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Cynara Menezes: quem é o perfeito imbecil politicamente incorreto mesmo?

outubro 3rd, 2011 by mariafro
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O perfeito imbecil politicamente incorreto

Cynara Menezes, na Carta Capital

3/10/2011

No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião. Saiba como reconhecê-lo. Por Cynara Menezes. Foto: Reprodução

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.

Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:

1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.

2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.

3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto “Jornal da Bahia”, em Salvador, onde morava. Em 1989, de Brasília, atuava para diversos órgãos da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em São Paulo, quando colaborou para a “Folha de S. Paulo”, “Estadão”, “Veja” e para a revista “VIP”. Está de volta a Brasília há dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital.

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José Augusto Valente: Dilma não muda concessão de rodovia nem recua

outubro 3rd, 2011 by mariafro
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Discordo da afirmação de que Dilma recua e muda concessão de rodovia

Por: José Augusto Valente*, Agência T1, encaminhado por mail pelo autor e originalmente publicado no Blog do Zé Dirceu 3/10/2011o

ImageMatéria publicada na Folha de São Paulo (2/10/11) afirma que a presidenta “Dilma recua e muda a concessão de rodovia”. No caso, a BR-101/ES.

Discordo de grande parte das afirmações e juízos feitos, na matéria, sobre o assunto e apresentarei as fundamentações a seguir.

Para começar, a matéria desconhece os motivos que exigem a duplicação de uma rodovia ou a simples, mas importante, implantação de terceiras-faixas.

Ao contrário do senso comum construído pela imprensa, e pela CNT, não é o desejo do ministro, do governador ou da presidenta que orienta sobre a necessidade de investimentos em aumento de capacidade das rodovias, mas sim o HCM (Highway Capacity Manual), a bíblia dos estudos de tráfego, que é A REFERÊNCIA para a maioria dos países, inclusive o Brasil.

Segundo o HCM, a fundamentação correta para investimentos em aumento de capacidade de uma rodovia, é a respectiva queda do nível de serviço da via ou de trechos, função do volume e do perfil do tráfego, combinados com restritas condições geométricas da via. Tudo isso submetido a necessários estudos de viabilidade técnico-econômica.

Quanto mais veículos e quanto maior o percentual de caminhões, num traçado de rampas elevadas, seqüência de curvas e raios pequenos, pior o nível de serviço e maior a necessidade de terceiras-faixas e duplicação.

Assim, rodovias em terrenos ondulados ou montanhosos apresentam maior necessidade de investimento em terceiras-faixas, por exemplo. Que serão executados conforme possibilidades de execução orçamentária. Se a implantação de terceira-faixa exigir um túnel em rocha, dificilmente será executado e aquele trecho continuará com nível de serviço ruim. Sem grandes dramas. Isso também acontece nos países desenvolvidos.

Outro trecho da matéria diz que “Ao contrário dos editais anteriores, o da BR-101/ES elimina grandes obras nos primeiros anos de concessão”. Mais uma vez, essa afirmação não tem fundamentação, já que é o HCM e não a vontade do gestor ou o Edital, ou mesmo o TCU, que define isso.

É necessária a análise de que na licitação anterior – dos sete lotes – havia maior exigência de investimentos de duplicação do que no edital da BR-101/ES. E que essa redução se deveu ao fato de que as obras não estão ocorrendo nos ritmos definidos nos respectivos cronogramas. Trata-se de comparar melancia com morango.

Isso porque as rodovias constituintes desses sete lotes, à exceção da BR-393/RJ e da BR-153/SP, apresentavam baixos níveis de serviço, há bastante tempo, exigindo investimentos pesados em terceiras-faixas e duplicação.
Em especial, a rodovia Régis Bittencourt tem um ponto crítico, mencionado na matéria, que é a Serra do Cafezal, cujo motivo para não execução é ambiental (de difícil solução) e não econômico-financeiro. O que não é mencionado pela matéria.

Não tem fundamentação, também, a frase “No início das concessões (anos 1990), o pedágio ficou caro, mas as obras eram feitas rapidamente.”

A modelagem daquele período definia o “risco de tráfego” como do poder concedente. Assim, se o tráfego evoluía menos do que o projetado no edital, a concessionária tinha o direito de aumentar o valor da tarifa para fazer face a esse desequilíbrio. A partir do edital dos sete lotes, esse risco passou a ser do concessionário. Sem contar que os valores da TIR, naquele período, tinham que ser, necessariamente, mais elevados devido às incertezas da economia, característica dos governos Collo-Itamar-FHC, o que onerava o valor de tarifa proposto.

Essa conjuntura não foi a mesma da do período da licitação dos sete lotes, já que havia maiores certezas sobre o desenvolvimento sustentado do país.

Além disso, as obras não eram feitas tão rapidamente assim. Como exemplo, a nova descida da Serra das Araras, da Dutra, apesar de necessária não foi feita até hoje.

Finalmente, a matéria ao afirmar que o modelo do governo federal não deu certo permite supor que o modelo do governo do Estado de São Paulo, onde os pedágios são caríssimos, são mais adequados. Isso não é dito com todas as letras, mas, salvo melhor juízo, foi o que depreendi do texto.

Todo mundo sabe que a OHL, empresa vencedora de cinco dos sete lotes, “mergulhou” pesadamente no valor da tarifa de pedágio, e por isso apresenta dificuldades em cumprir os cronogramas.

É óbvio que isso não é uma “dificuldade do modelo da Dilma”, mas sim uma conseqüência natural da aplicação da lei de licitações, cabendo à ANTT utilizar “mão de ferro” para garantir a elevação dos níveis de serviços daquelas rodovias, exigindo o cumprimento dos prazos e aplicando as sanções cabíveis, quando necessárias.

O modelo de “outorga onerosa” do governo de São Paulo, por outro lado, traz, como conseqüência, elevados valores de pedágio aumentando o custo logístico e, por conseqüência, o Custo Brasil, onerando o consumidor brasileiro e dificultando a competição dos nossos produtos no mercado internacional.

Em resumo, a única informação fundamentada dessa matéria é a de que as empresas vencedoras (na verdade, a OHL) da licitação dos sete lotes não estão conseguindo executar os investimentos definidos no edital. Mas isso não tem nada a ver com o “modelo da Dilma” e sim com as circunstâncias específicas dessa licitação, com a estratégia da OHL para se consolidar no mercado brasileiro e com a atuação da ANTT.

*José Augusto Valente é Diretor Executivo da Agência T1.


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Janio de Freitas: Crimes bem aceitos, sobre a violência policial na repressão às greves

outubro 2nd, 2011 by mariafro
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Crimes bem aceitos

Por Janio de Freitas, Folha de São Paulo, via Conteúdo Livre

02/10/2011

Se as práticas de repressão contra greves usam de violência desumana e criminosa, no Estado de Direito devem ser tratadas como tais.

O ressurgimento das greves e outras manifestações reivindicatórias traz também de volta a vulgarização de uma prática inadmissível no Estado de Direito: a violência da repressão policial, executada com características criminosas. E impune, portanto. Mais ainda: como representação do Estado. Logo, Estado policial.

A ferocidade descarregada pela polícia do Ceará contra professores que pretendiam acompanhar, na Assembleia Legislativa, uma votação do seu interesse, não deveu nada, no propósito e na violência armada contra indefesos, à sanha da polícia, da soldadesca e de seus chefetes na ditadura. Pessoas arrastadas pelos cabelos, espancadas, chutadas no chão, feridas -cenas assim voltam a repetir-se com frequência. E não suscitam, da parte dos meios de comunicação em geral, mais do que registros banais, quando existem. Da sociedade, organizada ou dispersa, apenas a indiferença abobalhada.

A tucanice já debitou a Dilma Rousseff o ressurgimento e as próprias greves. Mas só a dos Correios é federal, as várias outras são estaduais. Dessa divisão decorre um reflexo agravante. As vítimas costumeiras da repressão criminosa são grevistas e manifestantes de atividades estaduais ou municipais.

A menos que se excedam muito, servidores federais são mais poupados pelos governantes regionais para evitar problema com o governo central. É uma prova a mais do comprometimento desses governantes com a violência criminosa de suas polícias.

A desculpa é sempre a mesma: os grevistas ou manifestantes iniciaram o conflito. Os uniformes e equipamentos atuais das PMs, porém, estão aptos a suportar ilesos e a reprimir sem violência criminosa o que civis desarmados, e expostos na indumentária singela, podem fazer.

A repressão que extravasa perversidade é criminosa. Não pode representar o Estado de Direito, pela simples e forte razão de que o trai. Nega-o. A sempre citada necessidade de formar policiais avessos à corrupção e ao bandidismo é um problema funcional. Há também, no entanto, o problema nunca citado e maior do que qualquer outro, porque na raiz de todos: o problema institucional da falta de civilidade das polícias. Carência básica da seleção, formação e atividade dos policiais.

Carência equivalente existe fora das polícias e em relação a seus métodos: se as práticas de repressão usam de violência perversa, desumana, criminosa, no Estado de Direito devem ser tratadas como tais. Sob leis condenatórias com peso idêntico ao aplicado a civis e até, às vezes, a crimes de policiais fora de serviço.

O “excesso”, como dizem, só é excesso em regime policialesco. No Estado de Direito é crime, e ao processo respectivo devem submeter-se os acusados de praticá-lo e de autorizá-lo. Então, estará dado um passo para a democracia.

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Neofascistas decretam pena de morte em Cuiabá

outubro 2nd, 2011 by mariafro
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Neofascistas decretam pena de morte em Cuiabá

Por: João Negrão, especial para o Maria Frô

A pena de morte está estabelecida no Brasil. Pelo menos em Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso. Lá, não foram os legisladores, não foram vereadores ou deputados estaduais que a votaram, até porque eles não têm competência para tal legislação. Essa nova lei, no entanto, foi decreta pelos neofascistas, que conseguem arrastar para suas opiniões até gente de formação humanística, no entanto vacilante.

Os neofascistas tomaram conta – ou tentam assaltar – a opinião pública de Mato Grosso. Decretaram que um ser humano deve morrer por ter cometido supostos crimes. Sem julgamento, sem o mínimo de clemência. Decretaram que o africano de Guiné-Bissau Toni Bernardo da Silva, estudante de Economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) é um bandido e por isso mereceu morrer.

A pena de morte decretada pelos neofascistas não deve ter execução pela forca, nem por doses cavalares de veneno em suas veias, nem na cadeira elétrica e muito menos por fuzilamento. A morte deve ser por pontapé na traquéia, o golpe mortal depois de uma sessão de espancamento. Este é o padrão de morte das vítimas da intolerância.

Invertendo toda a lógica da civilização, os neofascistas decretam a morte e depois fazem o julgamento: o Toni mereceu morrer porque:

- Tem passagens pela polícia – Quais passagens, o que ele cometeu? Até agora ninguém especificou quais passagens e quais crimes ele cometeu;

- É ladrão de botijão de gás – mesmo que a acusação seja infundada e que ele tenha sido tirado das garras da polícia que o prendeu pela própria Polícia Federal;

- Discutiu com a namorada – cadê o BO, ele a agrediu, tem depoimento dela, quem era ela? A única ex-namorada com a qual eu sei que o Toni teve desentendimentos foi a mesma pessoa que o introduziu ao crack e tirou tudo do pouco que ele tinha;

- Foi expulso da UFMT por envolvimento com drogas e “má conduta”, segundo a própria instituição. O envolvimento com crack é fato, mas a má conduta fica por conta de quem não quer ter responsabilidade por aqueles que deveriam ajudar cuidar. Qualquer professor ou colega do Toni na UFMT, assim como nas empresas e instituições que ele estagiou,
pode testemunhar a sua boa índole.

- Está ilegal no Brasil. Todos que acompanharam seu caso sabem que o Toni ainda estava tentando retornar à UFMT para concluir o curso e voltar para seu país. Os amigos, colegas e alguns de seus professores tentaram de tudo para que ele fosse ao tratamento e concluísse o curso.

- Tentou assaltar a mulher de um de seus assassinos. Versão, aliás, que surge agora, 11 dias depois do assassinato. Por que essa versão não foi apresentada logo após o ocorrido? Por que só agora, quando aparece a imagem de uma das câmeras da pizzaria Rola Papo? Aliás, imagens sem muita definição e que não dizem muita coisa, a não ser o fato de que o Toni foi mesmo espancado até a morte. Cadê as imagens das outras câmeras? As imagens foram periciadas?

Pois bem, diante de todos os “crimes” cometidos acima, ficou decretado: o Toni mereceu morrer. Nada de estado de direito democrático. Nada de civilização. Esses neofascistas quem o retorno à barbárie.

O homem evoluiu para a civilização depois de milhares de anos vivendo a barbárie. Ao longo do desenvolvimento da Humanidade, entre altos e baixos, a sociedade humana foi criando mecanismos para torná-la mais civilizada. Em muitos aspectos ela conseguiu. Em outros ainda estamos nos estrebuchando para nos tornamos civilizados.

Um dos avanços da humanidade é o estado democrático de direito, sob o qual qualquer ser humano merece ter julgamento justo para depois, se for comprovada a culpa, ser condenado. E condenado conforme as leis do país e com pena equivalente ao crime que cometeu.

Para os neofascistas de Cuiabá isto tudo é letra morta. Como disse, eles invertem a lógica civilizatória. Além de condenar uma pessoa à pena de morte que não existe oficialmente em nosso país, essas pessoas (?) concordam com a morte antes do julgamento.

Para os neofascistas nem a lei de Talião vale. O Código de Hamurabi para esses indivíduos é fichinha. Se o “dente por dente olho por olho” era praticado há quase 4 mil anos atrás, hoje, em pleno século 21, os neo-fascistas de Cuiabá querem mais horror e barbárie.

Há quatro tipos de gente que propagam, se convencem e ajudam a propagar a tese que sustenta a estratégia de defesa dos assassinos, a de que o Toni era um bandido e por isso mereceu morrer. Vamos a eles:

1 – Os familiares e advogados.

Estes estão fazendo o papel deles. Abominável, diga-se, mas é direito deles. É compreensível que queiram encontrar uma linha de defesa para os assassinos. Mas é lamentável que se apeguem à desqualificação do morto, um padrão, aliás, para estes casos indefensáveis.

Estes não me assustam. Ao contrário: tenho até penas das mães e pais dos rapazes que mataram o Toni. Fico imaginando como o coração deles devem estar estraçalhados e o conflito que suas consciências devem estar passando. Fico imaginando como estariam sentindo suas esposas, namoradas, filhos e amigos. Sem falar no mal-estar que eles provocaram em todos e nas dificuldades morais e materiais que estão tendo para administrar essa tragédia para eles, do ponto de vista deles.

2 – Os venais.

Estes são aqueles, inclusive jornalistas, que estão comprando (e vendendo) a estratégia da defesa de desqualificar o Toni e transformá-lo em bandido. Estes são vis, repugnantes, inescrupulosos e suas próprias vidas pessoais e profissionais se encarregarão de julgá-los mais tarde. Tenho vergonha de ter convivido com alguns deles.

3 – Os inocentes úteis.

Estes são pessoas de bem, conscientes até de suas condições de cidadãos, mas que não estão imunes ao martelar do mantra: “O Toni é um bandido e merecia morrer”. São vacilantes quanto a justiça, mas decisivos a encontrar desculpas para seus próprios desvios e de seus pares.

Uma pessoa pela qual nutro um grande carinho me perguntou pelo Facebook: “João, e se o Toni for culpado?”. Esta é a pergunta que os inocentes úteis fazem. Este meu amigo, quero crer, não me parece se enquadrar no perfil seguinte, mas adota todas as idéias dos neofascistas.

4 – Os neofascistas.

Estes são os perigosos. Os neo-fascistas querem a morte, querem o fígado, a destruição de tudo que não se enquadra no padrão que eles consideram ser o de vida ou estético. Os neo-fascistas mais que defendem a pena de morte: eles querem a eliminação física de tudo que não lhes são agradáveis. E sumariamente. Mais ainda: eles se divertem com o sofrimento de seus desafetos gratuitos.

Os neofascistas não são um fenômeno de Cuiabá. Nem do Brasil. Os neofascistas são um fenômeno mundial , que cresceu e vem se fortalecendo depois da implantação do neo-liberalismo. Esta nova geração é a geração pós implantação do neoliberalismo, no início da década de 80. Podem fazer as contas: são rapazes e moças com menos de 30 anos, especialmente.

O neoliberalismo, esta fase do capitalismo que aprofundou o egoísmo, a competição desenfreada e a intolerância, está nos seus estertores e tem como contestadores parte da mesma juventude que ele ganhou para sua ideologia do individualismo e da intolerância. Tudo emoldurado por um consumismo desenfreado e a prevalência de valores e crenças maléficas, contrapondo a fraternidade, o altruísmo e a solidariedade.

É cada vez mais comum frases que ganham as pessoas como: “Cada um com seus problemas” ou “O problema é seu, você que fez suas escolhas”.
Vejo isto como um egoísmo atroz. São comportamentos disseminados pelos meios de comunicação, pela propaganda, pelo cinema, pela televisão e, pasmem, até por escolas e igrejas.

É triste ver jovens com pensamentos tão reacionários e egoístas do nosso lado. São amigos, filhos de amigos, sobrinhos, amigos de filhos e filhas, colegas de trabalho. Já trabalhei com estagiários que afirma sem nenhuma cerimônia: “não gosto de pobre”. Não são poucos eles. Não são poucos o que pensam que “bandido bom é bandido morto”, que não se importam com o racismo e se dizem não-racistas porque têm “amigo” negro; que não são homofóbicos porque têm “amigo” ‘bicha’. Mas são esses os primeiros a fazer piadas e ridicularizar negros e homossexuais.

No meio dessa juventude sem rumo é que as idéias fascistas vão ganhando corpo e costumam se manifestar nesses momentos de contradições, como o do assassinato do Toni. Esses momentos são divisores de água. É neles que ficamos sabendo de fato que é quem, quem pensa o quê e com quem podemos contar para a construção de um mundo melhor.

Leia também:
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