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A nova manobra da elite que ladra é negar o sucesso da Copa, menosprezar o povo brasileiro e confundir seleção com nação

julho 12th, 2014 by mariafro
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Vocês se lembram que assim que a seleção brasileira foi fragorosamente derrotada em campo pela da Alemanha, o senador Álvaro Dias fez circular com sua rede de desinformação um texto preconceituoso (aqui, aqui, aqui) que lembrava o discurso da elite com complexo de vira-latas do Brasil de fins do século XIX início do XX. A mesma elite que criou o estereótipo do trabalhador brasileiro e, consequentemente, do povo brasileiro, povo negro, mestiço, como um povo “preguiçoso”, “indolente”, sem conserto, sem solução. Um preconceito que informou Monteiro Lobato ao traçar a personagem do Jeca-Tatu. Um estereótipo que contaminou até mesmo textos de quem sentia alguma empatia pelo povo explorado, cuja cidadania foi negada pelas elites agrárias herdeiras do escravismo, mesmo com o fim do Império. Um exemplo, é ver como Euclides da Cunha, que ao ir para Canudos e ver a violência com que os sertanejos eram submetidos e cunhar a célebre frase “O sertanejo é antes de tudo um forte”, traça um retrato do sertanejo contaminado pelos preconceitos raciais. Dá uma olhadinha na Parte 2 de Os Sertões aqui e veja os adjetivos que ele escolhe pra descrevê-los.

Essa imagem preconceituosa criada por pensadores conservadores que legitimam o discurso e a dominação da elite parasita brasileira sobre o povo brasileiro justificou durante mais de um século toda a sorte de controle para submeter a classe trabalhadora do Brasil para que ela se conformasse com as péssimas condições de trabalho e de vida, reservada a ela no pós-abolição.

Vários historiadores pesquisaram sobre o assunto: Célia Marinho de Azevedo em Onda Negra, medo Branco, Sidney Chalhoub em Trabalho, Lar e Botequim que prosseguiu nos dois trabalhos seguintes Cidade Febril e Visões da Liberdade são alguns deles. Há também pioneiros na Antropologia como a tese de Mariza Correa em Ilusões da Liberdade, na Filosofia como o estudo de  Maria Sylvia de Carvalho Franco Homens Livres na ordem escravocrata  e na Sociologia o de José de Sousa Martins O cativeiro da terra e ainda os clássicos de Florestan Fernandes A Integração do negro nas sociedades de classe e O negro no mundo dos brancos.

Mas, em pleno século XXI, essa elite herdeira do escravismo ainda vomita seus preconceitos e seus ódios sobre o povo brasileiro que para desgosto dela não nasceu em Miami, não fala alemão, tem rostos e mãos calejadas, mas está cada vez mais se descobrindo sujeito de direitos e cobra isso todos os dias.

A mesma elite herdeira do escravismo é a que xinga a presidenta da República na abertura da Copa do Mundo, copa esta que essa mesma elite em seus jornais e revistas de voz única e em seus partidos sem projeto político dizia que seria um caos e que para desgosto dos abutres foi eleita a melhor copa do mundo.

O ódio animalesco desta elite é porque aquele ‘matuto’, ‘malandro’, ‘tabaréu’, aquela ‘classe perigosa’ do XIX hoje vive uma situação que o Brasil jamais experimentou e o povo brasileiro negro, mestiço, historicamente relegado quer mais e está experimentando direitos novos: hoje, a classe trabalhadora entra na Universidade, quer mais creches e quer perto do seu local de  trabalho,  quer lazer e diversão, quer andar no shopping sem ser barrada porque hoje  está empregada num Brasil que vive uma situação de pleno emprego.

este é o silva

Esta elite odeia isso e quando se vê confrontada age como a louca do Barra Shopping:

Em quem você vai acreditar? No povo brasileiro, em você mesmo, que ergueu a cabeça e sabe que pode até ser até presidente da República e governar fazendo a maior inclusão social da história ou na elite que ladra nos estádios, nas páginas de jornais, nos shoppings, nas redes?

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A economia vai mal, para quem, caras pálidas? O verdadeiro programa da Direita

julho 11th, 2014 by mariafro
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Democratizar a comunicação para democratizar o Brasil

“É um exercício de juntar as partes e buscar compreender esse discurso, que agora se torna raivoso, de uma direita que está presente no espaço público e nos estádios de futebol e já disputa as eleições, com as armas que tem.Vale tudo para tirar o PT do governo. Seu maior poder é o controle da mídia. É por meio dela que a direita disputa a opinião pública e impõe sua visão de mundo. A internet muda um pouco esse estado de coisas, permitindo a expressão da pluralidade e o questionamento da realidade. Mas ela não tem o poder da TV. Mais de 95% dos domicílios brasileiros têm televisão. E seus moradores, todos os dias, passam horas assistindo a uma variedade de programas, aliás, não tão variados assim.” Silvio Caccia Bava

O verdadeiro programa da direita

Claudius

por Silvio Caccia Bava, Le Monde Diplomatique

07/07/2014

É um exercício de juntar as partes e buscar compreender esse discurso, que agora se torna raivoso, de uma direita que está presente no espaço público e nos estádios de futebol e já disputa as eleições, com as armas que tem.Vale tudo para tirar o PT do governo. Seu maior poder é o controle da mídia. É por meio dela que a direita disputa a opinião pública e impõe sua visão de mundo. A internet muda um pouco esse estado de coisas, permitindo a expressão da pluralidade e o questionamento da realidade. Mas ela não tem o poder da TV. Mais de 95% dos domicílios brasileiros têm televisão. E seus moradores, todos os dias, passam horas assistindo a uma variedade de programas, aliás, não tão variados assim.

Há vários meses está em curso uma campanha, capitaneada pelos principais jornais e TVs, de ataques ao governo e de desgaste da presidente Dilma, da candidata Dilma. A disputa eleitoral, que deveria se transformar num embate entre dois projetos, não aparece assim. É um contínuo martelar de acusações contra o governo federal: corrupção, aparelhamento da máquina pública, má gestão, centralismo, descontrole das obras públicas, leniência com manifestações sociais que atentam contra a propriedade privada e quebram bancos e lojas.

A crítica ao governo federal deve ser feita, mas os problemas apontados precisam ser enfrentados na raiz, isto é, na própria forma como o sistema de representação política brasileira foi capturado pelo poder econômico. Nas últimas eleições para o Congresso Nacional, 230 parlamentares eleitos foram financiados majoritariamente por menos de 5% das empresas que se engajaram em algum financiamento eleitoral.

O presidencialismo de coalizão cobra seu preço e as distorções no nosso sistema político representativo são reais. Mas o que se vê é a manipulação da opinião pública. Ocorre que a verdadeira agenda da direita concentradora tem de ficar escondida do eleitorado. Como ela ganharia a eleição prometendo privatizações, arrocho salarial e desemprego? Como os verdadeiros interesses não podem ser apresentados, o foco passa a ser o combate à corrupção, a necessidade de honestidade, o compromisso com o interesse público, a maior capacidade de gestão para aperfeiçoar o desempenho do Estado. É o mesmo que não dizer nada. E os recursos públicos, serão aplicados onde?

Segundo os ideólogos da direita, a economia vai mal e o país está sendo levado para uma fase ruim. O PIB é baixo. A inflação é alta. As exportações fraquejam. A balança comercial vai para o vermelho. O investimento caiu. Os ativos na Bolsa de Valores e as taxas de juros caíram. Os aumentos reais de salários e o maior investimento nas políticas sociais pressionam os custos. O superávit primário está ameaçado e o país caminha para um cenário de baixo crescimento que precisa ser evitado. Esse é o discurso formulado pelo capital, especialmente pelo setor rentista.

A proposta, na realidade, em primeiro lugar, é aumentar os juros da dívida pública e o superávit primário. Isso para atender ao setor rentista. Depois, reduzir salários e os benefícios previdenciários, e flexibilizar os contratos de trabalho, destituindo direitos. O aumento do desemprego para pressionar os salários é desejável. Haverá também privatizações, aumento nas tarifas públicas e cortes no orçamento das políticas sociais, abrindo espaço para as empresas privadas ampliarem sua presença no setor. Como anunciado, o novo governo eleito assinará tratados de livre-comércio para internacionalizar nossa economia, isto é, abrir o mercado brasileiro ainda mais para as grandes corporações transnacionais, destruindo a indústria nacional, o pequeno e médio empresário. Essa abertura envolve a redução de tarifas de importação e a livre circulação dos fluxos de capitais, tão a gosto do capital especulativo financeiro.

E para tudo isso é necessário ganhar as eleições e assegurar o controle do Estado.

Essas propostas estão sendo aplicadas na Grécia, na Espanha e na Itália, e não têm nada de original. Elas obedecem aos interesses e ao comando das grandes corporações transnacionais e da acumulação financeira. Qualquer veleidade de autonomia ou de projeto de desenvolvimento deve ser engavetada.

Mas, como veremos nesta edição, e contrariando a análise precedente, o brasileiro vai melhor do que antes, há mais empregos, seu salário melhorou, as políticas sociais melhoraram. O motor da economia é, e sempre foi, o mercado interno. A novidade não está no andar de cima, com seu consumo de elite. A novidade está no ingresso de dezenas de milhões de brasileiros no mundo do consumo, alimentando um mercado de produtos de massa, circuitos curtos de produção e consumo, gerando emprego e bem-estar. Tudo isso implicou a redução do ganho dos rentistas.

Então, neste caso, a economia vai mal para quem?

*Silvio Caccia Bava é Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

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Sidney Chalhoub: Em defesa da universidade pública

julho 10th, 2014 by mariafro
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O texto abaixo é a integra da intervenção do professor Sidney Challoub, do IFCH/Departamento de História, no debate “SOS Universidade: em defesa da universidade pública”, ocorrido na Praça da Paz, na Unicamp, em 25 de junho, dentro das atividades de mobilização da greve.

Em Defesa da Universidade Pública

Sidney Chalhoub*, SOS Universidade
Sidney_IFCH
1.

Agradeço o convite para participar desta conversa sobre a universidade pública. Esclareço que a minha intervenção parte de um lugar preciso de observação, que é o de um professor e pesquisador na área de Ciências Humanas.

O momento é especialmente difícil para uma discussão serena sobre o tema, diante da enxurrada de ataques contra a universidade pública na mídia e a calculada indiferença do governo do Estado diante da situação, crônica já há vários anos, de subfinanciamento das universidades públicas paulistas.

Ao ler algumas coisas para organizar o pensamento para hoje, deparei-me com uma observação de Marilena Chauí, em texto no qual refletia precisamente sobre o sentido das humanidades e das ciências sociais na virada do século. Ao acompanhar um debate sobre o tema, disse ela,

“veio-me à lembrança uma cena do filme de Spielberg, A lista de Schindler”.

Para evitar o isolamento e o encarceramento total no gueto, primeiro, e a morte no campo de concentração, depois, um judeu poderia salvar-se se considerado um trabalhador essencial para o esforço de guerra nazista. A sorte de cada um era decidida pela inclusão ou exclusão na lista de Schindler, isto é, na lista dos operários para a indústria de panelas, destinadas ao exército.

Chegando à mesa de inscrição, uma das personagens apresenta-se, dizendo altaneira: ‘Sou um trabalhador essencial’. Indagação do soldado nazista: ‘Qual a sua profissão?’. Resposta: ‘Professor de história e literatura’. Risos do soldado, que indica ao professor o caminho dos excluídos rumo ao encarceramento dos inessenciais. Perplexo, o professor reage: ‘Mas, o que pode ser mais essencial do que a história e a literatura?’” (Escritos sobre a universidade, p. 160).

A ingenuidade tragicômica do professor metaforiza de modo denso a nossa situação atual: apesar da forte pressão das forças políticas e da mídia de direita, há na ingenuidade do professor um fundo de coerência e dignidade que é importante não perder de vista nesta hora. Afinal, a universidade pública existe, talvez em primeiro lugar, para confrontar o tempo nervoso pertinente ao cotidiano da política e o tempo acelerado e produtivista do mercado. Contra essas notações do tempo, o nosso é lento, tempo de reflexão.

2.

A universidade é plural por definição, por isso há em qualquer momento uma diversidade grande de ideias e projetos em disputa sobre o que ela pode ou deve ser. Todavia, quero crer que possamos cerrar fileiras em torno da ideia de que o princípio ou o valor fundamental da universidade pública é a busca do conhecimento, incluída aí a formação de pesquisadores em todos os níveis e áreas de investigação.

É curioso talvez que seja necessário começar por aí, pela afirmação de que a universidade não é um microcosmo da sociedade, não tem como objetivo zelar pela felicidade geral, mas é, sim, uma instituição voltada para a produção de conhecimento num ambiente de independência e autonomia, no qual seja possível arriscar, acertar e errar, recomeçar, e assim até perder tempo, talvez o mais precioso dos direitos que deve caber a um pesquisador.

Ao dizer isto, firmar este princípio geral, duas coisas parecem claras. Primeiro, a sociedade sabe que as universidades públicas paulistas são fiéis ao seu objetivo geral e têm cumprido bem a sua missão. Não tenho qualquer ilusão a respeito da única trincheira de defesa realmente eficaz da universidade pública neste país. Ela produz conhecimento, as universidades privadas não o fazem. Este é o argumento irrespondível, ao qual as forças políticas de direita e a mídia conservadora, ou abertamente fascista, se dobram sem remédio. Neste país, no que diz respeito ao ensino superior, onde há mercado não há conhecimento. Com raríssimas exceções, que provam a regra, como de praxe.

O segundo ponto fica evidente na minha afirmação, deliberadamente para provocar, de que o primeiro direito do pesquisador é perder tempo – bem entendido, a pesquisa é atividade arriscada, na qual se erra e acerta. Se deve às vezes mudar de rumo é algo que se faz pensando devagar e convivendo com incertezas. Nada mais difícil de sustentar no contexto atual de produção de conhecimento nas universidades. Isto, de fato, coloca a universidade pública em risco: quer dizer, a privatização branca que nela acontece, quando o conhecimento que deveria estar em sintonia com os impasses e necessidades da sociedade se transforma em conhecimento destinado a atender às necessidades do mercado.

Esconjura, vade retro Satanás, atender às expectativas do mercado? Não, de jeito algum; mas sim produzir conhecimento em sintonia com os impasses e necessidades da sociedade, o que é completamente outra coisa: precisamos de ciências humanas capazes de destrinchar e expor à sociedade os seus pressupostos racistas, sexistas, brutalmente hierárquicos e excludentes; precisamos de engenheiros interessados em pensar alternativas às fontes de energia e tecnologias que estão prestes a comprometer a vida no planeta; precisamos de médicos determinados a trabalhar pela saúde da maioria da população, não devotados às aplicações estéticas e cosméticas do ofício; precisamos de advogados empenhados na garantia de direitos sociais, não agentes da precarização e da exploração desumana do trabalho, pois voltamos até às práticas de escravização, outra grande façanha do neoliberalismo.

Enfim, chegamos a uma primeira característica da universidade que queremos: produtora de conhecimento segundo o princípio político geral de expor e criticar os modos de reprodução da desigualdade social, da precarização e destruição da vida em todas as suas formas; produtora de conhecimento destinado a lidar com as necessidades da sociedade, não fadado a atender as tais necessidades do mercado.

3.

Firmado este princípio geral – não custa repetir, a produção lenta de conhecimento como o valor fundamental da universidade pública –, menciono em seguida alguns aspectos pertinentes à prática dele, assim como problemas que o comprometem ou ameaçam.

3.1.

Há um modo de fazer pertinente ao conhecimento lento e crítico: ele é atividade criativa, que combina dedicação e prazer; não pode ser experiência de trabalho alienado, não pode se organizar por meio da divisão do trabalho, entendido como hierarquia, exclusão, separação radical entre os detentores do saber e seus dependentes. A diferença entre professores e alunos é circunstancial, temporal; a naturalização da diferença –quer dizer, o apego à hierarquia e seus rituais – aniquila a possibilidade do conhecimento enquanto prática crítica e transformadora.

Além do apego à hierarquia e à naturalização das diferenças, a produção lenta do conhecimento como valor sofre há muitos anos o ataque sem tréguas do produtivismo ou quantitativismo, que consiste na forma ideológica da privatização do trabalho intelectual na universidade pública.

Sem que cheguemos à caricatura capitalista do ensino pago nas universidades públicas, constituindo-se assim o conhecimento como mercadoria e os estudantes como consumidores dela (já se vê que desse conúbio não virá conhecimento científico), a ideologia privatista contaminou a universidade por meio das avaliações quantitativistas delirantes.

Como sabemos, até emergiu no Brasil uma nova espécie, nossa contribuição sui generisà diversidade da vida em nosso planeta: o chamado homo lattes, indivíduo sisudo mas cortês, que dá bom dia para você no corredor e em seguida registra tal colóquio em seu currículo lattes, como participação em evento. E o cara prospera, vive da esperança de ganhar o prêmio Zeferino Vaz.

O produtivismo realiza duas grandes inversões ideológicas, tão toscas que causarão grande hilaridade nos historiadores do futuro: primeiro, substitui a lógica da produção pela da circulação, ou seja, circular, aparecer, vale mais do que escrever qualquer coisa que preste; segundo, substitui a lógica do trabalho pela da mercadoria: a quantidade vale mais do que a qualidade.

O resultado disso parece repertório para piadas feitas: em Ciências Humanas, é frequente que pesquisadores e programas de pós-graduação sejam avaliados a partir do pressuposto de que nada se deve ler do que foi produzido por esses indivíduos ou nesses espaços institucionais; analisam-se várias tabelas, mas ninguém lê duas dezenas de páginas de fato escritas pelo pesquisador.

Ainda assim, em Ciências Humanas, por mais que tenham crescido incrivelmente nos últimos anos, os números de qualquer exemplar do homo lattes empalidecem diante de seus similares nas ciências duras. Nelas, há gente que publica tantas dezenas de artigos por ano, todos com grande índice de impacto, que é impossível acreditar que o sujeito sequer tenha lido tudo o que publicou. E há também o IMITO (Índice de Medida da Irrelevância Total), destinado a medir a grande capacidade de pesquisadores que conseguem, num determinado ano, ter mais artigos publicados do que citações de seu trabalho. Este assunto seria apenas divertido, se não fosse trágico.

Passo ao seguinte.

3.2.

Diante da pressão conservadora, uma reação defensiva comum na universidade pública é a eterna autoflagelação a respeito de sua suposta pouca relação com a sociedade, de existir numa torre de marfim etc. Para fugir do lugar comum, que tal reclamar do inverso? O problema da universidade não é a falta de maior presença dela na sociedade, mas a ausência da sociedade dentro dela.

Melhor dizendo, a diversidade social, étnica, de gênero, etc., não está suficientemente presente na universidade. É claro que a solução ideal para tal problema seria ampliar vagas nas instituições públicas até que elas pudessem receber toda a população interessada em cursar o ensino superior. Chegaremos lá algum dia, decerto não com nossos atuais governantes.

No momento, o que resta é lidar com as formas de exclusão praticadas pela universidade, de modo a obrigá-la a abrir as portas à sociedade ao menos no sentido de que a diversidade social e étnica dela esteja presente entre estudantes, funcionários e professores. O vestibular é uma besta morta pendurada no bico dos abutres. Do jeito que é feito, não pode continuar. O pressuposto abstrato da meritocracia é talvez o modo mais rotineiro e cruel de reprodução das desigualdades raciais e sociais que constituem a sociedade brasileira. É a reprodução acrítica da ideologia competitiva e excludente que está no centro da barbárie capitalista à brasileira.

As universidades públicas paulistas precisam urgentemente de quotas raciais e sociais para ingresso em todos os seus cursos. Precisamos de médicos negros, que tenham crescido em favelas ou outras comunidades não-afluentes; precisamos da experiência de vida e do conhecimento de gente que vê o mundo de perspectivas diversas em todas as áreas de conhecimento. Precisamos garantir a diversidade no corpo de funcionários e promovê-la no corpo docente.

Entre os funcionários, segundo dados obtidos junto ao DGRH, desde que a Unicamp iniciou a prática de concursos públicos darwinistas, não entraram mais negros em seu quadro de funcionários. É urgente, portanto, estabelecer quotas raciais em concursos para funcionários. E devemos estudar também iniciativas destinadas a garantir a diversidade do corpo docente.

3.3.

Há também a questão difícil da democracia. O problema precisa ser enfrentado. Talvez esta possa ser uma consequência positiva de nossa difícil conjuntura atual. Chegamos ao ponto incrível de o atual reitor da USP, pró-reitor na administração anterior, portanto membro ativo dela, dizer com a maior cara de pau que nada sabia, e não podia saber, do descalabro financeiro que agora acusa ter caracterizado a administração anterior.

Como assim? De que modo as decisões de política financeira foram tomadas?

Quem já teve a sorte, ou o azar, de participar, ou simplesmente observar, reuniões do conselho universitário ou de outras instâncias colegiadas da Unicamp, deve ter notado um certo clima de rolo compressor muitas vezes reinante. Na administração anterior da Unicamp, a prática do rolo compressor chegava às raias da caricatura.

Ao apresentar um tema qualquer de seu interesse, que queria ver aprovado no conselho, o reitor falava 30, 40 minutos, sem interrupção, apresentando o seu ponto de vista sobre a matéria. Depois passava a palavra ao pró-reitor mais vinculado ao tema, que ocupava o microfone por outra meia hora, talvez viesse ainda outro pró-reitor, ou alguém mais. Finalmente, abria-se a palavra ao plenário. Cada intervenção tinha de ser feita em poucos minutos, cronometrados. A mesa ameaçava cortar a palavra, em especial de seus desafetos.

Isto rolou por quatro anos, uso abusivo do poder, garantido pelo monopólio da palavra. O resultado se vê pelo campus inteiro, obras e mais obras, nunca acabadas, algumas sem que se saiba a que vieram.

A questão da democracia na universidade é séria. Não é possível adiar mais a discussão a respeito de formas de tornar mais forte a participação de estudantes e funcionários nos processos decisórios da universidade. Há várias decisões que poderiam ser tomadas de forma paritária. Há colegiados que, mesmo que mais adstritos a assuntos acadêmicos, portanto nos quais a composição paritária seria difícil, poderiam dar mais poder de influência e voz a funcionários e estudantes. No mínimo, isto aumentaria a diversidade de pontos de vista e a capacidade crítica da universidade em seus processos de tomada de decisão.

3.4.

O meu tempo se esgota, por isso me limito a algumas palavras finais sobre terceirização e injustiça nas relações de trabalho no interior da universidade.

A situação se tornou insustentável. Há setores da sociedade que só entram na universidade por meio da exploração de seu trabalho num contexto de precarização de direitos. São mulheres, negras, pobres, algumas idosas, as pessoas que fazem a faxina no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, contratadas por meio da prática da terceirização.

Esta situação contradiz de modo flagrante o princípio da universidade comprometida com o conhecimento lento como valor, logo voltada para as necessidades da sociedade, para a luta contra todas as formas de precarização provocadas pelo mercado.

Muito obrigado.

Professor do IFCH/Departamento de História

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Ao senador brasileiro que queria ser alemão

julho 9th, 2014 by mariafro
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O título do texto de Vitor Miranda reproduzido abaixo é irônico. Eu daria outro título: Brasil do povo brasileiro vence de goleada o Brazil dos coxinhas ao estilo Álvaro Dias.

Brazil Progresso 1 x 0 Brasil Parasita?

Por Vitor Miranda, em seu blog

09/07/2014

Eu não gosto de comentar futebol junto com política — as reações geralmente viram mais coração do que razão. Mas tem um textículo (sem trocadilho) que anda rolando nas redes sociais, espalhado após a derrota da seleção brasileira para Alemanha por 7 x 1, que é difícil não comentar.  Esse que começa com “Isso representa mais que um simples jogo! Representa a vitória da competência sobre a malandragem!”. Então, pela lógica, quando Brasil ganhou a Copa em cima da Alemanha em 2002 também representou a vitória da competência sobre a malandragem? Era o resultado do povo alemão ser um povo “desonesto”, “parasita”, que “ganha dinheiro sem ser suado”? Não. Por que quando a Alemanha perde é só futebol, e quando o Brasil perde é um retrato da inferioridade do caráter ou educação do povo (ou melhor, de um “certo povo”) desse país? Por que um desses povos, quando é explorado, escravizado, esmagado por viaduto, e adquire algum direito social básico vira parasita; e o outro, quando os adquire vira país de primeiro mundo?


A resposta, subentendida nesse tipo de textículo, é que “não somos alemães”. Se fossemos “alemães”, poderíamos ter o direito de receber $184 euros por mês por cada filho, para todas as faixas de renda, ou $324 para famílias de baixa renda, sem corrermos o risco de nos tornarmos parasitas e desonestos. Se fossemos “alemães”, poderíamos garantir moradia e uma renda mínima mensal de $382 euros para qualquer pessoas desempregada, com ou sem filhos, sem nos tornarmos preguiçosos e cachaceiros.

Mas, claramente, não somos “alemães”. Na mão de alemão pobre, bolsa-família, renda-mínima e coisas do tipo viram welfare, construção de cidadania, direitos humanos, exemplo de primeiromundismo. Na mão do pobre brasileiro, vira cachaça e incentivo à preguiça.

Ora, o que salta aos olhos nessa lógica é que o nosso pobre não é tão “alemão” como o pobre da Alemanha. O alvo, raramente dito abertamente, está sempre lá. O pobre deles vem de uma cultura que preza a honestidade, a ética, o trabalho (leia-se: nórdica, européia e civilizada). O nosso, vem de uma cultura bronca, capenga, incompleta, imatura (leia-se: preta, índia, favelada, retirante, nordestina).

O problema não é o “jeitinho brasileiro” ou a “malandragem”. É a subordinação e dominação de uma parte da população pela outra. Aquela que se auto-define como representante dessa moral (nórdica/européia) trabalhadora, sobre aquela que é definida como pobre, parda, parasita e incompleta, quase infantil. Nessa nossa sociedade, como no futebol, o que é parasitismo e maladragem desse setor dominante da sociedade vira exceção à regra. Já o comportamento da camada preta, índia, favelada, retirante e nordestina é sempre resultado da sua cultura parasitária.

A disputa pelo imaginário brasileiro ganhará decibéis redobrados a partir de agora, na tentação rastejante de transformar a humilhação esportiva na metáfora de um Brasil corroído pelo ‘desgoverno petista’

Aos jogadores e ao povo, nossa saudação, aos chacais tucanos e à mídia tucana, nosso desprezo

Malandragem? Fale por você, senador Álvaro Dias

Bob Fernandes: Basta! Renunciem, Senhores José Marin e Marco Polo Del Nero

Eta presidenta poderosa: para os tucanos Dilma é até técnica da seleção brasileira!

Ganhar a Copa até a falida Espanha ganhou em 2010, a Suécia nunca ganhou nenhuma

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