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Dennis Oliveira: Futebolistas Negros: de bons escravos a maus cidadãos

maio 5th, 2014 by mariafro
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Professor Dennis Oliveira escreveu dois textos sobre futebol e racismo, o primeiro publicado na revista Fórum, o segundo em sua página do Facebook, onde faz referência ao texto da Fórum, também reproduzido aqui.

Chamo a atenção para uma preciosa dica dada por Dennis ao falar sobre a campanha #somostodosmacacos apropriada da Cufa e ressignificada pela agência que cuida da imagem de Neymar:

É possível retomar o protagonismo da campanha? Sem dúvida que sim, porém não isolando o episódio da campanha publicitária de Neymar de toda esta estrutura do futebol a qual o governo federal se submeteu para realizar o Mundial. Mais uma vez se coloca a necessidade do movimento negro ter uma postura autônoma em relação ao governo, independente das eventuais preferências político-partidárias, para aprofundar este debate. Caso contrário, corre-se o risco do movimento negro esbravejar mais contra Neymar que o racista que atirou a banana em Daniel Alves, o que deixará o movimento num lugar de mera raiva infantilizada. Como os operários nos primórdios do início do movimento sindical que diante do desemprego causado pela tecnologia, quebravam as máquinas. Já se tem muita experiência acumulada para ir além disto.

FUTEBOLISTAS NEGROS: DE BONS ESCRAVOS A MAUS CIDADÃOS


O volante Tinga, do Cruzeiro, foi vítima de racismo em fevereiro, durante uma partida contra o Real Garcilaso (Peru), válida pela Copa Libertadores da América. Todas as vezes em que ele tocava na bola, os torcedores do clube peruano faziam sons imitando macacos. Crédito: Washington Alves/Light Press)

O fato de haver uma tolerância à presença negra no futebol não significa a inexistência do racismo. Os jogadores podem ser reconhecidos e valorizados por sua qualidade técnica, mas ainda estão submetidos a uma estrutura organizativa hegemonizada por brancos

Por Dennis de Oliveira*, Revista Fórum

Os casos recentes de racismo no futebol ganharam visibilidade, a ponto de autoridades se mobilizarem, assim como lideranças do movimento negro, para combater tal prática. A preocupação é com a realização da Copa do Mundo no Brasil,  país com a maior população negra fora da África.

Chama a atenção o fato de o racismo ser praticado em um ambiente em que há grande presença de jogadores negros. Mais: que o futebol profissional aparece como uma das pouquíssimas oportunidades em que jovens negros podem ascender socialmente. Parece, então, algo contraditório, o racismo ser praticado em um lugar onde haveria uma “tolerância” com a celebridade negra. Mas a coisa não é bem assim.

Esta ascensão ao posto de celebridade tem preços a pagar. O primeiro preço é assumir o papel de objeto de consumo da indústria do entretenimento e da mídia. Os jogadores celebridades não são sujeitos, não são pessoas. São objetos de luxo, são peças. Tempos atrás, a lei do passe os escravizava aos clubes. Com o fim da lei do passe, os jogadores são escravizados por uma estrutura empresarial, que negocia os seus contratos, decide que clube vai defender e até o que falar em público. Não é apenas a sua carreira como futebolista, mas como astro, o que implica incorporar uma imagem construída por outros.

O segundo preço é, dentro de campo, submeter-se à lógica do futebol empresariado por uma verdadeira indústria mafiosa, em que pessoas de moral duvidosa comandam toda a estrutura, definem os calendários de jogos, os formatos de campeonatos etc.

E o terceiro preço a pagar é ser sempre uma pessoa subserviente a toda esta estrutura e, dentro de campo, ao técnico de futebol que se apresenta como o “pai” legitimado pelo “saber técnico” que “civiliza” o “talento” eivado de uma imagem de inocência, infantilidade. Os jogadores “desobedientes” são infantilizados como meninos travessos, moleques ou irresponsáveis, de acordo com a gradação definida pela indústria midiática e do entretenimento.

Detalhe: toda esta estrutura – empresarial, dirigente e técnica – é hegemonizada por brancos. O que significa que jovens negros podem ser bons jogadores de futebol como “bons escravos”, porque são considerados “maus cidadãos” (parafraseando o grande Clóvis Moura, que escreveu tempos atrás o livro O negro – de bom escravo a mau cidadão).

É por isso que o tratamento dado aos casos de racismo por parte da grande mídia é o de que se tratam de comportamentos episódicos, pontuais, de algumas pessoas. Porém, é importante que o movimento negro aproveite o gancho para discutir o racismo estrutural no futebol, que encontra guarida na estrutura organizativa do esporte, para desmontar a ideia de que o fato de haver uma tolerância à presença negra neste campo demonstra a inexistência do racismo. Até porque a luta contra o racismo não é apenas para se conquistar visibilidade como celebridade de alguns, mas a cidadania plena para todos.

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Neymar: um bom escravo e um mau cidadão

por Dennis Oliveira em seu Facebook

No artigo publicado na coluna Quilombo da revista Fórum semanal (reproduzido acima), foi feita uma analogia das relações entre os jogadores –celebridades e a indústria cultural e de entretenimento do futebol. Apesar dos altos ganhos salariais auferidos pelas celebridades, as relações de trabalho estabelecidas neste campo são de total objetificação do futebolista, razão pela qual a tolerância à presença de jovens negros nesta área tem como contrapartida a exigência de plena obediência as regras desta indústria.

E que regras são estas? Conforme foi dito no artigo: a primeira é assumir o papel de objeto de consumo da indústria do entretenimento e da mídia. Os jogadores celebridades não são sujeitos, não são pessoas. São objetos de luxo, são peças. Tempos atrás, a lei do passe os escravizava aos clubes. Com o fim da lei do passe, os jogadores são escravizados por uma estrutura empresarial, que negocia os seus contratos, decide que clube vai defender e até o que falar em público. Não é apenas a sua carreira como futebolista, mas como astro, o que implica incorporar uma imagem construída por outros.

A segunda é, dentro de campo, submeter-se à lógica do futebol empresariado por uma verdadeira indústria mafiosa, em que pessoas de moral duvidosa comandam toda a estrutura, definem os calendários de jogos, os formatos de campeonatos etc.

E a terceira regra é ser sempre uma pessoa subserviente a toda esta estrutura e, dentro de campo, ao técnico de futebol que se apresenta como o “pai” legitimado pelo “saber técnico” que “civiliza” o “talento” eivado de uma imagem de inocência, infantilidade. Os jogadores “desobedientes” são infantilizados como meninos travessos, moleques ou irresponsáveis, de acordo com a gradação definida pela indústria midiática e do entretenimento.

O caso do Neymar e das bananas é um exemplo ilustre disto. Aproveitando, de forma esperta e oportunista, mais um episódio lamentável de racismo nos estádios que vitimou, desta vez, Daniel Alves, o “staff” de marketing que gerencia a carreira de Neymar bolou rapidamente uma campanha publicitária via as redes sociais, apropriando-se do gesto irônico de Daniel Alves que comeu a banana atirada no campo. Rapidamente a campanha ganhou corpo e se espraiou pelas redes midiáticas, chegando ao ápice de Luciano Hulk querer faturar com venda de camisetas.

A reação imediata do movimento negro foi importante para desmascarar esta farsa. Entretanto, é um momento importante para que se saia da perspectiva meramente reativa e se aprofunde mais a discussão estrutural do racismo no futebol, principalmente levando-se em conta a realização da Copa do Mundo no Brasil.

Primeira coisa importante é preciso que se despersonalize a crítica ao jogador Neymar. Embora ele tenha que ser também responsabilizado por isto, é fundamental que se entenda como ele está inserido nesta estrutura e é por conta desta sua submissão – consciente ou não, isto não importa – que ele tem sido alçado ao posto de celebridade. O seu talento como futebolista é inegável, porém o seu “status” (assim como de todos os demais futebolistas famosos) não é apenas produto do seu talento, mas desta sua submissão a esta estrutura. Importante lembrar outros jogadores talentosos que, por não se submeterem a isto, não chegaram nem perto deste status de Neymar, como o centroavante Reinaldo, do Atlético/MG (que fazia o gesto dos Black Panthers a cada gol marcado), o ponta-esquerda Paulo César Caju, do Flamengo (que denunciou o racismo na seleção), o goleiro Barbosinha, do Corinthians (que denunciou o racismo do técnico Oswaldo Brandão que o preteriu em prol do alvo Ado). Todos jogadores talentosos não tiveram sequer chances na seleção brasileira.

Quando o governo brasileiro aceitou sediar a Copa do Mundo de 2014, concordou, por tabela, em estabelecer acordos com esta poderosa indústria cultural e de entretenimento. Este é o maior problema da realização do mundial no Brasil e não os gastos realizados para erguer os estádios. Os dados mais recentes mostram que foram gastos na construção dos estádios cerca de R$8 bilhões. Se somarmos todos os gastos com saúde nos últimos oito anos (o período em que foi decidido que a Copa seria aqui) chega-se a R$800 bilhões, ou seja, 100 vezes mais. Por isto, opor estádio a gastos com saúde é sem sentido, embora se possa perfeitamente criticar determinados “elefantes brancos” construídos, por exemplo, em Manaus, capital de um estado que sequer tem equipes de futebol na segunda divisão e que a média de público nos jogos locais não passa de três mil pessoas.

Ao estabelecer estes acordos, a dificuldade de se constituir uma campanha contra o racismo no futebol pelas vias da organização do evento fica evidente. A campanha de Neymar das bananas, por exemplo, chegou a ganhar simpatia do governo federal. O tema da campanha governamental é “Copa sem racismo”. Conforme afirma a escritora e ativista Ana Maria Gonçalves (autora do clássico Um defeito de cor, Editora Record), esta campanha foi inicialmente planejada para ser tocada pela Seppir em conjunto com o Ministério dos Esportes. Com o tempo, ela foi se centralizando no Ministério dos Esportes, cujo titular tem visões complicadas sobre o problema racial no país, como a defesa do pensador Gilberto Freire (o principal teórico da democracia racial brasileira) e de Monteiro Lobato (cuja postura racista foi demonstrada por passagens nas suas obras infantis e pela revelação das suas relações com a Ku Klux Klan).

E isto ocorreu não apenas por problemas de fragilidade institucional da Seppir, mas especialmente porque discutir o racismo na sua radicalidade é praticamente impossível dentro de uma estrutura industrial como a do futebol. Por que impossível? Primeiro porque o espaço do futebol (que inclui a torcida) é um dos últimos refúgios dos comportamentos mais reacionários que existem, como o racismo, o machismo e a homofobia. O futebol parece ser território livre para tais expressões. Segundo porque a máquina desta estrutura depende da manutenção destas relações de trabalho e hierarquia que praticamente negam qualquer postura autônoma do futebolista, principalmente se ela gerar conflitos internos que podem por a prova o seu próprio funcionamento, como é o caso do racismo.

Ora, se a aposta do governo federal é alavancar o crescimento econômico com a este mega-evento e este é o principal argumento utilizado para defender a realização do Mundial aqui, fica evidente que, ao fazer acordos com esta indústria, o discurso oficial fica amarrado para discutir profundamente este assunto. Desta forma, o caminho “natural” foi afastar a Seppir, um órgão governamental mais permeado pela pressão dos movimentos sociais negros, e deslocar toda a direção da campanha para o Ministério dos Esportes, que está gerenciando este grande acordo governo/indústria do futebol. E é preciso admitir que isto foi uma derrota para o movimento negro, pois a agenda anti-racista será subsumida aos interesses comerciais.

É possível retomar o protagonismo da campanha? Sem dúvida que sim, porém não isolando o episódio da campanha publicitária de Neymar de toda esta estrutura do futebol a qual o governo federal se submeteu para realizar o Mundial. Mais uma vez se coloca a necessidade do movimento negro ter uma postura autônoma em relação ao governo, independente das eventuais preferências político-partidárias, para aprofundar este debate. Caso contrário, corre-se o risco do movimento negro esbravejar mais contra Neymar que o racista que atirou a banana em Daniel Alves, o que deixará o movimento num lugar de mera raiva infantilizada. Como os operários nos primórdios do início do movimento sindical que diante do desemprego causado pela tecnologia, quebravam as máquinas. Já se tem muita experiência acumulada para ir além disto.

*Professor da Universidade de São Paulo no curso de Jornalismo (graduação), Direitos Humanos (pós-graduação) e Mudança Social e Participação Política (pós-graduação). Membro do NEINB (Núcleo de Apoio à Pesquisa e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro). E-mail: dennisol@usp.br

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Preto Zezé: “Ao me afirmar Preto, crio um constrangimento pedagógico”

maio 3rd, 2014 by mariafro
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Em uma entrevista para Luiz Eduardo Soares, o presidente da Cufa, Preto Zezé, fala do racismo, da violência policial, do mito da democracia racial, reforçado pela política da mestiçagem que impõe desafios à luta dos negros no combate ao racismo no Brasil. No Brasil a luta não dá para ser feita como nos EUA, argumenta Preto Zezé, lá o contexto foi de segregação explícita, aqui vigora a mestiçagem, “precisamos transformar o estigma em carisma”.

É uma entrevista impactante, vai da experiência e trajetória pessoal ao aprendizado do movimento, passa pela análise das mudanças no Brasil na última década, pela críticas ao modo tradicional de fazer política burocratizada não apenas nos partidos, mas em instituições relevantes como sindicatos e movimentos mais tradicionais, chega no rolezinho e vai além.

Ao falar de Paulo,  o menino negro amarrado nu a um poste, com quem conversou, Preto mostra estratégias de superação que não leremos em nenhum lugar.

Ao falar de cotas, Preto Zezé lembra que o racismo brasileiro é tão sofisticado que alguns negros (com racismo introjetado) sente vergonha das cotas, acha que a culpa da opressão que ele vive é dele.

Ao comentar sobre o bairro pobre onde a Cufa atua em Fortaleza (Lagamar) que fica ao lado de um bairro rico, Aldeota, Preto expõe a barbárie da realidade de exclusão: meninos do Lagamar pescam peixes no canal onde passa as fezes da Aldeota. O presidente da Central Única das favelas aposta na inclusão econômica para abalar as placas tectônicas do país que não se reconhece um no outro: “Um Brasil tem de ser apresentado ao outro!” A sociedade brasileira (a visível) se apropriou do sentimento da Casa Grande, mas os negros estão fazendo esse Brasil ser rediscutido.

Vale a pena dedicar um tempo para ouvi-lo. Destaco mais alguns momentos.

Sobre o argumento da mistura, da mestiçagem:

 “Nós somos todos misturados, mas quando você vê o mapa dos homicídios como é que essas balas enxergaram os mais escurinhos, né?

Como é que os bancos das universidades são 0,0001% são de negros? Como é que enxergaram?

Se somos todos misturados, como é que esse processo conseguiu ser tão eficaz, que no meio dos misturadinhos pegaram justamente os escuros?”

Sobre a invisibilidade dos negros:

No Ceará, terra de Preto Zezé, o ex-governador Tarso Jereissati chegou a afirmar que não existiam negros no estado. Preto Zezé explica como é possível esta fala esquizofrênica. Esta invisibilidade é resultado do processo de estigmatização da pessoa negra 

 (O racismo) “tira a sua auto-estima, faz ela ter vergonha de si, para quê eu vou para um ambiente público como um shopping center, uma praça se eu já sei o que vai acontecer comigo e aí fisicamente eu passo a não aparecer nos espaços públicos, passo a ‘não existir’.” Mas também passo a não existir para as políticas públicas da educação, das universidades… Só fico visível pra uma parte do Estado, que é a polícia. O invisível, em resumo, é aquele que somente a polícia vê.”

Sobre a reafirmação da negritude na pedagogia de transformar estigma em carisma:

“Ao me afirmar Preto, crio um constrangimento pedagógico”

Preto Zezé ressignificou o uso do termo “Preto”,  que da associação ao racismo,  ao estigma se transformou em seu nome próprio.

Assista, é imperdível.

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Jean Wyllys: “constatei que o senhor José Dirceu não goza de qualquer das “regalias” apontadas pela imprensa e que serviram de justificativa para o STF lhe negar o direito a um trabalho fora”

maio 2nd, 2014 by mariafro
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O que vi (e ouvi) em minha visita à Papuda

Por Jean Wyllys em seu blog 

02/05/2014

Recentemente a imprensa noticiou a respeito da diligência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias ao presídio da Papuda, destacando, de forma equivocada, que a diligência tentava garantir melhores condições ao ex-ministro José Dirceu, ou que foram encontradas ali regalias em seu tratamento ou suas instalações.

Inúmeras notícias dão a entender que houve uma grande divergência de opiniões, em especial entre a minha avaliação e a da minha colega, Mara Gabrilli, uma grande parceira de lutas que vão muito além da questão partidária. Temos, em comum, a luta pela inclusão como um norte em nossos trabalhos. Apenas discordamos pontualmente, o que é natural. Todos visitamos, juntos, as instalações, e pudemos, ao mesmo tempo, avaliar as condições.

Fui ali a convite da própria Comissão, para averiguar se o ex-ministro José Dirceu gozava mesmo de regalias em relação aos demais presos da unidade denunciadas pela imprensa – denúncias que serviram de motivo para o STF lhe negar o direito de trabalhar fora da prisão – e inspecionar as condições gerais da unidade prisional, com ênfase na situação dos presos paraplégicos e gays e transexuais. Para cumprir esse objetivo, nós fizemos uma oitiva demorada o com o diretor da unidade (CIR), com gestores e agentes penitenciários e com o coordenador geral do sistema carcerário do DF, e, finalmente, uma visita às celas da unidade, entre elas a de Dirceu.

Houve, entre os parlamentares, divergências em relação às condições percebidas ali. Enquanto alguns apontaram que a cela tinha um tamanho maior que a dos demais presos, a situação de insalubridade das instalações é a mesma para todos eles. Nenhum dos deputados, porém, foi até ali com o objetivo de medir colchões ou testar as instalações. O objetivo, sim, foi o de verificar – e denunciar – as condições gerais daquele presídio. Conhecer, por exemplo, a realidade de presos cadeirantes, soropositivos, LGBTs, entre outros, para que a possibilidade de um cumprimento digno da pena esteja disponível a absolutamente todos, o que é uma responsabilidade e dever do Estado.

Faço, abaixo, um relatório do que vi e ouvi ali. Não é o relatório oficial desta diligência, mas é uma forma de esclarecer o que foi por mim percebido naquela visita. Outros deputados também fizeram suas considerações a respeito, assim como o faço agora.

Segundo os gestores da unidade prisional, é parte da política carcerária manter uma separação dos apenados cujos crimes tenham repercutido muito nos meios de comunicação – despertado paixões – dos demais carcerários, assim como é parte da mesma política separar os criminosos sexuais e os policiais criminosos dos outros detentos. O objetivo é proteger a vida do apenado – já que ele está sob a tutela do Estado – e ao mesmo tempo a própria massa carcerária (esta de motins e rebeliões). É parte da política carcerária também criar um regime diferenciado de visitas para esse tipo de apenado no intuito de evitar que seus parentes sejam tomados como reféns para negociação em rebeliões.

Sendo assim, o isolamento de Dirceu da massa carcerária e o regime diferenciado de visitas não são regalias, como noticiado na imprensa, mas uma política carcerária já posta em prática muito antes de seu ingresso na unidade. Ele não tem mais visitas que os demais presos, apenas as recebe em dia e hora diferentes por uma questão de segurança.

É também parte da política carcerária permitir a visita de advogados a seus clientes na hora e no dia que eles, os advogados, solicitarem. Se Dirceu recebe mais visitas de advogados que os demais presos não é porque isso seja uma “regalia”, mas tão somente porque a maior parte da massa carcerária – em sua quase totalidade pobre, jovem e negra – é privada do acesso à Justiça e não conta com advogados. A culpa não é de Dirceu, mas de um sistema excludente e injusto que priva contingentes de direitos, com o aval de boa parte da sociedade que advoga que, “bandido bom é bandido morto”.

Sendo assim, não se pode dizer que a visita dos advogados de Dirceu seja uma regalia, quanto menos a feijoada que José Dirceu comeu em um sábado. Segundo a administração do presídio, o funcionamento, dentro da unidade, de uma cantina com alimentos, cigarros e material de higiene é também parte da política carcerária, comprados com o dinheiro que os familiares são autorizados a deixar a cada visita. Aquilo, então, não era uma “regalia”, mas tão somente fruto dessa política.

Todos os presos recebem café com leite no café da amanhã. Já frutas – exceto as cítricas e com cascas -, só as recebem os presos com dietas recomendadas pelos médicos e profissionais de saúde que os atendem, como o caso de Dirceu.

Os gestores negaram peremptoriamente que Dirceu tenha feito uso de celular. Sindicância realizada sob fiscalização do Ministério Público mostrou que a denúncia não procede. Os gestores, entretanto, admitem que, apesar da rigorosa fiscalização, celulares já foram apreendidos em celas de outros presos e que os aparelhos entram na unidade prisional “intocados” nas vaginas e ânus de familiares em dias de visita (segundo os gestores, o scanner de corpo é eficiente mas não infalível, dado os tamanhos e as levezas dos novos aparelhos celulares).

Na visita à cela de Dirceu, constamos que a mesma era uma antiga cantina que foi adaptada como cela para receber os réus do mensalão. Neste espaço em que cabem oito pessoas, foram colocadas 11. Dirceu encontrava-se sozinho porque os demais trabalham durante o dia, já que estão em regime semi-aberto. A cela continha infiltração e estava limpa. Havia uma tevê pequena. Nenhum dos diligentes testou o chuveiro da cela, portanto não há como saber se havia, ali, água quente ou não. Neste ponto, faço uma observação: apesar de todos termos visitados, juntos, as instalações, a entrada da minha colega, Mara Gabrilli, foi impossível, já que sua cadeira não passava pela porta, o que é algo realmente questionável em uma instalação que também precisa atender cadeirantes. Mais abaixo, falo das péssimas situações destes cadeirantes presenciadas por nós.

Visitamos também outras celas em que haviam mais aparelhos e conforto (tevê,  microondas, sanduicheira e fogão) que a de José Dirceu. De acordo com os gestores, nem todas as celas dispõem desses bens porque 1) a maioria dos presos é pobre e seus familiares idem, o que lhes impede de comprar esses bens; 2) a direção da unidade não pode liberar a presença desses bens nas celas em que haja presos que possam causar dano a um colega ou à estrutura da prisão (como botar fogo em colchão ou queimar a mão de um colega na sanduicheira, por exemplo).

Vistamos, ainda, celas em que há mais presos que a capacidade máxima e constatamos que presos em cadeiras de rodas nem sempre são contemplados por uma política diferenciada que leve em conta sua vulnerabilidade e especificidades (banho de sol em horários diferentes e separação da massa carcerária para que sua cadeira de rodas não seja tomada para ser transformada em arma). Na mesma cela em que havia dois cadeirantes – acompanhados de um preso cuidador, o que é bom e recomendado – havia também dois com doenças infecto-contagiosas que não foram especificadas.

Um destes é um jovem rapaz mineiro, atingido por um tiro que o deixou paraplégico durante um assalto. Mesmo não tendo cometido crime contra a vida, está preso nestas condições degradantes, o que está muito distante de um cumprimento digno de uma pena. Situação que nunca recebe atenção por parte de nenhum veículo de imprensa.

Constatamos ainda o total despreparo dos gestores e agentes carcerários para lidar com as vulnerabilidades e especificidades do contingente de gays e transexuais presos, situação que pode ser mudada com o apoio dos deputados da Frente LGBT.

Em resumo, constatamos que a unidade, em que pese ser uma das melhores do país no quesito respeito aos direitos humanos da população carcerária, ainda tem muito que avançar. A maior parte da massa carcerária está privada de condições dignas para cumprir a pena devido a um processo de exclusão e violação de direitos que antecede o ingresso na prisão.

De forma pessoal, constatei que o senhor José Dirceu não goza de qualquer das “regalias” apontadas pela imprensa e que serviram de justificativa para o STF lhe negar o direito a um trabalho fora. O que espero é que seja feita a justiça de forma honesta e consciente, e que esta independa das condições do apenado. E, acima de tudo, nós, os deputados comprometidos com o respeito aos direitos humanos, cobramos que as cadeias ofereçam um espaço digno para que os presos possam ser reinseridos à sociedade, ao contrário do senso comum de que as cadeias devam ser apenas um depósito de foras da lei.

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PSDB tem insistido nas investigações, mas foram Serra, Alckmin e Covas que deram dinheiro público ao laboratório de doleiro

maio 2nd, 2014 by mariafro
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Governo FHC fechou três contratos com Labogen, suspeito de servir para lavagem de dinheiro, quando José Serra era ministro da Saúde. Covas e Alckmin também contrataram empresa de doleiro em SP.

O deputado federal Renato Simões (PT-SP) apresentou um requerimento na Câmara dos Deputados para solicitar informações sobre três contratos fechados entre o Labogen, laboratório suspeito de servir de fachada para operações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas por parte do doleiro Alberto Youssef, e o Ministério da Saúde entre 1998 e 2002, durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002) e do então ministro José Serra (PSDB). O deputado cobra ainda informações sobre contratos firmados entre a Labogen e o governo do estado de São Paulo nas gestões de Mário Covas (1995-2001) e Geraldo Alckmin (PSDB, 2001-2006, 2011-2014), junto à Fundação para o Remédio Popular do Estado de São Paulo.

Será que veremos notícias sobre a lavagem de dinheiro dos contratos da Labogen durante o governo FHC com Serra ministro da saúde? Será que a denúncia ocupará durante meses as manchetes dos jornais? Reinará em horário nobre na Globo? Será que os deputados tucanos vão pedir CPI?

Serra é convidado à Câmara para explicar contrato com laboratório de doleiro

Por Diego Sartorato, da Rede Brasil Atual

01/05/2014

Governo FHC fechou três contratos com Labogen, suspeito de servir para lavagem de dinheiro, quando José Serra era ministro da Saúde. Covas e Alckmin também contrataram empresa de doleiro em SP

ELZA FIÚZA/ARQUIVO ABR
Serra
PSDB tem insistido nas investigações, mas foram Serra (foto), Alckmin e Covas que deram dinheiro público ao laboratório

São Paulo – O deputado federal Renato Simões (PT-SP) apresentou um requerimento na Câmara dos Deputados para solicitar informações sobre três contratos fechados entre o Labogen, laboratório suspeito de servir de fachada para operações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas por parte do doleiro Alberto Youssef, e o Ministério da Saúde entre 1998 e 2002, durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002) e do então ministro José Serra (PSDB). O deputado cobra ainda informações sobre contratos firmados entre a Labogen e o governo do estado de São Paulo nas gestões de Mário Covas (1995-2001) e Geraldo Alckmin (PSDB, 2001-2006, 2011-2014), junto à Fundação para o Remédio Popular do Estado de São Paulo.

Além de solicitar informações, Simões redigiu ainda convite para que Serra vá à Câmara explicar a relação entre sua gestão e o laboratório – como não é mais autoridade pública, Serra não pode ser convocado e, se preferir, pode negar o convite. Os requerimentos devem ser votados na sessão da próxima terça-feira (6).

A Labogen está sendo investigada pela operação Lava Jato da Polícia Federal, que flagrou diálogos do deputado federal André Vargas (PT-PR) que indicam que ele faria lobby pela empresa junto ao Ministério da Saúde durante a gestão de Alexandre Padilha, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo. Segundo a PF, a Labogen buscava contrato de fornecimento de matéria-prima para medicamentos com o Ministério com o objetivo de mascarar remessa de dinheiro para fora do país; dos cinco projetos apresentados pela empresa, no entanto, quatro foram descartados imediatamente pelo ministério, e o último não teria condições técnicas de ser firmado, segundo afirmou Padilha ao programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (28).

“A Labogen não tem contratos com o Ministério da Saúde desde o final do governo Fernando Henrique. Se existe algum vínculo entre o laboratório e o lobby no ministério da saúde, isso ocorreu com o ministro José Serra. A Labogen está sendo usada para atingir a reputação do Padilha de forma absolutamente irresponsável”, afirma Simões. Segundo o deputado, o objetivo dos requerimentos é avaliar se os serviços contratados junto ao Labogen por R$ 31 milhões pelo então ministro Serra e por R$ 5 milhões pelos governos do PSDB no estado de São Paulo foram, de fato, cumpridos. “Como a Fundação do Remédio Popular também recebe dinheiro do ministério, é nosso papel fiscalizar se houve desvio desses repasses”, afirma Simões.

Para levantar os dados, o deputado pretende acionar o próprio Ministério da Saúde, a Controladoria-Geral da União e o Tribunal de Contas da União.

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