Maria Frô

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#Wikileaks: Para EUA, o Brasil é prafrentex demais no combate à AIDS

julho 2nd, 2011 by mariafro
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Estive em Moçambique, a AIDS é um problema sério no país e a ajuda brasileira primordial. Durante o governo Lula a médica brasileira dr. Rosana del Bianco formou 800 médicos moçambicanos para o combate à epidemia de HIV e o Brasil montou uma fábrica de antirretrovirais entre outras ações importantes na área da saúde em Moçambique e outros países africanos.

Muito interessante ler um documento estadunidense que embora tenha um teor puritano, moralista, reconhece que o Brasil além de ter um programa de combate HIV/Aids bem sucedido é o “mais progressista do mundo”.

WIKILEAKS: EUA se preocuparam com modelo anti-Aids brasileiro em Moçambique

Telegrama da embaixada dos Estados Unidos em Maputo, capital de Moçambique, vazado pelo Wikileaks revela preocupação da diplomacia norte-americana com o modelo brasileiro de combate a HIV/Aids.

Por: Anselmo Massad, especial para  a Pública

Um telegrama enviado a Washington da embaixada americana em Moçambique revela preocupações dos americanos sobre a atuação brasileira no combate a AIDS no país.

O documento datado de 10 de junho de 2005 ainda recomenda que ações de auxílio da Casa Branca ao país lusófono africano aproveitem a experiência e os materiais brasileiros em português, mas sejam conduzidas com cuidado, devido a características do programa brasileiro que divergem de orientações dos Estados Unidos.

O documento descreve os resultados de visitas do então presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e de seu ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, a Moçambique. Uma série de convênios e acordos firmados entre os países são descritos, incluindo ações de educação e desenvolvimento agrícola, que envolveriam a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estatal vinculada ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.

Em meio aos detalhamentos de termos assinados para o combate à epidemia de HIV em Moçambique, o funcionário da embaixada recomenda o aproveitamento da experiência brasileira no país africano, mas com cautela. “O apoio direto do governo brasileiro a organizações e ONGs em Moçambique podem provocar problemas. Em maio (de 2005), o governo do Brasil recusou US$ 40 milhões da Usaid (agência de ajuda internacional dos EUA, por considerar que assinar uma declaração de condenação a prostutição e tráfico de drogas seria colocar em perigo o sucesso brasileiro de controlar a epidemia”, contextualiza.

O modelo brasileiro para combater HIV/Aids é considerado bem sucedido e o “mais progressista do mundo”, na definição do diplomata. “É baseado na aceitação” e  “em políticas abertas” para trabalhadoras do sexo, para usuários de drogas injetáveis, para “homens que fazem sexo com homens” e para “outros grupos de ‘alto risco’”. Por outro lado, as medidas defendidas pelo governo dos EUA demandam que as organizações que pleiteam recursos oponham-se e reprimam o trabalho sexual e o uso de entorpecentes de qualquer espécie.

A recomendação para a Casa Branca é que se considere a possibilidade de apoiar acordos com o Brasil para auxiliar os moçambicanos, mas com uma ponderação. A aproximação do governo de Lula é analisada no âmbito da pretensão brasileira de ser uma “ator no palco mundial”. Assim, qualquer esforço do governo norte-americano teria de ser “abordada com cautela”, levando em conta as “sensibilidades” que afetassem relações bilaterais EUA-Brasil.

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Lampreia, o chanceler de FHC: Amorim é um ‘homem de esquerda’

julho 2nd, 2011 by mariafro
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Trago mais um post da Pública, que esta semana publicou matérias corrosivas baseadas na leitura dos cables das embaixadas estadunidenses revelados pelo Wikileaks. Não sobrou pedra sobre pedra.

Ao ler o que diz o chanceler de FHC penso que a subserviência a Washington é bobagem perto do ressentimento que este senhor tem diante de uma verdadeira política externa e da defesa da soberania praticada pelo grande Celso Amorim. Mas Lampreia acerta em algo: de fato Celso Amorim é um homem de esquerda. Ainda bem que tivemos ao menos durante um tempo um exemplo de política externa decente.

Ao embaixador, Lampreia disse que Celso Amorim “odeia americanos”

Ex-chanceler teria afirmado ainda que  Itamaraty queria programa nuclear para o Brasil

Por Glauco Faria, especial para  a Pública

Durante uma reunião realizada no início de 2008, em sua residência, o ex-ministro brasileiro das Relações Exteriores Luiz Felipe Palmeira Lampreia teve com o embaixador Clifford Sobel uma conversa informal sobre o governo Lula, as perspectivas para o próximo presidente brasileiro, além de questões bilaterais e regionais. É o que revela um documento diplomático enviado ao departamento de Estado americano em 16 de janeiro de 2008 pelo consulado do Rio de Janeiro.

A reunião veio na esteira de um artigo publicado por Lampreia na revista American Interest, na qual analisava a relação EUA-Brasil, o que forneceu o contexto para a reunião. Lampreia foi o chanceler brasileiro entre 1995 e 2001, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Àquela altura, o diplomata se mostrava otimista com as chances de José Serra na corrida presidencial que só aconteceria mais de dois anos depois (pesquisa CNT/Sensus de 18 de fevereiro daquele ano mostrava o governador de São Paulo com 38,2% das intenções de voto, contra 4,5% de Dilma Rousseff ).

Ele especulava que Sergio Amaral, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do governo FHC, seria o próximo ministro do Exterior em um eventual governo tucano.

Em relação ao governo Lula, ele disse considerar o presidente um “pragmático conservador”, sugerindo que sua política externa se contrapunha à ortodoxia de suas políticas econômicas. Isso, segundo o diplomata, tornava possível que Lula tivesse amigos de espectros distintos, se relacionando tanto com o então presidente Bush como com o mandatário venezuelano Hugo Chávez.

Mas o alvo principal de Lampreia na conversa foi o então ministro das Relações Exteriores do governo Lula, Celso Amorim. Ele afirmou que o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia era grande amigo pessoal de Lula, observando que deveria ser “humilhante” para o chanceler Celso Amorim não se envolver em situações como a negociação para a libertação de reféns das Farc – assunto que teria sido discutido pelo presidente diretamente com Garcia.

Em seguida, perguntado se um acordo comercial em Doha poderia ter sido alcançado caso Amorim não estivesse atuando em nível político e comercial simultaneamente, Lampreia respondeu que o ministro era “um homem de esquerda”, o que implicaria no fato de que o chanceler não poderia estar interessado em um acordo desse tipo, “por razões ideológicas”.

O ex-ministro do exterior disse ainda a Sobel que Amorim “odiava americanos”, ressalvando que “não necessariamente de modo pessoal, mas por razões ideológicas”.

Lampreia sugeria ainda que o Ministério das Relações Exteriores estaria interessado em  um programa nuclear para o Brasil, mas negou que isso tivesse a ver com o acordo nuclear firmado entre EUA e Índia, em 2008.

O ex-ministro avaliava que a execução de um programa nuclear seria um “crime contra o povo brasileiro, dados os custos de tal programa e outras necessidades prementes, como saúde, educação e habitação”. Segundo ele, como não havia necessidade de um elemento de dissuasão contra outros países da região, um programa desse tipo só poderia ser interpretado como uma defesa potencial contra os Estados Unidos.

Quando questionado sobre como melhorar as relações entre os dois países, Lampreia sugeriu que os Estados Unidos devessem ajudar a elevar a reputação do Brasil no mundo, mas, “discretamente”, para não levantar suposições de que os Estados Unidos estariam estabelecendo o Brasil como uma espécie de “substituto” no continente.

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Educação chilena em debate (I): Camila e Natividad

julho 2nd, 2011 by mariafro
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Victor Farinelli, jornalista brasileiro residente em Santiago do Chile, traduz e comenta o artigo de Gregory Elacqua.

Por: Victor Farinelli, especial para o Maria Frô

Gregory Elacqua não é político, é um intelectual conhecido por ser ligado aos partidos da direita e aos grandes grupos educacionais. Ele é um dos assessores que idealizaram a reforma educacional do atual ministro de Educação, que pretende aprofundar a hegemonia dos privados e aliviar isso para os mais pobres com mais créditos educacionais (créditos que depois deveriam ser quitados com o Estado).

Por isso, enquanto a Camila Vallejo defende uma educação gratuita e de qualidade, ele defende somente uma equiparação no nível de créditos educacionais entre alunos como a Camila e alunos como a Natividad. Há semanas que a estratégia da direita contra as mobilizações dos estudantes chilenos tem sido essa: eles querem desqualificar a Camila e outros líderes do movimento dizendo que eles são uns ‘playboyzinhos’ que não querem uma boa educação aos mais pobres, quando eles justamente querem é educação gratuita e de qualidade para todos os chilenos e o fim da educação com fins lucrativos.

Posso dar o exemplo da minha esposa, que é enfermeira. Ela se formou na Universidad de Valparaíso, uma das que é ligada ao Conselho de Reitores. Essa universidade era e ainda é considerada “pública”, mas cobra mensalidade (todas as universidades “públicas” cobram mensalidades aqui, não existe ensino superior gratuito no Chile), e é caríssima. Minha esposa teve acesso a um crédito educacional, mas hoje, devido a ele, e apesar dos juros baixos, está endividada até a medula. Ela se formou em 2006 e de 2008 em diante ela tem de pagar pouco menos do que seria R$ 2 mil por ano, e ainda faltam mais ou menos uns R$ 40 mil para que ela consiga quitar toda a dívida. Ela vai conseguir pagar isso em uns dez anos, mas a grande maioria dos estudantes estão mais endividados que ela, muitos nunca poderão efetivar seu diploma universitário e outros tantos vão passar a vida inteira pagando essa dívida e vão tirar o diploma depois de aposentados.

Disto isso, eis a tradução do artigo de Gregory Elacqua, em La Segunda

Camila e Natividad

Por: Gregory Elacqua*, La Segunda

30/06/2011

Este ano surgiram duas notáveis jovens líderes no Chile: Camila Vallejo e Natividad Llanquileo. Camila, presidenta da FECH [Federação dos Estudantes do Chile, a UNE chilena], tem demonstrado capacidade para articular propostas, mobilizar estudantes e pressionar os atores políticos para reagir às suas demandas. Natividad, a porta voz dos mapuches em greve de fome, surpreendeu o governo chileno por suas habilidades para negociar, comunicar as demandas dos grevistas à cidadania e pôr o tema indígena no centro do debate nacional. Ambas são produtos das universidades chilenas e ainda sendo estudantes já protagonizam as discussões mais importantes do país atualmente. Porém, o sistema atual de financiamento da educação superior favorece mais a estudantes como Camila que a alunos como Natividad.

Camila, que estuda Geografia na Universidad de Chile, é um exemplo marcante do típico aluno de uma universidade competitiva do Conselho de Reitores (CRUCH). Provém de uma família de classe média, estudou num colégio particular subvencionado(2) com financiamento compartilhado (visando o lucro) e de nível sócio econômico alto (a maioria dos pais têm educação superior completa) e que, por isso, aponta números qualitivos favoráveis. Seu colégio tirou nota 305 no SIMCE (sistema de governamental de avaliação escolar, cuja média nacional é de 300 pontos), quase 600 na PSU [o ENEM chileno, cuja média nacional é de 500 pontos], exame no qual 41% dos seus alunos foram aprovados na prova de inglês (comparado com 11% em média no resto do país).

Natividad estuda Direito na Universidad Boliviariana, e também representa fielmente o típico aluno de uma instituição privada de baixa seletividade. Provém de uma família de baixa renda; cresceu em Tirúa, na região do Bío-Bío, e é filha de um camponês e uma artesã mapuches. É a primeira pessoa na sua família que tem acesso à educação superior. Frequentou um liceu municipal de baixo nível socioeconômico e rendimento igualmente inferior (quase dois terços dos pais não possuem ensino fundamental completo, o que ajuda a explicar seus lapidários resultados). Seu liceu tirou nota 225 no SIMCE (80 pontos menos que o colégio de Camila), 450 na PSU (150 menos que o de Camila), e desse exame somente 1% dos alunos aprovaram a prova de inglês.

Estudantes como Camila, provenientes de classes média e alta, com acesso aos colégios de alto rendimento, conseguem entrar nas universidades mais competitivas do CRUCH [o chamado Conselho de Reitores é uma instituição que reúne os reitores das universidades melhor conceituadas do Chile] têm mais acessos a bolsas de estudos e aos melhores créditos educacionais (com as menores taxas de juros), enquanto alunos como Natividad, pelas desvantagens em sua origem e educação escolar, não alcançam a entrar em universidades do CRUCH e só lhes restam optar por uma instituição privada de baixa seletividade. Pela mesma razão, têm acesso a poucas bolsas e os únicos créditos que podem conseguir são com altíssimas taxas de juros.

Estudantes como Camila não só se beneficiam do maior acesso ao financiamento estudiantil, senão que também as universidades do CRUCH —que representam menos de um terço das matrículas nacionais — recebem mais de dois terços do financiamento público entregue diretamente às instituições de educação superior.

Os reitores e os estudantes mobilizados sustentam que as universidades do CRUCH merecem maior financiamento público porque entregam conhecimento fundamental para o país (carreiras não rentáveis e investigação). Por outro lado, é importante perguntar também se educar alunos como Natividad também deveria ser considerado um bem público, devido ao aporte que fazem ao país. Se é assim, deve-se reformar o sistema desigual de financiamento da educação superior, para que brinde as mesmas oportunidades às futuras Camilas e Natividades.

*Gregory Elacqua: Director Instituto de Políticas Públicas, Facultad de Economía y Empresa, Universidad Diego Portales

Notas do tradutor:

1. Os termos entre colchetes [] não estão no artigo original e foram introduzidos para fazer alguns comparativos para melhor entendimento aos leitores brasileiros

2. No Chile, o Ensino Médio e Fundamental estão entregues a escolas particulares por um lado, e por outro lado à escolas que eram públicas e gratuitas, mas que desde a ditadura de Pinochet se tornaram colégios municipais “subvencionados”. Assim, os colégios passam a ser como concessões municipais, recebem dos cofres municipais e do Ministério da Educação o que se chama aqui de “subvención”. Porém algumas dessas concessões não permitem que o concessionado cobre mensalidade dos pais, e tenha que viver somente da “subvención”, e outros, como o caso do colégio onde estudou Camila Vallejo, têm a permissão para fazer caixa também com a cobrança de mensalidades. Cabe destacar que muitos dos colégios subvencionados com permissão de cobrar mensalidades são administrados por donos de colégios particulares, e inclusive a Igreja Católica participa como sócia em alguns desses.

3. Para contatos com Natividad Llanquileo, acesse seu blog, aqui e seu twitter: @natividadllanqu. Aqui uma entrevista com Natividad

4. Para contatos com Camilla Vallejo, acesse seu blog, aqui e seu twitter: @camila_vallejo. Aqui uma entrevista com Camila.

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Counterpunch: Líbia prepara-se para a invasão da OTAN

julho 2nd, 2011 by mariafro
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E nunca me esquecerei que Obama, prêmio Nobel da Paz foi também o primeiro afro-estadunidense a declarar guerra a um país africano e o fez do meu país….

Só a blogosfera de esquerda problematizou o fato de que o ditador Gaddafi foi apoiado durante todo o seu governo pelos mesmos países que agora o invadem. Só a blogosfera de esquerda problematizou o fato que tal invasão redesenha a mesma estratégia da invasão do Iraque: “é o petróleo, estúpido”. Por último só a blogosfera de esquerda problematizou que em pouquíssimo tempo as tais guerras cirúrgicas dos EUA/OTAN teriam resistência dos líbios.

Quem duvida, veja este vídeo, postado pelo @humamad: 1 milhão de pessoas lotam as ruas de Trípoli contra a OTAN

Green Square (Tripoli, Libya) – 1st July 2011 from Libya News on Vimeo.

Contagem regressiva: A Líbia prepara-se para a invasão da OTAN

Por: Franklin Lamb, Counterpunch (ed. fim de semana), Tradução: Vila Vudu

01 a 03/7/2011

Trípoli, Líbia – Às 10h do dia 28/6/2011, o ministro da Saúde da Líbia mostrou-me pessoalmente suas estatísticas intituladas “Número atualizado de vítimas civis dos bombardeios da OTAN contra a Líbia” (19/3-27/6/2011).

Antes de o ministério divulgar os números, o que será feito hoje à tarde, comparei aqueles dados com os da Sociedade Líbia Crescente Vermelho, com grupos de trabalhadores da Defesa Civil nas áreas bombardeadas e com pesquisadores da Universidade Nassar, de Trípoli. Os números estão corretos.

E as Forças Armadas, até 1/7/2011, não divulgaram números oficiais de soldados líbios mortos.

Em resumo, o ministério da Saúde da Líbia computou, nos primeiros 100 dias dos ataques da OTAN contra populações civis na Líbia, um total de 6.121 mortos e feridos. Desagregando-se aqueles números, tem-se: 3.093 homens feridos e 668 mortos; 260 mulheres mortas e 1.318 feridas. 141 crianças mortas e 641 feridas.

655 feridos graves continuam hospitalizados e 4.397 estão sendo tratados em casa e em ambulatórios.

A OTAN tem dito que casas, apartamentos, escolas, lojas, fábricas, plantações e armazéns onde se estocam sacos de farinha são alvos militares legítimos – alegações nas quais ninguém com quem falei na Líbia acredita – e a OTAN ainda não apresentou uma única prova de que os 15 civis, a maioria crianças com mães e tias, que foram estraçalhadas por 8 foguetes da OTAN na vizinhança de Salman, semana passada, fossem alvos militares legítimos.

Em Trípoli, 3.200 grupos de cidadãos, que nada têm a ver com as Forças Armadas da Líbia, preparam-se ativamente para a possibilidade de a cidade ser invadida por soldados da OTAN ou por gente que está sendo armada e comandada pela OTAN. Estima-se aqui que a invasão da região chamada Grande Trípoli, a parte mais cosmopolita da cidade, acontecerá nas próximas semanas, ou meses.

Nas duas últimas noites, visitei algumas dessas áreas e continuarei por aqui. Bem ao contrário do que BBC, CNN e CBS têm noticiado, os arredores de Trípoli durante as noites de temperatura amena dessa época do ano não são áreas “tensas”, nem “perigosas para estrangeiros” nem estão ocupadas por soldados ou milícias armadas. Os líbios recebem com simpatia cidadãos americanos e outros. Muitos logo tratam de explicar o seu ponto de vista, praticamente dizendo, todos, que se trata muito mais de proteger-se e às suas famílias, suas casas, seus negócios, dos perigos de uma invasão estrangeira, do que de defender Gaddafi. Muitos apóiam Gaddafi – um nome e uma autoridade que conheceram com o leite de mamadeira. Mas dizem que lutarão até a morte para defender, antes, a revolução dos líbios e a independência dos líbios.

Nas conversas, vê-se que são muito bem informados sobre as razões da OTAN e sobre por que aqueles específicos países definiram Gaddafi e seu governo como seus alvos preferenciais, sem qualquer preocupação com o número de civis mortos. Como me disse um daqueles homens, em Trípoli: “O problema é o petróleo e a reorganização da África e do Oriente Médio”.

Sentar e conversar com grupos de vizinhos que vigiam os quarteirões e bairros é meio muito interessante de conhecer de perto o povo líbio, e descobrir como veem os eventos que se desenrolam no país deles.

É com certeza mais interessante e mais útil que permanecer nos bares dos hotéis onde se reúnem os jornalistas ocidentais que, de fato, trocam entre eles suas respectivas ideias feitas e pautas editoriais prontas, enquanto pontificam sobre “do que realmente se trata”, como me disse um deles, dia desses. Não consegui entender sequer o que teria a ver o que ele me dizia, com o que eu via nas ruas.

No final da tarde da 6ª-feira, 1/7/2011, espera-se que entre 500 mil e um milhão de cidadãos líbios reúnam-se na Praça Verde, no centro de Trípoli, para manifestar sua disposição de resistir aos ataques cada dia mais intensos da OTAN contra os civis. A maioria dos jornalistas ocidentais que estão em Trípoli não aparecerão por lá, em parte porque temem ser atacados, em parte porque já receberam ordens de suas editorias para “não legitimar, com sua presença, as manifestações”. Que fim terá levado o jornalismo do Oriente Médio?

As cidades líbias, quarteirões, bairros, preparam-se para a invasão por solo e para o combate direto contra os soldados de ocupação, com plano que bem poderia ter sido concebido por um general Giap do Vietnã ou Lin Peio, chinês, especialistas em defesa popular massiva. O plano foi organizado de casa em casa, rua a rua e prevê defesa armada.

Nem todos os defensores, que já há semanas trabalham na segurança dos bairros são militares, mas os mais velhos fizeram um ano de serviço militar obrigatório, ao sair do ginásio. Foram convocados e estão sendo instruídos e treinados todos os homens e mulheres capazes, entre 18 e 65 anos – mas há mais jovens e mais velhos, cuja colaboração não é rejeitada.

Estão organizados em esquadrões de cinco, reunidos logo depois do treinamento e instruções. Funciona assim: todos os maiores de 18 anos devem apresentar-se à “Tenda” da rua onde moram, onde todos se conhecem. A pessoa alista-se, recebe um fuzil AK-47, M-16 ou outro tipo de arma leve e instruções de como operar a arma.

Conforme o nível de habilidade, ele ou ela recebe um crachá de identidade, com a especificação da arma que pode usar. Os que não conheçam armas, ou precisem de treinamento mais detalhado são encaminhados para área específicas, onde há instalações para treino, colchonete para dormir, banheiros e cantina.

O treinamento básico para os que não conheçam armas, homens e mulheres, é de 45 dias. Depois, são alistados por quatro meses. Cada novo soldado aceito recebe a arma (quase sempre um “Klash” AK-47 e 120 cintas de munição). Cada indivíduo deixa o campo de treinamento por uma semana, para ‘verificação’: podem discutir o treinamento e devem mostrar que não desperdiçaram munição (cada bala custa 1 dólar). Os aprovados nessa primeira fase passam à seguinte.

A primeira fase da ação é a segurança do próprio quarteirão, em turnos de oito horas (mulheres durante o dia, quando as crianças estão na escola; os homens, nos turnos da noite). Muitos homens têm trabalho regular e explicam que se apresentaram para um turno extra de trabalho, como voluntários, pelo país. Os alistados são admirados e ajudados pelos vizinhos.

Assumi o compromisso de não falar do armamento já disponibilizado para essas brigadas, e de só falar de rifles, granadas, lança-foguetes (rocket propelled grenades, RPGs), mas, sim, estão armados.

Além de preparar a defesa armada de suas casas e famílias e vizinhos, essas brigadas voluntárias de defesa civil armada explicaram o que lhes cabe fazer. Quando uma área for bombardeada, têm de providenciar o resgate imediato dos moradores dos prédios atacados, encaminhá-los para os serviços médicos organizados em cada área, com especial atenção às crianças extraviadas, relacionar os reparos onde sejam possíveis, encaminhar as famílias para abrigos próximos e mais várias tarefas típicas de brigadas de defesa civil.

Cada ponto de controle em cada cidade passa a ser centro de controle de segurança para a comunidade vizinha. Os carros são revistados, mas em geral só o porta-malas. Na maioria dos casos, os motoristas e os brigadistas conhecem-se bem. Pelo posto em que fiquei, acompanhando o trabalho, passam muitos universitários, que também são da região. Vez ou outra, um dos carros pára e entrega uma bandeja de frutas ou uma vasilha de sopa etc. para os brigadistas. A atmosfera em geral é de solidariedade geral.

Os foguetes da OTAN têm visado muito diretamente esses postos de controle coordenados pela população, 50 dos quais estão localizados ao longo da estrada que acompanha a fronteira com a Tunísia até Trípoli. Por isso os postos funcionam sem iluminação à noite. Os que fazem o turno da noite recebem pequenas lanternas, com poderoso feixe de luz (ganhei uma delas, de presente, e, sim, funcionam muito bem).

Aqui onde estou, a maioria dos brigadistas são voluntários civis. Em outras regiões, mais para o leste, policiais regulares, homens e mulheres, já se uniram às brigadas da defesa civil; além dos que organizaram unidades clandestinas só de policiais.

Além de todos os demais problemas que já enfrenta, a OTAN encontrará resistência popular empenhadíssima, se decidir invadir a Líbia também por terra.

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