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Meu conselho ao pessoal de Occupy Wall Street: Peguem os banqueiros pelo ponto que mais dói

outubro 14th, 2011 by mariafro
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Meu conselho ao pessoal de Occupy Wall Street:: Peguem os banqueiros pelo ponto que mais dói

Matt Taibbi, Revista Rolling Stones (ed. 27/10/2011) Tradução: Vila Vudu

12/10/2011

Já estive duas vezes, até agora, em Occupy Wall Street, e adoro aquilo lá. Os protestos que começaram na Praça Liberty e já se espalharam por toda a parte baixa de Manhattan são importantíssimos, resposta lógica ao Tea Party e dedo bem dado à cara da elite financeira. Os manifestantes escolheram o alvo certo e, pela recusa a deixarem a praça desde o primeiro dia, também a tática correta, mostrando ao grande público que o movimento contra Wall Street tem pique, decisão e, a cada dia, ganha mais apelo popular.

Mas… há um mas. E, para mim, é uma coisa pessoal profunda, porque essa questão de combater a corrupção que Wall Street gera é causa à qual dedico minha vida há anos, e é difícil para mim não ver qualquer ação de Occupy Wall justamente na direção em que o movimento pode ser melhor e mais eficaz. Penso, por exemplo, que os bancos devem ter-se rejubilado secretamente nos primeiros dias de protesto, certos de que haviam vencido o primeiro round da guerra pela opinião pública.

Por quê? Porque depois de uma década de roubo sem paralelo, de corrupção como jamais se viu no mundo, com dezenas de milhões de norte-americanos passando à categoria de sem teto e famintos, graças aos preços da comida artificialmente inflados, e com outros milhões de norte-americanos despejados de suas casas pela corrupção no mercado imobiliário, as manchetes de jornais durante a primeira semana de protestos contra o setor financeiro e de serviços foram dignas de revistinha de colégio de meninas.

Na minha opinião, isso diz muitíssimo sobre o desafio inicial de opor-se à hidra de 50 cabeças da corrupção pelos banqueiros de Wall Street, porque é extremamente difícil explicar os crimes da moderna elite financeira num infográfico simples.

A essência desse tipo específico de poder oligárquico é a complexidade e a invisibilidade no dia a dia. Seus piores crimes, do suborno e tráfico de influência à manipulação do mercado, do domínio sobre o governo político, comandado dos bastidores, à usurpação da estrutura regulatória que se faz dentro dos parlamentos, nada disso pode ser visto pela opinião pública, nem é noticiado pela televisão. Não haverá a foto icônica da menina com o corpo queimado por napalm, com Goldman Sachs, Citigroup ou Bank of America. – Só há 62 milhões de norte-americanos com zero na conta poupança, ou ainda devendo dinheiro, coçando a cabeça e sem entender para onde foi o seu dinheiro sumido e por que os seus votos parecem valer menos e menos, e cada vez menos, a cada ano.

Mas não importa. Façam o que fizerem, sempre apoiarei Occupy Wall Street. E acho que a estratégia básica do movimento – construir grandes números e não abandonar a praça, em vez de prender-se a um ou outro conjunto fechado de princípios – fez e continua a fazer pleno sentido. Mas aproxima-se rapidamente o momento em que o movimento terá de oferecer solução concreta aos problemas criados por Wall Street. Para fazer isso, precisarão de uma lista curta, mas potente, de reivindicações. Há milhares, mas sugiro que o movimento concentre-se em cinco:

1. Quebrar os monopólios. As cinco grandes empresas financeiras, chamadas “Grandes Demais para Quebrar” – também chamadas, mais precisamente, de “Instituições Sistemicamente Daninhas” – são ameaça direta à segurança nacional. Estão acima da lei e acima das consequências de mercado, o que as torna mais perigosas e imperscrutáveis que mil máfias reunidas. Há cerca de 20 dessas empresas nos EUA – e têm de ser desmontadas. Bom começo nessa direção seria rejeitar a ‘Lei Gramm-Leach-Bliley’ [ing. Gramm-Leach-Bliley Act[1]] e ordenar a separação das empresas de seguros, bancos de investimento e bancos comerciais.

2. Que eles paguem pelos próprios ‘resgates’. Uma taxa de 0,1% de todos os negócios de ações e bônus e uma taxa de 0,01% de todos os negócios com derivativos gerariam dinheiro suficiente para devolver aos contribuintes o que nos foi roubado nos ‘resgates’, e ainda sobraria muito para combater os déficits que os bancos alegam que tanto os preocupam. Ajudaria a conter a caça sem fim a lucros instantâneos através de esquemas de negócios internos como High Frequency Trading, e forçaria Wall Street a voltar ao negócio que se espera que seja seu meio de vida, i.e., fazer investimentos decentes em empresas que gerem empregos e ajudá-las a crescer.

3. Nada de dinheiro público para lobbies privados. Uma empresa que recebe ‘resgate’ público não pode ser autorizada a usar o próprio dinheiro dos contribuintes para pagar lobbies contra os contribuintes. Você pode ou mamar nas tetas do estado ou influenciar a eleição do próximo presidente, mas não poderá mais fazer as duas coisas. Caiam fora e deixem o povo eleger livremente o próximo presidente e o Congresso.

4. Taxem os jogadores da jogatina dos fundos hedge. Para começar, temos de repelir imediatamente o corte de impostos obsceno e indefensável, que permite que titãs dos hedge funds como Stevie Cohen e John Paulson paguem impostos de apenas 15% dos bilhões que ganham na jogatina financeira, enquanto cidadãos norte-americanos comuns pagam o dobro disso por ensinar crianças ou apagar incêndios. Desafio qualquer político a levantar-se para defender esses buracos da lei, em ano eleitoral.

5. Mudar o modo como os banqueiros são remunerados. Temos de ter leis que impeçam que executivos de Wall Street recebam bônus por encobrir negociatas que, mais cedo ou mais tarde, sempre explodem na nossa cara. Tem de ser assim: você faz um negócio, compra ações de empresas que você poderá revender em dois ou três anos. Assim, todos serão obrigados a investir na saúde financeira das próprias empresas, no longo prazo – e fim dos Joe Cassanos embolsando bônus multimilionários, só porque destruíram as AIGs do mundo.

Citando o imortal filósofo político Matt Damon de Cartas na Mesa[2], “a chave para pôquer sem limite é obrigar um homem a tomar decisões que envolvem todas as suas fichas.” A única razão pela qual os Lloyd Blankfeins e Jamie Dimons do mundo sobrevivem é que jamais são forçados, pela imprensa ou pela lei ou seja por que for, a pôr todas as suas cartas na mesa. Se Occupy Wall Street pode fazer isso – se pode falar ao mesmo tempo aos milhões de norte-americanos que os bancos reduziram à miséria e converteram em sem-tetos e desempregados – então, sim, há chance de que construa movimento massivo, de base. Só precisa meter um fósforo aceso no ponto certo, e lá estará o apoio popular para reformas reais – não depois, mas já, imediatamente.

NOTAS

[1] A Lei Gramm–Leach–Bliley Act (GLB), também chamada “Lei de Modernização dos Serviços Financeiros”, de 1999 (Pub. L. No. 106-102, 113 Stat. 1338, aprovada dia 12/11/1999) é lei aprovada pelo Congresso dos EUA (legislatura 1999–2001). Foi sancionada pelo presidente Bill Clinton e rejeitou parte da Lei Glass–Steagall (‘Lei da Prudência Bancária’) de 1933, abrindo os mercados para bancos e empresas de seguros. A Lei Glass–Steagall proibia que uma instituição atuasse em qualquer tipo de combinação como banco de investimento, banco comercial e empresa de seguros (mais, sobre isso, aqui ) [NTs].

[2] Rounders, filme de 1998. O personagem de Matt Demon é jogador que abandonou o pano verde, mas tem de voltar a jogar pôquer de apostas altíssimas, para ajudar um amigo perseguido por agiotas (mais aqui) [NTs].

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José Dirceu: Qual o projeto político de Aécio Neves para o Brasil?

outubro 14th, 2011 by mariafro
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Sem diálogo com agenda nacional?

Por José Dirceu, WSCom

13/10/2011


Foto: Conceição Oliveira, durante a festa dos 10 anos da Fórum.

Foi reveladora a entrevista do senador Aécio Neves (PSDB-MG) ao jornal O Estado de S.Paulo, por dois motivos: porque, ao final de outubro, completaremos apenas um ano das eleições presidenciais de 2010, mas Aécio já se coloca como candidato a presidente em 2014; e porque o senador não diz qual é o projeto alternativo que sua eventual candidatura representa.

É estranho Aécio querer reorganizar seu partido —e as oposições— sem apresentar um conjunto de propostas. O “auto-lançamento” contradiz com seu discurso de que faz oposição ao PT, mas não ao Brasil. Afinal, nada mais antipatriótico e contrário ao país do que se lançar a presidente, tentando precipitar de forma tão absurda a corrida presidencial, quando o mundo vive grave crise e o Brasil luta para se proteger das consequências.

A entrevista foi concedida em meio ao festival de cooptações de deputados estaduais da oposição pelo governo tucano de Minas Gerais, comandado pelo governador Antônio Anastasia, afilhado político de Aécio. E também em meio à crise das emendas na Assembléia Legislativa de São Paulo, talvez a maior vivida pela instituição. Mas esses assuntos parecem não integrar as preocupações dos tucanos.

Ao término da entrevista, não se sabe o que o único candidato a presidente em 2014 defende sobre reforma política e tributária, divisão dos royalties do petróleo do pré-sal, novas fontes de financiamento para a Saúde e o que o país deve fazer para erguer barreiras à crise internacional. Também não sabemos como Aécio vê o PSDB, que passa por uma crise profunda —como toda a oposição, aliás. O mineiro concorda com os caminhos que o partido vem tomando?

O descolamento do ambiente político foi tamanho que o ex-presidente nacional do DEM, deputado federal Rodrigo Maia (RJ), chegou a dizer que só seu partido faz oposição. Mais uma evidência de falta de rumo das oposições. Assim, as críticas que fazem não se sustentam, nem o discurso de que os avanços do Governo Lula devem-se ao que foi feito na gestão Fernando Henrique Cardoso, porque foram administrações com políticas muito distintas, como ficou claro nas formas de combater as crises econômicas que cada uma enfrentou.

O modelo que propomos é compreendido pela população. Porque desde que chegaram ao governo federal, o PT e os partidos da base aliada iniciaram um conjunto de medidas para ampliar a renda do trabalhador, melhorar a distribuição de riquezas e gerar 15 milhões de empregos. Isso foi feito a partir de um crescimento econômico sustentado e sustentável, permitindo que, via empregos e programas sociais, retirássemos 20 milhões de pessoas da linha da pobreza extrema e levássemos outras 30 milhões para a classe média.

Hoje, temos um mercado interno de massas em formação, pilar fundamental para conseguirmos recuperar e reorganizar nossas cadeias produtivas, voltando-as à exportação. O desafio do Governo Dilma Rousseff, de continuidade às transformações iniciadas há oito anos, é completar esse caminho de redução das desigualdades, mas dar um salto nas áreas de Educação, Saúde, tecnologia e inovação.

Para responder a esses desafios, o Governo Dilma tem uma agenda consistente, que engloba, entre outras iniciativas, os programas “Brasil Sem Miséria”, Pronatec e “Brasil Maior”. No campo econômico, prepara-se o terreno para cortar os juros, controlando a inflação e acompanhando os movimentos cambiais, mas também estimulando as empresas estrangeiras a adotar componentes nacionais, favorecendo a formação de cadeias produtivas em nosso solo.

Há outros assuntos cruciais, como aprovar as reformas política e tributária, avançar na construção de um acordo sobre a partilha dos royalties do pré-sal e preparar o país para a Copa-2014 e as Olimpíadas-2016, colocando-o na rota dos investimentos, com destaque para os de mobilidade urbana e os de saneamento.

Essa é a pauta do Brasil real, cujos temas estão à espera de um posicionamento claro das forças de oposição, em especial, do PSDB. A verdade é que, enquanto eles discutem nomes e furtam-se a debater a agenda nacional, o país vai avançando.

* José Dirceu, 65, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

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Lula: “A fome não leva ninguém à revolução, a fome leva à submissão”

outubro 14th, 2011 by mariafro
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Mais um belo discurso do ex-presidente Lula que recebeu na noite desta quinta-feira (13) mais um prêmio: o World Food Prize 2011, em reconhecimento aos esforços do seu governo no combate à fome e à pobreza no Brasil.


Lula fala nos EUA em conferência sobre políticas públicas de segurança alimentar. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula.

Em discurso emocionado explica como o Bolsa Família foi um projeto transformador na realidade do país, não apenas na ampliação da seguridade dos grupos mais vulneráveis como na movimentação da economia do Brasil.

O ex-presidente, por várias vezes arrancou aplausos da plateia.

Leia também:
Al Jazeera in English vai ao interior do Nordeste brasileiro conhecer o programa de combate a fome que é modelo para o mundo

O melhor texto sobre o Bolsa-Família que já li

Ainda sobre o Bolsa Família Daniel Caetano responde a Patola

Maria Rita Kehl explica a “Acumulação primitiva da democracia”

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“Dinho, o herói da Amazônia”, símbolo da resistência de Corumbiara assassinado este ano vira livro

outubro 13th, 2011 by mariafro
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Eu havia chegado em Manaus para uma mesa de debate de mídias sociais e pela luta por um plano nacional de banda larga efetivo quando soube da triste notícia que Adelino Ramos, o Dinho havia sido assassinado.

Hoje, vejo a entrevista que o blogueiro manaura, Anderson, fez com o autor do livro que contará a história de mais uma liderança da luta pela reforma agrária assassinada no Brasil.

Símbolo da resistência de Corumbiara assassinado este ano vira livro
Por Anderson Bahia, em seu blog

Assassinado em maio deste ano, o líder camponês e sobrevivente do Massacre de Corumbiara Adelino Ramos tem sua história contada no livro “Dinho, o herói da Amazônia”. A obra vem das mãos de José Barbosa de Carvalho, engenheiro agrônomo com forte ligação junto aos movimentos rurais. Este singelo blogueiro conversou com o autor sobre a vida do homenageado, o Movimento Camponês Corumbiara (MCC) e as dificuldades para publicar a obra, já que na região até quem escreve sobre a questão agrária sofre represália. Barbosa que o diga. No lançamento do seu último livro, teve a própria casa queimada. Mas assim como Dinho, insiste no desafio. Confira a entrevista:

- O que motivou você a escrever sobre o Adelino Ramos?

Barbosa: O motivo principal, em primeiro lugar, é dar alguma forma de colaboração para que o assassinato do Adelino Ramos, o Dinho, um dos maiores líderes camponês da Amazônia, não caia no esquecimento. E, em segundo lugar, para manter o assunto em evidência e contribuir para que o assassino e quem está por trás dele não fique impunes.

- O homenageado fez parte do Movimento Camponês Corumbiaras (MCC), do qual você chegou acompanhar alguns encontros. Fale um pouco sobre o MCC.

Barbosa: O Dinho foi um dos fundadores do Movimento Camponês dos Corumbiaras, o famoso MCC, fundado poucos meses depois do massacre ocorrido na cidade que leva esse nome, em Rondônia. Na ocasião, em 1995, a polícia invadiu um assentamento montado na fazenda Santa Elina e mataram 16 pessoas e deixaram mais de 50 gravemente feridos. Desde o ano seguinte, passaram a organizar os encontros do MCC que reúne trabalhadores rurais de Rondônia e do sul do Amazonas e no qual se discute a precariedade dos projetos de assentamento do INCRA, principalmente a falta de infra estrutura, as questões ambientais da Amazônia e, principalmente, a violência no campo e as áreas destinadas a Reforma Agrária, cujas terras são utilizadas por não-clientes dela. Eu tive pessoalmente no quarto, sétimo e oitavo encontros, realizados respectivamente em 2002, 2005 e 2006. Participei também da Jornada Camponesa “Escuta Brasil”, que culminou com o bloqueio das BR’s 364 e 425, e está entre as ações mais conseqüentes do movimento na reivindicação de suas pautas, já que essas são vias de escoamento de produção agrícola e do Pólo Industrial de Manaus (PIM).

- O que ele representava para o MCC?

Barbosa: Podemos afirmar que o Dinho era a maior liderança desse movimento. Até mesmo pela sua experiência. Foi uma pessoa que sempre esteve ligado às causas dos trabalhadores do campo. Começou lá no Paraná, de onde era originário, e desde criança participou da luta pela terra e pela reforma agrária naquele estado. Depois veio para Rondônia, militou no movimento sindical dos trabalhadores rurais e, em 1995, participou dos acontecimentos que redundaram no massacre de Corumbiara. A figura dele era de suma importância para o movimento, era um líder respeitado. Mas além dele há vários outros, inclusive mulheres envolvidas na luta camponesa.

- Você tem falado das dificuldades enfrentadas pelos agricultores nesses conflitos agrários na Amazônia. E quanto à publicação de livros que trazem essa polêmica, quais os desafios que se impõem?

Barbosa: As dificuldades são enormes. As editoras ficam apreensivas com a publicação dessas obras, mas estamos acostumados a enfrentar desafios e acreditamos que esse é mais que será vencido. Mas a postura das editoras tem lá sua razão. Durante o lançamento do meu livro ano passado, minha família teve um prejuízo de mais de R$ 200.00,00. Enquanto estávamos na atividade, minha casa foi incendiada e até hoje não se chegou a conclusão sobre os autores daquele atentado.

- Como você tem planejado o lançamento do livro?

Barbosa: Os desafios são imensos para a publicação da obra. Estamos procurando editoras de São Paulo, de Brasília, para lançar esta obra. Queremos lançar não só em Manaus, mas também em Porto Velho, Belém, Rio Branco. Nas principais cidades da Amazônia. Pretendo lançá-lo na passagem dos 6 meses do assassinato do Dinho e o nosso objetivo principal é divulgar essa questão da luta camponesa na região e exigir que os mandantes e assassinos de Dinho sejam devidamente punidos. A nossa esperança é que essa publicação contribua para o fortalecimento do MCC.

- Você era amigo pessoal do Adelino Ramos. Como o descreve?

Barbosa: O Dinho era uma pessoa corajosa, determinada, uma pessoa que tinha luz na sua caminhada e que era respeitado por todos, até mesmo pelas autoridades. Na jornada “Escuta Brasil”, cheguei a ver o Ouvidor Agrário Nacional, Dr. Gercino José da Silva Filho, falar para uma platéia de mais de 200 pessoas da satisfação que tinha em ser amigo dele. O Dinho era uma personalidade decidida e que enfrentava o latifúndio sem medo. Jamais acreditava que um dia seria assassinado. Sabia do perigo de denunciar madeireiros, fazendeiros e até partícipes da máquina estatal, mas jamais pensava que isso ocorreria de fato.

- Apesar desse pensamento, o Dinho recebeu várias ameaças de mortes, não?!

Barbosa: Ele era ameaçado constantemente e respondia a bastante processos na Justiça de Rondônia. Era pressionado de todos os lados. No lançamento do meu primeiro livro, “Desmatamentos, grilagens e conflitos agrários”, em julho do ano passado, na livraria Valler, denunciou que estava sofrendo ameaças que davam conta de que ele teria somente 30 dias de vida. Três dias antes, participamos de uma audiência do INCRA em que se discutiu a violência no campo e lá anunciou isso. Esteve na TV Cultura também, onde repetiu a denúncia. Ameaça de morte contra a pessoa do Dinho eram constantes. Nas oportunidades em que ele ficou alojado na minha casa, comentava sobre isso, mas era uma pessoa corajosa.

- E quem o matou?

Barbosa: O assassino do Dinho é membro da família Machado, que devido a essa questão de terra já executaram membros da própria família. São pessoas ligadas aos madeireiros e aos latifundiários. São conhecidos no município de Lábrea e também na vizinha Vista Alegre do Abunã (RO) e, principalmente, no ramal do Ipê, onde tem o Parque Nacional Mapinguari. São madeireiros que violaram o Projeto de Assentamento Florestal Curuquetê, também invadido por grileiros.

- Você tem conhecimento de como o assassino e os mandantes estão hoje?

Barbosa: Sabemos que apenas o assassino foi preso e está se discutindo a possibilidade de que o processo seja federalizado. A informação que nós temos é que os mandantes ainda não foram encontrados. Aquela área do sul do Amazonas e um pedacinho de Rondônia, bem próximo ao Acre e também a Bolívia, é uma área de intensos conflitos por terra e por madeira.

- Depois do assassinato, como está a região?

Barbosa: A notícia que tenho é de que o clima na região é de medo. No assentamento do PDS Gedeão, que fica próximo, lá então o clima é de muito medo. Principalmente por causa da ameaça feita por grandes proprietários de terra contra os agricultores. Não estive lá, mas as pessoas que têm ido trazem a notícia que o clima é de muita tensão.

- Com a repercussão da morte dele, divulgada em rede nacional de rádio, TV e internet, o que pode se esperar como resposta do Estado?

Barbosa: Após o assassinato do Dinho e o casal do Pará, o Estado tem agido com rapidez. Temos que destacar o papel da comissão do senado que apura a violência do campo na Amazônia, do qual faz parte a senadora Vanessa Grazziotin. Essa comissão já esteve em Vista Alegre do Abunã, onde ele foi assassinado, e tem feito o acompanhado. Recentemente, ouvimos falar no envio de homens da força nacional para conter a violência realizada em Santo Antonio do Matupi, que é uma região próxima do conflito.

- E quanto ao movimento, quais os caminhos a serem percorridos para essa luta continuar?

Barbosa: Nós falamos no livro sobre o futuro do Movimento Camponês Corumbiara. Apesar de ter sofrido uma baixa significativa com a morte de seu grande líder, o movimento continua firme e coeso para lutar pela reforma agrária. Porque essa questão é o imperativo para que haja desenvolvimento nacional. O Brasil precisa sair de um sistema fundiário atrasado, que remonta os tempos das sesmarias para dar um salto mais avançado com a questão do acesso à terra. Permitir que milhões de trabalhadores rurais que permanecem sem terra possam participar da produção e também da fixação no campo, aumentando a produção agrícola e o consumo. Com a morte do Dinho, o movimento sofre uma derrota, mas não a guerra. A luta continua até que a reforma agrária seja definitivamente implantada e com sucesso no Brasil.

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