Maria Frô

ativismo é por aqui

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O desabafo do deputado Jean Wyllys

setembro 11th, 2011 by mariafro
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Sugestão da Rosangela Basso.

EM ENTREVISTA AO BAHIA 247, PARLAMENTAR BAIANO, MAS ELEITO PELO RIO, REVELA AS AMEAÇAS QUE SOFREU POR TER ABRAÇADO A CAUSA LGBT

Rebeca Bastos, no  Bahia247 

11/09/2011

Jean Wylliys é deste tipo de gente que enxerga os obstáculos e as pedras no caminho e logo cria uma estratégia de superá-los e conquistar seu objetivo final. O que ele quer? Respeito aos direitos humanos e às diferenças que distinguem um indivíduo do outro. Para tanto, não importa se está como redator nas páginas de um jornal, na tela da tevê interpretando a si mesmo num reality show ou no parlamento atuando como deputado federal eleito (PSol-RJ). No entanto, sua atuação em busca dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros – os LGBTs – o levou a um caminho inesperado no sistema democrático: a ameaça à sua própria vida.

Embora esteja exercendo o seu primeiro mandato Jean já fez história: é o primeiro deputado federal brasileiro, assumidamente homossexual, a abraçar a causa LGBT. E o trabalho executado por ele tem incomodado bastante a ala conservadora da política nacional. São apenas oito meses no cargo, mas já rolou muito babado por aí.

Jean é um dos principais defensores do projeto Escola sem Homofobia (que foi apelidado de Kit Gay), do projeto de criminalização da homofobia, e é o proponente da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que estende aos homoafetivos o direito ao casamento civil. Pelo engajamento, hoje ele é um dos favoritos a receber o prêmio Congresso em Foco de melhor parlamentar do ano. Seus principais concorrentes nesta disputa são os experientes Chico Alencar (PSOL-RJ), ACM Neto (DEM-BA) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Jogo sujo

A vida não é feita apenas de conquistas positivas, e Jean sabe bem disso. A defesa da causa LGBT também tem um preço alto e rende a Jean ameaças de morte. O parlamentar já recebeu várias, por telefone e até pelo Twitter. Entre alguns impropérios descabidos, seus ofensores dizem:

- É por ofender a bondade de Deus que você deve morrer

- Cuidado ao sair de casa, você pode não voltar

- A morte chega, você não tarda por esperar

Mas Jean não se espanta. Já recebeu ameaças em outras ocasiões. “Acho que são feitas mais para intimidar; no entanto, já tomei as providências cabíveis”, avisa. Com o objetivo de se proteger, Jean prestou queixa na delegacia de crimes virtuais e tenta localizar os IPs de onde partiram as ameaças. Também já comunicou as ameaças à ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário.

Jean tem como um dos principais opositores o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), com quem protagoniza um confronto direto acerca do projeto Escola sem Homofobia (que ele deu o apelido de Kit Gay). “Bolsonaro e seus aliados políticos fazem um jogo sujo para conseguir atingir seus interesses”, ataca. Ele assegura que o projeto Escola Sem Homofobia não tem o objetivo de “transformar crianças em gays”, como seus opositores sugerem. O material é voltado apenas para adolescentes e jovens acima de 14 anos que já estão no ensino fundamental e médio.

Mas todo estardalhaço em torno das questões da homossexualidade remetem à fala de Dom Quixote, no clássico de Cervantes:

- Os cães ladram, Sancho, é sinal de que estamos avançando

Para “sair do romantismo dos direitos humanos”, o deputado também se engajou na Comissão de Finanças e Tributação. “Violação de diretos humanos no Brasil é uma questão de orçamento”, justifica, lembrando que 46% do orçamento da União é usado para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Jean também compõe a Comissão de Legislação Participativa da Câmara, que visa aumentar a participação da sociedade civil na legislatura, e também está nas frentes parlamentares pela Igualdades Racial e pela Cultura.

Com uma religiosidade aflorada que contém elementos da Igreja Católica (da qual fez na infância e adolescência quando pertencia às pastorais da Juventude Estudantil e da Juventude do Meio Popular), das religiões de matriz africana e uma pitada de esoterismo, Jean atribui aos astros parte da motivação que o fizeram tomar a decisão de se candidatar.

Jean lembra que o despertar para uma carreira política veio através de dois convites que o fizeram pensar. O primeiro convite foi de ACM Neto, que o convidou para sair como candidato a vereador pelo DEM. A proposta foi recusada pois Jean diz que não tem identificação ideológica com o partido nem com suas “práticas carlistas”. A segunda proposta, foi de Heloísa Helena (presidente do PSol). “Relutei a princípio, mas com o tempo percebi que com a política eu poderia continuar exercendo o meu ativismo de uma forma mais eficaz”.

Com orçamento de campanha de apenas R$ 28 mil (insuficiente para produzir cartazes ou adesivos ), o deputado conseguiu chegar à Câmara com uma campanha feita nas redes sociais. Foi o segundo mais votado do partido, ficando atrás de Chico Alencar, cuja expressiva votação garantiu a eleição de Jean.

Ainda Lembro

Hoje como deputado federal, Jean pode gozar de certos direitos distantes para a maioria da população brasileira como auxílio paletó, auxílio moradia, auxílio combustível, auxílio correio e telefone, carros a disposição, apartamento funcional 13°, 14° salário. Mas nem sempre foi assim. Jean conta a equipe do Bahia 247, que foi recebida em seu apartamento no Centro de Salvador, que já viveu com sua família abaixo da linha da pobreza. “Foram tempos difíceis, todo mundo lá em casa tinha que trabalhar desde cedo. Passamos fome”, relembra. Jean que assim como seus outros cinco irmãos sempre trabalhou para ajudar nas despesas da família.

Natural de Alagoinhas, cidade a 107 km de Salvador, Jean é o quarto filho da tímida e orgulhosa dona Inalva, mulher forte e batalhadora que sempre incentivou o estudo aliado ao trabalho para conseguir uma vida melhor. “Quando terminei o ensino médio, minha mãe achava que já bastava de estudo, mas eu precisava seguir adiante”. E seguiu. Passou no disputado vestibular da Universidade Federal da Bahia e cursou jornalismo. Depois, seguiu para o mestrado e como idéia de doutorado queria estudar a Antropologia do Consumo de Mídia. Foi aí que surgiu a ideia de fazer um estudo de campo no Big Brother Brasil, em 2005, do qual saiu do milionário.

O escritor

Jean está finalizando a edição de seu quarto livro, que deve ser publicado até o final deste ano. O título provisório da publicação é “Bahia, minha Preta”, e será uma seleção de crônicas que destrincham o cotidiano da Bahia e dos baianos. Para o próximo ano, um dos projetos é voltar a dar aulas na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e Universidade Veiga de Almeida (UVA), ambas no Rio. Além disso, continuará como colunista da Revista Carta Capital.

Apesar de toda as dificuldades enfrentadas ao longo da vida, Jean se diz – e transparece ser – um cara leve que não perdeu a ternura diante das pedras no caminho. Não à toa, gosta muito daquele conhecido poema de Mário Quintana, o Poeminha do Contra. Taí um bom lema:

“Todos estes que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho!”

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A CIA e os drones: para resolver problemas internos

setembro 11th, 2011 by mariafro
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A CIA e os drones: para resolver problemas internos
Gareth Porter, OpEdNews
5/9/2011

Quando David Petraeus chegar à CIA na 3ª-feira, estará assumindo a presidência de uma organização cuja missão mudou nos anos recentes. A CIA já não é encarregada de reunir e analisar dados de inteligência. Hoje, tem participação direta em campanhas militares, comandando os aviões-robôs tripulados à distância, os drones, no Paquistão, no Iêmen e na Somália.

Mas a transformação da CIA não acompanhou, apenas, a expansão da guerra dos drones no Paquistão, até chegar ao ponto em está hoje. O diretor Michael Hayden, da CIA, trabalhou ativamente a favor dessa expansão, num momento em que os ataques com drones pareciam ser experimento fracassado.

Uma das razões pelas quais Hayden tanto operou para conseguir ampliar muito a guerra dos drones, como se pode ver agora, é que já se havia criado toda uma burocracia para aquela guerra, antes da guerra e antecipando a guerra.

Durante 2010, a “guerra dos drones” da CIA no Paquistão matou mais de 1.000 pessoas, menos do que os cerca de 2.000 mortos pelos “raids noturnos” das forças especiais no Afeganistão, segundo matéria do Washington Post, dia 1º de setembro.

Um funcionário da CIA citado pelo Post começou dizendo que a CIA tornou-se “uma tremenda máquina de matar”, para, em seguida, corrigir-se: “tornou-se uma tremenda ferramenta operacional.”

A mudança na missão da CIA refletiu-se no crescimento espetacular de seu Centro de Contraterrorismo [ing. Counter-terrorism Center (CTC)], de 300 funcionários em setembro de 2001, para os atuais cerca de 2.000 funcionários – 10% de toda a força de trabalho da agência, segundo a matéria do Post.

O braço analítico da agência, que antes se devotava inteiramente a avaliações e pareceres de inteligência para políticos, foi profundamente afetado.

Mais de 1/3 do pessoal do braço analítico trabalha hoje completa ou prioritariamente em funções de apoio às operações da CIA, segundo altos funcionários citados no Post. E quase 2/3 deles analisam dados usados pelo CTC na guerra dos drones, selecionando e definindo alvos a serem atacados.

Parte dessa mudança no trabalho interno, para apoiar a guerra dos drones aconteceu depois que aumentou o número de ataques de drones no Paquistão desde meados de 2008, mas bem antes disso a CIA já começara a construir as bases institucionais para ampliar a guerra dos drones.

Crucial para que se entenda o papel da dinâmica interna nas decisões da CIA é o fato de que a campanha dos drones no Paquistão começou muito mal. Nos quatro anos, de 2004 até 2007, a CIA só fez 12 ataques aéreos com drones no Paquistão, todos contra alvos ‘de alto valor’, da Al-Qaeda e grupos ligados a ela.

A política de George W. Bush para os drones foi cautelosa, em grande parte porque o presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, era visto como tão confiável que o governo não quis correr qualquer risco de desestabilizar seu governo.

Essas limitações foram impostas à CIA, na tarefa de definir alvos para os ataques com drones. O drones só poderiam ser usados contra elementos definidos como de alto valor, da Al-Qaeda e afiliados no Paquistão; e a CIA sempre teria de poder provar que o ataque não provocara mortes de civis.

Aqueles primeiros 12 ataques com drones mataram apenas três figuras identificadas como da Al-Qaeda ou do Talibã no Paquistão. Mas, apesar de os “danos colaterais” estarem proibidos… morreram naqueles 12 primeiros ataques nada menos que 121 civis – consideradas só as notícias de jornal daquele ano.

Um único ataque dos drones contra uma madrassa (escola religiosa) dia 26/10/2006, que matou 80 estudantes locais, já dá conta de 2/3 das mortes de civis no período.

A matéria do Post revela que, apesar do começo desastroso, a CIA rapidamente envolveu-se no esforço para construir um grande programa especial para a guerra dos aviões-robôs: em 2005, a agência criou um projeto de carreira para analistas de inteligência para aquele específico programa.

Por aquela decisão administrativa, analistas que escolhessem especializar-se em definir alvos para os drones comandados à distância pela CIA recebiam a promessa de que o programa teria longa duração, que haveria trabalho garantido e promoções de carreira. A CIA assumiu compromissos de longo prazo com seu próprio corpo de funcionários, apostando que a guerra dos drones iria bem além dos três raids por ano e que, muito provavelmente, continuaria por longo tempo.

Em 2007, a agência deu-se conta de que, se queria manter aqueles compromissos, teria de conseguir que a Casa Branca mudasse as regras ‘políticas’ e relaxasse as restrições que ainda pesavam sobre o uso dos drones.

Foi quando Hayden abraçou o lobby pró-drones e passou a insistir com o presidente George W. Bush para que levantasse as limitações e impedimentos para novos e mais numerosos ataques dos drones – como se lê em The Inheritance, de David Sanger, repórter do New York Times. Hayden pediu autorização para usar os drones contra casas e veículos, selecionados como alvos a partir de qualquer atitude ou movimentação suspeita, avaliados segundo um “padrão de vida” definido para a Al-Qaeda ou outros grupos.

Em janeiro de 2008, Bush deu um primeiro passo não divulgado na direção de afrouxar as limitações ao uso de drones, como Hayden desejava, mas a maior parte dos impedimentos a ataques com drones foram mantidos. Nos primeiros seis meses de 2008, houve quatro ataques pelos aviões-robôs comandados à distância.

Mas em meados de 2008, o diretor da Inteligência Nacional, Mike McConnell, retornou de uma viagem que fizera em maio ao Paquistão decidido a provar que os militares paquistaneses, em segredo, estavam apoiando os guerrilheiros Talibã – especialmente da rede Haqqani –, que estava ganhando fôlego no Afeganistão.

Segundo Sanger, a equipe de McConnell produziu avaliação formal, que reforçava a necessidade de ‘mais drones’, enviada em junho à Casa Branca e a outros altos funcionários. Com isso, Bush, que andava elogiando Musharraf como aliado contra os Talibã, viu-se obrigado a fazer alguma coisa para mostrar firmeza ante os militares paquistaneses e, também, ante os guerrilheiros afegãos que viviam em paraísos seguros no noroeste do Paquistão.

Bush queria que os aviões-robôs tripulados à distância fossem usados exclusivamente em ataques contra alvos dos Talibã afegãos, não contra a Al-Qaeda e seus aliados Talibãs paquistaneses. Mas, naquele momento, segundo Sanger, Bush rapidamente suspendeu todas as limitações que ainda havia (exigência de que houvesse informação de inteligência sobre determinados alvos ‘de alto valor’ e garantia de que não houvesse civis mortos).

Livre das limitações e impedimentos que pesavam sobre o programa dos aviões-robôs, no segundo semestre de 2008 a CIA aumentou o número de ataques com drones, para entre quatro e cinco por mês, em média.

Segundo os relatos de discussões internas nas primeiras semanas do governo de Barack Obama, que se leem em Obama’s Wars [as guerras de Obama], de Bob Woodward, havia sérias dúvidas, desde o início, sobre se os drones poderiam, de fato, derrotar a Al- Qaeda.

Mas Leon Panetta, recentemente nomeado por Obama para dirigir a CIA, sempre foi empenhado defensor da guerra dos drones. Nunca parou de falar dos drones, apresentando-os à opinião pública como estratégia para destruir a Al-Qaeda – embora soubesse que a CIA, naquele momento, estivesse atacando principalmente os Talibã afegãos e seus aliados, não a Al-Qaeda.

Na primeira conferência de imprensa, dia 25/2/2009, Panetta, em referência indireta, mas óbvia, aos ataques com aviões-robôs, disse que o esforço para desestabilizar a Al-Qaeda e destruir sua liderança estaria sendo “bem-sucedido”.

Sob comando de Panetta, o número de ataques por aviões-robôs continuou, ao longo de 2009, no mesmo ritmo de crescimento acelerado da segunda metade de 2008. E em 2010, aquele número mais que dobrou: de 53 em 2009, para 118.

A CIA, afinal, conseguiu chegar à grande guerra de aviões-robôs, os drones, para a qual já se organizara antecipadamente.

Há dois anos, Petraeus dava sinais de não depositar muita confiança em ataques com aviões-robôs no Paquistão. Em documento secreto que redigiu como comandante do CENTCOM, dia 27/5/2011, que vazou e foi publicado pelo Washington Post, Petraeus advertiu que os ataques por aviões-robôs tripulados à distância estavam fazendo aumentar os sentimentos de antiamericanismo no Paquistão. Hoje, o que Petraeus pense ou deixe de pensar, pessoalmente, sobre os drones já não tem qualquer importância.

Os interesses institucionais da CIA, que mandam manter e ampliar o uso de aviões-robôs tripulados à distância – a guerra de drones – parecem ter-se imposto de tal forma, que nenhum diretor conseguirá opor-se àqueles interesses, baseado em sua pessoal opinião sobre como ou o quanto os ataques dos aviões robôs possam ser contraproducentes, se se consideram os interesses dos EUA.

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Antonio Luiz Costa: Celso Amorim, a história na mão

setembro 11th, 2011 by mariafro
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A História na Mão:

Por Antonio Luiz M. C. Costa, Carta Capital n˚ 663

10/09/2011

Celso Amorim relata momentos decisivos da diplomacia brasileira no governo Lula. Foto: Walter Campanato/ABR

A obra merece atenção, no mínimo, por expor algo do pensamento de alguém que o especialista em relações internacionais Daniel Rothkopf classificou na Foreign Policy de outubro de 2009 como o “melhor chanceler do mundo”, continua influente nas relações exteriores brasileiras, é o atual ministro da Defesa e, provavelmente, virá a cumprir outros papéis intelectual e politicamente importantes. Mas, principalmente como testemunho em primeiríssima mão da estratégia e dos bastidores do Itamaraty em uma época decisiva para o Brasil e o mundo, na qual os países do Sul começaram a descobrir e usar sua força.

Em Conversas com Jovens Diplomatas (editora Benvirá, 616 págs., R$ 64,90) Celso Amorim reúne 20 palestras a alunos do Instituto Rio Branco, de 2005 a 2010. Naturalmente, não poderia haver nelas nada de confidencial, mesmo na época em que foram proferidas, mas o quadro que delas emerge pode surpreender até quem acompanhou o processo.

O divisor de águas, ao qual Amorim frequentemente retorna em suas explicações – mas cuja importância esteve longe de ser óbvia na época – foi a Declaração de Brasília de 6 de junho de 2003, na qual foi criado o Fórum do Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (Ibas). Em torno desse eixo, com apoio da China, articulou-se o G-20 que bloqueou as pretensões norte-americanas e europeias de concluir a seu gosto a Rodada de Doha das negociações da OMC na conferência de Cancun de setembro de 2003. Até então, as negociações eram polarizadas entre os EUA e a Europa, com os países periféricos colocando-se ao lado do primeiro (latino-americanos e países do sudeste Asiático, interessados na abertura dos mercados agrícolas) ou da segunda (africanos e Índia, mais protecionistas). A partir daí, passaram a ser triangulares.

Pouco depois, desmanchou-se no ar a Alca, projeto dos EUA que parecia sólido e inevitável. Seguiram-se iniciativas impensáveis no governo anterior: a articulação da União Sul-Americana (Unasul), a formalização do grupo BRICs e a ação diplomática independente do Brasil em Honduras e no Oriente Médio, ao mesmo tempo que o comércio exterior brasileiro, antes focado no Norte, passou a se dirigir cada vez mais a países do Sul, notadamente África, América do Sul e China.

Além da importância dessa virada, outro motivo condutor é o que se expressa no título do terceiro capítulo “o perigo de ficarmos só voltados para o ideal é a irrelevância. O de estarmos totalmente voltados para o realismo é a inação”. Há diferentes formulações e aplicações dessa tese, mas está presente o tempo todo. O “ideal”, nesse contexto, é o ponto de vista da utopia, o voluntarismo de quem exige uma política externa incondicionalmente moldada por valores revolucionários ou humanistas, sem levar em conta o estado do mundo. O “realismo”é a aceitação igualmente incondicional da realidade tal como se apresenta, o pragmatismo cínico que vê nos diplomatas meros representantes comerciais dos produtos brasileiros.

Amorim vê sua estratégia como uma permanente busca de equilíbrio entre a análise da realidade e o desejo político de realizar. Mesmo que sua política tenha parecido “utopia”, do ponto de vista de editorialistas e colunistas que desde os anos 90 menosprezam as relações com o Sul, pontificam que a prioridade do Brasil deveria ser aprender a se comportar como província do Império e montar um lobby em Washington para melhor competir com os argentinos ou mexicanos e veem nos diplomatas nada mais que representantes comerciais dos produtos brasileiros.

Esse equilíbrio passa quase sempre, na visão do ex-chanceler, pela criação e fortalecimento das instituições internacionais. É nesses termos que se explica a contínua dedicação à OMC e ao Conselho de Segurança da ONU, apesar dos poucos resultados, tanto quanto ao Mercosul e Unasul, mais bem-sucedidos. E igual defesa da existência da OEA como fórum entre América Latina, Estados Unidos e Canadá, apesar da crescente autonomia das articulações latino-americanas – e de Lula, depois da V Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, de 2009, ter dito que “a próxima incluirá Cuba ou não existirá”.

Para Amorim, a consolidação de regras e organizações é a única forma de defender os interesses dos fracos ante os mais fortes. Sem entidades como a OMC, a ONU ou a OEA, nada impediria as potências de impor sua vontade diretamente aos países menores, nem esses teriam a quem recorrer contra seus abusos. Desde que as regras de fato tenham algo a oferecer aos mais fracos, é claro: foi ele mesmo quem impôs à Rodada de Doha da OMC e à Alca condições e exigências que os países ricos não aceitaram. No primeiro caso, aparentemente Amorim lamenta, pois acredita que ao ser suspensa em 2008, ao fim do mandato de Bush júnior, a negociação chegava a um acordo aceitável e benéfico para o Brasil e para a maioria dos países do G-20.

Já no caso da Alca, a história é outra. A Amorim chegou a parecer impossível não tê-la e ser preciso buscar o melhor acordo possível dentro desse projeto: o Itamaraty estava quase sozinho, tanto no cenário político interno quanto no Mercosul. Tentou ganhar tempo e “desentortá-la”, como diz, mas parece ter ficado mais satisfeito com seu abandono aparentemente definitivo. Segundo ele, o principal objetivo dos setores que a defendiam nunca foi abrir mercados dos EUA a tais ou quais produtos brasileiros, mas sim “travar” (lock in), petrificar, tornar irreversíveis pelos compromissos externos a abertura do mercado e as reformas neoliberais, de forma muito mais extrema que a exigida pela OMC: ausência de política industrial, privilégios ao investimento estrangeiro e aceitação das normas estadunidenses de propriedade intelectual.

Esse misto de pragmatismo, legalismo e vontade política foi proveitoso. Hoje estaria fora de lugar a arrogância dos EUA de 2003, quando Roberto Zoellick dizia que o Brasil, se não entrasse na Alca, teria de “exportar para a Antártida”. Mas agora em 2011, com o Brasil e o G-20 já em posições de maior força, qual será o equilíbrio correto entre a nova realidade e a utopia? Certamente, estará em ousar ainda mais e não em se acomodar ou recuar.

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Isabel Allende: “Seguiremos na luta pelo esclarecimento de todos os crimes da ditadura”

setembro 11th, 2011 by mariafro
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“Seguiremos na luta pelo esclarecimento de todos os crimes da ditadura”

Christian Palma – Correspondente da Carta Maior em Santiago do Chile – @chripalma  Tradução: Katarina Peixoto

11/09/2011

Trinta e oito anos após o 11 de setembro que derrubou o governo de Salvador Allende e causou a morte do presidente chileno, sua filha, a escritora e hoje senadora Isabel Allende fala para a Carta Maior sobre os últimos momentos com o seu pai no dia em que o general Augusto Pinochet mandou bombardear o Palácio de la Moneda. “Lembro-me de suas palavras e da decisão de ficar em La Moneda, porque esse era seu lugar, que correspondia a um presidente constitucional”, diz Isabel.

Maria Isabel Allende Bussi*

A biografia de Isabel Allende Bussi, filha de Salvador, o grande presidente do Chile, conta que na manhã do dia 11 de setembro de 1973, ela chegou a La Moneda poucos minutos antes das nove da manhã e permaneceu junto com sua irmã Beatriz, conversando um longo tempo com seu pai.
Desde o início, o presidente diz a elas que não renunciará como, naquela hora, os militares comandados por Pinochet estavam exigindo. Ele queria dar uma lição moral aqueles que o estavam traindo. Suas filhas queriam permanecer com ele, mas o pai pede que elas vão embora e, finalmente, as obriga a sair do palácio um pouco antes de começar o bombardeio.

“No rosto de meu pai, percebi uma mistura de surpresa e incredulidade quando me viu e uma íntima satisfação de sentir-se próximo de suas duas filhas, ainda que – devo reconhecer – nossa presença o perturbasse profundamente. Pouco depois, nos reuniu a todos os presentes no salão Toesca. Lembro-me de suas palavras e da decisão de ficar em La Moneda, porque esse era seu lugar, que correspondia a um presidente constitucional. Disse que não ia renunciar e que havia rechaçado as ofertas para abandonar o país. Pediu, em troca, que seus assessores deixassem o palácio, já que não estavam treinados para usar armas e porque o mundo precisava saber o que estava acontecendo”, contou a atual senadora socialista.

Isabel e Beatriz saíram e, entre tiros isolados, se refugiaram primeiro na entrada de um edifício e, depois, avançaram em um veículo entre controles militares que conseguiram ultrapassar por causa da gravidez de “Tati” e foram para a casa de uma colega de trabalho de Isabel, onde passaram a noite do dia 11. Ali ficaram sabendo do bombardeio do palácio, da residência presidencial de Tomás Moro e da morte do presidente Allende.

No dia 12 de setembro, depois que sua mãe Tencha Bussi de Allende, assistiu sozinha o enterro secreto do presidente Allende, no cemitério de Santa Inês, em Viña del Mar, partiu para o exílio com sua família.

38 anos após esse episódio e com a recente certeza legal de que seu pai preferiu tirar a própria vida antes de cair nas mãos dos golpistas de Estado, Isabel Allende, revela suas impressões à Carta Maior.

Este 11 de setembro tem um “sabor” especial, levando em conta que se determinou que o presidente Allende se suicidou em La Moneda e não foi morto por mãos militares?

O resultado das investigações do juiz Mario Carroza que permitiu estabelecer com critério científico o que a família e os colaboradores diretos sempre sustentaram sobre a morte de Allende fecha um ciclo para a família, mas não termina como o desejo de justiça de muitos. Neste 11 de setembro, assim como nos anos anteriores, pediremos justiça para muitos que foram detidos em La Moneda e nunca mais se soube deles.

O que significa, finalmente, a determinação da causa da morte do presidente Allende? Acabar com as especulações? Fecha-se um ciclo, sem dúvida doloroso, mas muito importante, não só para a família como para todo o país?

Sem dúvida que era um ato necessário da justiça com o Chile. Como disse a Corte Suprema era uma dívida com a história. Essa definição, mais do que terminar com as especulações, reafirma o que os testemunhos diretos indicam sobre a morte do presidente e ratifica a vontade do presidente de que só com sua morte deixaria de cumprir o mandato constitucional que lhe foi outorgado pelo povo do Chile.

O que você poderia dizer aos milhares de brasileiros que consideram Salvador Allende um herói, um exemplo de valores, de coerência. Um democrata verdadeiro, preocupado com o povo mais pobre, com os despossuídos?

A história de Salvador Allende é uma longa luta pelos direitos dos trabalhadores e dos mais despossuídos. Não somente sua morte é um exemplo, mas toda sua vida. Sua longa trajetória como parlamentar, como defensor dos direitos dos trabalhadores, já tinham o convertido em uma das principais lideranças da esquerda latino-americana. Salvador Allende também trabalhou pelo aprofundamento da democracia em nossos países.
Sua presidência está cheia de medidas em favor dos mais despossuídos.

Destaco duas: a nacionalização do cobre, que permitiu aos chilenos contar com uma riqueza de nosso solo que estava vedada a eles até então. Até hoje, muitos programas sociais são pagos com os recursos gerados pela Codelco, a empresa estatal que surgiu desta medida revolucionária do presidente. Uma segunda é garantir para cada criança chilena meio litro de leite por dia, o que implicou um grande avanço na luta contra a desnutrição. A campanha contra a fome do presidente Lula me lembrou muito desse feito de Allende.

Qual a preocupação da família Allende daqui em diante?

Nós estamos preocupados em transmitir o legado do presidente às novas gerações e, para isso, temos a Fundação Salvador Allende, que também participa na administração do museu da solidariedade. Por outro lado, seguiremos, como tem sido feito nestes anos, na luta pelo esclarecimento de todos os crimes da ditadura e por levar seus executores e autores intelectuais aos tribunais.

*Atualização: Eu e Carta Maior erramos na imagem: Na Wikipedia: Maria Isabel Allende Bussi: http://t.co/uUgRu9w e Isabel Allende Llona: http://t.co/391N8XJ, correção devidamente feita pela @dolphindiluna, obrigada.

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