PG13 – O que diria para o militante petista e para o simpatizante do partido nos 33 anos do PT? Qual é hoje o principal inimigo e a principal ameaça ao PT?

Valter Pomar – Se me pedem para escolher um, eu diria que o principal inimigo é o monopólio da mídia. Hoje, as grandes empresas de comunicação são o quartel-general da direita, dos conservadores. Não apenas do antipetismo, mas anti-esquerda, anti-movimentos sociais, anti-democracia. Agora, a principal ameaça que paira sobre nós é a postura conivente, complacente, tímida, recuada, com que alguns setores do PT e da esquerda em geral tratam este tema. O inimigo está na dele, está fazendo o seu papel, que é o de nos desmoralizar para nos destruir. O problema está em como atuamos frente a isto. Temos que construir os nossos meios de comunicação próprios, temos que democratizar a verba publicitária dos governos que dirigimos, temos que fazer cumprir as leis (por exemplo, parlamentares não podem ser proprietários de concessões públicas de rádio e TV) e temos que alterar a legislação que regula a comunicação social.

PG13 – Mas o PT já está há dez anos no governo e, como você diz, pouco avançamos na tão sonhada democratização da comunicação. Por quê?

Valter Pomar – Na minha opinião, prevaleceu no governo uma linha incorreta, de conciliação com as grandes empresas de comunicação. O problema de fundo é o seguinte: a saúde é um direito público, a educação é um direito público, é dever do Estado garantir estes direitos, podendo o setor privado ter um papel complementar, mas sob supervisão pública. Pois bem: na comunicação deveria valer o mesmo critério. Mas na prática segue prevalecendo o contrário: a informação e a comunicação são controlados pelo setor monopolista privado, com quase nenhuma supervisão pública, mas com amplo financiamento público via propaganda governamental. Nós temos os recursos humanos e financeiros necessários para ter uma comunicação pública de imensa qualidade, assim como para ter uma comunicação privada democrática e plural; falta vontade política. E temos a obrigação de democratizar as verbas publicitárias, muito mais do que aquilo que já foi feito.

PG13 – Quero insistir no assunto governo. Em 2013, o partido também comemora os 10 anos do Governo Democrático e Popular. O PT conseguiu os avanços a que se propôs enquanto governo e se manteve fiel à sua plataforma?

Valter Pomar – Não foram dez anos de governo democrático-popular. Foram dez anos de governo federal encabeçado pelo PT. Assim está, aliás, no documento que convoca o Quinto Congresso petista. Infelizmente, na hora de dar nome ao evento, acho que alguém ficou com medo de melindrar os aliados com a história de encabeçado pelo PT; e como falar de governo de centro-esquerda é meio frustrante, tacaram a expressão democrático-popular. Sei que para alguns pode parecer uma firula terminológica, mas não é: precisamos exatamente de um governo que faça reformas estruturais no país, por exemplo, a tributária e a agrária, e o nome que sempre demos a isto foi exatamente governo democrático-popular. Feita esta ressalva, a resposta a tua pergunta é: mais ou menos. A plataforma do PT não foi globalmente executada nestes dez anos de governo. Em alguns casos, porque a correlação de forças impediu; noutros casos, porque durante muitos anos prevaleceu no Partido a tese de que é melhor um mal acordo do que uma boa briga. Apesar disto, estes dez anos podem e devem ser comemorados: com todas as limitações e contradições, trilhamos o caminho da superação do neoliberalismo, melhoramos a vida do povo e incentivamos a integração regional. Historicamente, não é pouca coisa. Mas, também historicamente, não é o suficiente. A desigualdade continua brutal, a maioria do povo ainda não tem acesso ao bem-estar social, a democracia política continua refém das elites.

PG13 – Você é um dos dirigentes da Articulação de Esquerda, tendência petista que este ano está comemorando 20 anos de fundação. De que forma a AE colaborou para a construção do PT e no que continua a colaborar?

Valter Pomar – Nos anos 80, a tendência hegemônica no PT era a chamada Articulação. Depois de 1989, houve um grande debate no Partido e nesta tendência, sobre como atuar no contexto da ofensiva neoliberal e da crise do socialismo. Este debate resultou, primeiro, numa guinada à direita, que se tivesse prevalecido teria transformado o PT num partido social-democrata. Num segundo momento, como reação, houve um giro à esquerda: entre 1993 e 1995, uma precária maioria de esquerda controlou o Diretório Nacional do PT. Num terceiro momento, a maioria de esquerda foi desalojada: perdemos o 10º Encontro Nacional do PT por apenas 2 votos na tese guia e 16 votos na escolha do presidente do Partido. Durante dez anos, entre 1995 e 2005, a esquerda partidária cumpriu um papel de resistência, oscilando entre 45% e 30% do Diretório Nacional. A Articulação de Esquerda vertebrou, ao lado de tendências como a Democracia Socialista e a Força Socialista, esta resistência. Certamente cometemos muitos erros, mas olhando para trás acho que cumprimos um papel importante para o PT: sem nós, sem a pressão que exercíamos, a maioria moderada do PT poderia ter levado o Partido para um caminho de desacumulação de forças. Dou como exemplos disto: a tentativa de fazer o PT participar da revisão constitucional, que poderia ter nos custado algumas estatais; a tentativa de aprovar o parlamentarismo, que inviabilizaria de fato o governo Lula; a tentativa de lançar outro candidato presidencial, que não Lula, em 1998; e as ridículas tentativas de tratar o PSDB como nosso aliado, tentativas que até recentemente causaram desastres, como em Belo Horizonte.

PG13 – Qual é o principal legado da AE e desafios daqui para frente?

Valter Pomar – Acho que nosso principal legado foi o que ajudamos a fazer em 2005. Naquele ano, a direita se empenhou a fundo em destruir o PT. Aproveitou-se, para isto, de erros cometidos por setores do próprio Partido. E, frente ao ataque da direita, outros setores do Partido se acovardaram ou ficaram em tamanha defensiva que não conseguiam, nem mesmo, dizer um único motivo para acreditar, defender e votar no PT. Nós da Articulação de Esquerda, igual a outros setores do petismo, não titubeamos em defender o PT e acho que cumprimos ali um papel muito importante. Embora, é preciso dizer, o papel fundamental tenha sido cumprido pelo petista anônimo, aquela montanha de gente que não apenas foi votar no PED de 2005, mas defendeu o PT na rua.

PG13 – A AE terá candidato no PED. Quem será? Qual a plataforma da corrente para o PT?

Valter Pomar – Teremos candidato, que pode ser alguém da própria Articulação de Esquerda, neste caso provavelmente eu mesmo, assim como pode ser alguém integrante de outro setor, desde que óbvio tenha identidade programática com aquilo que defendemos. Nossa plataforma estará disponível em março, no endereço www.pagina13.org.br Seu componente central é: uma nova estratégia para um novo período. Basicamente, defendemos que é preciso passar da ênfase na superação do neoliberalismo, para a ênfase nas reformas estruturais. E que para isto é preciso outro tipo de comportamento partidário: mais mobilização, mais organização de base, mais formação, mais comunicação, mais defesa do projeto socialista. Um partido também para os anos ímpares, como creio já ter dito antes.

PG13 – Qual é a sua avaliação sobre a crise de 2005 e a AP 470?

Valter Pomar – A crise de 2005 tem duas facetas: por um lado, o ataque hipócrita da direita, que tentou transformar um caso de caixa 2 numa crise constitucional e no supostamente maior escândalo de corrupção na história do país; por outro lado, os erros de importantes dirigentes, que se terceirizaram parte das finanças partidárias para um criminoso tucano chamado Marcos Valério. Como a direita não conseguiu nos destruir em 2005, nem conseguiu nos derrotar em 2006 e 2010, abriu-se para eles o caminho da judicialização da política em geral, e para esta estratégia o caso de 2005 caia como uma luva. Por isto sempre afirmei que o processo no Supremo Tribunal Federal resultaria em condenações. Curiosamente, alguns dos condenados achavam o contrário. A mesma ilusão de classe que os levou a promiscuidade com Marcos Valério, os levou a acreditar no suposto caráter técnico da corte suprema. Claro que para fazer as condenações, foi necessário criar uma nova jurisprudência. Aos inimigos, nem mesmo a lei…

PG13 – O que você pensa sobre os atos que são organizados Brasil afora pelo companheiro José Dirceu?

Valter Pomar – Eu penso que ele está no direito dele se defender, até porque sua condenação foi sem provas. Mas se eu fosse ele, agiria totalmente diferente. Primeiro, pelo papel que ele jogou na construção do PT e na direção do Partido durante a primeira fase do governo Lula, acho que ele tem a obrigação de apresentar um balanço crítico e autocrítico de sua atuação. Em segundo lugar, acho que ele deveria acompanhar as deliberações do Diretório Nacional do PT acerca do assunto, que evitam cair na armadilha montada pela direita, que pretende transformar as condenações de alguns filiados em condenação de todo o Partido. Na minha opinião, Dirceu não percebe que a tarefa de defender o PT não deve ser confundida com a tarefa de defender os condenados pelo STF. Em terceiro lugar e mais importante, eu teria enfrentado este tema ainda em 2005, assumindo a responsabilidade política pelos erros cometidos. Se tivéssemos feito isto, estaríamos todos nós, ele inclusive, em melhor condição, agora.

PG13 – Então você acha que estes atos não ajudam ao Partido?

Valter Pomar – Como disse, acho que o Dirceu tem o direito de se defender. E acho que os militantes que se sentem solidários a ele, podem e devem participar. Mas na minha opinião política, estes atos não ajudam o Partido, não ajudam o governo e não ajudam os condenados. O PT deve continuar denunciando os atropelos cometidos pelo STF, deve continuar prestando solidariedade aos condenados, sem que isto implique em deixar de reconhecer os graves erros que foram cometidos. Mas a defesa do PT passa pela ação do Partido em torno dos grandes temas da pauta nacional. Quem quer e precisa colocar este tema no centro da pauta é a direita, não nós.

PG13 – Qual é a posição da AE a respeito da reforma agrária? Qual é a avaliação da corrente sobre a atuação do governo nesta área?

Valter Pomar – Somos totalmente a favor da reforma agrária. Tanto antes, quanto agora. Seja para combater a inflação, seja por segurança alimentar, seja para democratizar a propriedade e o poder, a reforma agrária é fundamental. O desempenho dos nossos governos, nesta área da reforma agrária estritamente falando, é medíocre. O correto seria que a reforma agrária tivesse a mesma importância e a mesma qualidade que a política agrícola, o apoio aos assentados e aos pequenos produtores.

PG13 – Financiamento Público de campanha é fundamental para que?

Valter Pomar – Para que haja democracia. Hoje, a eleição é deformada pelo poder do dinheiro. Não há democracia que resista a isto. E, como a grana chama grana, o investimento das empresas na democracia gera leis e governos em favor das empresas doadoras, gerando também corrupção. A corrupção é um efeito colateral inevitável do financiamento privado empresarial das campanhas eleitorais.

PG13 – Qual é a pauta prioritária para o PT no próximo período? Na sua avaliação em que devemos centrar nossas lutas?

Valter Pomar – Politicamente falando? Reforma política e democratização da comunicação. O PT tem que aproveitar este ano, aproveitar o PED, aproveitar seu Congresso, para debater com a sociedade brasileira sobre os grandes temas de nosso país, sobre o balanço de nossos governos, sobre os desafios futuros e sobre os grandes obstáculos políticos a este futuro, hoje: a influência do poder econômico nas campanhas eleitorais e a deformação informativa e comunicacional imposta pelos monopólios da mídia.

PG13 – E com a classe trabalhadora qual deve ser a nossa relação?

Valter Pomar – O PT continua sendo o Partido preferido pela maior parte dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. E também somos o partido preferido da maior parte dos militantes sociais. O problema é que a pauta da mobilização social, no sentido amplo da palavra, não apenas reivindicativo, não ocupa um lugar central na agenda das direções partidárias. Ao lado deste problema, que vem dos anos 1990, há um problema novo: o surgimento de uma nova classe trabalhadora, geracionalmente e sociologicamente, isto que alguns chamam indevidamente de nova classe média. O PT precisa buscar este setor, organizá-lo, mobilizá-lo, impedir que a direita o hegemonize. Em especial a juventude, com destaque para a juventude trabalhadora, que tem que ser reconquistada pelo PT. E para isto precisamos de uma conduta muito forte, que vai desde o funcionamento e postura do PT e da Juventude Petista, passando por fortalecer nosso agir cultural, as politicas de governo etc.

PG13 – E  com os países da América Latina, da Europa que encontra-se em crise e EUA?

Valter Pomar – O PT tem uma política internacional bastante ativa, mas os recursos humanos e materiais disponíveis são ínfimos perante a imensidão da tarefa. Na secretaria de relações internacionais do PT temos, contando dirigentes e funcionários, sete pessoas. Quando contamos isto para os chineses ou para os franceses, eles não conseguem acreditar: seus departamentos de relações internacionais contam com mais gente. Se o PT quiser ampliar sua influência internacional, precisamos conhecer mais, elaborar mais, difundir mais o que fazemos e ter presença física mais intensa em todo o mundo. Não são tarefas difíceis em si, apenas exigem recursos, empenho e paciência para formar novos quadros. Felizmente, embora o PT estrito senso tenha pouca gente envolvida, o petismo no sentido amplo da palavra é muito presente na vida internacional, através dos nossos quadros que atuam na área, seja em movimentos sociais, ONGs, nas universidades e centros de pesquisa, governos e parlamentos. Este petismo internacionalista é fundamental para o PT e muitas vezes é o que suplemente a debilidade do aparato partidário.

PG13 – O que é ser socialista e defender o PT?

Valter Pomar – É fazer o que fazemos. Claro que quando eu vou a algumas atividades, onde a mesa de debate é composta apenas por organizações de ultra-esquerda, uma mais radical que a outra, é difícil. Mas quando eu lembro que o Brasil real é completamente diferente da composição daquela mesa de debate, quando eu lembro que a esquerda brasileira detém apenas 30% do parlamento nacional, quando eu lembro o ódio que a burguesia, a direita e o PIG têm contra o PT, quando eu penso no papel que o PT e o governo brasileiro jogam no mundo, quando eu penso no quanto melhorou a vida do povo nesses dez anos, aí eu acho que defender o PT é uma das coisas mais fáceis e necessárias.

De maneira similar, quando vou a reuniões dominadas por gente acrítica e burocratizada, que acham que está tudo 100% bem, que tem como horizonte máximo administrar, fica difícil. Mas basta mudar de ambiente, para ver que há dezenas ou centenas de milhares de petistas que não querem apenas governar, querem transformar o país e o mundo. Que não aceitam o neoliberalismo e o capitalismo como horizontes intransponíveis. E que não entraram no PT para fazer carreira, para ter cargos, mas sim para organizar e potencializar sua militância. Nestas horas, eu continuo achando válida uma opinião que eu tinha nos anos 80, ou seja, que o petismo pode ser o socialismo adequado às condições brasileiras. A conferir, pois esta história ainda está sendo escrita.

Tags:   · · · · · 1 Comment

Zé de Abreu por Cynara Menezes

março 16th, 2013 by mariafro
Respond

Tenho uma longa entrevista gravada com José de Abreu, que ainda estou editando, por hora segue o perfil que a Cynara fez.

Perfil

Zé de Abreu, o militante

Por Cynara Menezes, na Carta Capital

16/03/2013 09:43

Com o mar da Barra da Tijuca na janela e o cão da raça lhasa apso e nome Pipo no colo, diante da tela do computador, o ator José de Abreu tuíta. Fala de política (muito) e de televisão e teatro (menos), praticamente o dia inteiro. Tem frequência tão assídua na rede social quanto o divertido vilão Nilo tinha nos lares brasileiros durante Avenida Brasil, a anterior novela das 9 da Globo. A popularidade na tevê e na internet fez surgir um novo interesse: Zé de Abreu decide se vai ou não se lançar a deputado federal pelo PT em 2014. Está para se filiar ao partido.

“Estou esperando, porque quero o ‘top’ na minha filiação. Quem vai abonar minha ficha é a Dilma e o Lula. No mínimo”, diz o ator, que milita na política desde a época da ditadura, quando cursava Direito na PUC-SP. Tem o destino paralelo ao de outro Zé, o Dirceu. Ambos nasceram no ano de 1946, Zé Dirceu em março e ele em maio. Zé de Abreu, em Santa Rita do Passa Quatro, São Paulo, Zé Dirceu, em Passa Quatro, Minas Gerais. Todo mundo confunde. Um continuou na política e o outro se decidiu pelo teatro, após viver anos rebeldes em São Paulo e anos lisérgicos em Londres, em Amsterdã e na Bahia.

"Quem vai abonar minha ficha é a Dilma e o Lula. No mínimo", brinca. Foto: Paula Kossatz

“Quem vai abonar minha ficha é a Dilma e o Lula. No mínimo”, brinca. Foto: Paula Kossatz

Pipo não para sossegado, e Zé de Abreu o tranca na cozinha enquanto conversa e posa para as fotografias. Falo que está em boa forma para os 67 anos prestes a completar, ele passa a mão no tórax, estica-se todo na cadeira e diz: “É, tô gostosão”, gargalha. “Sou de uma geração que deu sorte, que vai chegar aos 70 bem.”

Em seguida entra, com jeito sério e dreadlocks nos cabelos, seu filho Cristiano, de 28 anos, que participará de toda a conversa com o ator. No elevador, cruzamos com a mulher de Abreu, Camila, que vai nos encontrar no almoço. Por último, já no restaurante, conheço Bernardo, de 12, o caçula. Tem ainda Theo, de 36, e Ana, de 35. O primogênito Rodrigo morreu ao cair do prédio onde moravam, em 1992, aos 21 anos.

O ator fala do assunto meio apressadamente e eu não remexo no assunto, mas no final do almoço, depois de alguns copos de vinho branco, Zé de Abreu vai chorar ao lembrar o filho perdido. O artista, percebe-se, é uma pessoa do tipo “casadoira e família”. Ainda bastante jovem, durante o movimento estudantil, se envolveu com Neuza, mãe de Rodrigo. “Ele já estava mais enrascado”, conta o outro “Zé” da turma, o Mentor, deputado federal petista. Depois viveria 19 anos ao lado da atriz Nara Keiserman, mãe dos três filhos mais velhos. Está casado com Camila há oito.

Na época da ditadura, Mentor e Abreu eram mais independentes, e Dirceu, ligado à Dissidência de São Paulo (DI-SP), uma das tendências originadas do antigo PCB. “O Zé de Abreu era mais radical”, ri Mentor. “O Zé Dirceu era mais leve. Mandava os estudantes para a universidade fazer grupo de estudo. Eu era mais da turma do (Luís) Travassos, que falava: ‘Vamos quebrar o Estadão, o Citibank’. Eu era mais porra-louca”, admite o ator. Estavam juntos quando a polícia prendeu todo mundo no Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna (SP), em 1968. Abreu e Mentor sairiam dias depois.

Dirceu, Travassos (então presidente da proibida UNE) e Vladimir Palmeira foram mantidos presos e seriam libertados somente um ano depois, em troca do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sequestrado pelo MR-8 e pela Ação Libertadora Nacional em 1969. Zé de Abreu, enquanto isso, mudou-se para o Rio de Janeiro, descolou um emprego de vendedor de máquinas Olivetti como fachada e continuou no apoio às ações clandestinas. Quando foi chamado pela concorrente, a multinacional IBM, topou na hora. Era o disfarce perfeito.

Exposição. Assíduo no Twitter, Abreu está nos palcos cariocas com a peça Bonifácio Bilhões. Foto: Paula Kossatz

Exposição. Assíduo no Twitter, Abreu está nos palcos cariocas com a peça Bonifácio Bilhões. Foto: Paula Kossatz

“Imagina eu com um crachá da IBM: International Business Machine Corporation. Melhor cobertura impossível.” Com o salário, comprou um DKW Fissore, um dos carros mais bacanas da época. “Fui encarregado de levar para São Paulo parte dos dólares que foram roubados do cofre da amante de Adhemar de Barros, em 1969, no meu Fissore vermelho de banco de couro, dentro de caixas de máquina de escrever da IBM. E ainda falei para os guardas que me pararam no caminho: ‘Vi um carro suspeito lá atrás’.”

“Assim como quase todo nordestino de 90 anos conheceu Lampião, todo militante ou simpatizante de esquerda com 65 anos diz ter colocado as mãos nos dólares do Adhemar”, brinca o jornalista Tom Cardoso, autor do livro O Cofre do Dr. Rui (Civilização Brasileira), sobre o episódio. “Durante a pesquisa para o livro, ao menos 60 entrevistados falaram que colocaram as mãos nos dólares do Adhemar.”

A paixão pelos automóveis continua. Hoje Zé de Abreu se diz louco por Citroën. “É como o Geraldo Vandré falava: ‘Não vou me fantasiar de proletário’.” Ele tinha um Galaxie. Criticar o ator pelo modo de vida ou pelo fato de “ser de esquerda e trabalhar na Globo” é recorrente entre seus (muitos) adversários no Twitter, onde tem mais de 72 mil seguidores. Foi parar na emissora dos Marinho após o filme A Intrusa, de Carlos Hugo Christensen, vencedor de vários prêmios no Festival de Gramado em 1980, inclusive o de melhor ator para Zé de Abreu. À época, atuava no teatro gaúcho. Sua primeira novela foi As Três Marias (1980). Viriam outras 15.

Zé de Abreu diz que sempre apoiou o PT, mas sua presença só se tornou visível na eleição de 2010, quando entrou com força na campanha de Dilma Rousseff à Presidência. Votou em Lula em todas as tentativas, mas, em 1994, admite, torceu por Fernando Henrique Cardoso. “Eu achava que FHC era melhor que Lula naquele ano. Não era a vez dele, Lula concorda comigo hoje”, diz. “FHC era a literatura de axila da minha geração. Mesmo quem não lia, usava debaixo do braço.”

Na eleição de Dilma, posicionou-se de tal forma a ponto de começarem a rolar boatos de que seria demitido da Globo, sobretudo quando fez uma transmissão ao vivo pelo Twitter na qual provocava o tucano José Serra, que “tinha abandonado o mandato até como presidente da UNE”. Na noite do último debate da eleição presidencial, na emissora carioca, foi buscar a petista no heliponto, com o carrinho de golfe do Projac, e a levou até os estúdios. Quando Dilma fez o discurso da vitória, o ator global apareceu de “papagaio de pirata” em todos os jornais no dia seguinte. “Aquela foto me ferrou”, afirma.

Aí foi ele quem começou a achar que exagerava e decidiu procurar a direção da emissora para ver se havia algum problema. “Eu incomodo?”, perguntou a Otávio Florisbal, então diretor-geral da TV Globo. “Inspire-se em Dias Gomes, Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho. Você vai precisar correr muito para chegar aos pés deles”, teria dito Florisbal, nas palavras do próprio Zé de Abreu. “Posso estar imaginando, mas foi mais ou menos assim”.

Papagaio de pirata. No fundo, durante o discurso da vitória de Dilma Rousseff. "Aquela foto me ferrou". Foto: Buda Mendes/Latin Content/ Getty Images

Papagaio de pirata. No fundo, durante o discurso da vitória de Dilma Rousseff. “Aquela foto me ferrou”. Foto: Buda Mendes/Latin Content/ Getty Images

Fato é que não só segue contratado como acabou selecionado para um papel importante emAvenida Brasil, que lhe rendeu o prestigiado prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte de melhor ator de tevê do ano de 2012. A risadinha (hihihi) de Nilo, sua marca registrada, nasceu de um ímpeto “socialista” do ator de valorizar o trabalho da maquiadora, que passava mais de uma hora a deixar feios os seus dentes, escondidos por baixo da espessa barba do personagem. Atualmente, está em cartaz na peça Bonifácio Bilhões, um texto meio datado cujo principal chamariz é a presença do “Nilo”, com estreia em São Paulo prevista para abril.

Em 2012, Zé de Abreu voltou à carga nas críticas virtuais, inclusive a jornalistas da Globo, durante o julgamento do “mensalão”. Ele não acredita na compra de votos. “Que ‘mensalão’? Eu sei que não aconteceu. Este julgamento foi o maior espetáculo virtual, uma grande farsa. Como uma pessoa sem foro especial como Zé Dirceu é julgado sem ter direito a recurso?”, critica. Pondero que se comprovou, no mínimo, caixa 2. “Óbvio. Sim, cometemos esse crime. Mas quantas vezes o Lula tentou ser eleito sem entrar no esquema e perdeu? Não se elege um presidente com 10 mirréis.”

Se na Globo o ator não encontrou problemas por sua militância no PT, o mesmo não se pode dizer da Abril. Alvo constante de blogueiros da editora dos Civita, recebeu um recado da direção: está vetado nas páginas da Contigo!, a revista de fofocas de maior circulação do País, por “estar batendo muito no patrão”. “O Roberto Civita queria ser o Roberto Marinho, mas Roberto Marinho era um homem inteligente. Acho o Civita um ser humano torto, nasceu acéfalo”, dispara. “Agora, para um cara bilionário como ele se preocupar comigo é porque sou bom pacas.”

A última polêmica nas redes sociais não tem a ver com política: ele declarou-se bissexual, para espanto de muitos. Homossexual assumido, o autor de novelas Aguinaldo Silva duvidou. “Sabe o que eu acho, Zé? Tu tá gozando com nossa cara, isso sim”, provocou Silva no Twitter. Zé de Abreu parece ter se divertido tanto com a história que chegou a gravar um vídeo no qual aparece como “namorado” do comediante Rafinha Bastos, já visto por mais de 650 mil internautas no YouTube.

Zé de Abreu é ou não bissexual? “Sou machista, luto todos os dias contra isso. Uma vez, minha mãe brigou com minha mulher porque eu estava lavando pratos. ‘Filho meu não lava prato!’ O que posso fazer? Fui criado assim. Então pensei que, para vencer meu machismo, meus preconceitos, teria de fazer parte de uma minoria. Não posso fingir que sou negro, nem que sou índio, nem que sou gay. ‘Mas bissexual vão acreditar’, pensei. Foi por isso que falei”, confessa. Ao lado, o filho Cristiano balança a cabeça: “Eu achei ridículo”.

Tags:   · · · · · No Comments.

O novo Francisco e os passarinhos pelos olhos de Aroeira

março 15th, 2013 by mariafro
Respond


Fonte: Página do Renato Aroeira do Facebook

Tags: 1 Comment