Não à terceirização

Maria Frô - ativismo é por aqui

Maria Frô header image 4

Alex Medeiros: O futebol cidadão do mestre corintiano

dezembro 4th, 2011 by mariafro
Respond

O Curupira Pensador*

Por Alex Medeiros, no blog do Alexandre

Minha geração vivia o sabor e a energia dos vinte e poucos anos. Jovens latinos sem dinheiro no bolso, bebendo nos bares, nos corredores universitários e nas canções de Milton, Gonzaguinha e Mercedes Sosa uma esperança que pertencia ao continente inteiro.

aquela virada de década, dos 70 para os 80, os ventos da mudança sopravam nas áreas de desembarque dos aeroportos brasileiros, aonde dezenas de exilados retornavam ao País com o bilhete da Anistia. Com eles, veio o desejo democrático do voto direto.

Nós ainda levávamos em conta o antigo clichê de que no Brasil não se misturavam política, futebol e religião. Os dois últimos, inclusive, nós tratávamos como cachaças emocionais do povo, que diante do gol e de deus, se deixava embriagar e alienar.

Mas em 1982, quando 70 milhões de brasileiros reconquistaram o direito de eleger diretamente os governadores dos estados, um jovem barbudo, magricela e bom de conversa misturou numa só conquista a tríade que o velho ditado insistia em separar.

O jogador Sócrates tinha 24 anos quando em 1978 chegou ao Corinthians, depois de surpreender público e imprensa pelo Botafogo de Ribeirão Preto. Nos anos anteriores fora goleador do Paulistão. No Brasil da abertura política, ele chegou revolucionando o Timão.

Com a altura de um jogador de basquete, vara de manipular nuvens, ele desafiava as leis da aerodinâmica se movendo num equilíbrio de bailarino com pernas de pau. Tinha um futebol alegre e explosivo movido por uma mente brilhante e um andar desengonçado.

Contemplado num todo, Sócrates jogava o fino da bola, e era pura elegância na junção dos dribles em passos largos, no cabeceio poderoso e nos passes milimétricos dados com o calcanhar. Era o Curupira encantando o povo e enganando os adversários.

Em setembro de 1979, a revista Placar botou nas ruas uma edição especial com o título “Sócrates” e um subtítulo que até parecia fanatismo corintiano: “o melhor jogador do mundo”. O anúncio informava “a vida, os gols e o futuro do doutor”, alusão ao curso de Medicina do craque.

E no embalo do resgate democrático nacional, aquele cara com nome de filósofo começou a juntar com gols e alegria os cacos de um clube carente de vitórias. Em mais de vinte anos, uma taça de 1977 era tudo que a nação corintiana tinha para louvar.

Pela via de um movimento político interno, Sócrates comandou a maior revolução já vista num ambiente clubístico. Com o pé na bola e a cabeça na filosofia, tornou-se o líder da “Democracia Corintiana”, o craque de um sindicalismo lúdico e apaixonante.

O Brasil se reconstruía nas ruas, nos diretórios estudantis, embalado por Ivan Lins: “Começar de novo… Vai valer a pena ter amanhecido, ter me rebelado, ter me debatido…” E Sócrates virando a mesa e recomeçando a História do Corinthians.

As lideranças políticas que retornavam ao País pregavam as mudanças a partir da consciência do povo, que precisava tomar as rédeas do próprio destino. No Parque São Jorge, algo similar já estava em prática, com os craques conscientes do jogo político.

O ano de 1979 acabou com o Corinthians de Sócrates campeão, enquanto no Brasil as sementes da Democracia eram espalhadas pelas cidades. A chegada dos anos 80 trouxe uma primavera democrática no País e consolidou o futebol cidadão do mestre corintiano.

E se o voto direto já funcionava no Timão, nas ruas ele teimava em não brotar no terreno pantanoso do passado. As duas nações marchavam rebeldes ao som de Chico e Elis e nos passos largos do gênio que fazia irreverências mil pra noite do Brasil.

O mago do calcanhar levou o Corinthians ao bi em 82 e 83 em duas campanhas marcadas pelo talento do seu futebol e pela implantação de uma política pioneira em que jogadores e dirigentes ditavam os destinos, esportivo e administrativo, do clube.

Sócrates no Corinthians conseguiu unir o que a sociologia de boteco desunia. Afinal, política, futebol e religião jamais deixarão de mover a vida corintiana. Sócrates acrescentou apenas uma liderança e um espírito libertino. No rádio da época, Simone cantava: “Pra se combinar comigo tem que ter opinião”.

Em 1984, um tsunami de cidadania invadiu as ruas do Brasil. Multidões gritavam por eleições diretas para presidente. Chico Buarque avisava aos ex-ditadores: “Apesar de você amanhã há de ser outro dia”. No Corinthians, o passado reagia contra a Democracia.

A categoria de Sócrates já era um assunto internacional, conhecida e consagrada na Copa da Espanha de 82, quando a seleção brasileira repetiu o trauma da Hungria de 54 e da Holanda de 74, perdendo o torneio, mas encantando o mundo.

O rico futebol italiano veio buscá-lo. O protesto da massa alvinegra foi uníssono. Nas ruas do Brasil, o povo protestava diante da ameaça do Congresso Nacional derrubar as Diretas. O ídolo tentou uma jogada desesperada: “Se cair as Diretas, vou-me embora”.

O Brasil não votou para presidente naquele ano e Sócrates foi brilhar em campos europeus, na Fiorentina. Deixou um legado difícil de repetir-se. Foi gênio, líder e intelectual num só corpo. Numa visão lúdica da política, ele, sim, merece ser lembrado como “O Doutor-Diretas”. (AM)

*Crônica publicada originalmente em 26/10/2009 na coluna PORTFOLIO (hoje ALEX MEDEIROS) de O Jornal de Hoje, Natal.

Tags: 5 Comments

SÓCRATES e seu último artigo: “2014 verde”

dezembro 4th, 2011 by mariafro
Respond

No último texto escrito por Sócrates em sua coluna na Carta Capital, Magrão faz uma avaliação dos impactos da Copa para o Meio Ambiente e críticas certeiras a um evento que usa dinheiro público para enriquecer aqueles que não têm compromisso com o povo brasileiro.

“Essas acima são algumas questões que por certo estão longe da lista de prioridades do tal comitê organizador, que de tão organizado teve de mudar (?) seu comando nos últimos dias. Imaginei que ele deveria ser dirigido por gente do Estado brasileiro, que coordenasse as inúmeras funções exercidas por diferentes fontes para endereçá-las ao mesmo ponto comum às vésperas do campeonato de futebol. Mas não: seu organograma passa ao largo do poder público e trata tudo como propriedade privada, sem compromisso algum com o povo brasileiro, que, no fim, é quem está bancando a farra toda. Farra essa que pode jogar por terra todas as conquistas da última década, por absoluto distanciamento dos interesses nacionais. Uma inconsequência sem limites das instituições que delas deveriam cuidar.”

Copa do Mundo

2014 verde

Sócrates, Carta Capital

03.12.2011 10:10


Obras no Estádio Mané Garrincha em Brasília, um dos palcos da Copa do Mundo de 2014. Foto: Wilson Dias/ABr

Um evento como a Copa do Mundo provoca inúmeros impactos ambientais que deveriam estar entre as nossas maiores preocupações para 2014. Certamente teremos um aumento do tráfego de veículos nas cidades, maior suprimento de energia e água para os estádios e centros de imprensa, aumento da quantidade de lixo e da emissão de gás carbônico na atmosfera. Em transporte temos de diminuir o número de veículos que circulam diariamente e substituí-los por ônibus, metrôs e trens. Aqui temos o primeiro grande gargalo em nossa infraestrutura, já que o tempo e os recursos de que dispomos são ínfimos e estão dirigidos para a construção dos estádios.

Apesar de as discussões acerca do tema estarem entre as prioridades das cidades-sede, percebemos que somente algumas terão alguma melhora no sistema e, ainda assim, limitadas ao extremo e, por consequência, impedidas de atingir plenamente seus objetivos.

Como transportar os milhares de jornalistas e turistas que aqui estarão para acompanhar o Mundial é uma equação sem solução até este momento, mesmo em cidades que possuem mais linhas de metrô e trens como São Paulo e Rio de Janeiro. Essas se encontram no limite de sua capacidade e muito pouco se poderá fazer até 2014. Sobram ônibus cujos corredores e capacidade estão aquém das necessidades para eventos desse porte, além de serem antigos e poluentes. Isso sem contar com a frota extremamente inchada de veículos de passeio, que inviabiliza facilidades de locomoção dos coletivos. Até com minivans e táxis teremos problemas, pois os temos em número insuficiente para a demanda. Um verdadeiro colapso é o que se apresenta e, pior, ao contrário do que se espera, com aumento de emissão de gases de efeito estufa (será que pelo menos trocarão os filtros dos ônibus?).

O abastecimento de água e de energia nos estádios e centros de imprensa tem sido motivo de poucas discussões, como se fosse tema secundário. Pelo contrário, é fundamental para se evitarem desperdícios e emissão de gás e fuligem no caso de utilização de diesel para viabilizar a transmissão do evento. Como quase todos os estádios começaram suas obras, nada mais poderemos fazer além daquilo que foi planejado. Alguns terão plataformas de captação de calor para a geração de energia, mas me parece que não houve preocupação (nem no Nordeste) com a captação de água. Para consumo humano e cuidados com os gramados do campo e com o entorno (caso exista algum estádio sem excesso de concreto). Para esse fim, a captação da água da chuva seria bastante interessante e correta, particularmente onde não houver lençol freático.

Lixo! Será que algum dos que possuem poder de decisão para o mundial pensou em como tratar e manipular o lixo produzido? Acredito que não. Esse tipo de material, na cabeça dos que se preocupam com futebol, é apenas um detalhe insignificante, com o qual não caberia a eles se preocuparem, e sim o poder público. Assim como todos os quesitos acima. Isto é, faço um evento gigantesco e nunca terei de ficar absorvido com as suas consequências. Por exemplo, será que eles já se preocuparam com detalhes da construção do centro de imprensa, com o tipo de material que será utilizado e para onde tudo aquilo vai após a sua utilização? Inclusive os cabos? Quilômetros devem ser usados e, certamente, para algum lugar irão. Serão reutilizados? Onde? Espero que não mofem em algum lugar, como os aparelhos de ar-condicionado do Pan-Americano do Rio, em 2007, que foram comprados em excesso e abandonados em qualquer lugar, até não servirem para mais nada.

Essas acima são algumas questões que por certo estão longe da lista de prioridades do tal comitê organizador, que de tão organizado teve de mudar (?) seu comando nos últimos dias. Imaginei que ele deveria ser dirigido por gente do Estado brasileiro, que coordenasse as inúmeras funções exercidas por diferentes fontes para endereçá-las ao mesmo ponto comum às vésperas do campeonato de futebol. Mas não: seu organograma passa ao largo do poder público e trata tudo como propriedade privada, sem compromisso algum com o povo brasileiro, que, no fim, é quem está bancando a farra toda. Farra essa que pode jogar por terra todas as conquistas da última década, por absoluto distanciamento dos interesses nacionais. Uma inconsequência sem limites das instituições que delas deveriam cuidar.

__________
Publicidade

Tags:   · · · 1 Comment

Sócrates: gênio em campo e visionário das brechas de seu tempo, de sua história

dezembro 4th, 2011 by mariafro
Respond

Belíssimo o texto a 4 mãos dos meninos Matheus Pichonelli e Fernando Vives, destaco um trecho, para ler na íntegra vá até a Carta Capital “Nunca houve um ídolo como sócrates”

A bola, para Sócrates, foi uma espécie de palanque que lhe permitiu compartilhar ideias, críticas, indignação verdadeira com o estado das coisas. Que o diga sua última coluna emCartaCapital, sobre os impactos, sociais e ambientais, que a Copa do Mundo de 2014 trará para as cidades-sede.

Sócrates, ao lado do presidente Lula, durante partida entre políticos e ex-jogadores na Granja do Torto, em Brasília, em 2005. Foto: U. Dettmar/ABr

Quem se não ele? Dotado de uma inteligência que, no meio-campo, permitia ver espaços e jogadas que ninguém mais via, com a rapidez que só os gênios da bola dominam, Sócrates era também um visionário das brechas de seu tempo, de sua história. Uma história da qual sempre foi sujeito ativo. Coragem para isso não lhe faltou.

E é essa imagem que levamos dele. Brilhar pode não ser fácil. Mesmo assim, muitos brilharam, muitos driblaram, muitos marcaram gols antológicos e correram para a torcida.

Ao fim do jogo, o que disseram para toda essa gente de pé, que aplaude e vaia (e ouve)? Que espetem seus cabelos à moicano? Que usem faixas na testa? Que comprem o maior número de carros importados para apagar qualquer resquício das origens humildes?

Ou que rasguem bandeiras, pensem e lutem por um mundo melhor, menos desigual, mais humano? E dialoguem de igual para igual com cartolas (muitos ainda são déspotas, esclarecidos ou não), jornalistas, poder público?

De Sócrates não haverá grande jogada, gol ou vibração que se compare com a sua postura, coerência, engajamento e inteligência fora de campo.

O mundo seria melhor se houvesse dois Sócrates a cada século.

_______________
Publicidade

Tags:   · · · · No Comments.

O Corinthians é uma voz, num país sem voz. Sócrates

dezembro 4th, 2011 by mariafro
Respond

Por sugestão do Victor Farinelli, via Facebook

“O Corinthians é muito mais que um clube de futebol. O Corinthians é uma religião, é uma grande nação, mas muito mais do que isso, o Corinthians é uma voz, o Corinthians é uma força, é uma forma de expressão que a sua população tem. Num país em que os mais fracos social, política e economicamente não têm voz nunca, neste caso têm. Através do Corinthians, eles conseguem se manifestar, quer dizer, a torcida corinthiana utiliza o seu clube, o seu time, a sua expressão física, como forma de contestação de tudo aquilo que não lhe é dado de direito” (Sócrates Brasileiro e Corinthiano Vieira de Oliveira).


__________
Publicidade

Tags:   · · 1 Comment