Maria Frô

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Latuff e a operação militar no Rio

novembro 27th, 2010 by mariafro
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Carlos Latuff: Quebrar barraco na Vila Cruzeiro é fácil. Quero ver é quebrar sigilo bancário!

Carlos Latuff: O tráfico q a TV mostra, e o tráfico q a TV NÃO mostra.

Carlos Latuff: Vila Cruzeiro – Urubus na carniça #paznorio

Carlos Latuff: Operação militar, vista pela classe média e pelo morador da favela #paznorio

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UPPs e favelas cariocas: que não seja apenas uma bela foto

novembro 26th, 2010 by mariafro
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A foto é o que mais me chama a atenção. Como Leonardo Bento, um dos jovens da reportagem abaixo, nós aprendemos a ver a polícia como um grupo desumano. E gostaríamos de aprender a enxergá-la de outra forma.

A reportagem do New York Times sobre as UPPs
Tradução reproduzida do Viomundo
11 de outubro de 2010

RIO DE JANEIRO – Leonardo Bento desejava vingança depois que um policial matou seu irmão de cinco anos de idade. Então, quando ele ouviu que a nova unidade de polícia pacificadora na favela da Cidade de Deus estava oferecendo aulas de karatê sem cobrar nada, Sr. Bento se inscreveu, esperando que ao menos começasse a bater no instrutor de karatê.

Mas o inesperado aconteceu. Eduardo Silva, o instrutor de polícia, conquistou-o [Sr. Bento] com humor e um aperto de mão. “Eu comecei a perceber que o policial na minha frente era apenas um ser humano e não o monstro que eu tinha imaginado,” Sr. Bento, 22, disse.

Anos de ódio e desconfiança estão descongelando em algumas das favelas mais violentas do Rio. Forçados a aliviar problemas de segurança da cidade antes do duplo xeque-mate no palco mundial – a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 -, oficiais do Rio embarcaram no ambicioso plano de acabar com o controle das favelas das implacáveis gangues lideradas por traficantes, que comandaram o terror por anos com o auxílio de armas de guerra.

Os “oficiais da paz” são o centro do esforço, tomando controle depois da polícia militar limpar as ruas em batalhas armadas que podem durar semanas. O trabalho deles é metade um esforço militar tradicional, metade trabalho social. Eles se dedicam a conquistar os moradores assustados por décadas de violência – em algumas ocasiões por causa da polícia. E as dicas dadas por aqueles que apoiam o esforço, oficiais dizem, ajudam-nos a manter a paz.

Por décadas, a Cidade de Deus – cujo passado brutal foi imortalizado num filme de 2002 – foi um dos bairros mais temidos da cidade, tão perigoso que até mesmo a polícia raramente ousava entrar.

Aqueles dias parecem um passado distante. Tráfico de drogas ainda existe, e ao menos numa área, visitantes só podem entrar com permissão de jovens residentes que patrulham a área.

Entretanto, os homens com grandes armas já se foram, ou pelo menos entraram na clandestinidade. E a vida está voltando à normalidade nas ruas.

As crianças agora brincam nas ruas sem medo de balas perdidas. Eles pulam cordas e jogam tênis-de-mesa com raquetes feita de telhas. Jogos de futebol, antigamente um fato perigoso, tem se tornado algo mais civil, e agora até policiais se juntam à equipes.

Mas após quase dois anos depois da primeira unidade de polícia chegar, muitos moradores nesta comunidade de 120.000 pessoas ainda luta para aceitar que os 315 policiais trabalhando em turnos de 12 horas ao seu redor já não são mais inimigos. Outros acolhem a paz, mas ainda desconfiam, temendo que a força policial – formalmente chamada “Unidade de polícia pacificadora” – saia depois que as Olimpíadas terminem.

“Ninguém gosta de nós aqui,” Oficial Luis Pizarro disse durante uma recente patrulha noturna. “Pode ser frustrante às vezes.”

Oficial Pizarro e dois outros oficiais faziam ronda ao longo de um estreito rio cheio de lixo e cheirando a excrementos humanos e animais. As famílias se reuniam ao redor de fogueiras improvisadas. Mulheres dançam samba enquanto os homens bebem cachaça, a bebida brasileira feita da cana. Quase ninguém acenou ou cumprimentou os oficiais, que chegaram por um corredor cheio de papéis coloridos utilizados para embalar crack e cocaína.

“Lá vai a Tropa de Elite,” disse um homem encostado na porta, rindo enquanto os três policiais iam embora.

A hostilidade não é difícil de compreender. Por décadas, oficiais do governo se recusaram a tomar a responsabilidade das favelas, e enquanto gangues de traficantes construíram trincheiras de armas, tornou-se difícil para a polícia entrar na favela sem confronto. Os moradores culpavam a polícia pelo abandono, e xingavam-nos pela brutalidade que marcavam as suas invasões sangrentas.

Sem a presença policial diária, os serviçoes da cidade penavam, e doutores e outros profissionais começaram a evitar a favela por motivos de segurança. Traficantes líderes de gangues se tornaram juíz e júri.

“As pessoas não tinham coragem” de retomar a favela, disse José Mariano Beltrame, que se tornou Secretário de Segurança Pública no Rio em 2007. “As pessoas preferiam empurrar a poeira para debaixo do tapete para evitar o confronto com o problema.”

As favelas raramente se entregam sem luta. Ao menos oito pessoas morreram na Cidade de Deus em 2008 nas primeiras investidas policiais. Espera-se que essas batalhas se espalhem à medida que a polícia entre em novos bairros. Até agora, eles já instalaram 12 unidades pacificadoras, cobrindo 35 comunidades. Mas Sr. Beltrame planeja estabelecer unidades em 160 comunidades até 2014, incluindo favelas como Rocinha e Complexo do Alemão, que são maiores do que Cidade de Deus.

Numa recente noite de domingo, uma dúzia de homens andavam livremente pela Rocinha com rifles e armas de guerra. Um deles carregava um lançador de granadas.

Por Alexei Barrionuevo
Contribuição de Myrna Domit
Tradução Fernando Teruo

10 de Outubro, 2010.
The New York Times

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Para além das UPPs, cidadania plena aos pobres do Rio de Janeiro

novembro 26th, 2010 by mariafro
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Qualquer solução simplória para o combate à violência urbana no Rio (e certamente em Salvador, Recife, nas periferias de São Paulo e outros centros urbanos tão violentos quanto os morros cariocas) é inócua além de ridícula.

Sem políticas públicas que atuem em várias frentes nada mudará: é preciso combater a corrupção policial e investir na reeducação desses policiais que indiferenciam bandidos de cidadãos e agem como justiceiros e não como policiais; é preciso a presença do poder público real e concreta, atuando nos prejuízos causados por governos que  por mais de um século ignoraram a população pobre nos morros e permitiram a construção de um poder paralelo; é preciso fazer uso da inteligência policial e aplicar a Justiça aos bandidos do topo – os chefes das reais quadrilhas que não vivem nos morros, os que fazem quantidades absurdas de armas e drogas chegarem ao morro. É quase uma reivenção da sociedade: distribuir a renda, incluir, e, igualmente, distribuir cidadania, inclusive, reconhecendo que os pobres têm direito à Segurança Pública.

Foi o @cadulessa há pelo menos um ano que me chamou a atenção para as mudanças que vinham ocorrendo no Complexo do Alemão. Já naquela época ele apontava mudanças significativas e se mostrava otimista.  Talvez isso aqui, aqui e na matéria que reproduzo abaixo, possamos entender o porquê de ao menos entre os mails e manifestações no twitter que recebi esses dias dos cariocas da minha timeline (e este grupo está longe de achar que pobre é bandido e  tem de morrer) a maioria venha apoiando com otimismo e esperança as ações do Bope que vem ocorrendo no Rio. Eles também, sem perder o espírito crítico, têm uma impressão próxima à do ex-comandante do Bope, ou seja a de que as UPPs são sim diferentes e fazem diferença em relação à polícia bandida  ou um exército bandido que sobem o morro pra entregar pra facção rival um rival ou as milícias e seus caveirões que apavoram os moradores das comunidades pobres do Rio.

Em mails e comentários no twitter vi professores de periferia que convivem com as crianças e adolescentes obrigados a viver no meio da guerra de um crime organizado cuja crueldade ultrapassa qualquer limite (seus rivais queimados em pilhas de pneus, cabeças decapitadas e expostas na rua tal qual um Tiradentes do século XXI, corpos abandonados dentro de carrinho de supermercado….)  defendendo a ação do Bope e explicando que os eventos recentes no Rio são traficantes acuados que tentam reagir às mudanças que efetivamente estão ocorrendo com as UPPs.

Eles não enxergam essas ações como as de uma polícia assassina e corrupta que sobe o morro pra matar inocentes. As facções em guerra no Rio, quando invadem uma comunidade não vão só, seguem com sua clientela e expulsam moradores do morro invadido.

Outra coisa que me chamou muito a atenção: a gente não vê, nem nas cenas de guerra espetacularizadas pelas tevês brasileiras (que como diz o Gerson Carneiro conseguem fazer barulho até com uma bolinha de papel) os moradores revoltados com o Bope e moradores de favela carioca sempre resistiram à criminalização da polícia que os tratam como bandidos. Eles falam e denunciam abertamente a barbárie contante a que são submetidos pela violência policial.

Há informações que o corpo da UPPs são de novos policiais, com formação diferenciada, as UPPs já foram tratadas positivamente em matérias de jornais internacionais. Algo de novo parece que está efetivamente ocorrendo nas ações de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Não há o romantismo na bandidagem como nos relata  Celso Athayde e sua convivência com seu Rogério durante infância e adolescência.

E parece que, finalmente, o poder público no Rio de Janeiro (com o apoio do governo federal) abandonou as soluções simples: criminalizar e exterminar a população pobre. Se ações como as relatadas abaixo se espalharem por todas as comunidades do Rio, veremos os cariocas de todos os grupos sociais finalmente de posse  de sua cidadania e  com todas as condições para desfrutarem a cidade mais bela do mundo.

Lula: “Não há bandido que consiga vencer a dignidade”

Do blog do Planalto

25/10/2010

Presidente Lula cumprimenta moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Para vencer o tráfico de drogas e a violência é preciso oferecer escola, saúde e emprego, “porque não há bandido que consiga vencer a dignidade, o povo trabalhador”, afirmou o presidente Lula nesta segunda-feira (25/10) em cerimônia de entrega de unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. O presidente ressaltou que quando há respeito ao povo, quando não há distinção entre as pessoas pobres e ricas, é possível fazer as coisas melhorarem.

O filho de vocês agora pode estudar em uma escola com ar-condicionado. Isso não poderia continuar ser privilégio de poucos. Não pode o filho de um estudar com ar condicionado e o filho de outro não conseguir nem escrever pelo suor que escorria sobre o caderno. Isso não é favor, é reparação aos anos de descaso que o Rio de Janeiro teve em outros governos.

Ao falar sobre o Rio de Janeiro, o presidente foi enfático ao afirmar que é urgente tirar a cidade das páginas policiais, pois apesar de haver tráfico de drogas – e há em todos os lugares – a grande maioria da população é trabalhadora. Lula fez questão de elogiar a administração do governador reeleito Sérgio Cabral Filho, que tem trabalhado com afinco para fazer a cidade e o estado retomarem o caminho do crescimento, desenvolvimento e justiça social.

A gente tem que trabalhar para o Rio de Janeiro não aparecer nos jornais apenas nas páginas policiais; o Rio não é lugar só de traficante – isso tem em qualquer lugar. Nós temos que provar todo santo dia que a maioria do povo vive se seu trabalho, de seu suor e de seu salário… Só tem um jeito de as pessoas não serem molestadas: é trabalhar, serem honestas, como todo mundo aqui no Rio faz.

Ouça aqui a íntegra do discurso:

As 582 moradias fazem parte do programa Minha Casa, Minha Vida e foram entregues, gratuitamente, a famílias com renda de zero a três salários mínimos. As unidades habitacionais fazem parte dos condomínios Jardim das Acácias e Palmeiras, cada um com 291 residências. Distribuídas em 13 blocos de quatro andares, as moradias têm área de 44,90 m2 a 50,61 m2, dois quartos, sala, banheiro e cozinha. Os condomínios também contam com área de lazer, salão de festas, praça de esportes e churrasqueira.

Logo depois, o presidente Lula foi a Manguinhos, também no Rio de Janeiro, entregar outro lote de apartamentos do programa Minha Casa, Minha Vida, que integra um amplo projeto de intervenção na comunidade, com saneamento e urbanização de assentamentos precários. Durante a cerimônia foram assinados novos contratos, que financiarão 440 unidades habitacionais para famílias com renda de três a seis salários mínimos, e quatro condomínios para famílias com renda de zero a três salários mínimos, totalizando 1.260 unidades habitacionais.

Ouça aqui o discurso do presidente Lula em Manguinhos:

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Ex- Bope diz que UPPs funciona porque é ocupação permanente

novembro 26th, 2010 by mariafro
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Para ex-Bope, UPP funciona e Rio vive “agora ou nunca”

Dayanne Sousa. No Terra Magazine

25/11/2010

Reuters

O Bope comandou operações em favelas como reação à onda de violência que começou no último domingo (21)

O Bope comandou operações em favelas como reação à onda de violência que começou no último domingo (21)

O ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e roteirista dos dois filmes Tropa de Elite, Rodrigo Pimentel diz que o Rio de Janeiro passa por um momento de “agora ou nunca” na reação à onda de violência dos últimos dias. “É um momento único na história do Rio de Janeiro”, diz otimista. Crítico da repressão violenta ao tráfico, ele defende as invasões de favelas e policiamento nas ruas que foram intensificadas desde os ataques que começaram no domingo (21).

Pimentel reforça a declaração do Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, para quem os ataques são uma reação de traficantes ao processo chamado de pacificação das favelas. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) se instalaram de forma permanente em favelas da capital carioca e, para Pimentel, diminuíram o poder do tráfico.

Um dos autores do livro Elite da Tropa, Pimentel e sua experiência no Bope inspiraram a criação do personagem capitão Nascimento, dos filmes. Lembrando de sua atuação na polícia, ele ressalta:
- Quando eu era da polícia, eu tinha a nítida sensação de estar enxugando uma pedra de gelo. Eu nunca fui otimista em 12 anos de polícia e hoje eu sou otimista… Se isso aí não fizesse parte de um pacote mais completo de segurança, eu diria que é a repetição de um ciclo que a gente já conhece. Mas não é isso.

Leia a entrevista na íntegra.

Terra Magazine – Você acha que esses ataques são coisa de “traficante emburrado”, como disse o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame?
Rodrigo Pimentel – É evidente que é. As ações de terror que visam à promoção do medo e do pânico, de muita visibilidade e que não tem intenção nenhuma de lucro, são ações de terror. São ações de reação não só às UPPs, mas a toda a política de segurança pública do Estado. A UPP é, sim, o carro chefe, é o que está dando mais prejuízo para o bandido. Mas veja só… desde que o governador Sérgio Cabral assumiu, além da pacificação, tem também o encaminhamento de bandidos para fora do Estado. Tem ainda o indiciamento e investigação de familiares de presos. Os familiares que enriqueceram ilicitamente estão sendo investigados e denunciados pelo Ministério Público. Isso provoca no tráfico revolta. Todo mundo dizia que essa UPP era esquisita porque os bandidos não reagiam. Taí a prova de que não era nada esquisito. A UPP é realmente eficaz e tira o território do tráfico. A reação é essa aí…

As UPPs foram implantadas como um contraponto ao policiamento que combate o tráfico com mais violência. Mas aumentaram o policiamento nas ruas e as operações do Bope em favelas. A polícia divulgou nesta quarta que já foram mais de vinte mortos nessa reação aos ataques. Não corremos o risco de regredir?
É importantíssimo isso. Não é a volta da política de enfrentamento. Na verdade é uma consolidação da UPP. O governo do Estado persegue a pacificação como um caminho mais viável e mais inteligente como a única política de segurança pública do Estado – porque até então não havia nenhuma. Se existe uma reação dos traficantes a essa política de pacificação, é evidente que você tem que estancar essa reação. E para estancar essa reação, é operação em favela, sim!

Isso seria momentâneo?
Eu sempre fui um crítico desde tenente, de capitão… Eu sempre fui um crítico contundente da operação em favela. Eu sempre achei uma ação desnecessária e ineficaz, que não tinha o menor motivo. Porque você entrava na favela e saía. E aquilo não tinha fim nunca. Aí surge a UPP que entra na favela e permanece. De fato, funciona. Mas essa política de enfrentamento momentânea é para estabelecer e consolidar o processo de pacificação. Os marginais estão saindo de favelas já identificadas para efetuar pânico no Rio de Janeiro. Para queimar ônibus, matar pessoas… Então a polícia tem sim que invadir esses redutos e tomar esses traficantes. Tem que criar uma zona de desconforto para que eles não possam mais operar essas ações. Além de intensificar o policiamento nas ruas, a polícia tem que voltar às favelas e atacar esses redutos, esses sujeitos. Não tem jeito. É um caminho sem volta. É agora ou nunca. O Estado não pode ser refém, não pode se ajoelhar, não pode recuar um milímetro.

A população não sofre com isso?
Isso não é uma vontade do governo do Estado, não. É uma vontade da população. Todas as pessoas nas ruas estão solidárias às ações da polícia. Nós vamos viver no Rio de Janeiro nos próximos cinco ou seis dias, um pouco de medo, de estresse em sair à noite, de preocupação com o filho na escola. De “será que eu posso ir à faculdade porque a minha aula termina a noite?”. Nós vamos viver um desconforto nos próximos dias, mas se for isso o preço para que a política de pacificação funcione, que seja pago. Está muito claro que isso é um momento. Não é uma política para sempre. É um momento. A política é a pacificação. O que a gente está vivendo agora é um momento importante para a pacificação.

Isso não pode virar um ciclo de ataques de traficantes e reações mais ostensivas da polícia?
Não. Na queda de braço com o Estado, o Estado ganha. Com todos os traficantes que o Comando Vermelho dispõe no Alemão e no complexo da Penha, o Estado já provou que consegue entrar lá. Então, nessa queda de braço quem vai sair perdendo é o traficante. E perde várias vezes. Perde porque a Justiça já entendeu que ele não pode mais ficar no Rio. Ele é uma ameaça à sociedade cumprindo pena aqui. Ele perde em cumprir pena num lugar mais distante, perde em ter seu reduto atacado pela polícia… Sinceramente, eu sou otimista. Se isso aí não fizesse parte de um pacote mais completo de segurança, eu diria que é a repetição de um ciclo que a gente já conhece. Mas não é isso.

Sobre a prisão em outros Estados, o secretário Beltrame informou que há indícios de que a ordem para os ataques tenha vindo do traficante Marcinho VP, de um presídio no Paraná…
Sim, você tem ataques que vieram do Paraná. Mas vieram em função de prerrogativas que os presos possuem no Brasil, de visita a vítimas, acesso a advogados e tal. Uma forma punitiva para eles agora é que eles sejam retirados do Paraná e sejam enviados a um presídio mais longe. Nesse intervalo, eles vão perder semanas de acesso a advogados e a familiares. E isso já descordena as ações reativas desses bandidos.

As UPPs estão instaladas, em sua maioria, na Zona Sul enquanto que investigações apontam que esses ataques estão vindo de outras regiões, da Zona Norte. O processo de pacificação não precisa ser expandido?
É. A UPP começou na região hoteleira da cidade, na região mais nobre e que tem potencial turístico. E isso é evidente em qualquer lugar do mundo. Não é privilégio para os ricos, até porque a UPP beneficia ricos e pobres. A UPP começou na região de Ipanema, Copacabana e Leme. Depois ela foi expandida. Ela já chegou, sim, à Zona Norte. Toda a região da grande Tijuca – que é um bairro de classe média – já está pacificada. E agora ela avança para uma região mais pobre. Já começou no Morro do Macaco, já entrou para o Morro do São João e está caminhando para o Morro da Matriz. Ela já está avançando para uma região… Agora, está longe do subúrbio da Leopoldina ainda, que é essa região que estamos falando da Penha. Está longe, mas ela vai chegar lá. Tanto vai chegar que a reação do bandido é em função disso. É o medo da aproximação da UPP do seu domínio territorial.

Entendo…
Deixa eu falar uma coisa. Eu nunca na minha vida deixei de criticar a política de segurança pública. Eu cheguei onde cheguei onde cheguei – no filme Tropa de Elite, no livro Elite da Tropa – porque cheguei criticando. Mas esse momento que eu vivo hoje da minha vida é um momento único na história do Rio de Janeiro. Eu não tenho nenhuma ligação partidária com o Sérgio Cabral. A gente tem que fazer uma opção: Essa porra tem que dar certo! Se isso não der certo minha amiga… Nós já testamos vários remédios e nada funcionou. O que a gente não testou ainda é a ocupação territorial permanente. Estamos testando e está funcionando. É necessário.

Já que você destaca esse seu posicionamento crítico, o que mudou desde o seu tempo na polícia?
Quando eu era da polícia, eu tinha a nítida sensação de estar enxugando uma pedra de gelo. A gente matava bandido e invadia favela sem ter uma luz no fim do túnel de melhora. Hoje em dia, fora da polícia, eu vejo com muito otimismo o futuro do Rio de Janeiro. Então essa é a melhor mudança. É o otimismo. Eu nunca fui otimista em 12 anos de polícia e hoje eu sou otimista. E olha que eu sou muito mais crítico agora do que eu era anteriormente.

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