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Os rolezinhos como fenômeno social e manifestação pública

janeiro 27th, 2014 by Renam Brandao
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Bem-vindos ao shopping
foto extraída do Documentário Hiato

Por Renam Brandão e Olavo Carneiro, especial para o Maria Frô

Os rolezinhos, grandes encontros marcados por adolescentes da periferia em shoppings centers, entraram na pauta política nacional, com direito a matérias na grande imprensa e análises sociológicas. O assunto foi alvo também de iniciativas governamentais, com prefeitos, governadores e ministros conversando com as associações dos shoppings para tomar “medidas”.

Este fenômeno social  não é totalmente original. No ano 2000, sem-tetos no Rio de Janeiro promoveram o que hoje podemos chamar de rolezinhos, e o ato foi objeto de documentário (http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg).

Contudo, enquanto os sem-teto cariocas organizaram uma ação política pensada e planejada para denunciar as desigualdades sociais, os atuais rolezinhos surgiram em São Paulo com jovens combinando nas redes sociais encontros que se tornaram enormes.

Esta juventude da era PT na Presidência da República, que está imersa na internet e inserida no consumo de massa, não tinha como foco o protesto ou a manifestação.

A manifestação moderna é caracterizada pelo sociólogo francês Patrick Champagne como uma “ocupação temporária, com finalidade demonstrativa, do espaço público urbano”, ou como um tipo de mobilização onde se busca chamar a atenção dos agentes do campo político para os seus problemas pela expressão de uma opinião política, através de um repertório de técnicas,

[...] utilizadas para subverter o espaço sonoro da cidade (cantos, gritos, ritmos, sonorização e animadores que lançam por alto-falante determinados slogans que são retomados pelos manifestantes, etc.) e o espaço visual habitual da rua (objetos inesperados ou insólitos tais como tratores ou gado nas cidades, disfarces, etc.) com o objetivo de chamar a atenção dos citadinos e transformá-los em espectadores de um conflito. (CHAMPAGNE 1996:190).

O sociólogo entende como opinião política a tomada de posição pública que visa a ser normativa e ter a possibilidade de se impor a todos a fim de se tornar a opinião oficial. Os rolezinhos não buscavam nenhuma normatização, esta juventude queria se encontrar.

Em sua expressão primeira os rolezinhos se parecem mais com o que Patrick Champagne caracteriza como manifestações de primeiro grau – manifestações ‘para si’ de grupos reais em que cada participante limita-se a representar a si mesmo.

Ressalvando que nem toda manifestação ocorre no espaço “urbano”, como bem demonstra nossa persistente questão agrária (que hoje aparece mais fortemente como dimensão ambiental e social), os rolezinhoss não tinham a finalidade de chamar a atenção do conjunto da sociedade para um conflito, ainda que existam ali latentes conflitos de distintas naturezas conexas, que ganham contornos claros e visibilidade justamente com a reação das nossas elites. É uma boa síntese dizer que os rolês possuem conotação política não planejada.

É cedo para percebermos se há e qual seria a relação entre os rolezinhos e as manifestações de junho de 2013 – estas inaugurando no Brasil a inovação das ações coletivas do século XXI em que as redes sociais convocam mobilizações, assim secundarizando as formas tradicionais de mobilização e organização da população (sindicatos, partidos, movimentos sociais). Essa inauguração foi possível pela melhoria nas condições de consumo que deu aos jovens brasileiros acesso a aparelhos eletrônicos e, consequentemente, o direito de fazer parte de redes sem intermediários clássicos.

Os eventos de 2000 e de 2013 guardam com os rolezinhos a diferença de serem deliberadamente protestos em seu nascedouro, ou conforme Champagne, manifestações de segundo grau – que visam efeito demonstração e atenção da sociedade como um todo.

Em comum entre os rolezinhoss, manifestações de junho de 2013 e a visita dos sem-teto em 2000 se vê a discriminação e o preconceito de classe e cor, tão marcantes e enraizadas em nossa sociedade. Preconceito que alimenta o autoritarismo da nossa sociedade, sempre expresso na forma de atuação das PMs e, no caso dos rolezinhos, de forma direta pelos empresários do comércio. Para as classes dominantes, povão reunido – que não seja para futebol, festa e seus golpes de Estado – precisa ser reprimido.

Assim como as manifestações de junho de 2013, a truculência e a discriminação aos rolezinhos geraram a solidariedade que engrossou novos rolês. Foi a reação, mais uma vez, da burguesia, que abriu a possibilidade de politizar (compreensão das inaceitáveis diferenças econômicas, sociais e culturais) nossa juventude e a sociedade brasileira, pois escancarou os divergentes interesses materiais e simbólicos.

Impedir os rolezinhos é de certo modo dizer que ali não é o lugar dessa juventude da periferia, com sua linguagem própria e valores distintos dos cultivados nos “templos de consumo”. Corroborando Jessé Souza[1], o rolezinho se tornou um problema sério e ameaçador quando rompeu “as linhas de demarcação implícitas do nosso apartheid real, ainda que não legal. E as classes populares passam a fazer de conta que não sabem qual é seu lugar. É isso que confere caráter político a essas aparentes brincadeiras de jovens da periferia. Eles ameaçam a fronteira de classes, vivida por todos nós de modo implícito.”

Também reforça o que é o capitalismo e a sociedade de classes, lembrando que nem tudo o que é produzido é para todos, na mesma qualidade e no mesmo local. É a sociedade da distinção (Bourdieu, 2007) atenuada pela viabilização do consumo massificado, mas ainda extremamente hierarquizada e segmentada. Nossas classes sociais, inclusive as elites e a classe média, se definem e se hierarquizam entre si pelo consumo material, e as classes populares só desenvolvem uma distância crítica em relação ao consumo em circunstâncias excepcionais, observa Jessé Souza[2].

Importante dizer que cabe aos partidos de esquerda e aos governos encabeçados por eles um papel de destaque nessa politização e não a função de conciliação do que não pode ser conciliado – a não ser como farsa, onde um lado acaba por se submeter ao outro. É mais uma ótima oportunidade para se enfrentar problemas concretos, como a questão da (des)militarização das polícias e o debate ideológico da propriedade privada. Evidenciando que no caso da polícia a questão não é ela em si, mas nossas profundas desigualdades sociais que criam a cultura de violência e a polícia que temos.

Na disputa cultural (politização) que as esquerdas devem travar constantemente, pois, para transformar de verdade nosso país e não apenas “melhorar a vida do povo”, os rolezinhos também colocam a questão da identidade e explicitam o grande equívoco teórico e político de atribuir a categoria classe média aos trabalhadores que ascenderam economicamente no período Lula-Dilma.

O momento é mais uma oportunidade para o governo e o PT confrontarem representações seculares no Brasil, notadamente uma noção de representação como elaboração e imposição de uma dada visão de mundo social capaz de obter a adesão do maior número possível de cidadãos e que busca a conquista de poderes e privilégios, como nos diz Bourdieu (1998). O semblante das vendedoras e vendedores no documentário sobre a visita dos sem-teto em 2000 e a adesão incondicional ao consumo por parte das classes populares dá a dimensão da necessidade da luta ideológica acompanhando as medidas de superação de desigualdades materiais. Nenhuma experiência de transformação profunda ocorreu sem alteração de consciência coletiva.

Jessé Souza[3] sintetiza bem este desafio: “Ainda que a classe média – e suas frações mais conservadoras – não decida mais eleições majoritárias no Brasil, é ela que detém a hegemonia política e cultural e influencia não só amplos setores das próprias classes populares, mas também decide o que é julgado nos tribunais, o que é publicado nos jornais, dito na TV e o que é discutido nas universidades. Ela domina a esfera pública que decide o que é certo e errado na prática cotidiana real e é por isso que temos uma agenda de ‘políticas públicas informais’ que inclui, por exemplo, matança indiscriminada e violência contra os pobres sem que ninguém – salvo em exceções dramatizadas pela mídia como o caso de Amarildo no Rio – seja responsabilizado.”

Os trabalhadores que melhoraram de vida não se reconhecem como classe média e não são reconhecidos por ela. Como bem assinala André Singer, “segmentos de classe média têm reagido com verdadeiro ódio às tímidas mudanças do último decênio. Uma atitude segregacionista, que estava encoberta pela relativa passividade dos dominados, veio à tona quando os estratos antes excluídos começaram a ocupar aeroportos, frequentar clínicas dentárias e a encher as ruas de carros.” [4].

A truculência e intolerância aos rolezinhos revelam como é crível falar de classe social, no sentido abordado por Thompson, onde a classe se dá na articulação de identidades de interesses entre indivíduos com experiências comuns: “A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus.” (THOMPSON 2004:10).

Os rolezinhos se tornaram um momento de um processo do fazer-se classe. Jovens da periferia em suas experiências comuns, antagonizados pelas classes dominantes e médias, se deparam de forma mais explícita com o seu lugar nas relações de classes de nossa sociedade.

Do ponto de vista da iniciativa do poder público é correto defender o diálogo, mas isto não pode se tornar cortina de fumaça para a inércia ou a adoção dissimulada dos interesses das elites. E quando esse poder público está sob condução, ainda que parcial, das forças políticas de esquerda, seu protagonismo deve se dar em todas as dimensões da vida social (econômica, cultural, ideológica), fortalecendo as perspectivas de superação das relações de dominação.

Bibliografia citada:

Bourdieu, P. (1998) O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

Bourdieu, P. (2007) A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk.

Champagne, P. (1996) Formar Opinião: o novo jogo político. Petrópolis: Editora Vozes.

Thompson, E. (2004) A formação da classe operária inglesa: a árvore da liberdade. Rio de janeiro:Paz e Terra (4ª Ed.).

Olavo Carneiro – doutorando no CPDA/UFRRJ e assessor do senador Lindbergh Farias (olavorio2002@gmail.com)

Renam Brandão – membro do Diretório Estadual do PT-RJ (renam.brandao@gmail.com)


[1]            Estadão

[2]             Estadão 

[3]            Estadão

[4]           Viomundo

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Lançamento do jornal impresso Mídia Periférica

janeiro 27th, 2014 by mariafro
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Jovens negros democratizando a comunicação – Jornal Mídia Periférica.

 

Jovens negros democratizando a comunicação – Jornal Mídia Periférica.

No dia 27 de janeiro, os jovens do Grupo de Comunicação Mídia Periférica, apresentarão o seu novo veiculo de comunicação, o jornal Mídia Periférica. Na edição de janeiro, o impresso traz aspectos de denuncia das comunidades, jovens que são exemplos, empreendedores, indicações de oportunidades, além de contar para o leitor sobre o que o grupo vem realizando fora da comunidade. A distribuição será gratuita em algumas comunidades de Salvador; a publicação também está disponível no link Jornal Mídia Periférica 

O lançamento será o auditório Nelson Mandela, na Casa do Olodum, no Pelourinho. A atividade contará com dois momentos, o bate papo Diálogos das Juventudes de Periferias, que trará como tema “Jovens negros e os meios de comunicação”, com jovens convidados para dialogar sobre o tema, Negro Davi, Paulo Rogério e Hellen Caroline, com a mediação da produtora Dayane Rodrigues. Em seguida, haverá um bate papo, com o editor chefe do Jornal Mídia Periférica, o Enderson Araújo, com a condução da jornalista Ivana Dorali.

O jornal Mídia Periférica, surgiu como uma ferramenta de empoderamento não só dos jovens que o produz, mas também das comunidades em que o jornal irá circular. Segundo Enderson, a ideia é fomentar que jovens de outras comunidades se interessem em escrever noticias sobre suas comunidades, que tragam estas noticias com sua ótica, com o seu olhar.

Enderson entende que isso traz autoestima para os moradores, pois estão acostumados em ler aquilo que os grandes jornais querem escrever “Aprendi nas oficinas de Direito humano a comunicação e informação ministradas pelo Instituto de Mídia Étnica, que eles vendem e propagam a miséria e marginaliza nossa comunidade, e que nós podemos mudar isso, que a educação é o caminho, e porque não educar com jornais impressos, feitos por nós? Essa foi a minha ideia de muitas, espero que dê certo”, contou Araújo.

O veiculo de comunicação dos jovens pretende suprir a necessidade que os moradores das comunidades têm de ter voz, contar suas histórias e seus problemas. Ainda sem fins lucrativos, o grupo sonha com que o jornal se torne referencia nas comunidades. Não por ser um jornal que carrega informações desses lugares, mas para que essa ferramenta possa contribuir na formação humana dos jovens de comunidade, para que estes possam fazer a mudança em seu local, compartilhando experiências, conhecendo onde podem resolver os problemas de suas comunidades e trazendo soluções para a mesma.

Serviço

O quê:  Lançamento do Jornal Mídia Periférica

Horário: 18h.

Quando: 27 de janeiro de 2014

Onde: Casa Olodum, Rua Maciel de Baixo, 22 – Pelourinho.

Contato: 71 9222 6183 – Ítala Herta

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Filarmônica do aterro de lixo do Paraguai

janeiro 27th, 2014 by mariafro
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Começo a segunda feira com a mensagem de um querido amigo dos tempos de adolescência, das comunidades de base. Ele virou um brilhante terapeuta, participou das primeiras experiências de manicômio aberto nos tempos de Capistrano, a primeira administração petista de Santos, modelo de saúde pública para o país. Meu querido amigo Jaques Delgado hoje vive em Trieste.

Aí, minha filha me indica a beleza que compartilho com vocês.

Como a música pode transformar pessoas e comunidades? Como pode abrigar corações que, antes desolados, agora constroem poesia e harmonia?

“Landfill (Aterro) Harmonic” é um documentário sobre uma orquestra do Paraguai, onde os jovens músicos tocam instrumentos criados a partir de lixo.

Cateura, no Paraguai, é uma pequena cidade quase construída dentro do aterro com um alto nível de pobreza e delinquência juvenil.

O diretor da orquestra, Szaran e o professor de música Fabio, planejaram um programa de educação musical para os meninos de Cateura, chegando a ter mais alunos do que instrumentos musicais.

Mas tudo mudou quando apareceu o primeiro violino feito de materiais reciclados. Atualmente, todos os músicos tocam instrumentos de reciclagem e se chamam “A orquestra reciclados”.

Este documentário mostra como o lixo pode ser transformado em um objeto útil, mesmo capaz de produzir música e mudar a vida dos habitantes deste lugar.

Para ajudar a orquestra do lixo, você pode fazer uma doação: Landfill Harmonic.
Curta a página do documentário da orquestra no Facebook: landfillharmonicmovie e compartilhar essa história com o seu grupo de amigos.

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Fernando Haddad: Uma visão de futuro

janeiro 25th, 2014 by mariafro
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Por sugestão de Julio Cesar Amorim

Uma visão de futuro

Por:  Fernando Haddad, no Valor 

24/01/2014

 

Foto: Anderson Schneider

Desde os anos 60, a cidade de São Paulo não enxerga o seu futuro. Vive espremida, atribulada, sem saber para onde vai crescer e se desenvolver. Nos últimos anos acabou por se enredar em uma teia que cerceia a mobilidade e a dispor seus habitantes como se seus bairros fossem apenas prateleiras de um armário.

Por isso, entendo que o melhor presente para a população de São Paulo quem pode dar é a Câmara Municipal, com a aprovação do novo Plano Diretor da cidade.

A visão do futuro organiza e inspira. São Paulo merece se enxergar mais humana e calorosa, mais eficiente e prática. Um plano urbanístico pode ser transformador, como aconteceu nos tempos de Anhaia Melo, Prestes Maia ou Faria Lima.

A cidade São Paulo precisa reorientar o seu crescimento, reocupar áreas desocupadas e outras abandonadas. Voltar-se para as margens dos seus rios, desenvolver a sua periferia. Consolidar o Arco do Futuro e começar pela área histórica das ferrovias que entram na cidade paralelas ao Tietê.

Enquanto aguardamos a posição da Câmara Municipal – o projeto foi discutido em 56 audiências públicas e outras formas de participação popular, antes de ser enviado – as primeiras ações que apontam para o futuro foram tomadas pelo Executivo. Recentemente, sancionei projeto que isenta empresas instaladas na zona leste de São Paulo da arrecadação de tributos municipais, como forma de fomentar a criação de empregos na região e evitar os enormes deslocamentos tão frequentes na cidade.

Sobre a questão da mobilidade urbana, a prefeitura também se adiantou e tomou medidas radicais em relação ao transporte público da cidade. Implantamos 300 quilômetros de faixas exclusivas para trânsito de ônibus. Com isso, ganhamos pelo menos quatro horas semanais, que se perdiam no trânsito, para os trabalhadores. Instituímos o Bilhete Único Mensal, que permite ao seu usuário usar quantas vezes quiser o transporte público, aí incluídos o Metrô e os trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

Agora chegou a vez de iniciar a transformação dessas faixas em corredores exclusivos, o que permitirá mais agilidade ainda e um aumento maior na velocidade dos ônibus. Com a aplicação dos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), criado em 2007 pelo governo federal, São Paulo soma R$ 6,5 bilhões desses recursos, o que viabilizou financiamento federal para 124,6 quilômetros de corredores nas zonas sul e leste, além do Terminal de Itaquera. As obras foram iniciadas em 36 quilômetros de corredores – Ponte Baixa, Inajar de Souza, MBoi, Santo Amaro, Berrini e Itaquera. Outros 44 quilômetros foram licitados: Capão, Radial Leste (trechos 1 e 2), Itaquera Leste e Viário do Jardim Ângela.

Também atuamos decisivamente em outro problema crônico da cidade. Depois de décadas sem um investimento real, iniciamos a implantação de uma tecnologia nos semáforos da cidade que permite a transmissão em tempo real de eventuais problemas. Neste mês de janeiro, totalizamos 260 cruzamentos com monitoramento on-line. A meta agora é modernizar 4.800, o que corresponde a 85% dos cruzamentos com semáforos.

A modernização inclui recuperação da parte elétrica, cabeamento subterrâneo, instalação de no-breaks, controladores e sistema de GPRS. Foram instalados 430 no-breaks e revitalizados 1.386 cruzamentos semaforizados. São Paulo possui 5.676 cruzamentos com semáforos, dos quais 4.598 possuem controladores de sinalização. Todos estão sendo catalogados. A medida possibilitará o desenvolvimento de um indicador de qualidade e padrões de gerenciamento dos equipamentos.

Essas medidas não só apontam para o futuro, como atualizam a cidade em relação às maiores metrópoles do planeta.

O futuro exige também cuidar das novas gerações. Há anos a prioridade na educação pública foi postergada. Estava em 35º lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da região metropolitana, formada por 39 municípios.

Neste mês de fevereiro, as aulas recomeçam para mais de um milhão de alunos do ensino fundamental municipal, de uma forma diferente. Provas bimestrais e lição de casa regular voltarão a ser usadas como balizamento de avaliação. Acabamos com a aprovação automática e com a progressão continuada. Os estudantes agora poderão ser reprovados no final de cada ciclo de três anos, ou seja, no terceiro, sexto e nono anos.

Os professores terão à sua disposição, no Centro Educacional Unificado (CEU), cursos de especialização da UAB, Universidade Aberta do Brasil, no período noturno, ministrados por universidades estaduais e federais, com foco no melhoramento de sua atuação nas salas de aula. Além de permitir mestrado e doutorado. Até o fim deste ano serão 31 polos, 18 deles já foram instalados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes.

A modernidade que se almeja, também se reflete na eficiência dos serviços públicos. Na área da saúde pública, recebemos uma fila de solicitações de exames de diagnóstico de 810.511 pedidos. No ritmo em que vinha, ela deveria bater agora mais de um milhão de pedidos. Apenas com a gestão da fila, agendamentos e a Rede Hora Certa, conseguimos recuar para 690 mil. Reduzimos o tempo de espera de sete para três meses para a realização de ultrassom.

Os procedimentos na área de saúde passaram a ser agendados e comunicados por SMS e e-mail, não raro por telefonema mesmo. Foram mais de cinco milhões de ligações telefônicas e 1,5 milhões de torpedos.

Há muito que São Paulo merecia ganhar um novo hospital público. Depois de décadas, a prefeitura definiu, em setembro, a compra do Hospital Santa Marina, no Jabaquara. Desativado em 2011, o hospital integrará a rede do Sistema Único de Saúde e contribuirá com 250 leitos.

Estamos trabalhando ainda com afinco para entregar para a cidade mais duas novas unidades hospitalares: estão prontos os projetos dos hospitais de Parelheiros e Brasilândia. E o Hospital de Vila Matilde está sendo ampliado de 50 para 250 leitos. Em um ano, reativamos 569 leitos hospitalares, sendo 29 de UTI.

São Paulo merece uma ação capaz de transformá-la em uma cidade vibrante com soluções efetivas na educação infantil, na saúde pública, na habitação, no transporte e na mobilidade. Uma visão de futuro, calcada na visão de uma reorientação do seu desenvolvimento.

São Paulo merece um novo Plano Diretor.

São Paulo merece o Arco do Futuro para reorganizar a urbanização, a mobilidade e a dinâmica da metrópole, que nós todos amamos.

Fernando Haddad, 51, é graduado em direito, mestre em economia, doutor em filosofia, foi ministro da Educação (2005-2013) e é o atual prefeito de São Paulo.

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