Maria Frô

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Gwellwar Adun: Poesias Pretas Sabáticas

agosto 20th, 2011 by mariafro
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Outra Bandeira

Guellwaar Adún

Bandeira Negra, amor
Não quero só Paz
Nem a verdade dos gurus me satisfaz
O ilusório e tudo que é efêmero
Veste a vida cotidiana com um tempero segregado
Entrementes, as crianças se embriagam nesse fardo

No prelúdio da aurora quilombola
É louvado o dissenso
-“vida de gado, eu dispenso!”.

Pressupostus anarquicus
Comunismus precárius
Prepotentes Capitalismus

A boa intenção eurocêntrica
usa lentes vencidas, porém autênticas
na incapacidade revelada
não vê que são outras, as estradas
inscritas nos desafios de nós, os Negros…
de nós, as Negras.
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Pepe Escobar: O Grande Gaddafi

agosto 19th, 2011 by mariafro
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O Grande Gaddafi[1]
Pepe Escobar, Asia Times Online, Tradução: Coletivo Vila Vudu
20/8/2011

A noite vai avançada em Trípoli, e o Grande Gaddafi beberica seu White Russian[2], fumando um do bom, do Maghreb, enquanto sintoniza uma gigantesca televisão de plasma em sua tenda na fortaleza de Bab al-Aziziyah. Ninguém, nem alguma voluptuosa enfermeira ucraniana, conseguiria apaziguar sua alma em revolta.

Assiste, com ar de quem não acredita nos próprios olhos, à narrativa que avança naquela sopa de letras ocidentais conhecida como “noticiário”; juram que Muammar Gaddafi está “sitiado”, “exaurido”, “tentando achar alguma rota de fuga”, “preparando-se para fugir” (para a Tunísia) e que “é só questão de tempo” antes do “colapso” de seu governo.

Tudo isso, porque um bando de beduínos bárbaros apoiados pelas bombas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) decidiram mijar no seu tapete.

O Grande Gaddafi: “Aquele tapete era a base que mantinha em pé a sala”.

Não diria, de si mesmo, que esteja “sitiado”. Afinal, as pesquisas mostram que, na Líbia, a aprovação de seu governo no mínimo dobrou, nos últimos meses. E então um dos caras lá da Casa Branca disse ao pessoal lá que a Líbia aceitaria um acordo de cessar-fogo pelo qual a OTAN controlaria só alguns pontos da Cyrenaica – sim para Benghazi, não para Misrata – e abriria caminho para uma força de paz dos capacetes azuis da ONU.

Examina o calendário no seu iPhone; o mês do jejum santo dos muçulmanos, o Ramadã, estende-se até 29 de agosto. Faltavam só uns dez dias, para que o cessar-fogo entrasse em vigência. Mas os norte-americanos – como sempre – e sua cobiça sem limites! Queriam para eles todas as concessões de petróleo e gás, pôr as mãos em todas elas. E queriam que Gaddafi se aposentasse. Petróleo e gás são sempre negociáveis. Questão de acertar o preço. Quanto à aposentadoria, podem enfiar no seu rabo.

Guarda-costas do Grande Gaddafi: “E quando estivermos fazendo a entrega, eu pego um dos deles, arrebento o cara e arranco tudo dele, de volta. Que tal?”

O Grande Gaddafi: “Grande plano, porra, super engenhoso, se estou entendendo bem. Perfeito, porra, infalível como uma porra de relógio suíço, porra.”

Que tipo de guerra “popular” foi aquela? O pessoal do serviço secreto trouxe-lhe em bandeja de prata a mais recente pesquisa Rasmussen – segundo a qual, só 20% dos norte-americanos apoiam hoje o escandaloso bombardeio por EUA/OTAN, sobretudo porque aqueles panacas bombardearam civis e mais civis, até crianças. Os europeus – os que contam, gente de verdade, não os burocratas panacas de Bruxelas – estão ainda mais incomodados que os norte-americanos.

E dizer-se que os niilistas europeus tentaram vender a ficção de que ele, Gaddafi, seria um “ditador maléfico” que queria “matar o próprio povo”!

Guarda-costas do Grande Gaddafi: “Niilistas?! Agora, fodeu… Quero dizer, digam o que disserem dos princípios do nacional socialismo, Meu Chapa árabe, pelo menos era algum ethos”.

Os niilista europeus bombardearam a infraestrutura civil – privaram muita gente no oeste da Líbia, de água e comida, para que as ‘massas’ ‘se levantassem’ e derrubassem Gaddafi. É como funciona uma guerra para “proteger civis”, nessas cabeças ocidentais doentias: ensinar os civis a se borrarem de medo.

O Grande Gaddafi sempre soube que nunca esteve só. O povo de Trípoli não se borrou de medo. Estudantes, professores, cidadão comuns, todos armados com Kalashnikovs, lança-granadas e morteiros, todos prontos a escavar trincheiras, cercar a cidade, montar um cordão de pontos de controle, organizar a resistência casa a casa. Os ‘rebeldes da OTAN’ jamais tomariam Trípoli.

Guarda-costas do Grande Gaddafi: “Cara, recebi informações novas. Há mais merda no ar, do que pensávamos.”

Verdade. Gaddafi agora sabe com certeza que grandes tribos – Warfa’llah, Washafana, Tarhouna, Zlitan – todas sempre estiveram com ele. E que, ao contrário do que prega a propaganda dos “rebeldes da OTAN”, Zawiya, Gharian e Surman não caíram.

Gaddafi sempre soube que aqueles sujeitos sem sal nem vergonha do Conselho Nacional de Transição [ing. Transitional National Council (TNC)] nunca superariam ou superarão as guerras tribais seculares que os separam; todas elas, de fato, miniguerras civis.

Impossível acreditar que norte-americanos e europeus tenham sido idiotas a ponto de pôr dinheiro na brigada Abu Ubaidah bin Jarrah. A brigada recusa-se a lutar sob comando dos “rebeldes da OTAN” e já assumiu a “segurança interna”, pelo mesmo método de sempre: eles degolam inimigos.

Gaddafi hoje conta, inclusive, com o apoio da furiosa tribo Obeidi – que inclui a família do general General Abdul Fatah Younis, que foi ministro do Interior de Gaddafi, antes de virar desertor comandante-em-chefe dos ‘rebeldes’ e ser assassinado lá mesmo, pelos mesmos “rebeldes da OTAN”.

Ocidentais imbecis, que ainda ontem beijavam barra de túnica africana, em visita que faziam, em fila, à tenda itinerante. Hoje salivam só de ouvir falar de sumarentos acordos comerciais, ainda mais sumarentas perfurações nos campos de petróleo, certos – perfeitos idiotas – que conseguirão evitar a inevitável, monstruosa guerra civil tribal que descerá sobre eles.

O Grande Gaddafi: “Ok. Certo, certo. Então, se assinarem meu cheque, 10% de meio trilhão… 50 bilhões… Eu me mando. Sumo.”

Gaddafi sempre soube por que vieram até ali, mijar no seu tapete. Porque nunca deu a britânicos, franceses e ianques as concessões de petróleo que queriam. Então eles, e os insuperáveis salafrários sauditas, puseram-se a financiar aqueles fanáticos que tinham contatos com a al-Qaeda – exatamente o que fizeram no Afeganistão nos anos 1980s.

Banqueiros-gânsteres inventaram um Banco Central ‘alternativo’ – com a prestimosa ajuda do HSBC – para assaltar a Líbia e roubar o dinheiro dos líbios. E também inventaram uma nova empresa de petróleo, nova, totalmente privada, administrada pelo Qatar, para roubar o petróleo da Líbia.

Ora, ora… Por que ele, Gaddafi, não pensou antes nesse lance de “guerra humanitária”? Que matança utilíssima, teria feito!

O Grande Gaddafi: “Vocês têm a história de vocês, eu tenho a minha. O que digo e provo é que confiei meu dinheiro a vocês e vocês – vocês! – roubaram o meu dinheiro que tinham sob sua guarda.”

A “Coalizão”: “Loucura! Como se algum dia tivéssemos SONHADO com roubar essa merda de dinheiro líbio!”

O que está sendo feito na Líbia terá troco – será horrível. De dar medo.

As bombas da OTAN já degradaram a indústria líbia de petróleo, que voltou ao ponto em que estava, no mínimo, há três anos passado. Mas os canalhas, covardes, não terão coragem de atacar Trípoli. Numa batalha por Trípoli, mulheres e crianças morrerão em massa.

O Grande Gaddafi: Ah, malditos! Fucking fascistas!

Terão de bombardear Trípoli até devolvê-la à idade da pedra – exatamente o que já fizeram em Bagdá. Ou usarão alguma arma biológica alucinada, que fará de Trípoli cemitério e deserto.

O Grande Gaddafi: “Não pode ser. Não será. Não vai ficar assim, ya know, essa violência não pode ficar sem castigo, man.”

OK. Seja. Se esse é o tipo de paraíso que a OTAN e os ‘democratas’ sauditas e qataris querem… o Nosso Chapa árabe lhes dará o que querem – e será como sobreviver no inferno. Mercado livre aberto para todos, uma base do Africom no Mediterrâneo, um governo fantoche, um Karzai da Líbia – e um exército de guerrilheiros fanáticos degoladores que os combaterão por muitas gerações, até o dia do Juízo Final. O Afeganistão remixed.

O Grande Gaddafi procurou The Chocolate Watchband[3] no seu iPod – “passei por aqui / só pra ver / em que condições / estava minha condição” – olhou em volta e andou diretamente para dentro da nem tão fresca noite norte-africana. Os jatos da OTAN circulavam no céu. Ouviram-se sete explosões em Bab al-Aziziyah.

O desconhecido: ‘Meu Chapa’ desapareceu na escuridão – “darker’n a black steer’s tookus on a moonless prairie night”[4]. Sem fundo.

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[1] Para ler pensando em “O Grande Lebowiski” [The Big Lebowiski, 1993, dir. irmãos Coen]. Todas as falas aí citadas de Gaddafi, são falas do Grande Lebowski, no filme; falas de outros personagens do filme aparecem atribuídas aí a outros ‘falantes’ (cf. IMDB).
O filme nara a história de Jeffrey Lebowski, apelidado “The Dude” [‘Meu chapa’, ‘meu camaradinha’, ‘o cara’; gíria], que vive em Los Angeles no início dos anos 90s. Uma noite, ‘Meu Chapa’ chega em casa e encontra à sua espera dois homens que lhe dizem que sua mulher deve uma enorme quantidade de dinheiro a um homem chamado Jackie Treehorn; e que ‘Meu Chapa’ tem de pagar a dívida, dado que Treehorn sabe que ‘Meu Chapa’ é riquíssimo. Os homens torturam ‘Meu Chapa’, espancam-no, metem sua cabeça no vaso sanitário e, na saída, urinam no tapete que há na sala e ao qual ‘Meu Chapa’ é emocionalmente muito ligado. A questão é que ‘Meu Chapa’ não tem mulher, nem dinheiro algum; é desempregado crônico e vive de bicos. Os agressores, afinal, vendo, de fato, a miséria da casa onde ‘Meu Chapa’ vive, dão-se contra de que apanharam o Jeffrey Lebowski errado. E vão-se.
Depois de alguma reflexão sobre o ocorrido, ‘Meu Chapa’ aceita a sugestão do amigo Walter, de irem em busca do outro Jeffrey Lebowski, para exigir dele algum tipo de indenização pelo tapete urinado. Para grande surpresa de ‘Meu Chapa’, o outro Jeffrey Lebowski é um velho, preso a uma cadeira de rodas e perfeito canalha ‘de filme’: vive em mansão imensa, com piscina gigante, é violento contra visitantes como ‘Meu Chapa’, tem um capanga-guarda-costas (que bajula o chefe) e uma sexy jovem esposa-troféu – Bunny –, além de muitos tapetes caríssimos. ‘Meu Chapa’ rouba-lhe um tapete e dá-se por bem indenizado. Tapete a mais, tapete a menos, para quem tem tantos…
A história muda de registro quando Bunny é sequestrada e o Lebowiski milionário pede que o Lebowiski-‘Meu Chapa’ lhe sirva de portador, para entregar aos sequestradores o resgate de um milhão de dólares. Daí em diante a coisa é praticamente inenarrável, senão como o filme narra: misturam-se objetos de diferentes planos de discussão – calcinhas, cuecas, um tapete de alto valor sentimental, pornografia, niilistas, carros destruídos, esmalte verde para unhas, um pedófilo, disputas de boliche, para citar alguns itens-ícones. O filme é interessantíssimo e pinta retrato miserável dos EUA onde nem os sobreviventes sabem exatamente porque sobrevivem ou como, e são capazes de vinganças exemplares [NTs].

[2] Coquetel adocicado de vodka. Mais na Wikipedia).

[3] Banda de rock psicodélico ‘de garagem’, criada em 1965. Pode ser ouvida aqui

[4] Ninguém por aqui conseguiu traduzir essa frase. A maioria aprovou que se deixasse como está, a frase intraduzível. Dificilmente seria mais claramente compreensível em português, do que em inglês. Talvez haja, mesmo, algum mistério imperscrutável, nessa frase. Mas, sim, qualquer ajuda é bem-vinda [NTs].

Nota do Maria Frô: O leitor Marcelo Fraga sugere a seguinte tradução: A frase quer dizer algo como “mais escuro que o traseiro de um boi preto em uma noite de pradaria sem lua.”  Tookus é uma corruptela de “tuchus“, uma palavra em iídiche (afinal, várias palavras em iídiche viraram gírias nos EUA).

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Luta pela Moradia: Documentário Atrás da Porta

agosto 19th, 2011 by mariafro
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Quase não vi esta preciosa dica do Fabrício (@fabriciokc), o documentário Atrás da Porta.

Necessário para quem quer refletir sobre a exclusão urbana, sem tetos, mega-eventos, ‘minha casa, minha vida, e mesmo que seu foco seja no Rio, São Paulo e outras capitais vivem exclusões semelhantes. Aqui neste blog e outros  comprometidos com direitos humanos, você pode encontrar centenas de denúncias.

Documentário fundamental sobre a negação de um direito fundamental a muitos: o direito à moradia.

Ele está na íntegra no youtube. Para facilitar criei uma lista de reprodução aqui


Leia também:
Raquel Rolnik: Megaeventos, o espetáculo e o mito
Militância do PT carioca e visões contraditórias sobre as demolições e desapropriações para os megaeventos
Copa, empreiteiras, vendas do patrimônio público, licitações, desapropriações, escândalos e muita desinformação
Para Eduardo Paes, o novo Pereira Passos, pobre no caminho da Copa é lixo

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Victor Farinelli: Saramago e os cem mil guarda-chuvas (chilenos)

agosto 19th, 2011 by mariafro
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Belo texto de Victor Farinelli sobre a manifestação de ontem que levou 100.000 pessoas às ruas da capital chilena, embaixo de chuva, neve em alguns lugares e um frio intenso com temperatura próxima a 0ºC.

Saramago e os cem mil guarda-chuvas

Por: Victor Farinelli, de Santiago do Chile, especial para o Maria Frô

19/08/2011

Quem me dera se minhas palavras fossem melhores, para poder dissertar sobre os últimos desatinos do governo de Piñera com a precisão que requer o leitor, e como longe estou de ser um Saramago, me limito a reproduzir uma citação clássica de sua obra: “somos todos cegos, cegos que podem ver, mas não querem” – frase que, aliás, cairia como uma luva em muitos dos conflitos sociais que vivemos no mundo, atualmente.

Na tarde de quarta-feira (17/08), o ministro de educação Felipe Bulnes anunciava a terceira proposta de reforma elaborada pelo governo chileno, tentando colocar fim ao conflito estudantil no país e ao anseio por um plebiscito que vem ganhando força nos últimos dias. As novidades eram as mesmas da proposta anterior, com novos números: se ofereceu juros ainda menores nos créditos educativos entregues pelo governo (de 5,6% para 2%), e com taxas retroativas, para ajudar os estudantes já formados a quitarem suas dívidas, além de maior cobertura dos créditos aos setores mais pobres da população e um processo mais acelerado de desmunicipalização das escolas de ensino básico e fundamental.

Ofertas interessantes, beneficiariam a muita gente, mas que mantêm Piñera e seus ministros no mesmo estigma da cegueira dos que não querem ver. O governo chileno sabe desde a primeira marcha estudantil que as duas principais bandeiras do movimento são a educação pública gratuita e o fim ao lucro nas instituições educacionais.

Cem mil guarda-chuvas chilenos reunidos no comício que finalizou a marcha. Foto: publimetro.cl, Avenida Blanco Encalada, Santiago do Chile, 18/08/2011.

As taxas de juros menores e retroativas talvez serviriam para frear o movimento se a ideia tivesse sido lançada em maio, antes das marchas multitudinárias. Agora, com o massivo respaldo à ideia de educação pública gratuita planteada pelos estudantes, soa a placebo.

Sobre o fim do lucro na educação, o governo além de cego é mudo. Depois que a primeira proposta morreu ao nascer, quando Piñera propôs, em cadeia nacional, legalizar o lucro das instituições de ensino (o que no Chile atual é dessas coisas que acontecem, apesar de ser proibido constitucionalmente) mas impondo limites e regras, os anúncios seguintes ignoraram o tema, apesar de a omissão tampouco ser benéfica para o governo.

Mas Bulnes e Piñera apostavam em seduzir parte dos estudantes que poderiam se sentir entusiasmados com a possibilidade de quitar suas dívidas com os juros menores, e que esse percentual fosse suficiente para reduzir o apoio ao movimento estudantil e tirá-lo do noticiário.

A manhã da quinta-feira (18/08) tinha programada uma nova marcha – a Confederação dos Estudantes do Chile (CONFECH) não tardou em rejeitar o novo projeto e a programar outra manifestação em repúdio a falta de respostas aos seus principais planteamentos – e o oficialismo contava com a ajuda providencial dos céus. Santiago amanheceu com a temperatura próxima a 0ºC, meia cidade sob chuvas intensas, a outra metade sob tímida nevação.

Não foi suficiente! As águas de agosto somente serviu para que os guarda-chuvas na avenida trouxessem um tom carnavalesco e imprimissem à marcha apelido e lema apoteóticos. “A Marcha dos 100 Mil Guarda-chuvas, contra frio, chuva, vento e neve, contra todas as forças ao redor do governo, …”, o dilúvio de frases heroicas inundou as redes sociais e os discursos dos líderes do movimento.

E não foi só a presença novamente massiva da população. Também foi a passeata mais pacífica de todas, com os próprios estudantes enfrentando os desordeiros encapuzados, com pais de estudantes fazendo correntes humanas para conter os vândalos, com a violência sendo combatida e resolvida pelo movimento e não pela polícia.

O fortalecimento do movimento estudantil já instalou na sociedade o anseio irrenunciável de uma reforma do sistema educacional que resulte em educação pública gratuita e na proibição de que as instituições educacionais busquem lucro. Os governistas insistem em ser os cegos do Saramago, não querem ver com seus olhos sãos, ainda caminhando sobre uma corda bamba, e sem os guarda-chuvas, que estão com os estudantes, tropeçam na realidade.

Enquanto isso, os universitários reforçam outra bandeira, a de que o plebiscito é a melhor forma de solucionar o problema. A saída plebiscitária não está prevista na constituição chilena, mas conta com o apoio de parte dos parlamentares oposicionistas, que já elaboram uma proposta de minirreforma constitucional para permiti-la.

Aceitar essa solução seria harakiri político e o presidente chileno sabe disso, mas quiçá ainda não tenha se dado conta de que, por outro lado, insistir na cegueira frente aos principais temas significa uma morte lenta e mais dolorosa, e a sangria já está desatada.

Piñera terá que ceder a pelo menos um dos requerimentos estudantis se quiser impedir o plebiscito, e de quebra salvar algo da sua popularidade, porque tampouco poderá manter-se cego frente a outro dilema cruel: o de como deixar de ser o presidente eleito com o pior índice de popularidade da história do Chile, o que por enquanto é somente um detalhe de uma pesquisa isolada, mas não reverter essa rejeição nos dois anos de mandato que lhe restam poderia significar assumir um estigma tão vergonhoso quanto o que terminou sobre os ombros de Pinochet – algo a se conversar com alguns de seus correligionários, que abandonaram o barco da ditadura quando aquele começou a afundar.

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