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Paulo Moreira leite, Sem domínio, sem fatos

outubro 10th, 2012 by mariafro
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Sem domínio, sem fatos

PAULO MOREIRA LEITE, em sua coluna de Época

10/10/2012

Talvez seja a idade, quem sabe as lembranças ainda vivas de quem atravessou a adolescência e o início da idade adulta em plena ditadura. Mas não consigo conviver com a ideia de que cidadãos como José Genoíno e José Dirceu possam  ser condenados por corrupção ativa sem que sejam oferecidas provas consistentes e claras. A Justiça é um direito de todos. Mas não estamos falando de personagens banais.

Sei que os mandantes de atos considerados criminosos  não assinam papéis, não falam ao telefone nem deixam impressão digital. Isso não me leva a acreditar que toda pessoa que não assina papel, não fala ao telefone nem deixa impressão digital seja chefe de uma quadrilha.

Sei que existe a teoria do domínio do fato. Mas ela não é assim, um absoluto. Tanto que, recentemente, o célebre Taradão, apontado, por essa visão, como mandante do assassinato de irmá Dorothy, conseguiu sentença para sair da prisão. Contra Taradão havia confissões, testemunhas variadas, uma soma impressionante de indícios que não vi no mensalão.  Mesmo assim, ele foi solto.

Não estamos no universo do crime comum. Estamos no mundo cinzento da política brasileira, como disse o professor José Arthur Gianotti, pensador do país e, para efeitos de raciocínio, tucano dos tempos em que a geração dele e de Fernando Henrique lia O Capital.

O país político funciona neste universo cinzento para todos os partidos. Eu e  acho, de saída, que é inacreditável que dois esquemas tão parecidos, que movimentaram quantias igualmente espantosas, tenham recebido tratamentos diferentes – no mesmo tempo e lugar.

O centro desse universo é uma grande falsidade. O mensalão dos petistas, que condenou Dirceu e Genoíno, foi julgado pelo Supremo em clima de maior escândalo da história, definição que, por si só, já pedia, proporcionalmente, a maior condenação da história.

Já o mensalão do PSDB-MG escapou pela porta dos fundos. Ninguém sabe quando será julgado, ninguém saberá quando algum nome mais importante for absolvido em instancias inferiores, ninguém terá ideia do destino de todos. Bobagem ficar de plantão a espera do resultado final. Esse barco não vai chegar.

O caminho foi diferente, a defesa terá mais chances e oportunidades. Não dá para corrigir.

O PSDB-MG passará, no mínimo, por duas instâncias. Quem sabe, algum condenado ainda poderá bater às portas do STF – daqui a alguns anos. Bons advogados conseguem tanta coisa, nós sabemos…

Não há reparação possível. São rios que seguiram cursos diferentes, para nunca mais se encontrar.

Partindo desse julgamento desigual, eu fico espantado que Dirceu tenha sido condenado quando os dois principais casos concretos – ou provas – contra ele se mostraram muito fracas.

Ponto alto da denúncia de Roberto Jefferson contra Dirceu, a acusação de que Marcos Valério fez uma viagem a Portugal para arrumar dinheiro para o PTB e o PT se mostrou uma história  errada. Lobista de múltiplas atividades, Valério viajou a serviço de outro cliente, aquele banqueiro da privatização tucana  que ficou de fora do julgamento. Ricardo Lewandoswski explicou isso e não foi contestado.

Outra grande acusação, destinada a sustentar que Dirceu operava o esquema como se fosse o dono de uma rede de fantoches, revelou-se muito mais complicada do que parecia. Estou falando da denúncia de que, num jantar em Belo Horizonte, Dirceu  teria se aliado a Katia Rebelo,  a dona do Banco Rural, para lhe dar a “vantagem indevida” pelos serviços prestados no mensalão.

A tese é que Dirceu entrou em ação para ajudar a banqueira a ganhar uma bolada – no início falava-se em bilhões – com o levantamento da intervenção do Banco Central no Banco Mercantil de Pernambuco. O primeiro problema é que nenhuma testemunha presente ao encontro diz que eles sequer tocaram no assunto.

Mas é claro que você não precisa acreditar nisso. Pode achar que eles combinaram tudo para mentir junto. Por que não?

Mas a sequencia da história não ajuda. Valério foi 17 vezes ao BC e ouviu 17 recusas.  A intervenção no Banco Mercantil  só foi  levantada dez anos depois, quando todos estavam longe do governo. Rendeu uma ninharia em comparação com o que foi anunciado.

De duas uma: ou a denuncia de que Dirceu trabalhava para ajudar o Banco Rural a recuperar o Mercantil era falsa. Ou a denuncia é verdadeira e ele não tinha o controle total sobre as coisas.

Ou não havia domínio. Ou não havia fato.

Aonde estão os super poderes de Dirceu?

Estão na “conversa”, dizem. Estão no “eu sabia”, no “só pode ser”, no “não é crível” e assim por diante. Dirceu conversava e encontrava todo mundo, asseguram os juízes. Mas como seria possível coordenar um governo sem falar nem conversar? Sem sentar-se com cada um daqueles personagens, articular, sugerir, dirigir. Conversar seria prova de alguma coisa?

Posso até imaginar coisas. Posso “ter certeza.” Posso até rir de quem sustenta o contrário e achar que está zombando da minha inteligência.

Mas para condenar, diz  a professora Margarida Lacombe, na GloboNews, é preciso de provas robustas, consistentes. Ainda vivemos no tempo em que a acusação deve apresentar provas de culpa.

Estamos privando a liberdade das pessoas, o seu direito de andar na rua, ver os amigos, e, acima de tudo, dizer o que pensa e lutar pelas próprias ideias.

Estamos sob um regime democrático, onde a liberdade – convém não esquecer – é um valor supremo. Podemos dispor dela, assim, a partir do razoável?

Genoíno também foi condenado pelo que não é crível, pelo não pode ser, pelo nós não somos bobos. Ainda ouviu uma espécie de sermão. Disseram que foi um grande cara na luta contra a ditadura mas agora teve um problema no meio da estrada, um desvio, logo isso passa.

Julgaram a pessoa, seu comportamento. E ouviu a sentença de que seu caráter apresentou falhas.

Na falta de provas, as garantias individuais, a presunção da inocência, foram diminuídas, em favor da teoria que permite condenar com base no que é “plausível”, no que é “crível” e outras palavras carregadas de subjetividade, de visão

Não custa lembrar – só para não fazer o papel de bobo — que se deixou de lado o empresário das privatizações tucanas que foi um dos primeiros a contribuir para o esquema, um dos últimos a aparecer e, mais uma vez, um dos primeiros a sair.

Já perdemos a conta de casos arquivados no Supremo por falta de provas, ou por violação de direitos individuais, ou lá o que for, numa sequência de impunidades que – involuntariamente — ajudou a formar o clima do “vai ou racha” que levou muitos cidadãos honestos e indignados a aprovar o que se passou no julgamento, de olhos fechados.

Juizes do STF tiveram  uma postura muito estranha  quando emparedaram o governo Lula, ainda no exercício do cargo, em função de uma denuncia – absurdamente falsa – de que um de seus ministros fora grampeado, em conversa com o notável senador Demóstenes Torres, aquele campeão da moralidade que tinha o celular do bicheiro, presentes do bicheiro, avião do bicheiro…o mesmo bicheiro que ajudou a fazer várias denuncias contra o governo Lula, inclusive o vídeo dos Correios que é visto como o começo do mensalão.

A condenação contra José Genoíno e José Dirceu sustenta-se, na verdade, pelo julgamento de caráter dos envolvidos. Achamos que eles erraram. Não há fatos, não há provas. Mas cometeram “desvios”.

Aí, nesse terreno de alta subjetividade, é que a condenação passa a fazer sentido. Os poucos fatos se juntam a uma concepção anterior e formam uma culpa.

A base deste raciocínio é a visão criminalizada de determinada política e determinados políticos.

(Sim. De uma vez por todas: não são todos os políticos. O mensalão PSDB-MG lembra, mais uma vez, que se fez uma distinção entre uns e outros.)

Os ministros se convenceram de que “sabem” que o governo “comprava apoio” no Congresso. Não contestam sequer a visão do procurador geral, que chega a falar em sistema de “suborno”, palavra tão forte, tão crua, que se evita empregar por revelar o absurdo de toda teoria.

Suborno, mesmo, sabemos de poucos e não envolvem o mensalão. Foram cometidos em 1998, na compra de votos para a reeleição. Mas pode ter havido, sim, casos de suborno.

Mas é preciso demonstrar, mesmo que não seja preciso uma conversa grampeada, como Fernando Rodrigues revelou em 1998.

Nesta visão,  confunde-se compensações naturais da política universal  com atitudes criminosas, como crimes comuns. Quer-se mostrar aos políticos como fazer politica – adequadamente.

Chega-se ao absurdo. Deputados do PT, que nada fariam para prejudicar um governo que só conseguiu chegar ao Planalto na quarta tentativa, são acusados de terem vendido seu apoio em troca de dinheiro. Não há debate, não há convencimento, não há avaliação de conjuntura. Não há política. Não há democracia – onde as pessoas fazem alianças, mudam de ideia, modificam prioridades. Como certas decisões de governo, como a reforma da Previdência, não pudessem ser modificadas, por motivos corretos ou errados, em nome do esforço para atravessar aquele ano terrível de 2003, sem crescimento, desemprego alto, pressão de todo lado.

A formula é tudo por dinheiro é nome de programa de TV, não de partido político.

Imagino se, por hipótese, a Carta ao Povo Brasileiro, que contrariou todos os programas que o PT já possuiu desde o encontro de fundação, no Colégio Sion, tivesse de ser aprovada pelo Congresso.

Tenho outra dúvida. Se este é um esquema criminoso, sem relação com a política, alguém poderia nos apresentar – entre os deputados, senadores, assessores incriminados – um caso de enriquecimento. Pelo menos um, por favor. Porque a diferença, elementar, para mim, é essa.

Dinheiro da política vai para a eleição, para a campanha, para pagar dívidas. Coisas, aliás, que a denuncia de Antônio Fernando de Souza, o primeiro procurador do caso, reconhece.

Decepção. Não há este caso. Nenhum político ficou rico com o mensalão. Se ficou, o que é possível, não se provou.

Claro que o Delúbio, deslumbrado, fumava charutos cubanos. Claro que Silvinho Pereira ganhou um Land Rover. A ex-mulher de Zé Dirceu, separada há anos, levou um apartamento e conseguiu um emprego.

Mas é disso que estamos falando? É este o “maior escândalo da história”?

Os desvios de dinheiro público, comprovados, são uma denúncia séria e grave. Deve ser apurada e os responsáveis, punidos.

Mas  não sabemos sequer quanto o mensalão movimentou. Dois ministros conversaram sobre isso, ontem, e um deles concluiu que era coisa de R$ 150 milhões. Queria entender por que se chegou a este número.

Conforme a CPMI dos Correios, é muito mais. Só a Telemig – daquele empresário que ficou esquecido – compareceu com maravilhosos R$ 122 milhões, sendo razoável imaginar que, pelo estado de origem, seu destino tenha sido o modelo PSDB-MG. Mas o Visanet entregou R$ 92,1 milhões, diz a CPMI.  A Usiminas – olha como é grande o braço mineiro – mandou R$ 32 milhões para as agências de Marcos Valério. Mas é bom advertir: isso está na CPMI, não é prova, não é condenação.

A principal testemunha, Roberto Jefferson, acusou, voltou atrás, acusou de novo… Fez o jogo que podia e que lhe convinha a cada momento. Disse até que o mensalão era uma criação mensal. (Está lá, no depoimento à Polícia Federal).

Eu posso pinçar a frase que quiser e construir uma teoria. Você pode pinçar outra frase e construir outra teoria. Jefferson foi uma grande “obra aberta” do caso.

O nome disso é falta de provas.

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Breve nota sobre a pesquisa Data Folha

outubro 10th, 2012 by mariafro
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Por: Wagner Iglecias
10/10/2012

Acaba de ser divulgada a primeira pesquisa deste 2º turno sobre a eleição para prefeito de São Paulo. Fernando Haddad, do PT, abriu 10 pontos de vantagem sobre o veterano José Serra, do PSDB: 47% a 37%. Não saíram ainda os detalhes, os números pelos vários recortes do eleitorado paulistano, mas uma coisa é certa. Serra, como ex-prefeito, ex-governador e ex-ministro, não larga bem.

Tendo a experiência administrativa que tem, e sendo de um partido que um dia foi um partido de quadros, Serra só tem dois caminhos: ou fazer uma campanha propositiva, discutindo os problemas da cidade e as suas ideias para resolve-los, ou partir pro vale-tudo, como já insinuam algumas notinhas aqui e ali, não só no universo do que o próprio Serra um dia chamou de “blogueiros sujos”, mas também na mídia corporativa. Fala-se no serviço de líderes religiosos conservadores a bater pesado no kit anti-homofobia criado por Haddad na época do Ministério da Educação, fala-se em críticas ao ENEM, e fala-se, obviamente, na superexploração da condenação de cardeais petistas no caso do julgamento do mensalão. Melhor seria que não fosse assim, já que São Paulo, maior metrópole do Hemisfério Sul, é tão complexa e tem tantos problemas que uma campanha eleitoral inteira, de 1º e 2º turnos, não é suficiente para discuti-los.

Já para Haddad e o petismo o que resta é lembrar a dura campanha de 2010, que foi outro dia mesmo. Assinale-se que esta é apenas a primeira pesquisa, e foi feita antes do reinício do horário eleitoral, no qual tudo pode acontecer. Inclusive, assim como Haddad desponta na frente agora, Serra recuperar-se daqui a pouco e arrancar para a vitória. Se não quiser perder mais uma eleição para Serra na cidade, o petismo que não suba no salto. E nem durma no ponto.

*Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

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No Brasil, uma Justiça que se baseia em conjecturas e condena por presunção

outubro 10th, 2012 by mariafro
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Foto: José Antonio Garcia Lima

STF e o ‘mensalão’: decisão perigosa sem precedentes para a segurança do indivíduo
Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro, No Correio do Brasil
7/10/2012

O julgamento da Ação Penal (AP) 470, no Supremo Tribunal Federal (STF), sob os holofotes de setores da mídia comprometidos com os mesmos interesses que mantiveram de pé uma das piores ditaduras já vividas na América Latina, vai muito além das cores fortes com as quais o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo conhecido como ‘mensalão’, tenta tingir a realidade ao contar uma história crível até, verossímil como os grandes romances, mas afastada das provas contidas nos autos. Se a compra de votos de parlamentares transitar em julgado na mais alta Corte de Justiça do país, com base nos votos consignados por guardiões da Constituição brasileira para que consigam dormir à noite, amparados na experiência de vida de cada um, ou ainda por não ser possível não se saber de algo que não foi dito, nem provado, nas investigações ao longo de quase uma década, a possível prisão do ex-ministro José Dirceu será a menor das consequências. A maior delas estará no risco em que viveremos, todos, diante de uma Justiça que se baseia em conjecturas e condena por presunção.
A repercussão será devastadora se o Supremo materializar sem uma prova sequer, como constatou o revisor da AP 470, ministro Ricardo Lewandowski, os piores fantasmas da imaginária conspiração comunista mais barburda de que já se teve notícia, para perpetuar no poder o grupo liderado por aquele líder sindicalista, Luiz Inácio Lula da Silva, ligado aos ex-guerrilheiros Daniel e Luiza. É aí que começam as incongruências. Em primeiro lugar, os livros de História do Brasil precisarão contar que a tentativa do suposto esquema de financiamento da esquerda radical teve seu Joaquim Silvério dos Reis no ex-deputado de extrema direita Roberto Jefferson. Depois, que todas as votações na Câmara dos Deputados e no Senado, durante o período de vigência do esquema do ‘mensalão’, tiveram que ser anuladas por vício de origem, o que desmoralizará de forma indelével o Poder Legislativo nacional. E por último, embora não menos importante, nenhuma prova foi exigida no corpo do processo para que os réus seguissem às galés. O mais grave, porém, estará à frente, com o estabelecimento da jurisprudência.
A partir de então, lá no futuro, qualquer juiz de primeira instância, diante de uma denúncia na paróquia, transformada em processo com base naquela fofoca da D. Candinha que ganhou as manchetes da Folha de Mato Dentro, considerada muito plausível segundo a experiência de vida da comunidade conservadora local, o magistrado condenará o acusado que, por coincidência, era desafeto do dono do jornal e da revista que ora lhe conferem superpoderes de herói na pequena, aprazível e imaginária Gotham City. Ainda assim, sem um pingo de culpa por rasgar séculos de lutas e conquistas do indivíduo, colocará a cabeça no travesseiro para uma boa noite de sono. Ao miserável, ainda bem, será possível recorrer da sentença à Corte imediatamente superior, expediente negado aos réus desta ação no STF. Mas, se tal situação hipotética soa como absurdo, o pior na realidade é a sensação que passará a reinar no país, a de que o impensável integra o cotidiano. Ao abandonar o marco de segurança mínima dos direitos individuais, que é a exigência das provas contidas nos autos para que alguém seja condenado à pena privativa de liberdade, alguns integrantes do Tribunal mais importante do país poderão viver no sossego de suas consciências, mas terão transformado em pesadelo a vida de toda uma nação.
Uma vez aceso o estopim da bomba armada por Carlos Augusto Ramos, o contraventor Carlinhos Cachoeira, que explodiu no bolso daquele funcionário dos Correios, junto com o pacotinho de R$ 3 mil, nada mais seguro para o alvo primário das investigações do que se misturar à multidão e acusar o maior número possível de pares na Câmara dos Deputados de se vender ao esquema urdido por comunistas sanguinários instalados no poder. A Igreja se arrepia. A Casa Grande desfia o relho. As condições para um novo golpe de Estado no Brasil se apresentam. Mas a tentativa falha porque o presidente da República detinha, à época, os maiores índices de aprovação jamais vistos na história desse país. Paciência. Teriam nova oportunidade mais à frente, no julgamento do ‘mensalão’.
Os autores da ópera bufa que criava a figura da compra de consciência dos parlamentares haviam plantado a semente transgênica no relatório da PGR. Pasmem. O esquema, disseram, visava a aprovação de duas reformas absurdamente importantes para a implantação do stalinismo no Brasil: da Previdência e a Lei de Falências. Como toda história mal contada, faltam os fundamentos mais pueris. Fossem os textos de ambas um avanço no campo socialista, capazes de abrir caminho para a implantação do comunismo na América do Sul, seria possível apontar o dedo longo dos conservadores na direção do Planalto. Mas, ao contrário, da dissidência do Partido dos Trabalhadores, acusado de manobrar alguns graus à direita, nasceu o Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL), integrado por parlamentares insatisfeitos, principalmente, com a alteração no regime previdenciário do país. Esse mesmo texto recebeu o apoio de partidos da oposição, pelas mesmas razões. Se alguém vendeu algo nesse episódio, não foi o voto.

O veneno destilado pela Procuradoria Geral da República (PGR) não foi suficiente para inocular todo o processo. Com isso, parece que todos concordam. Ainda assim, engolido de um trago só pela relatoria, viu-se transformada em lenda a mais pura e simples bandalheira. Ainda que vultoso, trata-se do comezinho furto aos cofres públicos por uma fenda aberta pela quadrilha do então publicitário Marcos Valério, experimentado nessas lides desde o ‘mensalão mineiro’.

Este transcorreu sem falhas, a ponto de nenhum tucano do bando ter experimentado, até hoje, o alpiste na gaiola. Mas, ao tornar a estória um fato, sem que as provas contidas nos autos embasassem a argumentação fantasiosa e eletrizante, quase uma novela das oito, estão prestes a lançar o país em um abismo jurídico sem precedentes. Parecem desconhecer que tal jurisprudência será capaz de atingir, indistintamente, a todo e qualquer cidadão deste país.

Ainda mais irresponsáveis são os donos dos jornais diários, revistas e redes de tevê que incensam um disparate de tal envergadura. Esses empresários viram no enredo outra chance de ouro para lustrar, com a língua, as botas do capital internacional que os sustentam. Ao tomar em vão o santo nome da liberdade de imprensa – sagrada e louvada por todo o sempre, salve, salve, amém – os grandes meios de comunicação aplicam seus poderes, imensos, de forma a encostar na parede, de um lado, o governo da presidenta Dilma Rousseff. Com isso, garantem recursos públicos bilionários em contratos de publicidade para seguir mais fortes no encabrestamento do Estado. E, de outro, o Poder Judiciário. Este último parece ser ainda mais simples de manobrar. Basta conceder algumas fotos nas capas, umas campanhas de marketing nas redes sociais e aplausos em aviões e restaurantes para acender o imenso braseiro do ego de alguns magistrados.

Assim, conseguem sonhar com carneirinhos, acreditar em contos de fadas e dispensar as provas imprescindíveis para que um cidadão seja encarcerado.

Em nome de seus próprios interesses, e apenas em nome deles, sem pensar nas consequências do ato prestes a ser praticado, parcela considerável da elite puxa o gatilho de uma arma carregada de ódios e mágoas na direção da própria têmpora. Uma vez disparada, a bala de prata que deveria matar o “sapo barbudo” e exterminar os “petralhas” estará pronta a ferir de morte o Estado de Direito e a segurança individual de todos os brasileiros.

*Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

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‘Com a morte de Hobsbawm desaparece um dos mais brilhantes historiadores de nossa época’

outubro 10th, 2012 by mariafro
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Aos pobres leitores que tiveram o desprazer de ler o obituário feito pelo jornalixo dos idiotas imorais de Veja, reproduzo um texto decente, escrito por um historiador decente, sobre um dos mais brilhantes historiadores do século XX.

Leia também: Associação de historiadores repudia “matéria” de Veja sobre Eric Hobsbawm

 
A vida e a obra de Eric J. Hobsbawm, pelo historiador Elias Thomé Saliba

‘Com a morte de Hobsbawm desaparece um dos mais brilhantes historiadores de nossa época e talvez o último da primeira geração de marxistas’

Por Elias Thomé Saliba, O Estado de S.Paulo
01/10/2012
O historiador marxista Eric Hobsbawm - Roland Schlager/EFE

Roland Schlager/EFE. O historiador marxista Eric Hobsbawm

“O perfil do bom historiador não pode se parecer nem com o carvalho e nem com o cedro, por mais majestosos que sejam, e sim com um pássaro migratório, igualmente à vontade no ártico e no trópico – e que sobrevoa ao menos a metade do mundo.” Ao escrever isto em 2002, Eric J. Hobsbawm talvez estivesse descrevendo sua própria trajetória. Nascido em Alexandria em 1917, de família judaica – pai do East End londrino e mãe da Áustria dos Habsburgos – passou a infância em Viena, tornou-se órfão aos 14 anos e foi morar em Berlim com uma tia, entrando para o Partido Comunista alemão (KPD) ainda no fim do curso ginasial. Após a ascensão de Hitler mudou-se para Londres onde concluiu os estudos secundários. Em 1936, na febre da Front Populaire em Paris, perambulou na carroceria de um caminhão do cinejornal do Partido Socialista; depois cruzou a fronteira para a Catalunha, logo no início da Guerra Civil Espanhola.

No mesmo ano, conseguiu uma bolsa para estudar história no King’ s College, em Cambridge. Nos anos da 2ª. Guerra integrou a divisão do exército britânico que cavava trincheiras, atuando ainda como tradutor no setor de inteligência militar. Quando concluiu seus estudos, pagou o aluguel da casa escrevendo uma coluna semanal sobre jazz no New Statesman - com o pseudônimo de Francis Newton (textos depois reunidos no livroHistória Social do Jazz). Em 1962, em sua segunda visita à Cuba, serviu até de tradutor para Che Guevara e o restante da delegação britânica. Quando se aposentou, após anos de docência, recebeu inúmeros títulos honoríficos e tornou-se Companion of Honor da rainha da Inglaterra.

“Não se podia ensinar nada a ele, seria impossível. Eric já sabia de tudo” Assim resumiu Christopher Morris, orientador de estudos em Cambridge, quando perguntado a respeito do jovem Hobsbawm: daí começou a carreira ininterrupta de um historiador instintivamente poliglota e cosmopolita em todas as suas referências e um dos raros representantes de uma geração que teve o privilégio de ser, ao mesmo tempo, testemunha e intérprete dos últimos noventa anos da história mundial.

Nas décadas de 1930/1940, quando Hobsbawm se formou, a Inglaterra era o único país onde surgiu uma escola de historiadores marxistas. Talvez porque no rol curricular das universidades inglesas, a literatura havia tomado o espaço vazio deixado pela filosofia. É que a geração de Hobsbawm – representada por nomes notáveis como Christopher Hill, Edward Thompson e Raymond Williams – adentrou a oficina da história através da paixão pela literatura. O extremo rigor da pesquisa também marcou a obra historiográfica desta geração new left, que se formou no auge do clima ideológico de suspeita da Guerra Fria. Certamente veio da paixão pela literatura o amplo domínio que estes historiadores tinham da escrita e o motivo pelo qual Hobsbawm tenha se tornado um autentico mestre da prosa inglesa: sem teorizações intrincadas e nenhum traço de narcisismo autocomplacente, ele é dono de um estilo claro, conciso, sem afetações, equilibrando – em doses exatas – distanciamento e engajamento crítico.

Fui “um antiespecialista em um mundo de especialistas, um intelectual cujas convicções políticas e obra acadêmica foram dedicadas aos não-intelectuais”, escreveu em Tempos Interessantes - livro que, até hoje virou um paradigma de como deveriam ser escritas todas as autobiografias. Apesar do seu precoce – e nunca explicitamente abandonado – engajamento comunista, sempre assumiu um olhar historiográfico desenraizado e pouco afetivo. Definia-se como “um historiador pertencente a minorias atípicas, imigrante na Grã-Bretanha, inglês entre centro-europeus e judeu em toda parte – sentindo-se anômalo até entre os comunistas”, reconhecendo-se apenas na frase definidora que E. M. Forster utilizava para definir um poeta: “ele ficava num ângulo ligeiramente oblíquo em relação ao universo.”

O que também o tornou um pesquisador suscetível a uma versatilidade incomum. Das rebeldias primitivas ao banditismo social, das rebeliões de trabalhadores pobres ao significado do feriado do primeiro de maio, da máfia aos luddistas e às tradições inventadas -, Hobsbawm escreveu sobre os mais diversos temas, revelando insuspeito domínio dos fatos e surpreendentes interpretações. Sua panorâmica história do “triunfo e transformação do capitalismo”, que começa com a dupla revolução – a 1ª. Revolução Industrial inglesa e a Revolução Francesa – e termina com a queda dos regimes comunistas na década de 1990-, tornou-o mundialmente famoso. Traduzido em centenas de países, estes quatro livros – abrangendo o período da era das revoluções até o breve século 20 – tornaram-se parte da bagagem obrigatória não apenas dos estudantes de humanidades, mas de um público bem mais amplo.

Hobsbawm sempre tinha algo importante a dizer e seus posicionamentos foram sempre críticos. Quando caiu o muro de Berlim, muitos apressadinhos anunciaram e apegaram-se à desacreditada ideia do “fim da história”. Francis Fukuyama retocou a maquiagem de um antigo livro de Alexandre Kojève sobre Hegel e colocou em circulação esse diagnóstico vistoso, mas pouquíssimo convincente – que foi solenemente abandonado depois dos eventos tristemente célebres de setembro de 2001. Hobsbawm chegou a dizer que até acreditava no “fim da história” – mas, num sentido bem diferente: é o fim da história tal como a conhecemos nos últimos 10 mil anos, isto é, desde a invenção da agricultura sedentária. Isto porque, nos primeiros anos do terceiro milênio, as mudanças estão se acelerando num ritmo estonteante, quase impossível de se acompanhar com os olhos, os conceitos – e até com as próprias palavras – que dispúnhamos para compreender o século 20.

Era sempre difícil para um historiador de formação marxista reconhecer, mas o autor de A Era Dos Extremos não acreditava em saltos ou mudanças radicais no capitalismo. Nem por isto deixava de assumir uma posição impiedosamente crítica em relação à história mundial. A globalização trouxe consigo uma dramática acentuação das desigualdades econômicas e sociais, tanto no interior das nações quanto entre elas próprias. Embora a escala real da globalização permaneça modesta, seu impacto político e cultural é desproporcionalmente grande e muito mais sensível para os que menos se beneficiam dela. Por outro lado, nos seus últimos escritos e entrevistas Hobsbawm deixava bastante claro como estávamos enfrentando os problemas do século 21 com um pífio conjunto de mecanismos políticos, flagrantemente inadequados para resolvê-los. Sua defesa dos valores iluministas era intransigente: acreditava que eles constituíam os únicos alicerces que temos para construir sociedades justas, seja qual for o lugar da terra e para todos os seres humanos. “Quando as pessoas não têm mais eixos de futuros sociais acabam fazendo coisas indescritíveis”, escreveu no ensaio “Barbárie: manual do usuário”.

Ele próprio, apesar de “pássaro migratório”, como historiador nunca perdeu seu eixo, que sempre foi o marxismo. Suas convicções politicas incluíam a hostilidade a toda forma de imperialismo, tanto das grandes potências que afirmam “estar fazendo um favor às suas vítimas ao conquistá-los, quanto a o do homem branco que pressupõe, para si próprio e para os arranjos que faz, uma superioridade automática sobre as pessoas cuja pele tem outra cor.” Mas seu tom só se elevava um pouco, quando confrontado com as lúgubres perversidades da era estalinista. O episódio da violenta intervenção soviética na Revolução Húngara em 1956 é um exemplo marcante. Certa vez, quando Arthur Koestler, – irritado e em alto estado etílico numa tarde emotiva num bar austríaco – cobrou-lhe a ausência de posicionamento, Hobsbawm deu-lhe um xeque mate, mostrando-lhe uma carta coletiva na qual havia denunciado todas as atrocidades. Mais recentemente, o historiador Tony Judt disse que Hobsbawm era admirável em sua fidelidade ao comunismo, mas alfinetou: “para fazer algum bem no novo século, devemos começar dizendo a verdade sobre o antigo e um historiador do seu quilate não poderia mais se recusar a encarar o demônio e chamá-lo pelo nome: o estalinismo e todos os seus crimes hediondos”. Hobsbawm respondeu que as críticas de Judt eram improcedentes, pois em A Era Dos Extremos encarava o problema, criticando-o e firmando sua posição. Retrucou ainda que condenava “aqueles intelectuais anticomunistas que hoje têm apenas uma bandeira única, a de serem exclusivamente anticomunistas, esquecendo-se completamente das ideais pelas quais lutavam.” “Judt deseja apenas que eu diga que estava errado – e não vou satisfazê-lo”, finalizou Hobsbawm. A polêmica não rendeu, parando nestas tantas cutiladas curtas, até porque logo depois Judt cairia doente e morreria. É pena. Pois o debate poderia se alongar, ao refletir sobre o imenso abismo ético que se abriu entre os intelectuais europeus do “leste” e os “ocidentais” em função da própria história e da experiência de cada um com o comunismo. Abismo que se mantém até hoje.

Perscrutador incansável do seu século, Hobsbawm deixou uma obra que é uma aula magistral de história contemporânea. Ele sabia ainda, quando necessário, provocar o leitor com tiradas irônicas. Seu relato dos estertores da democracia alemã, no fim da República de Weimar, é resumido numa única frase: “Estávamos no Titanic, e todos sabiam que ele estava batendo no iceberg”. Ao discorrer sobre os movimentos estudantis dos anos 1960, ele chegava a argumentar que “a marca distintiva realmente importante na história da segunda metade do século XX não é a ideologia nem as ocupações estudantis, e sim o avanço do jeans”. E, finalmente, ao refletir sobre o poder em geral, sintetiza-o simplesmente pela megalomania, que ele define como “a doença ocupacional dos países e dos governantes que creem que seu poder e seu êxito não têm limites.”

Um humorista inglês brincou, certa vez, definindo a escola de historiadores marxistas de Hobsbawm como os “cavaleiros da távola redonda em busca do perdido Graal”. Com a morte de Hobsbawm desaparece um dos mais brilhantes historiadores de nossa época e talvez o último daquela primeira geração de marxistas, para os quais a Revolução de Outubro – uma espécie de Graal – era o ponto de referência central no horizonte político. Marca também o desaparecimento de um dos últimos historiadores que colaram de tal forma sua trajetória de vida com a história pública, que elas parecem indistinguíveis. “O sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim, assim como um texto apagado no computador lá permanece, à espera dos técnicos que o recuperem dos discos rígidos”, confessou Hobsbawm. E em lacônica resposta à tirada humorística, concluiu: “Porque se desistirmos do Graal, desistiremos de nós mesmos.”

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP E AUTOR DE, ENTRE OUTROS, RAÍZES DO RISO (COMPANHIA DAS LETRAS)

Veja também:
link Morre, aos 95 anos, historiador Eric Hobsbawm 
link Eric Hobsbawn no Acervo do ‘Estado’ 
link Entrevista do historiador Eric Hobsbawm ao ‘Estado’, publicada em 10/09/2011 
link Resenha: Hobsbawm, o profeta de Marx

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