Maria Frô

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Pepe Escobar: Líbia será Afeganistão 2.0, Iraque 2.0, ou uma mistura dos dois

setembro 6th, 2011 by mariafro
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Líbia: A verdadeira guerra começa agora

Pepe Escobar, Asia Times Online, Tradução: Vila Vudu

6/9/2011

Chega de falar da derrubada do Grande Gaddafi. Agora, chegamos aos finalmentes: será Afeganistão 2.0, Iraque 2.0, ou uma mistura dos dois.

Os ‘rebeldes da OTAN’ sempre garantiram que não querem ocupação estrangeira. Mas a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – sem a qual não haveria vitória dos ‘rebeldes’ – não pode governar a Líbia sem coturnos em solo. Assim sendo, examinam-se hoje vários cenários virtuais no quartel-general da OTAN em Mons, Bélgica – a OTAN protegida sob o estofamento de veludo da ONU.

Segundo planos já vazados, mais cedo ou mais tarde podem aparecer por lá soldados das monarquias do Golfo Persa e aliados amigáveis, como a Jordânia e, especialmente, como a Turquia, que é membro da OTAN e interessada em embolsar vastos contratos comerciais. Dificilmente alguma nação africana fará parte do grupo – dado que a Líbia foi “relocalizada” e, agora, é parte das Arábias.

O Conselho Nacional de Transição aceitará – ou será forçado a aceitar – se, ou quando, a Líbia entrar em espiral de total caos. Mesmo assim não será produto fácil de vender internamente – com as furiosamente disparatadas facções dos ‘rebeldes da OTAN’ já empenhados freneticamente em consolidar seus respectivos feudos e prontas para saltarem, umas nos pescoços das outras.

Não se vê nem sinal, até aqui, de que o Conselho Nacional de Transição tenha qualquer ideia sobre o que fazer para administrar a complexa paisagem política dentro da Líbia, além das repetidas genuflexões ante o altar das nações membros da OTAN.

Guns e nada de roses

Na Líbia, praticamente toda a população está hoje armada até os dentes. A economia está paralisada. E já está em campo a mais feroz briga de gatos-do-mato pelo controle dos bilhões de dólares dos líbios congelados.

A tribo Obeidi está furiosa com o Conselho Nacional de Transição, porque não há nem sinal de investigação para saber quem matou o comandante militar do exército ‘rebelde’ Abdul Fattah Younis dia 29 de julho. Já ameaçaram fazer justiça pelas próprias mãos.

Os principais suspeitos do assassinato são os homens da Brigada Abu Ubaidah bin Jarrah – uma milícia islâmica fundamentalista linha duríssima que rejeitou a intervenção da OTAN, recusou-se a combater sob comando do Conselho Nacional de Transição e declarou “infiéis” o Conselho e a OTAN.

Há também a pergunta que tantos tentam afogar em petróleo: quando o ramo da al-Qaeda na Líbia, a nuvem de guerrilha islâmica conhecida como Grupo Islâmico de Combate na Líbia [ing. Lybia Islamic Fighting Group (LIFG)], organizará seu próprio golpe para derrubar o Conselho Nacional de Transição?

Por toda Trípoli veem-se os ecos gráficos do inferno das milícias armadas que se viu no Iraque. O general Abdelhakim Belhaj, que trabalhou para a CIA-EUA e foi prisioneiro da “guerra ao terror” –, original do círculo de Derna, o marco zero do fundamentalismo islâmico na Líbia – é o líder do novíssimo Conselho Militar de Trípoli.

Já houve acusações, feitas por outras milícias, de que Belhaj não combateu na ‘libertação’ de Trípoli e, portanto, tem de deixar o posto – verdade ou mentira, é o que o Conselho anda dizendo. Isso significa que, mais dia menos dia, a nuvem indefinida conhecida como LIFG-al-Qaeda estará empenhada num dos lados da guerra de guerrilhas que virá – contra o Conselho Nacional de Transição, contra outras milícias ou contra todos.

Em Trípoli, rebeldes de Zintan, nas montanhas do oeste do país, controlam o aeroporto. O banco central, o porto de Trípoli e o gabinete do primeiro-ministro são controlados por rebeldes de Misrata. Berberes da cidade de montanha de Yafran controlam a praça central de Trípoli, coberta com dísticos de “Revolucionários de Yafran”, escritos com spray. Todos demarcam claramente os respectivos territórios, como aviso.

Como o Conselho Nacional de Transição, como unidade política, já está se comportando como pato manco; como as milícias não sumirão no ar – não é preciso muita imaginação pra prever que a Líbia será um novo Líbano. No Líbano, a guerra começou quando toda a cidade dividiu-se, cada subúrbio de um grupo: ou sunitas, ou xiitas, ou cristãos maronitas, ou nasseristas ou druzos.

Além do mais, a libanização da Líbia também inclui a mortal tentação muçulmana – que se espalha como vírus por toda a Primavera Árabe.

Pelo menos 600 salafistas que combateram na resistência sunita iraquiana contra os EUA foram libertados pelos ‘rebeldes’ e deixaram a prisão de Abu Salim. É fácil prever que tirarão o máximo proveito possível das muitas Kalashnikovs e dos lança-granadas Sam-7, soviéticos, de ombro, para combate antiaéreo, aproveitando-os para reequipar sua milícia islâmica ultra linha-dura – sem se afastar de sua própria agenda e de sua própria guerra de guerrilhas.

Bem-vindos à nossa ‘democracia’ racista

A União Africana (US) não reconhecerá o Conselho Nacional de Transição. Está acusando os ‘rebeldes’ da OTAN de matar indiscriminadamente negros africanos, metidos todos num mesmo saco, identificados como “mercenários”.

Segundo Jean Ping, da União Africana, “o Conselho Nacional de Transição parece confundir pessoas de pele negra e mercenários (…) [Dão a impressão de que, para eles] todos os negros são mercenários. Um 1/3 da população líbia é negra. Para o Conselho Nacional de Transição, são todos mercenários.”

O pequeno porto de Sayad, 25 km a oeste de Trípoli, foi convertido em campo de refugiados para africanos negros apavorados com a nova “Líbia livre”. A organização Médicos sem Fronteira descobriu o campo dia 27 de agosto. Os refugiados dizem que, desde fevereiro, começaram a ser expulsos pelos donos das empresas e lojas onde trabalhavam, sempre acusados de serem mercenários – e, desde então, têm sido sistematicamente perseguidos.

Segundo a mitologia ‘rebelde’, o regime de Muammar Gaddafi seria protegido essencialmente por murtazaka (“mercenários”). A verdade é que Gaddafi empregou apenas um contingente de combatentes africanos negros – do Chad e do Sudão e tuaregues do Niger e do Mali. A maioria dos africanos negros subsaharianos que vivem na Líbia são trabalhadores migrantes, com empregos legais.

Para ver em que direção está andando essa coisa toda, é preciso olhar para o deserto. O imenso deserto líbio não foi conquistado pela OTAN. O Conselho Nacional de Transição praticamente não tem acesso a nenhuma gota d’água líbia e não chega a parte considerável do petróleo.

Gaddafi tem a chance de “trabalhar o deserto”, de negociar com várias tribos, de comprar e firmar a solidariedades delas e de organizar uma guerra de guerrilha de longo prazo.

A Argélia está envolvida em luta terrível contra a Al-Qaeda-no-Maghreb. Os 1.000 km da longa, porosa fronteira entre Argélia e Líbia continua aberta. Gaddafi pode facilmente plantar seus guerrilheiros no deserto do sul, com paraíso seguro na Argélia – ou até no Niger. Essa possibilidade já pôs o Conselho Nacional de Transição em estado de terror pânico.

A operação ‘humanitária’ da OTAN já despejou no mínimo 30 mil bombas sobre a Líbia, nos últimos poucos meses. Pode-se dizer com segurança que muitos milhares de líbios foram mortos nos bombardeios. O bombardeio não pára nunca: mais um pouco, os únicos alvos da OTAN serão os mesmos – civis e não civis – que, em teoria, há alguns dias, a OTAN estaria ‘protegendo’.

Um Grande Gaddafi derrotado pode vir a revelar-se muito mais perigoso que um Grande Gaddafi no poder. A verdadeira guerra está começando agora. Será infinitamente mais dramática – e será trágica. Porque agora será uma guerra norte-africana darwiniana, guerra de todos contra todos, na qual só o mais forte sobreviverá.

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Robert Fisk: Por 10 anos, temos mentido a nós mesmos para evitar a principal pergunta

setembro 6th, 2011 by mariafro
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11/9: Mentimos a nós mesmos há dez anos, fugindo da principal pergunta

Robert Fisk, The Independent, UK, Tradução e notas: Coletivo Vila Vudu

3/9/2011

Pelos livros deles, se pode conhecê-los.

Falo dos volumes, das bibliotecas – não, dos hectares e hectares de páginas impressas – que os crimes internacionais contra a humanidade cometidos dia 11/9/2001 geraram. Muitos não passam de pseudo patriotismo e autocomiseração; outros repetem incansavelmente a mitologia sem esperança das culpas de CIA/Mossad; uns poucos (infelizmente brotados no mundo muçulmano) referem-se aos assassinos como “os rapazes”; praticamente todos fugindo da pergunta que qualquer investigador policial sabe que é a primeira e a principal, para desvendar qualquer crime de rua: o motivo.

Por que, eu me pergunto, depois de 10 anos de guerra, centenas de milhares de inocentes mortos, tanta mentira e hipocrisia e traição e tortura sádica em prisões controladas pelos EUA – e os britânicos do MI5 ouvidos, bem entendido, e sem conversa fiada e patriotadas – e pelos Talibã? Teremos conseguido silenciar nós mesmos, assim como silenciamos o mundo, com nossos medos? Será que ainda não somos capazes de pronunciar três frases curtas: “Os 19 assassinos do 11/9 declararam-se muçulmanos. Vieram de uma parte do mundo chamada Oriente Médio. Logo, é aí que está o problema”?

Os editores norte-americanos foram à guerra, antes de todos, em 2001, com massivos volumes de foto-lembranças. Os títulos falam por eles mesmos: Above Hallowed Ground [Acima da terra santificada], So Others Might Live [Para que outros possam viver], Strong of Heart [Fortes de coração], What We Saw [O que vimos], The Final Frontier [A última fronteira], A Fury for God [Fúria de Deus], The Shadow of Swords [A sombra das espadas]… Ao ver pilhas disso em todas as prateleiras dos EUA, quem duvidaria que os EUA iriam à guerra? E muito antes da invasão do Iraque em 2003, outra pilha de tomos apareceu para justificar a guerra, procurando guerra. No mais importante deles de autoria de um ex-espião da CIA, Kenneth Pollack, The Threatening Storm [Tempestade ameaçadora] – e não é que todos nos lembramos de The Gathering Storm [Arma-se a tempestade], de Churchill[1]? – Pollack comparava a próxima batalha contra Saddam com a crise que Grã-Bretanha e França enfrentaram em 1938, claro.

Nesse livro de Pollack, há dois temas – “um dos principais especialistas mundiais em Iraque” como muitos informavam aos leitores (Fareed Zakaria garantia que o livro de Pollack seria “um dos mais importantes livros sobre política exterior dos EUA, em anos”) –, o primeiro dos quais inventário detalhado das armas de destruição em massa que Saddam guardava em seus arsenais; não existiam, como se sabe. O segundo tema era a importância de conseguir romper de vez “a ligação” entre “a questão iraquiana e o conflito entre árabes e israelenses”.

Os palestinos, privados do apoio do poderoso Iraque, prosseguia a narrativa, estariam ainda mais enfraquecidos na luta contra a ocupação israelense. Pollack falava da “viciosa campanha terrorista” movida pelos palestinos – mas nem uma linha de crítica a Israel. Falou de “atentados terroristas semanais, seguidos por reação de Israel” (sic), a versão israelense padrão de todos os eventos. O viés dos EUA favorável a Israel nunca foi mais que “fantasia” dos árabes. Bem, pelo menos o ilustríssimo Pollack disse, embora de modo distorcido, que o conflito Israel-Palestina teve algo a ver com o 11/9, embora também culpasse Saddam que, esse, nada jamais teve a ver com a explosão das torres gêmeas.

Depois, claro, vivemos sob um dilúvio da rica literatura do trauma pós 11/9, do eloquente O Vulto das Torres (2007, São Paulo: Companhia das Letras) de Lawrence Wright, a Scholars for 9/11 Truth [Intelectuais pela verdade do 11/9], cujos apoiadores disseram que o avião que todos viram espatifado à frente do Pentágono foi jogado ali por um C-130; que os jatos que atingiram o World Trade Centre eram teleguiados; que o voo United 93 foi abatido por um míssil dos EUA, etc. Dado o relato cheio de segredos não revelados, obtuso e às vezes desonesto que a Casa Branca apresentou – para nem falar da fraude inicial que foi a investigação pela equipe oficial – não me surpreende que milhões de norte-americanos acreditem em muitas dessas ideias. E também nem se fala da maior das mentiras oficiais: que Saddam estaria por trás do 11/9. Leon Panetta, recentemente nomeado autocrata-em-chefe da CIA, repetiu a mesma mentira, ainda esse ano, em Bagdá.

E também houve os filmes. Voo 93 reimaginou o que pode ter acontecido (e pode não ter acontecido) a bordo do avião que caiu num bosque da Pennsylvania. Outro contou história altamente romantizada, na qual as autoridades de New York agiram, estranhamente, para impedir que se filmassem nas ruas reais da cidade.

E, agora, é o dilúvio de especiais de televisão[2], todos os quais dão como verdadeira a mentira de que o 11/9 realmente mudou o mundo. – A repetição, por Bush/Blair, dessa ideia perigosa, permitiu que seus meganhas cometessem crimes de invasão e tortura –, sem jamais, nem uma vez, perguntarem por que a imprensa e a televisão aceitaram e repetem até hoje a mesma ideia.

Até hoje, nenhum desses ‘especiais’ pronunciou, uma única vez, a palavra “Israel”; na 5ª-feira à noite, Brian Lapping, na edição noturna de ITV, mencionou uma vez a palavra “Iraque”, sem explicar que o 11/9/2001 serviu de pretexto para o crime de guerra que foi aquela invasão do Iraque, em 2003. Quantos morreram dia 11/9? Quase 3.000. Quantos morreram na guerra do Iraque? Quem se importa?[3]

A publicação do relatório oficial sobre o 11/9 – em 2004, mas leia a edição de 2011 – é estudo valioso, se por mais não for, pelas realidades que apresenta, embora as frases de abertura mais pareçam início de romance, que de relatório de inquérito oficial: “Terça-feira… temperatura amena e céu praticamente sem nuvens no leste dos EUA… Para os que iam para o aeroporto, as condições do tempo não poderiam ser melhores para uma viagem segura e agradável. Entre os que embarcavam estava Mohamed Atta…” Será que esses sujeitos foram estagiários da revista Time?

Mas Anthony Summers e Robbyn Swan, em seu The Eleventh Day [O décimo-primeiro dia] enfrentam o que o ocidente recusou-se a encarar nos anos posteriores ao 11/9. “Todas as provas indicam que a Palestina foi o fator que uniu os conspiradores – em todos os níveis”, escreveram. Um dos organizadores do ataque acreditava que obrigaria os EUA a concentrarem-se sobre “as atrocidades que os EUA cometem, por apoiarem Israel”. A Palestina, dizem os autores, “sem dúvida foi a principal questão política a mover os jovens árabes (que viveram) em Hamburgo”.

A motivação para os ataques foi “escamoteada” até no relatório oficial sobre o 11/9, dizem os autores. Os investigadores discordaram quanto a essa “questão” – palavra-clichê código para não dizer “problema” – e os dois principais funcionários encarregados, Thomas Kean e Lee Hamilton, explicariam mais tarde que: “Esse era terreno sensível (…) Investigadores que argumentaram que a al-Qa’ida teria tido, como motivação, uma ideologia religiosa – e não a oposição a políticas norte-americanas – opuseram-se a qualquer referência ao conflito Israel-palestinos. (…) Na opinião deles, falar do apoio dos EUA a Israel como causa profunda da oposição da al-Qa’ida aos EUA indicaria que os EUA devessem reavaliar aquela política.” Aí está. Mais claro, impossível.

E então, o que aconteceu? Os investigadores, dizem Summers e Swan, “optaram por uma linguagem vaga, que contornou a questão do motivo”. Há uma pista, no relatório oficial – mas nada além de rápida referência numa nota de rodapé que, é claro, poucos leram. Em outras palavras, ainda não dissemos a verdade sobre o crime que – como nos querem fazer crer – “mudou o mundo para sempre”. Depois de ter visto Obama ajoelhar-se à frente de Netanyahu, em maio passado, nada disso me surpreende.

Enquanto o primeiro-ministro de Israel consegue que até o Congresso dos EUA curve-se a ele, ninguém, dos cidadãos americanos, ouve sequer uma palavra de resposta para a questão mais importante e mais “sensível” do 11/9: o porquê.[4]

NOTAS

[1] CHURCHILL, Winston. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1995 (primeiro volume).

[2] No Brasil, em notícia redistribuída pela TV Brasil (mas… diabos, por que a TV Brasil divulga isso?!): “Globo News Especial lembra os atentados de 11 de setembro que aconteceram fora de Nova York”, assiste-se a um inacreditável besteirol, em diálogo entre jornalistas da rede Globo, sobre o ‘evento’. Programação do dia 3/9, aqui, sempre pela Rede Globo: “Estreia hoje na Globo News o especial “Dossiê Segredos de Estado”, que trará, diariamente às 20h05, oito grandes entrevistas exclusivas e reveladoras feitas pelo jornalista Geneton Moraes Neto. E há muito mais [NTs].

[3] Osama Bin Laden fez exatamente essa conta e usou exatamente esse argumento na “Carta à América”, de 2004. Ver nota 4, adiante, item f.

[4] Esse artigo de Robert Fisk exige um comentário. Fisk elabora sobre os motivos do 11/9, como se jamais tivessem sido claramente expostos à opinião pública planetária. Isso é falso.

Todos os motivos que levaram aos ataques do 11/9 estão claramente, longamente e exaustivamente expostos na “Carta a América”, de Osama Bin Laden, publicada na íntegra pelo Guardian, no domingo, 24/11/2002 (em inglês).

Naquele documento, bin Laden discorre demoradamente sobre os motivos dos ataques do 11/9 (aqui alguns excertos traduzidos):

“Pedindo que Alá nos ajude, respondemos aqui às perguntas que nos fazem os norte-americanos: (Pergunta 1) Por que lutamos contra vocês e lhes fazemos oposição? (…)

A resposta à pergunta 1 é muito simples: porque vocês nos atacaram e continuam a nos atacar.

(a) Vocês nos atacaram na Palestina (…)

(b) Vocês nos atacaram na Somália. Vocês apoiaram as atrocidades dos russos contra nós na Chechenia, a opressão contra nós na Caxemira e a agressão dos judeus contra nós no Líbano. (…)

[Vocês apóiam governos] que se renderam aos judeus e lhes entregaram quase toda a Palestina, reconhecendo a existência daqueles estados sobre os pedaços desmembrados do próprio povo. (…)

(e) Seus exércitos ocupam nossos países; vocês espalharam suas bases militares em todos aqueles estados; vocês corrompem nossas terras e degradam nossas crenças e nossos locais sagrados, para proteger os judeus e, assim, garantir que possam continuar a pilhar nossas riquezas. (…)

f) Vocês mataram de fome os muçulmanos do Iraque, onde morrem crianças todos os dias. É terrível que mais de 1,5 milhão de crianças iraquianas tenham morrido, por efeito das suas sanções, e a América jamais deu sinal de preocupar-se com isso. Mas, quando morrem 3.000 do povo de vocês, o mundo se ergue, indignado e ainda não se recompôs. (…)

Se Sharon é homem de paz aos olhos de Bush… então todos nós somos, também, homens de paz!!! Os EUA não entendem a linguagem da honra e dos princípios, então tivemos de falar a única língua que os EUA entendem. (…)

O artigo de Fisk, portanto, deve ser lido como, no máximo, um levantamento dos muitos artifícios usados, para a opinião pública mundial, para ocultar os motivos do 11/9, que, sim, foram publicados em ‘jornal de grande circulação’ e devem ser pressupostos sabidos, muito explicitadamente expostos por bin Laden, em 2002.

O fato de Fisk não se referir a essa clara exposição pública dos motivos do 11/9 e àquela carta de bin Laden não dignifica sua persona pública, política nem jornalística.

Que sentido faz tanto se empenhar em denunciar que tantos tão ativamente não expuseram os motivos do 11/9… se Fisk tampouco os expõem, embora sejam de conhecimento públicos e expostos com absoluta clareza? Censurar a “Carta à América”, de bin Laden, além de não ser boa prática jornalística também não é boa prática historiográfica.

Além do mais, como se lê na “Carta à América”, mais importante, como motivo do violento ataque contra os EUA, são, além de qualquer vaga ‘questão palestina’, “a agressão norte-americana contra a Umma” e a favor dos judeus, e a implantação dos exércitos e bases norte-americanos no mundo árabe – operações que, como se sabe, prosseguem, dez anos depois do 11/9/2001. [NTs]

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Gaddafi, a história se repete: ditador cúmplice do Ocidente, passa a ter idéias próprias e é derrubado

setembro 5th, 2011 by mariafro
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“É, outra vez, a história de um ditador brutal cuja cumplicidade com o ocidente acaba, sem happy end, no instante em que o ditador brutal deixa de ter utilidade para o ocidente ou começa a ter ideias próprias e a criar dificuldades para estratégias ocidentais regionais”

Em Trípoli, um mundo :) Smiley’s[1]

Por: MK Bhadrakumar, Indian Punchline
4/9/2011

Richard Falk, o conhecido ex-correspondente do Independent para o Oriente Médio, previu, brilhantemente, que, a menos que a inteligência ocidental conseguisse passar a mão, antes de todos, nos arquivos do regime líbio, surgiriam detalhes escandalosos dos contatos íntimos entre o Ocidente e Muammad Gaddafi.

Agentes do MI6 e soldados em terra da SAS britânica que controlavam as operações militares em Trípoli parecem ter conseguido, pelo menos em parte, manter fechada a caixa de vermes líbio-ocidental – ou, pelo menos, estavam conseguindo, até que ‘rebeldes’ líbios e outras gangues invadiram, sem saber, um prédio desconhecido da inteligência ocidental, do qual, ao que parece, operava Moussa Koussa, o homem forte e braço direito de Gaddafi, e onde guardava seus dossiês.

O que emergiu não chega a ser chocante – o passado controverso de Gaddafi não é, de modo algum, segredo. – Mas expôs muitos detalhes do nexo muito próximo entre o regime líbio e os serviços secretos britânico (MI6) e norte-americano (CIA). É, outra vez, a história de um ditador brutal cuja cumplicidade com o ocidente acaba, sem happy end, no instante em que o ditador brutal deixa de ter utilidade para o ocidente ou começa a ter ideias próprias e a criar dificuldades para estratégias ocidentais regionais. No caso de Gaddafi, quase com certeza, as divergências começaram em anos recentes, quando passou a dar sinais de querer afastar-se do ocidente e voltar-se para Rússia e China (e Índia). Em matéria de petróleo, esse foi o ponto ‘da virada’.

Documentos da inteligência líbia revelam que: MI6 e CIA operaram em íntima conexão com o governo de Gaddafi; a CIA manteve uma base na Líbia, por muitos anos; Gaddafi cooperou no programa de “entregas excepcionais” à Líbia, de prisioneiros islâmicos suspeitos de ter ligações com terroristas; a Líbia partilhou informações de inteligência com EUA e Grã-Bretanha, relacionadas ao mundo árabe em geral; na guerra ao terror, Gaddafi cooperou com a inteligência ocidental quase tanto quanto Hosni Mubarak do Egito; espiões do MI6 e da CIA competiam entre eles, por acesso privilegiado aos meandros do aparelho de inteligência de Gaddafi. A matéria do Time pode ser lida (em inglês).

A pregação moralista de Barack Obama e David Cameron, do alto do pedestal dos princípios, dos direitos humanos e da democracia, sobre a intervenção ocidental na Líbia, dá náuseas, para dizer o mínimo.

[1] Para saber o que é um “mundo Smiley’s”, se não souber, clique aqui

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Giuseppe Cocco: As biolutas e a constituição do comum

setembro 5th, 2011 by mariafro
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Dica do artigo: Vila Vudu.

As biolutas e a constituição do comum

Por: Giuseppe Cocco, Revista Global Brasil, Edição 14 – Maquinações

Os moradores que defendem suas comunidades no RJ, os operários que se revoltam em Jirau e os ativistas dos Pontos de Cultura e dos pré-vestibulares afirmam em suas lutas as dimensões produtivas da vida. Nesse sentido, as biolutas são, produtivas e reivindicativas. Na luta contra a fragmentação, elas produzem o comum

Por Giuseppe Cocco

Crise. O mecanismo fundamental da atual crise do capitalismo global (aquela que começou em 2007 com o estouro da bolha imobiliária − subprime − nos Estados Unidos e agora se desdobra na crise da dívida soberana europeia e norte-americana) encontra-se na mobilização paradoxal do tempo de vida da população. Todo mundo trabalha o tempo todo, mas só se remunera o trabalho incluído na relação salarial. A expansão exponencial das finanças (do crédito espalmado em um sem-número de títulos derivados) permitiu governar esse descompasso: a população dos trabalhadores deve investir em sua “empregabilidade” (definida pelas várias formas de capital social, humano, intelectual etc.), ao passo que seu estatuto torna-se cada vez mais precário (a renda do salário diminui proporcionalmente ao lucro, o emprego é terceirizado, os serviços públicos são privatizados e a previdência, desmantelada). Esse novo tipo de trabalho vai ser controlado pelo dispositivo de um duplo endividamento: por um lado, moradia, saúde, educação, mobilidade, conexão e conectividade passam a ser pagos por meio do acesso ao crédito; por outro, a remuneração do trabalho toma a forma de um “prêmio” por objetivos alcançados que liga (endivida) a subjetividade do trabalhador ao projeto da empresa − a dívida monetária desdobra-se naquela subjetiva (e vice-versa) e as duas tornam-se impagáveis: crise! Ninguém é capaz de prever a duração desta crise e ainda menos de dizer como se construirá uma capacidade política, além de econômica, de gerenciar a multiplicação cumulativa das contradições sociais. Mas as lutas às quais estamos assistindo (desde as revoluções da África do Norte e do Oriente Médio até as manifestações de Wisconsin, nos Estados Unidos, passando pelos recentes tumultos de Londres, Roma e chegando à revolta de 20 mil operários da barragem de Jirau, no Brasil) indicam a urgência dos esforços de apreender o que são hoje a acumulação, o trabalho e a exploração.

Bioprodução. No capitalismo contemporâneo, a fonte do valor encontra-se nas formas de vida. Elas são a base da produção e ao mesmo tempo seu resultado. Produzem-se formas de vida por meio de formas de vida, em espiral: bioprodução.
No regime de acumulação da grande indústria fordista, produziam-se bens por meio de conhecimento (tecnologia). O capital se fixava e se concentrava em gigantescas plantas industriais nas quais o trabalho era massificado dentro de uma relação salarial verticalizada pela separação, de um lado, do trabalho intelectual (rigidamente encastelado nos escritórios de concepção dos tempos e métodos) e, de outro, de um trabalho manual relegado à mera execução de tarefas repetitivas. A mente era separada da mão: o melhor operário era aquele que não pensava. O capital fixo, que Marx chamava também de trabalho “morto” cristalizado nas maquinarias, ficava separado do capital variável (o trabalho vivo). O corpo dos trabalhadores era “esmagado” e tornado dócil pelo duplo mecanismo da individualização (cada um em sua estação com suas tarefas) e da serialização (todos igualmente desqualificados e intercambiáveis). Com o fordismo, o sistema de fábrica passou a disciplinar toda a sociedade (o consumo, a cidade, a escola). A produção ditava assim os “tempos” da reprodução; o tempo “livre” virava tempo “de lazer”, do consumo espetacular da norma disciplinar. A métrica do valor era nítida e passava pelos mecanismos dessa economia do tempo ou pelas quantidades marginais de bens produzidos. O tempo de vida era separado entre tempo de trabalho e tempo livre (lazer) e, em seguida, articulado (pelos cálculos de produtividade) entre tempo de trabalho necessário (o salário) e tempo de trabalho excedente (a acumulação). O valor era, pois, duplamente objetivado e mensurável: na dimensão temporal da mais-valia e na dimensão material (marginal) do bem que, uma vez validado socialmente pelo ato de venda, transforma a mais-valia em lucro. Todo valor era “produzido” dentro dos muros da fábrica e de sua relação salarial. O carro é valorizado na fábrica e passa a perder valor logo que o compramos. As autoestradas de rodagem são infraestruturas de validação social da produção fordista: nelas o valor é consumido para que o ciclo possa recomeçar, voltando ao seu cerne, a grande fábrica.

No capitalismo contemporâneo, produz-se conhecimento (formas de vida) por meio de conhecimento (formas de vida): bioprodução. Seu paradigma é a rede (a sociedade), e não a fábrica. Em suas “estradas” circulam informações. É uma mudança radical de paradigma: ao passo que o carro que circula nas estradas de rodagem se consome e quanto mais circula mais perde “valor”, a informação adquire valor porque circula e quanto mais se hibridiza na circulação mais se torna “valiosa”. Os dogmas da teoria econômica vão por água abaixo: as informações são cumulativas, não rivais e não exclusivas.
Diante da mudança de paradigma, a renovação de um ponto de vista de classe passa pela resposta a estas perguntas: 1) Que valor é esse que, circulando, aumenta em vez de se consumir? 2) Qual é o trabalho que produz esse valor? 3) Enfim, como funciona aexploração desse “trabalho” e, pois, a acumulação desse “valor”?
1) A fonte dovalorsão as formas de vida que se produzem e reproduzem, entre circulação e reprodução. Esse valor não pode mais ser definido pela “medida dos excedentes” (de tempo de trabalho), mas depende da desmedida dos suplementos de vida que são fruto da mistura de tempo de trabalho e tempo livre. A principal fonte de valor reside, portanto, na combinação social do saber-fazer do trabalho vivo, e não mais na combinação (assalariada) de capital fixo e trabalho de execução repetitivo e despersonalizado. O bem material (o carro, o sapato, a roupa, o telefone celular) passa a ser o suporte de todos esses elementos intangíveis que dependem, por um lado, da tecnologia e, por outro, das atividades de comunicação. Desse modo, empresas sem fábrica procuram conectar-se a determinadas dinâmicas de produção do intangível, enquanto terceirizam a produção material em qualquer lugar do planeta. Assim, a Volkswagenconcentra suas atividades nos serviços de design, distribuição, logística, propaganda e tecnologia para que os fornecedores dos diferentes módulos entrem com seus próprios operários na fábrica (em Rezende, no Rio de Janeiro) e montem os ônibus. A multinacional Nike procura a parceria da Central Única de Favelas (Cufa) ou do cantor Mano Brown para desenvolver produtos ligados a valores do “mundo” (cultura) da periferia. A firma carioca Osklen lança um sapato “Samba” (o “mundo do Carnaval”) e os chinelos Havaianas vendem mundo afora o “mundo da praia do Rio de Janeiro”. Os serviços também precisam dessa alavanca cognitiva: a abertura da primeira agência do Banco Santander no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro (meses antes da ocupação militar de novembro de 2011) foi preparada por propagandas interpretadas pelo líder do AfroReggae: o banco multinacional “significa” sua expansão nas periferias como “inclusão social”; quanto à Nextel, ela mobiliza o rapper MV Bill ou um jovem talento do futebol: a telefonia móvel como serviço do “sucesso” dos jovens pobres.

2) Trabalhar, nesse contexto, significa produzir “suplementos” de vida, ou seja, produzir subjetividade: significação e conhecimento, relação e julgamento, cultura e natureza. Trata-se de um trabalho imaterial: recomposição da mão e da mente, de trabalho manual e intelectual, de tempo de vida e tempo de trabalho. O trabalho vivo, articulado em redes (redes de cérebros) passa a conter o capital variável e ao mesmo tempo o capital fixo. O trabalhador não é apenas aquele que está dentro da relação salarial, mas também se encontra difuso no conjunto das redes sociais, nos territórios metropolitanos, nas atividades de produção e reprodução, nas redes de terceirização. O trabalho intelectual, aquele que caracteriza a performance virtuosa de um bailarino, de um professor, de uma mãe de santo ou de um médico e que Marx dizia não ser produtivo por não objetivar uma obra separada do ato de sua produção, torna-se o paradigma do trabalho em geral. O trabalho imaterial – comunicativo, cognitivo, afetivo – assume as formas da execução virtuosa cujo produto é totalmente relacional e inseparável do processo de sua produção. A partitura que os trabalhadores virtuosos executam é o intelecto geral: o nível de educação, saber, cooperação que caracteriza as redes e os territórios, em particular aqueles desenhados pelas redes metropolitanas. É esse trabalho relacional e público do virtuoso que produz “mundos”, ou seja, “culturas”: o samba dos sapatos da Osklen, a cultura da praia dos chinelos Havaianas, a centralidade da periferia exaltada pela Cufa, as políticas de mediação dos conflitos articuladas pelo AfroReggae, as redes logísticas e de serviços que permitem às montadoras de não montar mais nada e concentrar suas atividades no intangível: projeto, design, marca, distribuição. O “carro” é material, mas nesse caso também o valor é cognitivo: o fato da tecnologia (incorporada no processo e no próprio bem) e do intangível.

3) No capitalismo cognitivo, a disciplina dos tempos e métodos é substituída por mecanismos de controle indiretos: obrigatoriedade dos resultados, prescrição da subjetividade e precarização. A exploração do trabalho imaterial investe a posterioriuma valorização que ocorre fora da relação salarial e/ou dentro dos processos de sua segmentação. Ou seja, na medida em que o valor tem como bases as fortes doses de subjetividade e, pois, de autonomia do trabalho imaterial, a exploração funciona como um aparelho de captura de duas “molas”: por um lado, pela fragmentação e segmentação sistemáticas das relações sociais (via privatizações e desregulamentação); por outro, pela multiplicação dos esforços de “colar” aos fluxos de criação e invenção que as redes (sociais e técnicas) proporcionam (via leis da propriedade imobiliária e intelectual). Os dispositivos de exploração do trabalho imaterial articulam-se assim nas infinitas modulações da relação paradoxal que liga entre si a precarização da relação salarial e a autonomia do trabalho: de um lado, fragmentos socializados pelos dispositivos privados e estatais (a telefonia móvel privatizada, as leis do copyright, as milícias nos territórios); de outro, a multidão de singularidades que cooperam entre si produz o comum por meio do comum (nos pré-vestibulares comunitários, nos pontos de cultura, nas comunidades do software livre, nas reservas, nos quilombos, nas favelas).

Biolutas. As finanças estão por toda parte e funcionam como mecanismo perverso de uma inclusão generalizada que mobiliza os pobres enquanto pobres, enquanto excluídos: inclusão dos fragmentos e exclusão das singularidades constituem duas faces de um mesmo investimentoparadoxal da subjetividade. As lutas de classe hoje definem esse limiar entre autovalorização do trabalho dos pobres e nova escravidão. Autovalorização: os informaisque todo dia inventam sua vida e suas condições de trabalho; os precáriosque, como anjos, desdobram-se nas atividades de cuidado das crianças, dos idosos e dos enfermos e proporcionam flexibilidade aos processos produtivos; os trabalhadorescognitivosque remixampermanentemente os saberes e os fazeres em novas e potentes soluções tecnológicas e culturais. Nova servidão ao capitalismo mafiosode ontem (as milícias) e de hoje (os donos das patentes, do copyright e dos serviços privatizados); àsprestações pessoais de tipo servil que caracterizam as sucessivas relações de terceirização; ao totalitarismo afetivo do projeto de empresa que leva seus empregados ao suicídio, como aconteceu nos centros de pesquisa da France Telecom, da Renault ou do fabricante chinês do iPhone. As lutas de classes no capitalismo contemporâneo são biolutas: elas ocorrem justamente em torno do duplo e paradoxal processo de inclusão e fragmentação da vida no trabalho. O sujeito dessas lutas é a multidão dos pobres: no governo Lula, eles passaram a ser chamados de “classe C”: com seu telefone celular, na favela pacificada, com o Bolsa Família, o acesso ao crédito e aos ensinos técnico e superior. Enquanto os pobres são reconhecidos como a mais nova jazida de um novo ciclo de acumulação, não são reconhecidas suas dimensões produtivas. O horizonte das políticas de distribuição de renda continua sendo o emprego e o mercado. A massificação do Bolsa Família não rompe com sua dimensão neoliberal: todos os meses, milhares de famílias – as mais vulneráveis, aquelas que mais precisam − são expulsas do benefício, sacrificadas no altar da condicionalidade. Da mesma maneira, os Pontos de Cultura são sacrificados no altar da restauração do deus ex machina: o “artista” criador. Os megaeventos (Mundial de Futebol, Olimpíadas) e até o programa de moradia popular Minha Casa Minha Vida são usados para “remover” (de maneira ilegal e autoritária) favelas e favelados de determinadas áreas em nome de uma valorização imobiliária que estremece as já dramáticas formas de segregação espacial dos pobres. Os megaempreendimentos são planejados segundo a mais pura lógica instrumental – exatamente como se fazia no regime militar do qual os economistas neodesenvolvimentistas gostam de fazer apologia: nem os índios e ribeirinhos de Belo Monte, nem os moradores de Santa Cruz (no Rio de Janeiro) da Companhia Siderúrgica Atlântica, nem os moradores de favelas e vilas, nem os operários de Jirau e tampouco os Pontos de Cultura entram nos cálculos a não ser como “obstáculos” a serem “removidos” ou pré-moldados nas pracinhas culturais que a Casa Civil impõe por meio do MinC restaurado. Mas os índios que resistem a Belo Monte, os moradores que defendem suas comunidades no Rio de Janeiro, os operários que se revoltam em Jirau, os ativistas dos Pontos de Cultura, dos pré-vestibulares e da cultura digital afirmam em suas lutas as dimensões produtivas da vida. Nesse sentido, as biolutas são, ao mesmo tempo, produtivas e reivindicativas. Na luta contra a fragmentação, elas produzem o comum: os territórios da mestiçagem entre cultura e natureza; a cidade dos pobres; um emprego decente; a rede dos movimentos culturais; o trabalho de amor dos professores dos pré-vestibulares, dos animadores dos Pontos de Cultura e dos hackers que colaboram gratuitamente em rede. Em contrapartida, indicam uma batalha fundamental, aquela do reconhecimento da dimensão de classe da “classe C”: não uma faixa de consumidores definidos pelas curvas do poder de compra de “mundos” impostos pelo capital, mas o trabalho dos pobres que produz uma nova terra e um novo povo: sua cultura, brasileira e antropofágica. Dos êxitos dessa batalha em prol do reconhecimento das dimensões produtivas da vida dependerá, pela instituição de uma Biorenda (uma Renda Universal de Existência), a solidificação das instituições do comum. Os “núcleos de Biolutas” que estão nascendo dentro e fora do PT pretendem ser “pontos” dessas linhas de inovação.

Giuseppe Cocco é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e é autor, entre outros, de GLOBAL – Biopoder e luta em uma América Latina globalizada (Record, 2005), escrito em conjunto com Antonio Negri.

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