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Tucano, ‘morador da Vila Madalena’ no divã: “Governo Alckmin acabou”

novembro 12th, 2012 by mariafro
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Costumo achar engraçado um colunista que se define pelo lugar onde vive e/ou pelos prêmios que ganha:

 “Gilberto Dimenstein ganhou os principais prêmios destinados a jornalistas e escritores. Integra uma incubadora de projetos de Harvard (Advanced Leadership Initiative). Desenvolve o Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. É morador da Vila Madalena.”

Paulo Francis também achava que o lugar onde se vive é uma categoria de pensamento, morar em Nova Iorque para ele o era.

O texto do Dimenstein cada vez mais perdido como o governo e discursos tucanos está uma pérola de contradições. Merecia a paciência das Letícias ( Nádia Lapa e da Madrasta do texto ruim pra desconstruí-lo. Eu como sou má, reproduzo-o para diversão e registro. Aliás os colunistas da Folha são ótimos personagens rodriguianos e sempre me divirto com a canalhice reacionária da classe média dos personagens rodrigueanos. Divirtam-se, pois.

PS. Não resisti e dei uma grifadinha nos trechos da ‘análise’ mais nonsense e fiz uns comentariozinhos.

Governo Alckmin acabou

Por: Gilberto Dimenstein, em seu melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle

12/11/2012 – 08h33

As mortes em série na região metropolitana de São Paulo indicam que o governo Alckmin acabou. Pode até renascer nos próximos dois anos se vencer a guerra contra o crime organizado – mas, neste momento, o governador Alckmin vive uma crise de imagem, carregando nas mãos a pior notícia dos últimos tempos em São Paulo.

A grande vitória tucana (comemorada desde o início nesta coluna) foi a queda da taxa de homicídio em São Paulo, especialmente na região metropolitana e na capital. Saímos do nível epidêmico. Virou a principal marca de uma gestão, apesar de outras modalidades de crime terem se estabilizado ou mesmo aumentado. (Vamos dar um adeus à lógica dos argumentos)

O problema de Alckmin é que seu governo, neste momento, nem tem nenhuma marca visível em saúde, educação ou transporte público. Existem avanços, claro – e bons. Mas não suficientes para servir de vitrine. (Se são avanços, claros e bons não seria lógico o governo ter ao menos uma marca visível de uma  política social bem sucedida????)

Mas perdeu-se, por enquanto, a vitrine da segurança. E até deu chance para o PT, cujo sonho é conquistar o Palácio dos Bandeirantes, faturar, oferecendo ajuda ao governo estadual – e podem apostar que isso vai para o horário eleitoral. (Nem ia comentar isso, mas é irresistível: para o morador da Vila Madalena só tucano pode faturar com escândalo do partido adversário e contar com toda a grande mídia unida em coro durante meses falando por exemplo do ‘mensalão).

O momento, porém, não é de tentar faturar politicamente. O momento é de toda a sociedade apoiar os esforços policiais contra o crime organizado, juntando de sindicatos a empresários, além de todos os níveis de governo. (Que tal investir na polícia científica e técnica e menos em militarização para expulsar moradores dos Pinheirinhos? De 2001 a 2005 o estado de São Paulo pouco investiu na polícia técnico- científica, enquanto a PM consumiu 58% dos recursos)

Qualquer governador eleito, afinal, enfrentará essas mesmas forças. (Mas certamente se for do PT não terá a blindagem que Alckmin e Serra e Alckmin de novo sempre tiveram não é mesmo, morador da Vila Madalena?)

PS. Não sei se esta conversinha mole do Dimenstein convence leitores tucanos da Folha, os leitores críticos certamente não se convencem sem bons argumentos. Se você é um dos que não engole conversa pra boi dormir e realmente quer entender o que efetivamente está ocorrendo com a Segurança Pública em São Paulo, leia os artigos relacionados a seguir:

Davis Sena Filho: Gilmar ataca Dilma e culpa o governo pela violência em São Paulo

De 2001 a 2005 o estado de São Paulo pouco investiu na polícia técnico- científica, enquanto a PM consumiu 58% dos recursos

Camila Nunes Dias: Crise expõe esgotamento do modelo de segurança em São Paulo

Breve dossiê revela: onda de assassinatos que apavora Estado foi iniciada e radicalizada pela PM. Governo Alckmin omite-se. Mídia silencia

Moradores das periferias de SP: os mais vulneráveis à violência institucional e ao crime organizado

Alckmin que fala grosso com Pinheirinho é sujeito oculto na cobertura da Globo sobre a violência em SP

Será que os policiais assassinados nas últimas semanas e também os trabalhadores reagiram, governador Alckmin?

Maria Rita Kehl: Estado Violência, Alckmin usa a mesma retórica dos matadores da ditadura

Escalada de violência em São Paulo: Segurança Pública é um dos Direitos Humanos

Governos federal e de São Paulo criam agência integrada para conter violência no estado

Laudo da Polícia Civil derruba o “quem não reagiu está vivo” do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin

Em 25 dias 170 mortes em São Paulo: 20 agentes do Estado, 150 civis jovens, pobres, negros e periféricos

Cut: Genocídio da Juventude Negra

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“E é porque têm ideias e projetos que foram levados a julgamentos no STF e não para um juiz de primeira instância”

novembro 12th, 2012 by mariafro
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Todas as vezes que eu leio um texto do Paulo Moreira Leite tenho vontade que todos leiam. Destaquei algumas frases, mas ao final vejo que é preciso ler o texto na íntegra. Paulo ensina algo raro e precioso que nossa sociedade precisa aprender com grande urgência: os valores fundamentais da democracia, ainda tão frágil em nosso país de história tão autoritária.

“Queremos humilhação? Vamos ampliar aquele teatro, estimulado artificialmente pelos adversários, como se sabe, de agressividade e ofensas?

Eu acho indecoroso lhes dar o tratamento de criminosos comuns, de bandidos.

Sabe por quê? Porque eles não são. Têm projeto para o país, defendem ideias, já lutaram de forma  corajosa por elas. Pode-se falar o que se quiser  dessa turma. Mas não há  prova de enriquecimento suspeito de Dirceu nem de Genoíno. Nem de Delúbio Soares, nem de João Paulo Cunha. Nem de Henrique Pizzolato, condenado como maior responsável pelo desvio de recursos do Visanet.

(…) Sabe aquela publicitária tratada como heroína por determinados órgãos de imprensa, porque denunciou os desvios no Visanet? Pois é. Embora tenha sido mencionada no tribunal por Roberto Gurgel e também por Joaquim Barbosa, a  Polícia Federal encontrou 25 000 reais em sua conta, depositados por uma agência subcontratada pela DNA que é de…Marcos Valério. Teve um outro, o câmara que filmou a denuncia dos correios. O cara trabalhava para o bicheiro Cachoeira.

E é porque têm ideias e projetos que  essas pessoas foram levados a julgamentos no STF e não para  um juiz de primeira instância.

E é só porque este projeto tem apoio da maioria da população que este julgamento tem importância, não sai dos telejornais nem das manchetes. A causa é política.  Pretende-se deixar o Supremo julgar estas pessoas, quando este é um direito da população.

E é um julgamento político, vamos combinar.”

Leia também:

Nota de José Dirceu a respeito da decisão de Joaquim Barbosa apreender passaportes dos réus da AP470

Saul Leblon: Parceria execrável do STF com a mídia afronta a justiça ao condenar suspeitos à revelia das provas

CLAUS ROXIN, o jurista alemão responsável pela teoria ‘domínio dos fatos’, critica o uso que STF fez dela

Presidente da UNE, Daniel Iliescu: ‘A UNE nem ama nem odeia Dirceu’

Paulo Moreira Leite: A dosimetria da ditadura e o mensalão

Bob Fernandes: por que o que Valério diz sobre Lula chega às manchetes e 115 páginas de documentos verídicos não são nem notícia?

Carta Maior: Dirceu, Genoino e outros oito podem requerer novo julgamento

José Dirceu: NUNCA FIZ PARTE NEM CHEFIEI QUADRILHA

Raimundo Rodrigues Pereira: A VERTIGEM DO SUPREMO

Cláudio Gonçalves Couto: “Não aceito a tentativa maniqueísta de tornar o PT um câncer da política nacional”

Jogo de mensalão na rede: Barbosa atira em condenados, nem Lula escapa

Paulo Moreira leite, Sem domínio, sem fatos

No Brasil, uma Justiça que se baseia em conjecturas e condena por presunção

Folha: Peso do mensalão nesta eleição foi próximo de zero

Joaquim Barbosa: ‘Lula é um democrata, de um partido estabelecido. As credenciais democráticas dele são perfeitas’

Grande mídia derrotada: “O eleitor mostrou, mais uma vez, que adora rir por último”

Dirceu tornou-se o símbolo do PT a ser destruído e sua condenação visa atingir Lula e sua gigantesca popularidade

Apesar de Veja, da velha mídia, Lula segue como o político mais influente do país e cabo eleitoral disputadíssimo

Ministro Joaquim Barbosa deixa mensalão mineiro e assume presidência do tribunal

Rui Martins: Governo Dilma financia a Direita, o Brasil padece de sadomasoquismo

A defesa de Dirceu no STF

Hildegard Angel fala dos traíras como Paes e conclama os coerentes à solidariedade com José Dirceu

Toda a esquerda brasileira vai mandar a fatura para o PT com juros e correção monetária?

Leonardo Boff: Por que muitos resistem e tentam ferir letalmente o PT?

Pergunta para o Barbosão: Pode isso, Arnaldo?

A guerra da Veja contra o retorno de Lula, o Cara vai chegar a 100% de popularidade

Tucanos inovam na corrupção: ‘mensalão universitário’

Tarso Genro: O “novo” (velho) conglomerado

Paulo Moreira Leite: Segundas impressões do mensalão

Entre Capas, publicidade, festas, chantagens e beijos

Paulo Moreira Leite: provas diferentes, condenações iguais

Janio de Freitas: Sem a revisão de Lewandowski erros da acusação provocariam condenações injustas

Ricardo Lewandowski: um ministro com independência de julgamento

Bob Fernandes: mensalão não é uma farsa, farsa é politizá-lo, chamá-lo de “o maior julgamento da história do Brasil”

Leandro Fortes: Delenda est Dirceu

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Todo mundo é salafrário?

Por: Paulo Moreira Leite, em sua coluna deÉpoca

11/11/2012

Editorial do Estadão, na sexta-feira, fez observações duras sobre o comportamento de Joaquim Barbosa, o ministro relator do julgamento do mensalão.

Observou que “desde as primeiras manifestações de inconformismo com o parecer  do revisor Ricardo Lewandovski” a atuação de Joaquim Barbosa “destoa do que se espera de um membro da mais alta Corte de Justiça do país.”

O jornal, o mais influente nos meios jurídicos, explica que, em vez de “serenidade” o ministro “como que se esmera em levar um espetáculo de nervos `a flor da pele, intolerância e desqualificação dos colegas.”

Lembrando que Joaquim Barbosa exibiu um sorriso debochado diante de um colega que declarava  discordâncias –parciais — em relação a um de seus votos, o jornal lamenta o “desdém estampado na face do relator” e registra a queixa de Marco Aurélio  Melo: “não admito que Vossa Excelência suponha que todos aqui sejam salafrários e só Vossa Excelência seja uma vestal.”

Acho que em algumas situações o STF tem agido como se fosse possível supor “que todos aqui sejam salafrários”.

Exigir passaportes de quem ainda não foi condenado definitivamente – o julgamento não acabou, gente! – é uma decisão desnecessária. O mesmo vale para a decisão de incluir os réus na lista de procurados.

São medidas com amparo legal.

Mas a questão não é essa.

Estamos tratando de pessoas que jamais se recusaram se a atender a um chamado da Justiça.

Se hoje os brasileiros podem defender seus direitos no Supremo – e não submeter-se a coronéis e generais da Justiça Militar – é porque se travou uma luta por isso.  No banco dos réus, hoje, encontramos vários lutadores que participaram  da democratização do país.

Quando se recusaram a obedecer a lei, não eram elas que estavam erradas mas a Justiça, inclusive o Supremo da época, que, vergonhosamente, se curvou à  ditadura, omitiu-se diante da tortura e da perseguição política, deixando a Justiça Militar tratar de crimes considerados políticos.

Quem considera que o STF é exemplo para o país, poderia se perguntar: depois de  torcer abertamente para que o julgamento influenciasse as eleições para prefeito, agora se quer que os réus sejam hostilizados quando saem à rua?

Queremos humilhação? Vamos ampliar aquele teatro, estimulado artificialmente pelos adversários, como se sabe, de agressividade e ofensas?

Eu acho indecoroso lhes dar o tratamento de criminosos comuns, de bandidos.

Sabe por que? Porque eles não são. Têm projeto para o país, defendem ideias, já lutaram de forma  corajosa por elas. Pode-se falar o que se quiser  dessa turma. Mas não há  prova de enriquecimento suspeito de Dirceu nem de Genoíno. Nem de Delúbio Soares, nem de João Paulo Cunha. Nem de Henrique Pizzolato, condenado como maior responsável pelo desvio de recursos do Visanet.

E é porque têm ideias e projetos que  essas pessoas foram levados a julgamentos no STF e não para  um juiz de primeira instância.

E é só porque este projeto tem apoio da maioria da população que este julgamento tem importância, não sai dos telejornais nem das manchetes. A causa é política.  Pretende-se deixar o Supremo julgar estas pessoas, quando este é um direito da população.

E é um julgamento político, vamos combinar.

Pretende-se usá-lo como exemplo.

E é pelo receio de que o exemplo se repita, e condenações sem provas, sem demonstrações inquestionáveis de culpa dos réus, que mesmo quem apoia as decisões  do STF começa a ficar preocupado. Por que?

Porque é injusto. E teme-se que a injustiça desta decisão contamine as próximas decisões.

Imagine se o mensalão mineiro obedecer ao mesmo ritual, da lei do “sei que só podia ser dessa forma”, do “não é plausível” e assim por diante. Vamos ter de voltar a 2000, quando, seguindo a CPI dos Correios, o dinheirinho do PSDB começou a sair do Visanet.

Vamos ter de chegar lá e apontar quem era o responsável por liberar a grana que, conforme escreve  Lucas Figueiredo, no livro O Operador, chegou a 47 milhões de reais apenas no mandato de Aécio Neves no governo de Minas Gerais.

É assim que se vai fazer a campanha presidencial da grande esperança anti-Dilma  em 2014? Parece que não, né, meus amigos.

É certo que há uma visão política por trás disso. Essa visão é seletiva e ajudou a deixar o mensalão PSDB-MG num tribunal de primeira instância, medida que favorece os réus.

Essa visão é acima de tudo distorcida e tem levado a criminalização da atividade política. Confunde aliança política com “compra de votos” e “pagamento de propina.” E estamos condenando sem serenidade, no grito, como se todos fossem “salafrários.”

As provas são fracas. O domínio do fato é um argumento de quem não tem prova individual. Você pode até achar uma jurisprudência válida. Você pode até achar que “não é possível” que Dirceu não soubesse, nem Genoíno.

Mas a Folha de hoje publica uma entrevista com um dos autores da teoria do domínio do fato. Basta ler para concluir que, falando em tese, ele deixa claro que é preciso mais do que se mostrou no julgamento.

Mas não vamos esquecer que o domínio do fato referia-se a uma hierarquia de tipo militar, onde funciona a lei de obediência devida, onde o soldado que desobedece a cadeia de comando pode ir a julgamento.

É disso que estamos falando? De um bando de manés que o Dirceu dominava, todo poderoso?

Que Genoíno comandava porque acabara de virar presidente do PT e tinha de assinar documentos em nome do partido? De generais e soldados?

Alguém ali era menor de idade, não fora vacinado? Alguém não sabia ler ou escrever? Não tinha vontade própria?

Outro ponto é que faltam testemunhas para sustentar a tese da acusação. O mensalão que “todo mundo sabe que existia” continua mais invisível do que se pensa.

Roberto Jefferson é volúvel como prima donna de ópera.

Faltam até heróis neste caso.

Sabe aquela publicitária tratada como heroína por determinados órgãos de imprensa, porque denunciou os desvios no Visanet? Pois é. Embora tenha sido mencionada no tribunal por Roberto Gurgel e também por Joaquim Barbosa, a  Polícia Federal encontrou 25 000 reais em sua conta, depositados por uma agência subcontratada pela DNA que é de…Marcos Valério. Teve um outro, o câmara que filmou a denuncia dos correios. O cara trabalhava para o bicheiro Cachoeira.

Coisinhas mequetrefes, né…

A acusação de que o mensalão “está na cara” é complicada quando se lê uma resolução do Tribunal de Contas da União que sustenta o contrário e diz que as despesas fecham. Por esta resolução, não houve desvio.

Você precisa achar que “todo mundo é salafrário” para acreditar em outra coisa. O texto está ali, fundamenta o que diz e assim por diante.  E lembra que testemunhas que dizem o contrário de são inimigas notórias de quem acusam.

Falamos em “desvio de dinheiro público”mas não temos uma conta básica. Assim: quanto saiu dos cofres públicos, quando foi entregue para quem deveria receber — agencias de publicidade, meios de comunicação que veiculam anuncios — e quanto se diz que foi desviado. Há estimativas que, às  vezes, apenas são o nome elegante de “chute.”

O fato é que não sabemos, de verdade, qual o tamanho disso que se chama de “mensalão.”

É curioso que, mesmo com estimativas, o Supremo fale em pedir aos réus que devolvam o dinheiro desviado. Mas como, se não se sabe, exatamente, o quanto foi. Devolver estimativa?

Então, conforme o TCU, não houve desvio. Você pode até contestar essa visão mas não é uma questão de opinião, somente. Precisamos mostrar os dados, os números, as datas.  Não posso entrar no banco  e dizer que o dinheiro sumiu de minha conta sem mostrar os saldos e extratos, concorda? E o banco tem de mostrar para onde foi o dinheiro que eu disse que estava lá, certo?

Nós sabemos que os ministros do TCU são indicados por razões  políticas e muitos deles são ex-deputados, ex-ministros. Até posso achar que é “todo mundo salafrário” mas não se pode tomar uma decisão com base nessa opinião sem tomar uma providência – como denunciar os supostos salafrários na Justiça, concorda? Vamos cassar os ministros que sustentam a lisura dos contratos?

Sei que você  pode discordar  do que estou dizendo.  Tudo bem. É seu direito. Concorda? Também.

Eu só acho que desde Voltaire, um dos pioneiros do iluminismo, posso não concordar com nada do que dizeis mas defenderei até a morte o direito de fazê-lo.

O nome disso é democracia.

E é em nome disso que não entendo por que o relator Joaquim Barbosa declarou-se ofendido com uma crítica de José Dirceu ao julgamento. Dirceu falou em populismo jurídico.

Barbosa considerou isso uma “afronta.”  É engraçado. Embora o populismo tenha virado xingamento depois de 1964, existem cientistas políticos renomados que dizem que é um sistema de ação político válido, que envolve, claro, o argentino Peron, o turco Kemal Ataturk e muitos outros.

Mas essa é outra discussão. O que importa, aqui, é lembrar que juiz julga e fala pelos autos, mesmo quando o julgamento é televisionado.

Não pode ficar ofendido.  Ou melhor, pode. É humano.

Mas não pode manifestar isso num julgamento. Não pode ter uma opinião pessoal. Não pode falar que gosta de um partido, ou que tem desprezo por outro. Tem de ser inteiramente impessoal, e por isso usa uma toga negra. Seu símbolo é uma balança, os olhos vendados.

Um juiz pode até ficar indignado com os métodos que se faz política no Brasil desde os tempos de Pedro Alvares Cabral.

Mas não pode enxergar corrupção por trás de toda aliança política que não entende nem consegue explicar. Não pode achar que todo pacto entre partidos é feito de roubo e de propina. Porque é esta visão que domina o julgamento. E ela é errada.

Vou me candidatar ao troféu de frasista do domingo  ao lembrar que se não houvesse divergência nem traição nunca haveria aliança  em política.

É só perguntar à velha guarda do PMDB o que ele achou da aliança do Tancredo Neves com o Sarney e do abandono das diretas-já.

Aos tucanos, o que eles acharam do acordo com ACM para eleger Fernando Henrique Cardoso.  Até dona Ruth se enfureceu.

Aos petistas, o que acharam dos novos-amigos que apareceram em 2002, a começar por um empresário que ficou vice, o PTB do Jefferson, da Carta ao Povo Brasileiro e  assim por diante…

Se todo mundo pensasse igual  não era preciso fazer aliança.

Aliança se faz com adversários e aliados distantes. Se não fossem, entravam para o partido, certo?

Alianças envolvem partidos diferentes e, as vezes, muito diferentes. Podem ser um desastre ou uma maravilha, mas são legítimas como instrumento de governo.  Claro que, pensando como o PCO, o PSTU, a LER, o MNN, é possível achar que não dá para fazer aliança com quem é salafrário, categoria que na visão dessa turma inclui mais ou menos 200% dos políticos – aqueles que estão em atividade e todos os outros que ainda não entraram na profissão.

Alianças se compra com dinheiro? Não. É suborno? Não.

Mas inclui dinheiro porque a política, desde a invenção do capitalismo e da sociedade burguesa,  é uma atividade que deixou de ser exclusiva da nobreza, chegou ao cidadão comum e se profissionalizou. O dinheiro pode sair do Estado, recursos que permitem um controle real e uma distribuição democrática.  Ou pode vir dos interesses privados, que assim colonizam o Estado conforme seus interesses. Os adversários da turma que está no banco dos réus sempre se opuseram a uma reforma que permitisse esse controle maior. Dá para imaginar por que.

Os “políticos-salafrários” só pensam numa coisa: ganhar a próxima eleição. A vida deles é assim. Contaram os votos, começam a pensar na campanha seguinte. É normal. Você pode achar muito oportunismo. Eu não. A democracia não para.

Por isso as verbas de campanha são sua preocupação permanente

Por isso, os mais velhos contam que o movimento democrático que derrubou a ditadura militar tinha uma caixinha clandestina que ajudou  a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral.  Era imoral? Não. Era ilegal? Devia ser.

Os grandes financiadores da luta no colégio eleitoral foram grandes empreiteiras.

Em 1964, quando até Juscelino foi humilhado por um IPM infamante,  se dizia que o mundo se dividia entre subversivos e corruptos.

Mas estávamos numa ditadura, quando se espera que seus adversários políticos sejam tratados como inimigos morais. Este recurso favorece decisões arbitrárias.

Numa democracia, todos são inocentes – até que se prove contrário.

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Davis Sena Filho: Gilmar ataca Dilma e culpa o governo pela violência em São Paulo

novembro 12th, 2012 by mariafro
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Dilma poderia propor a federalização das polícias, quem sabe assim a sociedade brasileira finalmente conseguiria ter Segurança Pública ao invés de uma polícia militarizada com vícios terríveis do regime de exceção.

O governo federal poderia, por exemplo, usar os bilionários recursos que o governo do estado de São Paulo tem disponíveis na Secretaria da Segurança, mas que não  investe na formação de uma polícia que verdadeiramente cuide de nossa segurança pública, que seja melhor paga e melhor preparada. Finalmente, com uma polícia federalizada a polícia científica poderia ter condições de fazer o seu trabalho e debelar o crime organizado. A Polícia Federal, por exemplo, é infinitamente mais eficiente que as polícias civis.

Gilmar ataca a Dilma e culpa o governo pela violência em São Paulo

Por Davis Sena Filho — Blog Palavra Livre


JUIZ GILMAR MENDES E SUA CAPA PRETA

 Gilmar Mendes apareceu em São Paulo na sexta-feira, dia 09/11, e, novamente, deu a senha para a direita partidária, judiciária e midiática acusar o Governo Federal, administrado por uma presidente trabalhista, ser considerado o principal culpado, se não for o único, pela violência, e, por conseguinte, pelo banho de sangue que a acontece na capital e no Estado de São Paulo. Não importa, porém, a essa gente se os tucanos do PSDB controlam o estado desde 1995, quando Mário Covas assumiu a cadeira de governador no Palácio dos Bandeirantes.

Não é a primeira vez e nem vai ser a última que Gilmar Mendes vai agir dessa forma, a acender o pavio de dinamite e criar outra crise institucional (artificial) para dar fôlego à oposição política da qual ele faz parte e com isso criar confusão na rotina do País. Afinal, vai estar em jogo as eleições de 2014 para presidente da República e também para governador de São Paulo, e o juiz que jamais se cala e não mede consequências para concretizar seus desejos sabe muito bem que a direita brasileira não tem os votos necessários, por enquanto, para vencer os trabalhistas liderados pelo PT cuja figura proeminente é o ex-presidente Lula.

Portanto, é preciso jogar sujo, mentir, dissimular, distorcer os fatos e modificar as realidades que se apresentam. E, sobremaneira, os assassinatos de 90 policiais, a morte de 159 cidadãos em apenas 16 dias e os homicídios de 3.536 pessoas somente no ano de 2012, que ainda não terminou se transformaram em acontecimentos que realmente preocupam àqueles que, no decorrer de 17 anos, dominam a máquina governamental paulista, além de concebê-la de forma patrimonialista, bem como venderam o patrimônio público e, quando não o alienaram, o terceirizaram.

Trio neoliberal governa São Paulo como governou o Brasil: privatizações e violência.

Dito isto, vamos relembrar outro episódio ao que eu considero a herança maldita do neoliberal FHC, o juiz Gilmar Mendes, o advogado geral da União nos tempos das privatizações.  Cerca de 30 dias antes do início do julgamento da Ação Penal 470, conhecida também como “mensalão”, que apesar das condenações dos réus ainda está para ser provado, o juiz mais condestável, verborrágico e midiático dos juízes do STF, Gilmar Mendes, atacou o ex-presidente Lula e afirmou que o político mais popular da história do País e que retirou 40 milhões de pessoas da pobreza sugeriu ao vaidoso e agressivo togado de capa preta para que o julgamento do “mensalão” do PT fosse adiado.

O encontro entre os dois, a pedido de Gilmar Mendes, aconteceu no dia 26 de abril, e o juiz de direita resolveu falar à imprensa sobre o episódio cerca de um mês depois, além fazer afirmações jamais comprovadas e negadas pelo ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, anfitrião das duas autoridades em seu escritório de Brasília.  Logo após o encontro, Gilmar deu entrevista para a revista Veja — arevista porcaria — chamada pelo ex-presidente Fernando Collor de “cafua”, onde trabalha um monte de “chumbetas”.

Saliento que o órgão privado de comunicação procurado por Gilmar foi a Veja — a última flor do fáscio —, semanário useiro e vezeiro em publicar reporcagens em off, inclusive sem gravar o entrevistado, o que é um absurdo e temeridade, além de, sistematicamente, não valorizar o contraditório e não ouvir os dois lados. Realmente, efetiva-se, inapelavelmente, o verdadeiro e autêntico jornalismo de esgoto. Além disso, o juiz de capa preta resolveu abrir sua boca após um mês de ter recebido a suposta proposta de Lula. Tal silêncio tão obsequioso do inimigo do ex-presidente trabalhista foi quebrado, ora vejam só, justamente nas páginas da revista Veja — o pasquim de péssima qualidade editorial, que recentemente publicou matéria em que um sujeito oculto envolve o ex-presidente trabalhista no caso da morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel.


Gilmar concedeu dois habeas corpus a Daniel Dantas em 48 horas. Recorde mundial.

Para Gilmar Mendes, o republicano Lula é um chantagista, mas, em momento algum, o juiz tão cônscio de seu cargo e de suas responsabilidades ficou tão indignado, por exemplo, com a conduta de seu aliado político cassado, o senador Demóstenes Torres, e muito menos se sentiu revoltado quando soltou o estuprador e médico Roger Abdelmassih e libertou o banqueiro Daniel Dantas, por intermédio de dois habeas corpus concedidos em 48 horas, um recorde mundial, que deveria ser reconhecido e publicado no Guinnes Book. Lula é chantagista, mas Gilmar não o denunciou, não foi ao Ministério Público, à Policia Federal ou a uma delegacia da Polícia Civil do DF e, evidentemente, fazer queixa. Não. Nada disso. O capa preta preferiu os holofotes da mídia golpista brasileira, que passou a iluminá-lo mais uma vez após ele ter dado, mais uma vez, entrevista àVeja, aquela mesma cujo principal editor e pauteiro atende pelo nome de Carlinhos Cachoeira, que no momento se encontra preso em um presídio.

A verdade é que a Imprensa que está aí associada a alguns capas pretas resultam em fome com a vontade de comer. Os abutres e a carniça. Os chacais e as hienas sempre em busca de um golpe, e, consequentemente, alimentarem suas proles reacionárias, de direita e de caráteres golpistas. Os tucanos do PSDB governam São Paulo há quase duas décadas. Administram o estado mais poderoso do Brasil como administraram o País quando assumiram a Presidência da República por oito anos. Eu quero lembrar aos mais incautos, aos que sofrem de amnésia ou simplesmente aos que não querem enxergar, que a violência e a diminuição do PIB de São Paulo em termos nacionais são o resultado de como os tucanos enxergam e tratam a sociedade.

Quando controlaram o poder federal, implementaram o neoliberalismo, que, apesar da complexidade, pode ser definido como um modelo econômico que diminui o estado, apesar do crescimento da população, e prioriza a competição entre as pessoas, sem, entretanto, relevar as diferenças sociais, no que diz respeito à igualdade de oportunidades, que somente é efetivada por meio de inúmeros programas sociais, melhoria e criação de escolas técnicas e formais, além do acesso dos filhos das classes proletárias às universidades.


Abdelmassih: estupros e 278 anos de prisão. Gilmar Mendes o liberou e ele fugiu.

Além do mais, os tucanos não fortaleceram os bancos de fomento (atualmente, o BNDES empresta três vezes mais que o Banco Mundial — o Bird), não fortaleceram o mercado interno, e, por sua vez, não facilitaram o acesso ao crédito por parte da população e dos pequenos empresários. Além do mais, não criaram também empregos e muito menos renda e por isso não melhoraram a vida de milhões de brasileiros que viviam abaixo da linha de pobreza.

E foi exatamente o mercado interno e a conquista de novos mercados no exterior (Brics e G-20, além do Mercosul) que fizeram com que o Brasil não sentisse muito os efeitos nocivos da crise internacional iniciada em 2008, que afundou economias robustas e, indubitavelmente, levou a humanidade a pensar que o neoliberalismo é um sistema de espoliação dos países ricos e levado também à cabo por presidentes latino americanos, como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, aquele senhor neoliberal que vendeu o Brasil e foi ao FMI três vezes, de joelhos e com o pires nas mãos, porque quebrou o País três vezes e não governou para o povo e, sim, para os ricos.

São Paulo é governado e administrado — volto a repetir — da mesma forma que os políticos do PSDB governaram o Brasil de 1995 a 2003. Por isso e por causa disso, os tucanos e seus associados — DEM e PPS — não vencem eleições em termos nacionais, bem como não conseguirão tão cedo derrotar o PT e seus aliados — PSB, PMDB, PDT, PCdoB e PRB —, que, indiscutivelmente, colocaram o Brasil em um patamar econômico e de desenvolvimento social nunca visto antes. Eu poderia se quisesse publicar neste artigo os números e os índices econômicos e sociais dos governos trabalhistas e tucanos e compará-los. Mas já o fiz no meu blog Palavra Livre, bem como tais números foram publicados inclusive na imprensa corporativa e de negócios privados, conhecida também como “grande” imprensa. Todo mundo sabe disso, assim como todos sabemos que o presidente Lula é um ator político maior, mais importante e com muito mais prestígio político em âmbitos nacional e internacional do que o FHC, para o desgosto de nossa burguesia socialmente separatista e racista.


Demóstenes foi cassado por se envolver com o bicheiro Cachoeira. Indignado, Gilmar?

Enfim, a verdade é que em São Paulo Gilmar Mendes deu uma martelada no cravo e outra na ferradura. Apesar de ele não ter um único voto, tem a seu favor o poder de juiz de um Supremo que, além de ter o poder de julgar, quer também legislar e governar, a interferir no processo político, pois temos um Congresso que se cala e não toma as rédeas de sua própria governabilidade como Poder da República, bem como se percebe que o Poder Executivo, o Palácio do Planalto não se mobiliza para responder à altura aos ataques de gente de direita como o juiz Gilmar Mendes, que responsabilizou a governante trabalhista, Dilma Rousseff, de ser responsável pela violência que campeia em São Paulo governado pelos tucanos.

O condestável juiz sabe que não é assim que a banda toca. E daí? Proselitismo político é com ele mesmo. Ele não vai deixar os tucanos na mão, e para isso ele inverte os fatos, deturpa as propostas do Governo Federal e distorce a realidade e a verdade, mesmo sendo juiz do tribunal mais importante do País. “E daí? Vai encarar?” — diria ele. Quem manda os deputados e os senadores do PT colocarem a viola dentro do saco e por isso não defendem o Governo? Quem manda não termos um marco regulatório para o sistema midiático público e privado? Quem manda não termos uma banda larga pública, rápida e barata? Quem manda a presidenta Dilma Rousseff não reagir às palavras de um juiz que, para mim, envergonha o Judiciário brasileiro? Quem manda os juízes dos tribunais superiores não terem mandato igual aos senadores? O que o Gilmar Mendes quer? Dar um golpe? Fazer campanha para governador de São Paulo? Ele é candidato a senador ou a deputado? O ano de 2014 está chegando e Gilmar vai continuar a ser o mesmo e com a cumplicidade da mídia. É isso aí.

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De 2001 a 2005 o estado de São Paulo pouco investiu na polícia técnico- científica, enquanto a PM consumiu 58% dos recursos

novembro 12th, 2012 by mariafro
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Abaixo, reproduzo um trecho de uma matéria de Caio Junqueira no Valor Econômico, via Observatório da Segurança com dados sobre distribuição de gastos entre as três polícias do Estado de São Paulo durante os anos de 2001 a 2005.

Atenção para esta distribuição, ela nos explica porque quase nenhum crime é resolvido, quase nenhum criminoso é punido e, principalmente, porque o combate ao crime organizado é tão ineficiente.

Os dados são do primeiro governo de Alckmin, não estou com tempo agora para pesquisar se esta distribuição tão desigual e que tem consequências diretas principalmente no combate ao crime organizado continuaram no governo Serra e persistem agora no segundo governo Alckmin.

Outra questão que considero importante é saber como outros estados fazem a distribuição do orçamento da Segurança Pública, será que seguem a mesma lógica de São Paulo?

Em São Paulo, tratando-se de recursos a Secretaria da Segurança só perde para a de Educação, ou seja, o volume de dinheiro que cada uma destas secretarias manipulam é maior do que o de muitos ministérios.

Leitores policiais, ou sociólogos que estudam segurança pública se puderem sugerirem textos, informarem dados, muito agradeceria.

De acordo com o Sistema de Gerenciamento Orçamentário do Estado de São Paulo (Sigeo), entre 2001 e 2005 os investimentos realizados na Polícia Militar somaram R$ 285,7 milhões, contra R$ 8,5 milhões para a Polícia Civil e R$ 1,9 milhão para a Superintendência Técnico-Científica. Considerando-se a dotação orçamentária total neste período, vê-se que, dos cerca de R$ 29 bilhões que a pasta acumulou entre 2001 e 2005, cerca de R$ 17 bilhões (58%) foram para a PM e R$ 5,3 bilhões (18,5%) para a Polícia Civil. A polícia técnica ficou com R$ 608 milhões.

A mesma prioridade à PM é vista quando se verifica a destinação específica dos investimentos. Os recursos para armamentos da Polícia Militar é o dobro do da Polícia Civil. Para equipamentos de informática, o quádruplo e, para veículos, o valor é muito maior: 657 vezes. Em estudos e projetos, os gastos com a PM foram de R$ 46,5 mil. Para a Civil, nada. A desproporção de gastos leva em conta ainda o efetivo da PM, de 95 mil funcionários, enquanto o da Polícia Civil é de aproximadamente 35 mil.

A que mais destoa das outras é a Polícia Científica. Responsável pela coleta de elementos materiais relacionados ao crime que levem à comprovação de que este crime ocorreu, a forma como ocorreu e as partes envolvidas, desde 2001 recebeu grande soma de investimentos apenas em 2005: foram R$ 139 mil em 2001; R$ 128 mil em 2002; R$ 1,2 milhão em 2004 e R$ 11,3 milhão em 2005.

Para o diretor científico do Instituto Latino Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente – organização não-governamental vinculada à ONU -, Guaracy Mingardi, o resultado deste foco apenas na PM se reflete no resultado das investigações.

” O resultado disso afeta a qualidade da investigação. Aquilo que a PM não conseguir impedir de acontecer, e passar para a Civil investigar, com a perícia da polícia científica, não terá resultado eficiente. Conclusão: menos crimes, de qualquer natureza, tem sua autoria descoberta. Na média, chega-se ao culpados de menos de 10% dos crimes. “

Em se tratando de combate ao maior adversário da Segurança paulista, o crime organizado, a destinação de gastos é criticada por Mingardi. ” Priorizar a PM significa deixar de focar a investigação. E a investigação é central no combate ao crime organizado, que, geralmente, não comete crimes que a PM possa evitar. Por exemplo, o tráfico de drogas. A polícia militar consegue pegar mais pequenos e médios traficantes. Para se chegar aos grandes, é necessário investigar. Mas para isso precisa dar qualidade a essa investigação. E essa qualidade é dada reforçando a polícia civil e, especialmente, a técnica. “

Outro aspecto revelado pelo Sigeo é a maior concentração de investimentos em Segurança em ano eleitoral, especificamente em 2002, quando Alckmin tentou a reeleição. Naquele ano, os investimentos feitos na Polícia Militar alcançaram R$ 102 milhões, dos quais R$ R$ 83,5 milhões só para a compra de carros. Para a Polícia Civil, R$ 1 milhão, e para a científica, R$ 89 mil. ” É muito pouco para a científica. Estamos falando de um órgão que faz análise de impressão digital ainda por cartão, enquanto o mundo, há mais de 30 anos, faz análise digital ” , afirma Mingardi.

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