Não à terceirização

Maria Frô - ativismo é por aqui

Maria Frô header image 4

Roquinaldo Ferreira, da periferia do Rio a professor da Universidade Brown

janeiro 13th, 2013 by mariafro
Respond

De Ramos a Brown

O professor da Ivy League que é filho de uma empregada doméstica e de um cabo da Marinha

LUCAS FERRAZ, na Folha

RESUMO Especialista em história atlântica, que busca compreender a dinâmica comum a África, Portugal e Brasil, Roquinaldo Ferreira acaba de se tornar professor da Universidade Brown. De origem pobre e formado na escola pública, projeta-se na Ivy League, conjunto de oito instituições da elite acadêmica dos EUA.

Se você comentar com Roquinaldo Ferreira o ineditismo de sua trajetória para os padrões brasileiros, ele vai concordar, embora relutante. Se você constatar então que ele é o primeiro brasileiro negro do andar de baixo a chegar tão longe na elite da academia americana, o professor ficará resignado, fará ponderações e, em seguida, explicará a modéstia: “Não quero dramatizar a minha vida”.

Filho de um cabo da Marinha e de uma empregada doméstica, o mais velho de três irmãos criados em Ramos, bairro pobre da zona norte do Rio de Janeiro, Roquinaldo Ferreira, 45, é um dos mais destacados africanistas de sua geração. Colheu seus louros acadêmicos e intelectuais nos EUA, na África e na Europa.

No Brasil, onde seu nome não é tão difundido, ele sempre estudou em escolas públicas. Serviu-se de bolsas do governo para se graduar, fazer mestrado e doutorado, quando obteve o título de PhD em história, com ênfase na África Central, pela Universidade da Califórnia.

Sem conseguir se estabelecer no país natal, Roquinaldo construiu uma bem-sucedida carreira no exterior. Professor da Universidade da Virgínia, nos EUA, é também professor-visitante da Universidade de Genebra.

Neste semestre, ele assume a Vasco da Gama Chair, espécie de cátedra nos departamentos de história e de estudos luso-brasileiros da Universidade Brown, uma das oito universidades da Ivy League, sigla conhecida pela excelência e pelo elitismo social (também integram o grupo Harvard, Yale, Princeton, Columbia, Dartmouth College, Cornell e Universidade da Pennsylvania).

Foram mais de 15 meses de processo seletivo -que incluiu avaliação de seus ensaios e artigos, de sua atitude em sala de aula e até de seu comportamento social. Ele ficará responsável por quatro disciplinas: história de Portugal moderno, história do Império Português e a relação com Brasil e África, o tráfico de escravos entre Brasil e África e Brasil Colonial.

Apesar das reticências de Roquinaldo, é fato: nunca antes um acadêmico brasileiro que não tivesse suas origens na elite havia galgado degrau tão alto na Ivy League.

TRADIÇÃO “Ele vem de uma tradição ampla. Ao contrário dos americanos que estudam a África, ele incorpora a história do império português e do Brasil no contexto africano, o que é muito diferente”, comenta o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor de História do Brasil na Universidade Sorbonne, na França. Alencastro assinou uma das 12 cartas de recomendação que a Universidade Brown recebeu de diferentes partes sobre o brasileiro.

Em toda a sua trajetória intelectual, Roquinaldo sempre focou a questão da “transnacionalidade”. Esse é o cerne de sua atuação como africanista e, de certa forma, o que o ajudou a se destacar no meio acadêmico mundial.

O brasileiro é um defensor do que chama de “história atlântica”, narrativa conjunta das colônias portuguesas, o que une o Brasil e a África Negra. Ele mostra como a colonização portuguesa desaguou num sistema único de exploração colonial no Atlântico Sul, criando laços e relações em todos os tipos de atividades nos territórios americanos e africanos.

No final da década de 1990, Roquinaldo iniciou um trabalho sobre a escravidão em Angola realizando pesquisas nos arquivos do país. A empreitada continuou na década seguinte e foi complementada no Brasil e em Portugal.

O mote da integração cultural está presente em seu primeiro livro, “Cross-Cultural Exchange in the Atlantic World: Angola and Brazil during the Era of the Slave Trade” (intercâmbio cultural no mundo atlântico: Angola e Brasil durante a era do comércio de escravos), publicado no ano passado nos EUA -ainda não há edição brasileira.

SIMPÓSIO Estive com Roquinaldo em meados de outubro em Providence, capital de Rhode Island, o menor dos 50 Estados americanos. Com pouco mais de 100 mil habitantes, a cidade de casas vitorianas e imponentes prédios históricos onde se situa a Universidade Brown é uma das mais antigas do país, fundada ainda durante a instalação das 13 colônias. O local foi um dos mais importantes centros industriais no século 19. Roquinaldo esteve na cidade para participar de um simpósio sobre estudos portugueses no contexto global -ao lado de colegas lusitanos, americanos e brasileiros.

“Tudo o que faço tem essa perspectiva transnacional, e isso quebra a receita tradicional do império português”, afirmou ele. “Essas relações transnacionais são algo que se faz pouco na academia.”

O historiador acredita que sua ida para Brown reflete também a força geopolítica do Brasil, cujo interesse tem aumentado nas universidades americanas -seja como objeto de estudo ou pelo número de alunos e professores.

Para Brown, o significado da presença de Roquinaldo não será menor: a universidade, fundada por irmãos que estiveram envolvidos no comércio de escravos na costa leste americana no século 18, terá pela primeira vez em seus quadros um brasileiro negro, nascido em Salvador (o país e sua primeira capital concentram a maior população negra fora da África), lecionando e interpretando o tráfico de escravos entre terras atlânticas.

EXPOSIÇÃO Tímido, esbelto, com não mais de 1,70 m, cabelo raspado a máquina e óculos de grau, o professor Roquinaldo Ferreira se incomodou ao passar três dias na companhia de um jornalista. Ele não gosta de exposição e não quer, como disse, se transformar em um intelectual com voz pública. Neste ano, ele deve continuar em uma espécie de “arranjo transatlântico”, como define sua relação com a família. Ele divide seu tempo entre os EUA (onde passa, com idas e vindas, sete meses por ano) e a cidade francesa de Ferney-Voltaire, a 30 minutos de carro do centro de Genebra, onde a mulher -uma americana que trabalha na ONU- vive com o filho de sete anos do casal.

Vai ao Brasil ao menos uma vez por ano. Entre 2004 e 2005, quando ele e a mulher moraram no Rio, o historiador queria dar aulas em alguma grande universidade brasileira. Foi reprovado no teste que fez para a Unicamp, não conseguiu outra vaga e a tentativa de retornar ao país se frustrou.

A família de Roquinaldo Ferreira se estabeleceu no Rio no final dos anos 60. O interesse pela leitura chegou a ele na Escola Municipal Berlim, que ainda funciona no mesmo endereço, no bairro de Ramos. Para compensar a falta de biblioteca, a professora levava livros de outros colégios. Na sexta série, caiu em suas mãos um exemplar de “Cem Anos de Solidão”, clássico do colombiano Gabriel García Márquez. “Ali tudo mudou. Aquelas imagens me levaram para um outro mundo”, recorda.

O realismo mágico e o gosto pela leitura o levaram à história. À universidade ele só pôde ingressar após obter uma bolsa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, agência do Ministério de Ciência e Tecnologia). Naquela altura sem o pai, que tinha morrido, estudar era um luxo para a família.

“Minha ascensão tem muito a ver com a oportunidade com as bolsas”, conta.

Durante o mestrado na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a mesma onde havia se graduado, começou a atuar como pesquisador do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, da Universidade Cândido Mendes, no Rio, experiência que considera fundamental para sua trajetória. “Me deu sofisticação cultural.”

A pavimentação da carreira de africanista seguiu na Universidade da Califórnia, onde recebeu o título de doutor -novamente com bolsas do CNPq.

“O ensino superior no Brasil não é meritocrático, mas pode ser um instrumento de mobilidade social”, conclui.

DE COSTA A COSTA Da Costa Oeste à Leste, passando pelo sul e o Meio-Oeste, não importa se em pequenas, médias ou grandes universidades, há cada vez mais brasileiros estudando nos EUA, assim como no exterior de forma geral.

O número de estudantes brasileiros utilizando bolsas do governo federal em países estrangeiros, como fez Roquinaldo, era no ano passado 566% maior do que em 1998, segundo números da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ligada ao Ministério da Educação) e do CNPq. A maioria está nos EUA e França. O aumento do interesse das universidades americanas pelo Brasil se reflete também nas sucursais no Brasil: Harvard já tem seu escritório em São Paulo, e Columbia está abrindo o seu no Rio.

Além de temáticas cada vez mais distintas, há sobretudo mais dinheiro para os estudos brasileiros nos EUA. O empresário e filantropo brasileiro Jorge Paulo Lemann doou quantidades polpudas para diferentes instituições universitárias do país. A Fundação Lemann não divulga os valores, mas acadêmicos e diretores das universidades estimam as doações em mais de US$ 50 milhões.

Brown -que ficou de fora das doações de Lemann- é detentora de um dos centros pioneiros de estudos lusófonos entre as universidades da Ivy League, graças à influência da grande comunidade de portugueses e cabo-verdianos em Rhode Island.

O Brasil entrou no radar por causa do professor Thomas Skidmore, decano e mais famoso dos brasilianistas, que lecionou na universidade por mais de duas décadas. Seu sucessor é outro brasilianista americano, James Green, autor de “Apesar de Vocês” (Companhia das Letras) e conhecido da esquerda brasileira por ter militado no Brasil e nos EUA contra a ditadura.

PASSADO Em seu novo cargo na Universidade Brown, Roquinaldo Ferreira deseja estreitar os laços com o Brasil e a atual produção acadêmica relacionada com a África. Para ele, a academia brasileira ainda não conseguiu explicar o nosso passado escravista. “As pessoas falam sobre escravos, mas é como se eles tivessem caído do céu. Como as pessoas se tornavam escravas?”, indaga.

Estávamos sentados em uma cafeteria Starbucks próxima ao campi de Brown. Roquinaldo esperava uma corretora para conhecer alguns imóveis na cidade. Perguntei o que ele via desse passado escravista na atual sociedade brasileira.

“A desigualdade. A escravidão é pautada pela desigualdade. Esse é o principal reflexo, e não só no Brasil, mas em todos as sociedades escravistas das Américas. É transnacional”, resume.

Roquinaldo sempre estudou em escolas públicas. Serviu-se de bolsas do governo para se graduar, fazer mestrado e doutorado, quando obteve o título de PhD na Califórnia

Roquinaldo sempre focou a questão da “transnacionalidade”. Esse é o cerne de sua atuação como africanista e, de certa forma, o que o ajudou a se destacar

Para ele, a academia brasileira ainda não conseguiu explicar o nosso passado escravista. “As pessoas falam sobre escravos, mas é como se eles tivessem caído do céu” das para diferentes instituições universitárias do país. A Fundação Lemann não divulga os valores, mas acadêmicos e diretores das universidades estimam as doações em mais de US$ 50 milhões. Brown -que ficou de fora das doações de Lemann- é detentora de um dos centros pioneiros de estudos lusófonos entre as universidades da Ivy League, graças à influência da grande comunidade de portugueses e cabo-verdianos em Rhode Island. O Brasil entrou no radar por causa do professor Thomas Skidmore, decano e mais famoso dos brasilianistas, que lecionou na universidade por mais de duas décadas. Seu sucessor é outro brasilianista americano, James Green, autor de “Apesar de Vocês” (Companhia das Letras) e conhecido da esquerda brasileira por ter militado no Brasil e nos EUA contra a ditadura. PASSADO Em seu novo cargo na Universidade Brown, Roquinaldo Ferreira deseja estreitar os laços com o Brasil e a atual produção acadêmica relacionada com a África. Para ele, a academia brasileira ainda não conseguiu explicar o nosso passado escravista. “As pessoas falam sobre escravos, mas é como se eles tivessem caído do céu. Como as pessoas se tornavam escravas?”, indaga. Estávamos sentados em uma cafeteria Starbucks próxima ao campi de Brown. Roquinaldo esperava uma corretora para conhecer alguns imóveis na cidade. Perguntei o que ele via desse passado escravista na atual sociedade brasileira. “A desigualdade. A escravidão é pautada pela desigualdade. Esse é o principal reflexo, e não só no Brasil, mas em todos as sociedades escravistas das Américas. É transnacional”, resume. Roquinaldo sempre estudou em escolas públicas. Serviu-se de bolsas do governo para se graduar, fazer mestrado e doutorado, quando obteve o título de PhD na Califórnia Roquinaldo sempre focou a questão da “transnacionalidade”. Esse é o cerne de sua atuação como africanista e, de certa forma, o que o ajudou a se destacar Para ele, a academia brasileira ainda não conseguiu explicar o nosso passado escravista. “As pessoas falam sobre escravos, mas é como se eles tivessem caído do céu”

Tags: No Comments.

Latuff: Aldeia Maracanã

janeiro 13th, 2013 by mariafro
Respond

Em 12 de janeiro de 2013 a tropa de choque da polícia militar do Rio de Janeiro cercou a Aldeia Maracanã, antigo prédio do Museu do Índio, vizinho ao Maracanã, prédio de quase 150 anos  que o governador Sérgio Cabral quer pôs abaixo alegando ser necessária a demolição para as obras da Copa.

Políticos e ativistas dirigiram para o local e juntamente com indígenas permaneceram dentro no prédio e no seu entorno até a polícia abandonar o local.

Carlos Latuff, que esteve lá o dia todo, acabou de fazer esta charge, que dispensa explicações:

Seja Pedro Alvares ou Sérgio, para os indígenas Cabral é sobrenome de colonizador

Facebook da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, ameaçada de despejo pelo Governo do Estado 

Blog do Latuff

Tags:   · · · · 8 Comments

Latuff na Isto É e o tiro no pé dos sionistas

janeiro 12th, 2013 by mariafro
Respond

Quando Latuff me mostrou a lista da Ong sionista que o classificou como o 3º inimigo de Israel eu disse: tiro no pé, agora você ficará ainda mais conhecido (Latuff é conhecido por ativistas de todo o mundo), mas a mídia tupiniquim (afora a blogosfera e algumas publicações  de esquerda) a velha mídia o ignorava sistematicamente. Agora, Latuff está na Folha, na Isto É, na Globo News, daqui a pouco na Veja.

O brasileiro que desperta a ira de Israel

Isto É N° Edição:  2252 |  11.Jan.13 – 21:00 |  Atualizado em 12.Jan.13 – 00:56

Usando seus desenhos para apoiar causas políticas e sociais no Brasil e no Exterior, o cartunista carioca Carlos Latuff coleciona inimigos e entra para a lista de maiores antissemitas do mundo

Laura Daudén

 

Chamada.jpg

A função do artista é violentar”, dizia o cineasta Glauber Rocha (1939-1981). Com essa filosofia na cabeça e um lápis na mão, o cartunista carioca Carlos Latuff, 44 anos, vem despertando paixões e ódios ao redor do mundo. Seu trabalho, povoado de críticas políticas e sociais, o colocou no terceiro lugar do ranking de maiores antissemitas de 2012 do Centro Simon Wiesenthal, organização com sede em Los Angeles (EUA), com mais de 400 mil apoiadores em todo o país. Para justificar a inclusão do brasileiro na infausta lista encabeçada pela Irmandade Muçulmana e pelo presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, o CSW lançou mão de uma charge publicada por Latuff durante os ataques de Israel a Gaza em novembro de 2012. A charge mostra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu torcendo o cadáver de uma criança palestina da qual, no lugar de sangue, pingam votos.

1.jpg

Esse é apenas um na longa série de desenhos provocadores que marcaram a ascensão do artista brasileiro no Exterior e já lhe renderam livros na Jordânia, Suécia e Itália, além de extensos perfis em revistas e jornais internacionais, como é o caso do britânico “The Guardian”. Desde o final dos anos 1990, esses cartoons vêm saltando do papel para os muros e cartazes de protesto ao redor do mundo. Foi assim em 2011, durante a chamada Primavera Árabe, movimento que fez explodir a visibilidade de seu trabalho. Sua receita é simples: internet, arte e ativismo, conceito batizado por ele de “artivismo”. A militância já lhe rendeu três prisões no Brasil e um incontável número de ameaças e intimidações mundo afora. Mesmo assim, o carioca que cresceu inspirado pelos desenhos de Hanna Barbera e os truques de Gualba Pessanha, o “Plim Plim, mágico do papel” da TV Educativa, não tem nenhuma pretensão de dar descanso ao lápis e acredita estar no caminho certo, como afirma na entrevista a seguir.

Entrevista

ISTOÉ – Como você recebeu a notícia de que estava na lista de maiores antissemitas?
Carlos Latuff – Com muita tranquilidade. Eu tenho sido acusado de antissemita por organizações que apoiam Israel desde que comecei a desenhar sobre a Palestina. Essa tentativa de associar as críticas ao governo israelense com o ódio aos judeus é uma estratégia para criminalizar e silenciar os críticos. O rabino Marvin Hiers, fundador do CSW, já havia se manifestado publicamente contra mim dizendo que eu era “quase pior que antissemita” por ter feito aquela charge sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

ISTOÉ – O que motiva essas acusações?
Latuff – Elas partem do lobby israelense, que é muito bem organizado. Eu nunca vi uma instituição antissionista judaica me acusar de antissemitismo. O ódio aos judeus não é uma mentira. Ele existiu e existe, e promover a tolerância é sempre necessário. Mas é inaceitável fazer uma manipulação em favor de um Estado sob o argumento de que se está combatendo o antissemitismo. Uma crítica à Arábia Saudita não é um ataque aos muçulmanos ou ao islã, assim como uma crítica ao primeiro-ministro de Israel não é um ataque aos judeus ou ao judaísmo.

ISTOÉ – Você tomará providências contra o Centro Simon Wiesenthal?
Latuff – 
O relatório do CSW faz parte de uma disputa política e ideológica. A resposta, portanto, deve ir na mesma direção. O cineasta Silvio Tendler publicou carta em meu apoio que está correndo a internet e já conseguiu a assinatura de várias pessoas importantes, como o escritor uruguaio Eduardo Galeano, o sociólogo Emir Sader e o ator americano Danny Glover. Eu também abri uma petição pública para coletar a assinatura de pessoas comuns que não aceitam a manipulação do antissemitismo.

ISTOÉ – Você quer voltar à Palestina?
Latuff –
 Eu gostaria, mas, enquanto tiver de passar pela alfândega israelense, não vou poder entrar. ­Intelectuais como Nor­man  Finkelstein e Noam Chomsky já foram barrados porque se opuseram às políticas de Israel. Depois de ter sido citado como antissemita tantas vezes, é pouco provável que me deixem entrar.

ISTOÉ – Quando você começou a trabalhar com os movimentos sociais?
Latuff –
 Em 1998, quando fiz desenhos para os zapatistas no México. Depois, no início de 1999, visitei os territórios palestinos e passei a apoiá-los. Já no Brasil, comecei a trabalhar para os sem-terra, os sem-teto e para as vítimas da violência policial. Minhas charges ganharam projeção lá fora e outros movimentos requisitaram os desenhos. Esse trabalho é um exercício cotidiano de pisar em calos e esse incidente só me estimula a continuar porque me mostra que estou pisando nos calos certos.

Foto: Masao Goto Filho/ag. Isto É

Tags: 2 Comments

Um comunista

janeiro 11th, 2013 by mariafro
Respond

Meu querido amigo Leandro Fortes que adora as músicas de Caê, mas que abomina o TropiCarlismo, me diria: há de se separar a obra do sujeito e aí a gente lê essas maravilhas e tem de concordar com ele: “Olhando mundo à volta/E prestando atenção/No que não estava a vista/Assim nasce um comunista; Os comunistas guardavam sonhos/ Os comunistas! Os comunistas!; sempre foi perseguido nas minúcias das pistas/ Como são os comunistas?”

Mas não deixa de ser irônico ver Caê cantar o comunista Marighella.


Um Comunista
Caetano Veloso (“Abraçaço” 2012)
Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta uça

Foi aprendendo a ler
Olhando mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava a vista
Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
que morreu em São Paulo
baleado por homens do poder militar
nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano, mini e manual
do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
depois por Magalhães
por fim, pelos milicos
sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?

Não que os seus inimigos
estivessem lutando
contra as nações terror
que o comunismo urdia

Mas por vãos interesses
de poder e dinheiro
quase sempre por menos
quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
eu estava no exílio
e mandei um recado:
“eu que tinha morrido”
e que ele estava vivo,

Mas ninguém entendia
Vida sem utopia
não entendo que exista
Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
segue trágica, sempre
Indecodificável
tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano
samba o referencia
muito embora não creia
em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror

Quem e como fará
Com que a terra se acenda?
E desate seus nós
discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano já não obedecia
as ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica
Ela luz e era treva
Venta de maravilha, de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas!

Link: http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/um-comunista.html#ixzz2HiMWJjmv

Tags:   · · · · 5 Comments