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Levante Popular da Juventude escracha o coronel torturador Brilhante Ustra

março 31st, 2014 by mariafro
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Levante Popular da Juventude escracha Brilhante Ustra

Da Redação, Brasil de Fato

31/03/2014

O escracho foi realizado no local onde reside o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que coordenou mais de 500 sessões de tortura em pessoas que lutavam contra a ditadura civil-militar no Brasil

Nesta segunda-feira (31), véspera do dia em que o Golpe Civil-Militar completa 50 anos, os movimentos Levante Popular da Juventude, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e do MST promoveram, a partir das 15 horas, um ato de repúdio a todos os abusos e violências sofridos pelos militantes que lutaram contra as arbitrariedades impostas pelo regime de exceção que vigorou no Brasil até 1985.

O escracho foi realizado no local onde reside o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que coordenou mais de 500 sessões de tortura em pessoas que lutavam contra a ditadura militar no Brasil. Hoje com 81 anos, ele foi o único torturador da história do Brasil a receber uma condenação da Justiça, porém continua solto.

“O momento é importante, não apenas pela data, mas porque a disputa ideológica que levou o país ao golpe militar ainda está em aberto, com posicionamentos cada vez mais explícitos, inclusive na grande mídia, de grupos e setores interessados na repressão aos movimentos sociais e às manifestações de rua, que certamente se tornarão mais recorrentes nos próximos meses, com a realização da Copa do Mundo e das eleições 2014”, disse o comunicado de chamamento para o ato.

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março 31st, 2014 by mariafro
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No artigo reproduzido abaixo neste post, historiador da PUC-SP afirma que O DIA, assim como ‘O Globo’, ‘JB’, ‘Estado de S. Paulo’ e ‘Folha de S. Paulo’, também apoiaram o golpe de 1964 que depôs o presidente João Goulart. Segundo Francisco Alves Filho os jornais da época endossaram a ideia de setores minoritários, mas poderosos, que influenciavam a sociedade brasileira

O papel da mídia colaboracionista durante a ditadura militar também foi o tema do debate “Rede Globo do Golpe de 64 à censura hoje” que ocorreu sábado a noite na sede regional dos Sindicato dos Bancários. Durante duas horas jornalistas e historiadores com décadas de pesquisa na área mostraram como a grande mídia no Brasil não apenas colaborou com a ditadura como foi protagonista da instabilidade de um governo popular e democraticamente eleito preparando terreno para o golpe militar.

O historiador Luiz Antonio Dias, PUC-SP informou que na pesquisa Ibope de meados de 1963, o presidente eleito João Goulart tinha 70% de aprovação popular, aprovação de 86% entre os entrevistados da classe pobre e 62% nas classes A e B.
Na mesma pesquisa que investigava as intenções de voto para as futuras eleições, Juscelino Kubitschek ganharia em todas as capitais, mas na pergunta “E se Jango pudesse ser candidato?” Jango ganharia de Juscelino em todas capitais menos em Recife e BH, mas mesmo assim teria 39% das intenções de voto em BH.
O historiador afirma ainda que a Folha nunca teve censor em sua redação, que Estadão pedia intervenção dos militares desde 1963.
Segundo suas pesquisas em meados de 63 João Goulart tinha grande popularidade, foi a grande mídia que preparou o terreno para o golpe.
Dias cita um Caderno especial da Folha com 44 páginas publicadas na manhã de 31/3/1964 que mostra claramente que os Frias e seus anunciantes sabiam que o golpe ocorreria no final da noite.

A historiadora Bia Kushnir, autora de Cães de Guarda, mostra que havia apenas 220 censores no Brasil para cobrir todo o território nacional e questiona: “Como 220 pessoas conseguiriam controlar toda a imprensa, teatro, cinema, rádio, tvs? Não conseguiram.A grande mídia foi parceira da ditadura militar, foi colaboracionista. Se a resistência tivesse existido por parte da grande mídia a ditadura não teria durado tanto tempo.” É falácia da Folha, Estadão e Cia dizer que o Estado censurava a grande mídia.

De acordo com a historiadora os grandes jornais tinham entre seus quadros policiais do Dops, que andavam de metralhadora nas redações. Ela mostra que a imprensa foi colaboracionista da Ditadura Militar.

A grande imprensa do passado foi golpista tanto quanto é hoje.

O professor, ativista do movimento negro e blogueiro da Carta Capital, Douglas Belchior, tratou sobre o racismo da grande mídia, da sociedade brasileira e do racismo institucional.

Já o historiador tratou do marketing social da Globo, desvendando seu Star System com atores despolitizados, especialmente entre os mais jovens. Para ele há um empobrecimento da tv de massa num mercado cada vez mais internacionalizado.
Paulo Henrique Amorim criticou duramente o governo petista que há doze anos no poder não tomou nenhuma medida a favor da democratização das comunicações e sequer tem coragem de desmentir os constantes ataques à democracia promovido pelo monopólio midiático: “É o primeiro governo trabalhista da história covarde, que não enfrenta a ditadura da mídia, governo passivo que permite que a mídia conservadora infecte o ambiente político, fragiliza a democracia e põe em risco todos aqueles que lutam para manter o direito à liberdade de expressão. Paulo cita uma série de blogueiros processados por Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo.

É preciso divulgar a verdade, 50 anos depois das décadas mais tristes e tenebrosas que fomos obrigados a viver, tem ~historiador~ conservador fazendo revisionismo barato.

Ouçamos e leiamos gente séria, pesquisadores que não precisam manipular documentação ou recortes de pesquisa pra provar tese furada como fazem as figuras tristes como Marcos Villa.

Já há um número considerável de pesquisas sobre o tema da mídia colaboracionista da ditadura militar, leia-as e pare de repetir bobagens que a Folha, Estadão, Globo te contam.

Folha e o Estadão e toda grande mídia cevaram o golpe, aplaudiram-no, acolheram-no. Globo nasceu como presente dos golpistas para Roberto Marinho.

A Folha foi tão colaboracionista que emprestava suas caminhonetes para torturadores, empregava policiais do DOPS e entregou para a prisão e tortura Rose Nogueira que trabalhava em sua redação e depois a despediu como abandono de emprego, mesmo sabendo que amamentando ela estava sendo violentada, humilhada nos porões da ditadura!

Hoje esta imprensa cínica, reacionária e golpista tenta recontar a história como se não fôssemos capazes de pesquisar, analisar.

Mesmo com um governo acovardado diante de tantos ataques à verdade e à justiça, mesmo sabendo que Jango seis meses antes do golpe tinha expressivo apoio popular, esse governo leniente parece anestesiado, incapaz de enfrentar essa mídia golpista. Mesmo assim, não passarão!

Desculpem a nossa falha

Francisco Alves Filho, O DIA

29/03/2014 13:17:55 – Atualizada às 30/03/2014 00:34:21

Rio – Os cariocas que foram às bancas na manhã de 31 de março de 1964 se depararam com o título em letras garrafais na primeira página do DIA , ao estilo das manchetes policiais: “Exército e Marinha unidos no mesmo objetivo: disciplina!” O jornal mostrava assim o seu apoio ao golpe militar, que poucas horas depois expulsaria da presidência João Goulart para iniciar um período negro de 21 anos na História do Brasil. Como O DIA , a ampla maioria da imprensa brasileira apoiou a quartelada. “Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade”, defendeu o editorial do ‘Jornal do Brasil’, em 1º de abril. Já o editorialista do ‘Globo’, no dia 2, declarou o Brasil salvo da “comunização” e sugeria aos brasileiros “agradecer aos bravos militares que os protegeram dos inimigos”. No Rio, apenas a ‘Ultima Hora’ defendeu Jango.

Passados 50 anos do golpe, o tom dos jornais ao tratar do tema é justamente o oposto. Desfiam uma série de críticas e denúncias contra a supressão dos direitos civis, a tortura e os assassinatos praticados pelo governo militar. Tudo como se a imprensa nunca tivesse ficado ao lado do regime que se instaurou. Analisar mu­dança tão radical pode ajudar a desmistificar o papel dos meios de comunicação na cobertura política brasileira. “A grande imprensa construiu uma memória para si que não corresponde à realida­de”, define a historiadora Beatriz Kushnir, autora do livro “Cães de Guarda”, sobre o papel do jorna­lismo na ditadura. “As redações aderiram maciçamente ao golpe, pedindo a saída de Jango. Tempos depois, passaram a conviver com a censura, mas muitas empresas jornalísticas continuaram a ter ligação com o governo militar.”


Clique aqui para ver o infográfico completo

Para justificar a parceria com os golpistas e a oposição às anun­ciadas Reformas de Base, a argu­mentação era de que os jornais traziam impressos em suas pági­nas os clamores de grande parte da sociedade. “A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo”, bra­dava o editorial de 1° de abril, do extinto ‘Correio da Manhã’, sob o título “Fora!”. E continuava, como se fosse o porta-voz de todos os brasileiros: “Só há uma coisa a di­zer ao Sr. João Goulart: saia.” Na capital paulista, a imprensa seguia o mesmo padrão. “Magalhães: hie­rarquia e disciplina estão em peri­go”, estampou, na véspera do gol­pe, a Folha de S. Paulo, nas páginas 2 e 3, referindo-se ao discurso do governador mineiro, um dos prin­cipais opositores de Jango.

Os textos do DIA não chega­vam ao nível de histeria de ‘O Globo’, ‘Correio’, ‘Folha’, ‘Estado de S. Paulo’ e ‘JB’, mas gradativa­mente o jornal foi abrindo espaço para matérias a favor dos que pre­tendiam derrubar João Goulart. Apesar disso, ainda manteve co­rajosamente na capa de 1º de abril um recado do presidente que se­ria deposto: “É uma insensatez pretender reprimir pela força as aspirações populares”. A partir daí, passou a endossar a ideia da guerra contra a ‘comunização.’

Enquanto se passava por in­térprete da insatisfação nacional, a imprensa tinha informação para saber que a população não estava contra Jango. Eram duas pesquisas do Ibope. Uma delas, sem contratante identificado, foi realizada entre 9 e 26 de março de 1964, em oito capitais. Uma das questões era sobre a necessida­de da reforma agrária defendida pelo presidente: em todas as cida­des, a maioria dos entrevistados aprovou a medida. A maior se deu no Rio, com índice de 82%. Em resposta a outra pergunta, pes­soas ouvidas em cinco das oito capitais disseram que elegeriam Jango caso ele tentasse a presi­dência em 65.

Essa pesquisa não chegou a ser publicada nos jornais daquele ano. Foi resgatada do esquecimento há pouco por Luiz Antonio Dias, pro­fessor de História da PUC-SP, pres­tes a lançar o livro “O Jornalismo e o Golpe de 1964: 50 Anos Depois”. “Os jornais, na verdade, endossa­vam as ideias de setores minoritá­rios da sociedade, mas poderosos”, analisa Dias. Outro levantamento, feito em São Paulo entre 20 e 30 de março, a pedido da Fecomércio, revelava que 72% dos pesquisados achavam o governo Jango de razo­ável a ótimo. Entre os mais pobres o índice subia para 86%.

O professor acredita, porém, que os integrantes de vários desses veículos de comunicação certamente não imaginavam que João Goulart seria sucedido por um regime tão truculento. “Com a censura e a escalada de arbi­trariedades, muitos jornalistas passaram a enfrentar o governo militar e sofreram consequên­cias trágicas, como foi o caso de Vladimir Herzog (profissional paulista assassinado em 1975, por enforcamento, numa prisão do DOI-CODI, em São Paulo).” A longa temporada de atuação dos censores deixou marcas profun­das. “Aprendemos a ter ódio e nojo da censura e das ideologias pervertidas que tentam enfra­quecer a liberdade de expressão”, acredita Aziz Filho, atual diretor de redação do DIA.

Do apoio ao repúdio à ditadura, a análise da atuação dos jornais nesse período pode render boas lições para quem vê a política através da imprensa. “O que está publicado não é a verdade dos fa­tos, mas apenas uma determina­da visão dos fatos”, explica Beatriz Kushnir. Vinda do passado, a lição que fica para o presente e para o futuro é a de ter leitura crítica so­bre tudo o que os jornais publicam – inclusive essa reportagem que você acaba de ler agora.

Censura bem antes do AI-5

Um erro comum é marcar o início da censura à imprensa apenas em 1968, depois do anúncio do Ato Ins­titucional número 5, que restringiu ainda mais as liberdades no Brasil. Alguns anos antes, vários jornais que se opuseram ao governo militar foram invadidos e tiveram suas ins­talações destruídas. Isso aconteceu com periódicos de médio porte, mas também com grandes veículos de imprensa, como os extintos jornais ‘Ultima Hora’ e ‘Correio da Manhã’, ambos do Rio de Janeiro.

Depois de 68, a censura tornou-se sistemática e em muitas redações os representantes do governo acompanhavam o fechamento dos jornais para determinar o que podia ou não ser publicado. “Lembro de dois co­ronéis fardados que ficavam na reda­ção no papel de censores”, lembra o jornalista Luarlindo Ernesto, do DIA , que na época trabalhava no jornal ‘O Globo’. “Várias vezes chegavam com uma relação de assuntos que não po­deriam ser publicados.”

O teor dos temas proibidos ia desde manifestações de insatisfação política a delitos de vários tipos pra­ticados por membros das Forças Ar­madas – incluindo crimes passionais. Alguns jornalistas que desobedeciam à censura foram detidos e levados para a prisão da Ilha das Flores. De­pois de algum tempo, a ditadura ado­tou o método de enviar às redações ordens escritas, com detalhes sobre o conteúdo recomendado. Eram os chamados “bilhetinhos.” À frente do Jornal do Brasil, Alberto Dines, por exemplo, contou ter recebido 288 ordens desse tipo, de setembro de 1972 a dezembro de 1974.

Em muitas ocasiões, os meios de comunicação tentaram driblar as limitações impostas pela censura. Ao noticiar a publicação do AI-5, por exemplo, o JB aproveitou a coinci­dência de uma data comemorativa para estampar na primeira página: “Ontem foi o Dia dos Cegos.” Em outro espaço, usou a previsão da meteorologia para destilar mais iro­nia: “Tempo negro. Temperatura su­focante. O país está sendo varrido por fortes ventos. Mínima – 5 graus, no Palácio Laranjeiras. Máxima – 37, em Brasília.” Na chamada imprensa alternativa, O Pasquim foi o campeão de desobediência. Ficou famosa a entrevista com Leila Diniz em que os palavrões foram substituídos por as­teriscos e cifrões.

Apesar desse tipo de estratégia, a historiadora Beatriz Kushnir avalia que as empresas jornalísticas não foram tão firmes como deveriam ter sido no repúdio à censura. “Se essa resistência tivesse sido tão gran­de, os 220 censores que tinham a missão de controlar toda a impren­sa brasileira não conseguiriam dar conta das suas tarefas”.

‘Correio’ é exemplo da guinada

Um caso extremo nessa trajetória da imprensa, que passou da defesa do governo militar à oposição ao regime, é o que aconteceu com o extinto jor­nal carioca ‘Correio da Manhã’, cuja primeira página é reproduzida nesta edição. Dois de seus editoriais contra o governo Jango são lembrados até hoje como os principais exemplos de apoio ao golpe.

“Não é tolerável esta situação calamitosa provocada artificialmen­te pelo Governo, que estabeleceu a desordem generalizada (..)”, esbra­vejava o veículo em 31 de março, no texto intitulado ‘Basta!’. No dia 1° de abril, o editorial ‘Fora!’ traçava para Jango o perfil de um inconsequente. “É o maior responsável pela guerra fratricida que se esboça no território nacional”. O golpe foi comemorado nas páginas do ‘Correio’.

Quando, gradativamente, os direitos civis fo­ram sendo retirados, o jornal passou a se opor à ditadura. Por causa disso, foi perseguido, teve a sede atacada a bomba, invadida e interditada. Uma das edições foi confiscada e a proprietária, Niomar Moniz Sodré Bittencourt, ficou presa por mais de dois meses. Diante da asfixia política e financeira, o jornal por onde passa­ram Lima Barreto, Antonio Callado e Carlos Drummond de Andrade foi ar­rendado a um grupo de empreiteiros simpáticos aos militares e tornou-se alinhado com o governo. Acabou fechando seis anos depois.

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março 31st, 2014 by mariafro
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Via, Palmério Dória que observou em seu Facebook:

“Paracanã foi a primeira tribo contatada na rota da Transamazônica em pleno Pra Frente Brasil. Tive a sorte de cobrir o encontro. O “furo” saiu na Província do Pará, Jornal da Tarde, O Globo e Jornal Nacional. Começa aí mais uma onda do genocídio indígena. Um balanço que restou para a Comissão da Verdade. Com base em seus dados, Leão Serva bota luz sobre o horror em artigo preciso para a Folha de hoje. Fala 8 mil índios mortos por causa da construção dessas estradas na Amazônia só durante o governo Médici. O massacre prosseguiu até 1985 — me pergunto se não vem até os nossos dias. Mal começamos a desvendar a história dos índios exterminados em nome do Brasil Grande.”

Índios, as maiores vítimas da ditadura
Leão Serva,  No jornal colaboracionista da ditadura militar que emprestava caminhonetes para torturadores
31/03/2014

Os índios são apenas 0,47% da população brasileira. Ainda assim, mais indígenas morreram por decisões da ditadura iniciada há 50 anos do que as vítimas de outros grupos, armados ou não. Um único povo do Amazonas perdeu mais habitantes pela violência da imposição da construção de uma estrada em suas terras, a partir de 1971, do que todos os não índios mortos segundo as maiores estimativas. Como esse, inúmeros outros grupos foram vítimas do lado mais brutal e, até hoje, menos conhecido daqueles anos de chumbo.

A Comissão da Verdade, que investiga crimes cometidos pelo governo ou agentes do regime autoritário, suspeita que tenham sido mil mortos ou desaparecidos políticos entre 1964 e 1985. A construção de estradas na Amazônia, no governo do general Garrastazu (1969-1973), matou 8 mil índios, segundo estima a comissão.

Quando considerados os mortos indígenas relativamente à população das etnias, os resultados apontam para um genocídio. No Amazonas, os Waimiri-Atroari habitavam área em que o governo quis passar a rodovia Manaus-Boa Vista; perderam 75% de sua população entre 1971 e 1985. Os Panará (ou Krenhakarore), cuja saga inspirou uma música no primeiro disco solo de Paul McCartney (1970), estavam no traçado da rodovia Cuiabá-Santarém (Pará); eram cerca de 450 no contato, em 1973; em dois anos restavam 74 (-84%).

Ainda considerando apenas exemplos relacionados às estradas do Programa de Integração Nacional (PIN, o PAC dos anos 1970): os 200 Parakanã contatados em 1971, em área da Transamazônica no Pará, foram reduzidos a 94 em dois anos (-53%); em Roraima, 14 aldeias Yanomami no rio Ajarani, foram reduzidas a uma única maloca de 71 sobreviventes (-90%, pelo menos); outro conjunto de aldeias, no rio Catrimani, perdeu 50% de sua população para uma epidemia de sarampo introduzida por trabalhadores da rodovia Perimetral Norte.

As agressões aos índios na ditadura estão sendo apuradas por um núcleo da Comissão da Verdade liderado pela psicóloga Maria Rita Kehl. Ainda que esse passado seja agora expiado, o atropelo dos direitos indígenas por interesses de setores da sociedade abrangente persiste no Brasil atual. Quando se trata de realizar obras decididas em Brasília, impô-las goela abaixo dos índios ainda é a norma. Antes era PIN, agora PAC, mas vale a lógica expressa pelo ex-governador de Roraima: “Uma área rica como essa, com ouro, diamantes e urânio não pode dar-se ao luxo de conservar meia dúzia de tribos indígenas que estão atrasando o desenvolvimento do Brasil” (gen. Fernando Ramos Pereira, “O Estado de S. Paulo”, 1.mar.1975).

É exemplar o caso da hidrelétrica de Belo Monte: as obras seguem sem respeito ao rito legal que prevê consultas prévias e compensações aos povos indígenas afetados. Questionamentos judiciais à construção são barrados com base no mecanismo de “suspensão de segurança”, criado na ditadura, pelo qual o Executivo derruba decisões do Judiciário sob alegação de “ocorrência de grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia públicas”.

Para os índios, o regime autoritário, iniciado em 1964, ainda sobrevive na lógica desenvolvimentista, no descaso por seus direitos e no uso de leis daquele tempo.

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março 31st, 2014 by mariafro
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Na primeira foto, detalhe da manifestação ocorrida hoje em frente ao DOI-CODI;  na foto inferior, o ex-ministro das Relações Institucionais de Lula e da Saúde de Dilma e atual candidato ao governo do estado abraça seu pai, Anivaldo Padilha.
As fotos foram postadas por Padilha que assim a legendou em seu Facebook: “Emoção nos olhos de cada um dos que estiveram hoje no ato #DitaduraNuncaMais no antigo DOI-CODI. Como disse em artigo na @folha_sp, tenho ódio e nojo da ditadura. Mas não carrego ressentimento. Acredito nos benefícios do diálogo, na liberdade de imprensa e opinião, na possibilidade das pessoas reverem suas posições, no valor dos partidos, na capacidade transformadora da sociedade civil. #ParaQueNãoSeEsqueça #ParaQueNuncaMaisAconteça.”

Alexandre Padilha: Filhos da resistência

No jornal colaboracionista da ditadura militar que emprestava caminhonetes para torturadores

27/03/2014

Eu estava prestes a completar oito anos de idade quando abracei meu pai pela primeira vez.

Até então, a ditadura nos havia mantido afastados. Meu pai ficou 11 meses sob tortura. Um tempo depois de sair da prisão, teve de partir para o exílio, quando minha mãe já estava grávida de mim.

Depois da anistia, ele pôde voltar ao Brasil. Foi quando o vi chorar pela primeira vez.

Até os três anos, não tive endereço permanente –para escapar da repressão, minha mãe, que também militava em grupos de contestação à ditadura, mudava-se constantemente. Fui, como tantas outras, uma das crianças da resistência.

Muitos são os significados de ser filho de pais da resistência, separados pela ditadura. Em primeiro lugar, por força das circunstâncias, ganhei uma consciência política de maneira tão precoce quanto natural. Desde muito cedo, tinham de me explicar o que era ditadura, o que era a luta pela democracia, para compreender a distância do meu pai.

Aos quatro anos de idade, minha avó paterna me ensinou a ler e a escrever para poder me comunicar com meu pai. Nas cartas e presentes que chegavam, vivi um pouco da sua vida no exterior. Soube que ele falava outra língua, convivia com outra realidade e fui informado de que tinha ganhado uma madrasta americana, um irmão e depois outro. Pude abraçar minha madrasta anos antes de poder abraçar meu pai e meus irmãos.

Nas cartas que enviava, dividi com ele minha infância no Butantã, o bom desempenho escolar, o fim dos 23 anos de fila do Corinthians no Campeonato Paulista de 1977 e as férias no litoral com minha mãe e meu padrasto. Sabia que essa separação entre pai e filho era consequência de um regime ditatorial, que nos priva da liberdade, que persegue e mata quem tem ideias diferentes.

Também vivi histórias engraçadas. Nos comunicávamos muitas vezes por fitas cassetes, que amigos levavam e traziam. Foi assim que ouvi pela primeira vez a voz dos meus irmãos e eles a minha.

Um dia, quando já tinha mais de dez anos e meu pai tinha voltado para o Brasil, estava jogando bola no quintal da casa da minha avó, meu irmão mais novo perguntou: “Ô, Alexandre, como você jogava futebol quando vivia naquela caixinha?”. A caixinha era o gravador e, na inocência de um garoto de quatro anos, era lá que o irmão dele morava, porque era daquele alto falante que saía a sua voz.

Como outras crianças da resistência, tive o privilégio de ter uma família muito ampla. Tenho incontáveis tios da resistência –aqueles solidários amigos e amigas da minha mãe e do meu pai. Eram pessoas que se arriscavam para levar e trazer essas cartas e fitas cassetes, sabedores do valor do diálogo entre um pai e seu filho, entre os irmãos, entre as famílias. Gente que nos acolhia com afeto, que nos protegia nas piores horas porque compartilhava o sentimento de viver perseguido, censurado, agredido. Sou grato a eles.

Como o doutor Ulysses Guimarães, também tenho ódio e nojo da ditadura. Mas não carrego ressentimento. Conto essas histórias com leveza. Tive uma infância incomum, e ela me proporcionou valores firmes: acredito nos benefícios do diálogo, na liberdade de imprensa e opinião, na possibilidade das pessoas reverem suas posições, no valor dos partidos, na capacidade transformadora da sociedade civil.

Vivi a campanha da anistia, as Diretas-Já e fui às ruas como líder estudantil cara-pintada para tirar um presidente da República do poder pela força da democracia.

Ao lutar pela democracia, meus pais ergueram biografias que os engrandecem. Tenho orgulho da vitória que eles ajudaram a construir.

ALEXANDRE PADILHA, 42, é médico. Foi ministro das Relações Institucionais (governo Lula) e ministro da Saúde (governo Dilma Rousseff)

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