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Wikileaks: Até embaixadores estadunidenses não levaram a sério o “Cansei”

junho 28th, 2011 by mariafro
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WIKILEAKS: Cônsul e FHC ironizam movimento “Cansei”

Movimento não convenceu o ex-cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Thomas White, que diz que seus líderes se tornaram alvos fáceis de caricatura

Por: Andrea Dip, especial para a Pública

Em 2007, aproveitando o acidente com o vôo 3054 da TAM, empresários paulistas lançaram o “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros” que ficou conhecido popularmente como “Cansei”, integrado por atrizes, atores e apresentadores de TV famosos que protestavam por uma variedade de temas – caos aéreo, corrupção educação, segurança.

Na visão do cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Thomas White, que deixou o cargo em meados de 2010, o movimento não era apartidário.

Assim começa um comunicado enviado a Washington no dia 18 de setembro de 2007: “Na tentativa de aplacar o descontentamento popular com o governo Lula, um grupo de empresários de São Paulo lançou o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, conhecido informalmente como ‘Cansei’ (I’m tired)”.

O documento segue dizendo que “apesar de os líderes insistirem no apartidaridarismo e dizerem que o movimento não ataca ninguém especificamente, tem causado forte reação de movimentos sociais e entidades ligadas ao governo Lula, que caracterizam o Cansei como um grupo de membros ricos da elite branca sem nada melhor para fazer do que reclamar”.

White diz ainda que o movimento não sabia direito para que direção avançar. “Conforme descrito em seu site e cartazes publicitários, os membros do Cansei estão fartos do caos aéreo, do poder dos traficantes, das crianças nas ruas, balas perdidas e tanta corrupção”.

Conversas com D’Urso

A Washington, White comenta sobre um encontro entre oficiais da embaixada americana, Luiz Flávio Borges D’Urso e representantes da OAB de São Paulo no dia 29 de agosto de 2007. “A OAB organiza frequentemente programas em conjunto com as mesmas associações empresariais que fazem parte do ‘Cansei’. De acordo com D’Urso, faz parte dos interesses da organização elogiar o governo mas também criticá-lo quando for o caso”.

O presidente da OAB São Paulo também aproveitou o encontro para criticar a resolução da arquidiocese de São Paulo, que proibiu o Cansei de fazer uma manifestação na Catedral da Sé em julho daquele ano e obrigou o movimento a fazer seu “um minuto de silêncio de indignação” ao ar livre. “Para D’urso, o arcebispo se curvou diante da pressão e não quis criar controvérsias”

FHC: “não é um lema para Martin Luther King”

Outra parte do documento diz que os líderes do “Cansei” não ajudaram ao tentar contar seu lado da história. “Entrevistado pela revista Veja, João Dória Jr. queixou-se que a opinião pública discrimina os bem sucedidos e ricos (…) e que sua imagem de alguém que nunca fumou, bebeu ou usou drogas, não briga, não fala palavrões e usa gel no cabelo tornou difícil aos brasileiros comuns se identificarem com sua causa”.

White diz também que o presidente da Philips no Brasil, Paulo Zotollo, atraiu atenção negativa quando disse a um jornal que, ao apoiar o movimento Cansei, desejava remexer no “marasmo cívico” do Brasil, e afirmou: “Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado”. “Zottolo insistiu que sua observação tinha sido tirado do contexto, mas, novamente, o estrago já estava feito” diz o americano.

Thomas White conclui o telegrama dizendo que o slogan “Cansei”, embora possa resumir com precisão os sentimentos de algumas pessoas, não é muito eficaz como um grito de guerra.

“Como ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comentou recentemente ao cônsul-geral, não é um lema que Martin Luther King, Jr., teria escolhido para inspirar seus seguidores”, revela White.

Para ele, “os líderes do movimento, por toda sinceridade e seriedade tornaram-se alvos fáceis para a caricatura”.

Em 2011, não há mais vestígios do Cansei. A página do movimento foi tirada do ar.

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Pepe Escobar: De crimes contra a humanidade

junho 28th, 2011 by mariafro
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De crimes contra a humanidade
Por: Pepe Escobar, Asia Times Online
28/6/2011

PHNOM PENH – A foto não datada, que se vê no Centro de Documentação do Cambodia[1], é assustadora, de tão ‘normal’: ao lado de um Mercedes preto, fazendo pose de descontraídos, todo o alto comando do Khmer Rouge[2]. Veem-se o “Irmão número 1” Pol Pot, seu braço direito Nuon Chea, Ieng Sary, Son Sen e Vorn Vet. É ao que se referia Hannah Arendt, quando denunciou a “banalidade do mal”.

Na 2ª-feira, 20 de junho, num prédio especialmente construído para esse julgamento nos arredores de Phnom Penh, aconteceu a audiência inicial do “Tribunal Khmer Rouge”[3], para a qual foram convocados alguns dos personagens mais publicamente amaldiçoados da história mundial recente – entre os quais o “Irmão número 2” Nuon Chea e o relativamente sofisticado ‘ministro de Relações Exteriores’ Ieng Sary, que convenceu diplomatas norte-americanos e europeus de que o Khmer Rouge tentava apenas construir uma nova sociedade agrária; o que implicaria a necessidade de promover a matança ritual de mais de dois milhões de cambodianos, num holocausto asiático do século 20.

Sary já admitiu, em audiências anteriores do Tribunal, que o Khmer Rouge trabalhara para reduzir a população do Cambodia, de 7 milhões para 1 milhão de habitantes, mais do que suficientes para realizar seu sonho agrário – que foi exposto em termos teóricos e conceituais por Khieu Samphan em tese defendida na Sorbonne, muito elogiada pelos franceses à época.

O anjo da história interveio, quando o Vietnã derrotou o Khmer Rouge em janeiro de 1979 – o que desagradou muitíssimo à Washington da Guerra Fria, que adiante ofereceu ao mundo o lastimável, vergonhoso espetáculo de apoiar o Khmer Rouge na ONU.

O Cambodia é hoje governado por um dos chamados “ditadores democráticos” – o esperto Hun Sen –, que tomou as necessárias providência para que seus ex-colegas do Khmer Rouge fossem julgados por seus crimes contra a humanidade. E Hun Sen fez tão bem feitas as coisas – e com o Cambodia hoje incluído entre os 10 países da Associação das Nações do Sudeste Asiático [ing. Association of Southeast Asian Nations] e alvo de investimentos chineses massivos –, que seu país absolutamente não corre o risco de ser libertado pela OTAN e está a salvo de qualquer guerra humanitária. Hun Sen é um dos “nossos” filhos da puta, ou equivalente.

Mesmo assim, duas gerações de Khmers – que no passado construíram império dos mais sofisticados da Ásia – continuam a esperar que um tribunal patrocinado pela ONU aplique medidas de alguma justiça contra o Khmer Rouge. Há poucos indícios de que algum dia aconteça. Hun Sen decidiu que esse será o último julgamento pelo qual passará o Khmer Rouge.

Só Duch – conhecido torturador que dirigiu a horrenda prisão do Khmer Rouge em Tuol Sleng – já foi julgado e condenado no julgamento conhecido como “Caso 001”. Pol Pot já planejara a própria saída estratégica, por morte, em 1998.

Algumas das acusações contra Nuon Chea, Ieng Sary e sua mulher, também da alta hierarquia do governo, a ministra da Ação Social Ieng Thirith, zombam do Holocausto promovido pelo estado e pelo governo de que participaram: o casal é acusado, dentre outras coisas, de ter sequestrado e assassinado velejadores norte-americanos e pescadores vietnamitas. Chea, 84 anos, e Sary alegam que estão velhos e doentes. Sary chegou a obter o perdão do então rei Norodom Sihanouk em 1996, depois de condenado à revelia pelos vietnamitas, em 1979. Khieu Samphan sempre tomou todas as necessárias providências para sempre estar doente demais para ser julgado.

Não haverá audiências substanciais no “Caso 002”, pelo menos, nos próximos vários meses. A parte boa, até agora, é que as audiências da semana em curso estão sendo televisionadas e retransmitidas ao vivo para o Reino. Mas ninguém sabe se Chea, Sary e outros falarão durante as audiências, ou se colaborarão com o tribunal. Chea petulantemente tirou os imensos óculos escuros no Tribunal, na 2ª-feira, para dizer que “Não estou feliz com essa audiência”. E deixou os detalhes, para os advogados.

Have war will travel

É uma tentação deixar esvair-se a perspectiva histórica, nessa Phnom Penh barulhenta, entre os jovens graduados e plugados que bebericam mojitos pelos bares de frente para o rio Tonle Sap, entre os fulgurantes prédios-sedes das empresas comerciais panasiáticas. Mas é impossível não associar diretamente o Khmer Rouge e o Império Americano.

Foi a guerra ilegal de Richard Nixon no Cambodia – hoje, seria “Viet-Cam”, guerra avó da atual guerra “Af-Pak” –, somada ao apoio a outro ditador pirado, Lon Nol, contra o rei Sihanouk, que criou as condições para que o Khmer Rouge crescesse e tomasse o poder em 1975. A vitória do Khmer Rouge aconteceu praticamente no instante em que o último helicóptero dos EUA escapulia, coberto de vergonha e desgraça, de Saigon.

Washington não deu qualquer atenção ao holocausto de asiáticos e ainda reclamou depois, quando o Vietnã derrubou o Khmer Rouge.

O que nos leva aos caminhos circulares pelos quais se move o Império: os Khmers representam esses caminhos do Império, na imagem de uma cobra que come o próprio rabo.

Basta lembrar esse eterno guerreiro da Guerra Fria, o secretário de Defesa dos EUA Robert Gates, que, recentemente ainda argumentava que o fracasso no Afeganistão é “inaceitável”, por maiores que venham a ser os custos da guerra (exatamente como o fracasso dos EUA no Vietnã também foi “inaceitável”).

Pensem em Gates, falando à revista Newsweek: “Vivi toda a minha vida adulta nos EUA-superpotência. E superpotência que nunca se incomodou com gastar o que tivesse de gastar para manter-se superpotência”. Nenhum agente do Império, dos que papagueiam a Voz do Dono, será jamais mais claro que Gates. E ele disse mais: “Francamente, não consigo acreditar que faço parte hoje de uma nação e de um governo (…) que estão sendo forçados a reduzir dramaticamente nosso engajamento com o resto do mundo”.

“Engajamento” significava expandir ilegalmente a guerra, do Vietnã para o Cambodia, e criar as condições necessárias para um holocausto asiático.

“Engajamento”, hoje, significa expandir ilegalmente a guerra, do Afeganistão para o Paquiatão, e semear caos extra no sul da Ásia.

“Engajamento” significa expandir ilegalmente mais uma guerra ilegal para o norte da África, contra a Líbia, e semear caos extra no norte da África.

“Engajamento” significa deixar que a Casa de Saud suborne todos os que encontre, espalhando sua força reacionária, contrarrevolucionária, por todo o Oriente Médio e norte da África [ing. Middle East/Northern Africa, MENA).

Se se consideram essas ‘realidades em campo’, Nuon Chea, assassino serial, que matou em massa, bem pode ter alguma razão. Ontem, ele disse que “Pessoalmente, eu só tentava implantar o sonho de uma sociedade agrária igualitária. O Império deveria estar sendo julgado aqui, acusado de crimes contra a humanidade. Não eu.”

É. Acho que o Ano Zero ainda nem começou.

[1] DCCAM (em inglês). Em DCCAM veem-se várias fotos, mas não localizamos a foto aí comentada [NTs].
[2] “Khmer Rouge” (fr.) [“Khmer Vermelho” (port.)] é expressão criada pelo rei Norodom Sihanouk, em seguida adotado em vários idiomas. Designava vários partidos comunistas no Cambodia, que formaram depois o Partido Comunista de Campuchea [ing. Communist Party of Kampuchea (CPK)] e depois o Partido da Campuchea Democrática [ing. Party of Democratic Kampuchea (PDK) [NTs, com informações da mídia].
[3] Para saber detalhes da primeira audiência, ver “A Time of Transparency. Not Sealed Envelopes”, 27/6/2011, Christine Evans (Northwestern University School of Law e International Human Rights), que está acompanhando o julgamento (aqui, em inglês)[NTs].

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Carta Maior: Os arquivos da ditadura que os militares brasileiros querem ocultar

junho 27th, 2011 by mariafro
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Fotos: O ex-chanceler Azeredo da Silveira com o ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger

Documentos da ditadura militar brasileira, obtidos pelo jornal Página/12, trazem detalhes inéditos dos arquivos que a presidenta Dilma Rousseff quer tornar públicos. Militares resistem à divulgação desses arquivos. Matéria publicada neste domingo no jornal argentino traz informações sobre atuação de Azeredo da Silveira, chanceler do general Geisel, que antes de assumir o Itamaraty comandou a embaixada na Argentina, onde teria sido um “pioneiro do terrorismo de Estado regionalizado”. Da leitura de centenas de papéis em poder do Página/12 fica claro que os contatos eram frequentes, e grande a afinidade dos militares brasileiros com os golpistas de 1976 na Argentina. A reportagem é de Dario Pignotti.

Por: Dario Pignotti – Página/12, Tradução: Katarina Peixoto, via: Carta Maior

27/06/2011

“O ex-presidente argentino Juan Perón esteve na mira dos serviços de Inteligência brasileiros. Isso é quase um fato. Participei de reuniões com ele, se pressentia que nos vigiavam. Se abrirem os arquivos da ditadura, como quer a presidenta Dilma, surgirão mais provas disso”.

A afirmação é de João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Melchior Goulart, Jango, amigo do general argentino por mais de duas décadas. Transcorridos 47 anos da derrubada Jango e 38 de seus últimos encontros com Perón, provavelmente espionados por agentes brasileiros, “é hora de terminar com esse longo silêncio, ainda vivemos de costas para a história dos anos 70 devido às pressões de grupos ligados ao terrorismo de Estado”, lamenta João Vicente.

Dilma Rousseff parece compartilhar essa preocupação e, na semana passada, instruiu seus ministros, em particular a titular de Direitos Humanos, Maria do Rosário, para que convençam o Congresso a aprovar imediatamente o projeto sobre a Comissão da Verdade, contra o qual se insubordinaram os chefes das forças armadas em dezembro de 2009.

“Certo dia estava em um hotel de Madri, com papai, atendi o telefone e alguém me disse: “Quero falar com Janguito, diga que sou o general Juan Perón. Eu não podia acreditar, mas era verdade. Perón estava do outro lado da linha para convidar Jango para uma conversa na residência da Porta de Ferro. Creio que era o início de 1973”, relatou Goulart ao Página/12.

“Em uma ocasião, falou-se da possibilidade de haver um acordo. Meu pai (fazendeiro) venderia carnes no marco de um plano trienal que iria ser implementado pelo governo peronista, mas que fracassou por influências do bruxo”, apelido pelo qual era conhecido José López Rega. “Ocorreram mais reuniões com Perón, outra foi em Buenos Aires. Lembro que algumas pessoas nos diziam que os serviços de Inteligência estavam rondando por ali”.

Algo parecido ocorria com o ditador Ernesto Geisel, que se referia ao argentino como a “Múmia” e o excluiu de sua cerimônia de posse, no início de 1974, da qual participaram o chileno Augusto Pinochet, o boliviano Hugo Banzer e o uruguaio Juan María Bordaberry. Geisel iniciou um período de mudanças na política externa, conhecido como “pragmatismo responsável”, caracterizado pela abertura de relações com países do Terceiro Mundo e menor alinhamento com os Estados Unidos. Este giro não implicava o fim da estratégia de contenção do comunismo. Outra marca de sua política externa foi a intensa, e por vezes contraditória, relação com o secretário de Estado, Henry Kissinger. Nenhum chanceler teve mais sintonia com Kissinger do que Francisco Azeredo da Silveira, que esteve no cargo durante o quinquênio de Geisel.

Antes disso, Azeredo comandou a embaixada na Argentina, “onde foi um pioneiro do terrorismo de Estado regionalizado; em 1970 foi o responsável pelo sequestro em Buenos Aires e transporte ilegal ao Brasil do coronel Jefferson Cardin, um militar nacionalista e brizolista que foi meu companheiro na prisão do Rio de Janeiro”, diz Jarbas Silva Marques, prisioneiro político entre 1967 e 1977. “Jefferson Cardin me disse na prisão do Rio que Azeredo da Silveira, sendo chanceler, sabia tudo sobre a Argentina e certamente sabia dessa possível espionagem sobre Perón e mandava a embaixada colaborar com os golpistas”.

“Essa é uma história pesada, estamos falando do chefe da diplomacia brasileira entre 1974 e 1979. De uma política de Estado. Até hoje há gente querendo esconder essa história debaixo do tapete, há muita pressão. Vemos o presidente do Senado, José Sarney, fazendo lobby a favor dos militares para impedir que Dilma abra os arquivos, disse Silva Marques ao Página/12.

É impossível fazer uma reconstrução acabada de todos os movimentos da diplomacia brasileira e seus pactos com os golpistas argentinos, devido à falta de documentação suficiente. Da leitura de centenas de papéis em poder do Página/12 fica claro que os contatos eram frequentes, e grande a afinidade com aqueles que perpetrariam o golpe de 1976. A guerra suja já lançada então contra a “subversão” era aprovada.

O telegrama “secreto” enviado pela embaixada brasileira no dia 3 de setembro de 1975 dá conta de uma “longa conversa” com os “comandantes Jorge Videla e Eduardo Massera”, que expressaram seu interesse em “estimular por todos os meios a aproximação das Forças Armadas” de ambos os países. Em outra mensagem “confidencial”, de 19 de fevereiro de 1975, fala-se sem eufemismos da coordenação repressiva. A nota relata um encontro oficial de diplomatas brasileiros com o ministro da Defesa argentino, Adolfo Savino, quando se tratou com “total franqueza da necessidade de um profundo entendimento de nossos países frente aos inimigos comuns da subversão”.

Durante sua conversa com o Página/12, o filho de João Goulart e Jarbas Silva Marques lamentaram o “atraso” histórico do Brasil frente a Argentina, o Chile e o Uruguai, onde “houve um ajuste de contas com a história e a verdade”, mas manifestaram esperança de que essa situação possa ser revertida. Eles, assim como vários organismos de direitos humanos, confiam no compromisso com a verdade assumido por Dilma Rousseff, vítima de prisão e torturas durante o regime militar, assim como na pressão internacional. Citam o exemplo da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Estado brasileiro por não julgar os crimes da ditadura.

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Fátima Oliveira: Myrian Rios e a dupla moral sobre pedofilia

junho 27th, 2011 by mariafro
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Myrian Rios e sua visão de dupla moral sobre a pedofilia
Ela tem direito à fé, desde que não cause danos a outrem
Por: Fátima Oliveira*Jornal OTEMPO

28/06/2011

Missionária da Canção Nova, comunidade católica de renovação carismática, a atriz e deputada estadual Myrian Rios (PDT-RJ), que é mineira, primou pela carolice exacerbada. Com seus melhores trejeitos de atriz, verbalizou: “Não poder discriminar homossexuais é abrir uma porta para a pedofilia” (23.6.2011). Ela tem todo o direito de professar a sua fé como desejar, desde que não cause danos a outrem e sem esquecer que as experiências do sagrado são diversas – nem todas atentam contra os direitos humanos – e que, em território brasileiro, nenhuma religião está acima da lei.

A homofóbica deputada propala inverdades e ousa reclamar pelo direito de discriminar a condição homossexual! Sendo ela de uma facção católica, se tivesse intenção de combater o crime de pedofilia, seu mandato denunciaria a pedofilia clerical de sua igreja. Lamento que o partido de Brizola, o PDT, acolha gente de tal naipe.

É inegável que são ideias incompatíveis com inúmeros estudos sociológicos, com os saberes das biociências e com a própria vida, que já demonstraram que homossexualidade é uma coisa e pedofilia é outra e uma não leva necessariamente à outra! Por que ela tenta embolar o meio de campo?

Não o faz por ignorância, mas por omissão e desfaçatez políticas, esquecendo-se de que integra um ramo do cristianismo que há séculos imola sexualmente crianças, jovens e mulheres; e que santifica a maternidade e sataniza as mulheres. É público que, diante da pedofilia clerical, a omissão do Vaticano tem sido a regra, pois compactua e dá guarida a um signo maldito da dupla moral sexual – crimes clericais de natureza sexual, como registrei em “O Vaticano arde nas labaredas do inferno por causa da pedofilia”: “O furacão da pedofilia, depois dos Estados Unidos e da Europa, chegou à Alemanha, pátria do papa, depois na diocese do papa, agora dentro do Vaticano, na Congregação da Doutrina da Fé, onde o cardeal Joseph Ratzinger foi prefeito – por 24 anos, de 1981 a 2005 -, apontando para a sua responsabilidade direta” (O TEMPO, 30.3.2010).

Em março de 2010, um irmão de Bento XVI, Georg Ratzinger (87 anos), apareceu como um dos envolvidos no escândalo de pedofilia quando era diretor musical do colégio interno de Ratisbona (1963-1994). Ele tem negado. Em seu papado, Bento XVI só se mexeu quando a Igreja Católica começou a perder patrimônio, vendendo igrejas para pagar indenizações das vítimas, o que o obrigou, no encontro com bispos irlandeses, a declarar que a pedofilia era crime hediondo e pecado grave – até então, nem pecado era!

Em 2011, no rastro da notícia de que vítimas belgas de padres pedófilos processariam o papa, o Vaticano, em carta aos bispos, resume as práticas adotadas na Alemanha, na Áustria, na Bélgica, nos EUA, na Holanda, na Irlanda, na Itália e em vários países da América Latina para enfrentar o sangradouro de dinheiro nos tribunais e recomenda que “os membros do clero suspeitos de pedofilia sejam entregues às autoridades civis competentes” (15.5.2011).

A assessoria de imprensa do Vaticano anunciou para fevereiro de 2012, em Roma, uma reunião de bispos e chefes de congregações religiosas para dar uma “resposta global aos problemas de pedofilia”, segundo as diretrizes de luta contra a pedofilia formuladas em maio passado pela Congregação da Doutrina da Fé (13.6.2011). Ou seja, enquanto não meteu a mão no bolso, a Santa Sé não tomou providências. Desconheço pronunciamento da deputada a respeito da pedofilia clerical. Está passando da hora de fazê-lo!


Ilustração: DUKE
Fátima Oliveira* é Médica - fatimaoliveira@ig.com.br

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