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Os mitos de Obama e Osama

maio 7th, 2011 by mariafro
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Os mitos de Obama e Osama

Larbi Sadiki, Al-Jazeera, Qatar, tradução: Vila Vudu
2/5/2011

Os nomes de Obama e Osama estão, doravante, associados para sempre. Obama, o caçador, é presidente da nação mais poderosa e mais temida do planeta. Osama, a caça, foi líder de um estado sem fronteiras – ator sem estado – e provavelmente da mais temida associação político-religiosa do mundo moderno desde o tempo dos assassinos Hashashin nos séculos 11 e 13. Obama e Osama rimam, mas essa não é a única correlação entre ambos.

A síndrome de Pigmalião

Nos dois, vive um Pigmalião. Em certa medida, são escultores[1].

Cada um a seu modo, esses dois escultores, Obama e Osama, são exemplos de como homens extraordinários – se dominados pelo poder de ideias, ideais e sonhos, seja por que for –, não resistem a tentar esculpir suas Galateias, sejam estátuas, simulacros, arremedos ou fantoches. Cada um dos dois vive enamorado de uma visão estatuária, um conjunto de ideais ou sonhos aos quais procuram insuflar vida.

Não fosse assim, como se explicaria que um homem que poderia viver cercado de ninfas, Bentleys, iates e tudo que o dinheiro pode comprar, escolha as “ilusórias” –parafraseando Marx – recompensas da vida eterna? Osama poderia viver a vida como a vive o príncipe saudita Al-Walid bin Talal. E é onde intriga e fecha-se em mistério. Só o poder da fé explica.

Não completamente diferente de Osama na compleição física e na “alteridade”, Obama também confunde e surpreende. Por excelência cidadão hifenizado dos EUA, lá está hoje, na Casa Branca. Nem a cor da pele nem as raízes familiares, nem a possivelmente reprimida identidade islâmica o impediram de conhecer, como mestre, a arte da autoescultura pessoal e pública.

Obama e Osama, ícones

Ambos são icônicos, contudo, por diferentes razões. Ambos são construídos de discursos muito variados. E o que é construído é também desconstruído, conforme o viés que se escolha.

Na verdade, os dois homens pertencem a mundos diametralmente opostos e a aparências de mundos também opostas. Mas os dois são construtos sociais, e o estatuto icônico que alcançam os dois conjura espectro amplo de sentimentos humanos que vão do amor ao ódio, da admiração à desconfiança.

Já algumas vezes Obama sentiu-se forçado a defender sua “americanidade” ante os que duvidavam dela, e muito recentemente até o próprio nascimento, em resposta a Donald Trump.

Quando a “Guerra Santa” era bandeira de Reagan, na guerra contra os ex-soviéticos nos campos de morte do Afeganistão, Osama foi abraçado e honrado como herói saudita aliado. Depois do 11/9, foi desonrado, e toda a sua linhagem iemenita marcou o novo discurso orientado para reinventar, ou reescrever, a identidade “bin Laden”.

Osama e Obama, ambos, lutam para insuflar o sopro da vida em suas respectivas Galateias. Em Obama, os princípios são um mix de esquerda e direita, de centrismo e progressismo, costurado com muito liberalismo. A Galateia de Osama é escultura cujo marfim é uma escatologia e exegese remendada com uma interpretação salafi-wahhabista do Islã.

Arqueologia do poder

Sejam Pigmaleões ou Narcisos, Obama e Osama partilham uma mesma visão realista de como o poder deve ser exercido. Por isso, o Estado de Obama, tanto quanto o Estado-sem-base [literalmente, Qaeda traduz-se por “a base”] de Osama, são sempre vergonhosa exibição de violência. Ambos pois perdem-se de amores por uma Galateia que é presa de uma sempre incontida arqueologia de morte e geração de guerras.

Independente de serem vítimas ou carrascos, ambos são pasto das ideias e ideais pelos quais se perdem de amor. E na busca dessas ideias e ideais – a transcendência divina, no caso de Osama; ou o modernismo e o capitalismo que Obama ama como ama Deus –, constroem mitos, guardas, armas e as respectivas linguagens, caso a caso. Esses são os ornamentos do poder, com os quais os dois adornam suas Galateias,

É, Osama é culpado de assassinato em massa. Os 3.000 mortos nos EUA e sua leitura falsificada do Islã que gera confusão para xiitas e sunitas. Os muçulmanos que celebram os atos de assassinato em massa de bin Laden são culpados por associação. Os doutores do Islã deveriam ter declarado nula a era de guerra dentro do Islã e a aceitação do não-Islã, sem fundamento no Corão nem em muitas exegeses em diversas escolas do pensamento muçulmano. A Galateia de Osama foi esculpida, convenientemente, sem qualquer amor pela “defesa” da “Umma” – a comunidade islâmica global.

Para esse fim, Osama esculpiu não um objeto de amor, mas talvez uma contrabarbárie lançada contra a barbárie que ele crê que os capitalistas, os secularistas e seus fregueses lançaram contra sua “Umma” – como se ele fosse “comandante dos fiéis”.

Obama, comandante-em-chefe por dever de ofício, movido por outro tipo de fé, talvez não tão culpado quanto seu predecessor nas grotescas violações de direitos humanos no Iraque e no Afeganistão, mas ele também esculpiu sua barbárie, feita da mistura de mitos convergentes (pela pátria, a soberania, os compatriotas, Deus, o liberalismo, a democracia) – uma espécie de “amor” – em nome da civilidade.

Países foram invadidos (no governo Bush), as invasões foram mantidas por Obama, foi preciso inventar um sistema de encarceramento (Guantanamo Bay), também mantido por Obama – e uma guerra contra o “terror”, sem sentido algum, autorizada pelos neoconservadores e mantida, em nome de ideia similar de amor à pátria e à santidade da pátria.

Contemplem, não celebrem

Muitos muçulmanos celebraram quando Osama infligiu dor aos EUA. Foi errado. Número muito maior não celebrou. Hoje, os papéis se invertem: americanos celebraram as notícias da morte de Osama [e, a crer-se na ‘mídia’, todos os americanos celebram! (NTs)].

O assassinato de Osama foi segredo que o governo Obama escondeu muito bem, do mundo inteiro, até depois do casamento de William e Kate em Londres.

Os americanos que celebrem o quanto queiram, se quiserem. Mas eles têm também uma oportunidade para alguma contemplação. As vidas norte-americanas – sem contar números – têm de ser postas em termos de igual valor, igual importância que todas as vidas humanas, sem considerar cor, etnia, nacionalidade ou religião.

Quando os governantes que os norte-americanos elegem apóiam ditadores – Mubarak, Ben Ali, Abdallah Al-Saleh, até Gaddafi – armam ditadores, protegem ditadores, garantem-lhes legitimidade que não merecem e lhes dão dinheiro, é hora de os norte-americanos contemplarem as consequências dos atos dos governos que eles democraticamente põem na Casa Branca.

Dentre essas consequências, lá estão os regimes que torturam, que matam, que exilam, que excluem, as guerras por contágio – em Gaza e no Líbano –, a invasão do Iraque, os sistemas de sigilo, os muitos segredos, os voos secretos para entregar prisioneiros a ditadores para serem (mais) torturados, as prisões sem acusação e processo – e de todas essas culpas todos os norte-americanos são culpados, diretamente ou por associação.

A celebração dos norte-americanos será mais significativa, se atentarem para o mal que há na indiferença ou na ignorância de sucessivos governos eleitos, em graus diferentes e em circunstâncias diferentes, de todos os atos cometidos em nome dos norte-americanos, causados por mitos que eles tanto prezam e amam – mas sobre os quais raramente pensam.

Celebrar inimigo morto – sem autorreflexão – vale menos que celebrar uma vitória em jogo de futebol.

Osama nunca mais. O Islã não é Osama

Revoluções árabes eclodiram e triunfaram na Tunísia e no Egito, o que soterrou em parte a Galatea de Osama. Em certa medida, aquelas revolução demonstraram vividamente que “aceitar o Islã” não implica sede de sangue, mas sede de liberdade.

Hoje Osama jaz, corpo sem alma, troféu já sendo desfilado como símbolo de uma vitória oca. Mais um cadáver na procissão de incontáveis cadáveres que brotam da  mesma hubris, em duelo no qual ninguém é inocente.

A morte de Osama deve dar – e esperemos que dê – a árabes e muçulmanos uma chance para arrancarem-se do caos e da violência, e um momento para darem-se conta de que as jornadas de Osama livraram-nos dos soviéticos, mas os entregaram a sistemas de linguagem, prisão, cerco e violência que nem os EUA e seus aliados jamais derrotarão.

Nesse impasse, já aparecem novas vozes e novas forças do Islã, a empurrar os muros da liberdade na direção da conclusão mais lógica: um Islã de amor, com novas concepções de Galateia – com tolerância, boa governança, tratamento humano para todos, governos transparentes, concorrência livre e justa, políticas de respeito a todos sem ver gênero ou raça, e partilha justa do bolo econômico. Para mostrar que os muçulmanos vivem em estado de amor, sob um belo Islã.

Nessa linha, estão surgindo Essam El-Iryan, Abd Elmounim Abou El-Futuh e Mohammed Mursi, dentre outros, sugerindo novas possibilidades para aproximar o Islã e a visão do que seja a política, de uma perspectiva muçulmana.

Não um fim, mas novo começo

Por hora, encerrou-se um capítulo do livro das relações entre EUA e o mundo árabe. Nesse capítulo, Obama assassinou Osama.

Para Osama, está escrito no santo Corão: “Diz: O Anjo da Morte encarregado de vós encaminhará vossas almas. E então sereis trazidos de volta ao Senhor”. Ali Osama aguarda julgamento.

Para Obama, ele matou Osama – não importa se legalmente, ou ilegalmente.

O ponto é que esse momento só encontrará seu melhor significado, se os fantasmas do ódio, da hubris, da violência forem enterrados com os mortos – com Osama – e se troque para sempre por busca de reconciliação e cura coletiva, a caça às bruxas muçulmanas ou aos Osamas que reencarnem pelo mundo. E que nos dediquemos a esculpir uma Galatea coletiva, feita a milhões de mãos, construída de novos futuros, novas compreensões e novas possibilidades…

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[1]Sobre o mito de Pigmalião e Galateia, ver aqui [NTs]. Aqui, vê-se a Galateia de Salvador Dali [NTs].

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“Programa de agroindustrialização dos assentamentos é consenso no governo”

maio 7th, 2011 by mariafro
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“Programa de agroindustrialização dos assentamentos é consenso no governo”

Por: Jade Percassi, Da Página do MST

6/05/ 2011

Cooperoeste, em Santa Catarina, tem 600 assentados associados e produz 15 milhões de litros de leite

O MST realizou durante o mês de abril uma jornada de lutas para cobrar dos governos federal e estaduais políticas para a realização da Reforma Agrária e o desenvolvimento dos assentamentos rurais.

Nesse período, o Movimento realizou também audiências com diversos ministérios e com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para apresentar a pauta de revindicação ao governo Dilma Rousseff e discutir medidas para avançar na Reforma Agrária. No entanto, não houve avanços.

“Não tiveram nada de concreto a oferecer, a não ser a expectativa do novo governo. Receberam as pautas e tomaram conhecimento das demandas, que não são novas, mas dizem que o governo ainda está se estruturando”, disse Elias Araújo, integrante da Coordenação Nacional do MST.

O Movimento apresentou a demanda de criação de um amplo programa de  agroindustrialização dos assentamentos ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério do Desenvolvimento Social, além do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social), que avaliaram essa política como estratégica.

“Há consenso da necessidade de um programa de implementação de agroindústrias nos assentamentos. Mas o que existe em cada órgão, como no Incra e nos ministérios, é muito pouco”, afirma o dirigente do Movimento.

O presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Evangevaldo Moreira dos Santos, fez o compromisso de manter as políticas de compra de alimentos produzidos nos assentamentos.

“Se o governo não apresentar uma resposta concreta para as nossas reivindicações e propostas, o tom das próximas jornadas será de cobrança”, avisa.

Abaixo, leia a entrevista com Elias Araújo, que atua no Maranhão.

O MST fez 70 ocupações de latifúndios e 14 sedes do Incra, além de dezenas de atividades. Qual o balanço político da Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária?

Faço um balanço muito positivo da jornada, olhando por a disposição de luta dos trabalhadores. A jornada expressa que existe um passivo de ações públicas que não foi resolvido e uma certa expectativa de que é possível avançar no atual governo. A jornada não poderia esperar, nesse momento, respostas objetivas para esse passivo, por conta da mudança de governo.

Fizemos várias reuniões com os ministérios e com o Incra. Não tiveram nada de concreto a oferecer, a não ser a expectativa do novo governo. Receberam as pautas e tomaram conhecimento das demandas, que não são novas, mas dizem que o governo ainda está se estruturando. O orçamento deste ano foi aprovado no ano passado… Portanto, não tem nada de novo.

Da parte dos trabalhadores, cresce a disposição de luta. Em cada estado, acontecem mobilizações, inclusive olhando para além da agenda de lutas do Movimento. No Maranhão, o elemento que diferencia de outras realidades é a luta pelas terras quilombolas, além das lutas de posseiros e denúncias de trabalho escravo. Temos mais de 17 mil famílias de trabalhadores rurais em situação de conflito.

O que foi discutido nas audiências com o governo?

No Ministério do Desenvolvimento Agrário, discutimos a questão dos acampados e de assistência técnica, além do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). No Ministério do Desenvolvimento Social, com a equipe da ministra Tereza Campello, a pauta foi o Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa de Alimentação Escolar e a questão das pequenas agroindústrias para o interior do país.

No Ministério da Educação, discutimos a Educação do Campo. O ministro Fernando Haddad reconhece que o ministério ainda tem feito muito pouco e precisa ter um diferencial. O Ministério do Trabalho anunciou a possibilidade de ações no meio rural, principalmente no campo da qualificação profissional.

Com o Incra, que foi o que nos demandou maior tempo, foram sete horas de reunião de trabalho. O Incra é um órgão que ou se reestrutura ou não vai dar conta de implementar as ações do programa de Reforma Agrária do governo Dilma.

Em que medida a jornada representa avanços para as reivindicações do Movimento?

A jornada representou avanços na medida em que o grande número de ocupações ratifica que há interesse dos trabalhadores Sem Terra e não tem como o governo fugir da tarefa de realizar as ações de desapropriação.

Enquanto o conjunto do governo não compreender isso, não vamos avançar na pauta da Reforma Agrária. A luta do Movimento diante dos órgãos públicos é, antes de mais nada, uma pressão para que se reestruturem. Há uma urgência de que as instituições se reestruturem, pois isso impede que ações concretas.

A jornada expõe uma situação que precisa ser enfrentada. Tanto o governo como a sociedade não podem deixar de tratar a Reforma Agrária como algo estratégico. Ver a Reforma Agrária como uma ação que onera o Estado é o maior erro dos governos anteriores. E pode vir a ser o maior erro do governo atual.

O enfraquecimento de ações como a desapropriação de terras improdutivas ou que não cumprem sua função social não podem ter como justificativa uma razão financeira de falta de orçamento. Corre-se o grande risco de impedir o desenvolvimento em regiões em que a população rural é expressiva e a economia depende da agricultura.

O orçamento pequeno é um problema…

O governo pode dizer que a pauta dos movimentos é a pauta do governo, mas é necessário concretamente R$ 1,5 bi para resolver o problema da obtenção de terra para a Reforma Agrária. E está previsto apenas R$ 530 milhões. Isso precisa ser corrigido.

Do contrário, fica uma enrolação. A jornada cumpre esse papel também, não só de fazer com que o governo se pronuncie em favor da Reforma Agrária, mas apresente mudanças concretas. E mudanças concretas significa também mudar a prioridade de recursos.

Qual a perspectiva do governo ter um programa de reprodução de sementes?

Há uma sintonia com a proposta de montarmos um montar banco de sementes e há possibilidades concretas de avançar nesse tema. A reação do Ministério do Desenvolvimento Social foi bem importante, principalmente no que se refere às sementes crioulas. É um debate que o governo também está fazendo. No entanto, disseram que não tinham ainda naquela reunião condições de avançar.

Como fica o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)? Quais as expectativas em relação às políticas da Conab?

Do PAA, o mais importante é orçamento. É uma das áreas que, segundo o MDS, não sofrerá cortes. Há o compromisso assumido pela presidenta Dilma de que o orçamento vai ficar em torno de R$ 2 bilhões. O ministério vai trabalhar para aplicar o recurso até o final do ano. Eles estão avaliando uma série de inovações. Temos uma grande expectativa em relação ao Plano Plurianual, que ainda vai ser elaborado com essas mudanças, mas garantem a manutenção dessa política.

Com relação à Conab, não deu para avançar na discussão porque a companhia está se reestruturando, com um presidente novo e mudanças nas diretorias. Houve um compromisso do novo presidente de que as políticas de fortalecimento dos assentamentos, consolidadas na gestão anterior, seriam mantidas. Tínhamos uma preocupação de que essa reestruturação, com mudanças de servidores, prejudicasse os programas da Conab. No entanto, o novo presidente disse que os movimentos sociais não precisam se preocupar.

Como ficou o debate sobre a implementação de agroindústrias nos assentamentos?

A questão é como o governo vai se estruturar para trabalhar com isso, porque não há discordância. O Incra, o MDS, o MDA, além do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social), consideram o programa estratégico. Há consenso da necessidade de um programa de implementação de agroindústrias nos assentamentos. Mas o que existe em cada órgão, como no Incra e nos ministérios, é muito pouco.

O programa de agroindústria do Incra, o Terra Sol, não atende as necessidades. No estado do Maranhão, há 956 assentamentos. O orçamento para agroindústrias em 2010 era de R$ 90 mil. Você não viabiliza nem uma agroindústria com 90 mil reais, muito menos um programa que seja significativo. E essa é a situação do país todo.

Os movimentos sociais e os ministérios ficaram de discutir uma proposta para o  programa de agroindústrias em assentamentos, inclusive fazendo do BNDES um parceiro importante dos ministérios e do Incra, por ter um volume de recursos maior e capacidade de operação.

O MDS já tem uma política de implementar pequenas agroindústrias até 15 mil reais, resolvendo questões pontuais, que vai continuar. Isso é importante, assim como as pequenas unidades de processamento de frutas, do leite, da cana…

Todos os ministérios levantaram possibilidades, mas ficaram de dar respostas mais concretas a partir de maio. É prematuro afirmar que vamos avançar na pauta das agroindústrias, mas a pauta foi recebida com uma certa expectativa.

A partir desse processo de lutas, quais as perspectivas?

As negociações não são o centro das nossas mobilizações, mas precisamos de respostas objetivas para as reivindicações dos trabalhadores, senão a vontade de luta também diminui. No entanto, a maioria das mobilizações aconteceu por razões políticas, com o enfrentamento político aos grandes grupos locais que controlam as terras. As mobilizações cumprem o papel aglutinador dos movimentos sociais do campo para que as mudanças ocorram, extrapolando a nossa pauta.

O resultado da jornada não se dará apenas no mês de abril. Colocamos em debate a nossa pauta, que não é nova e está amarela. Mesmo sendo um governo novo, não justifica dizer que não conhecia a pauta. Independente disso, cumprimos o papel formal de entregá-la.

Em maio, vamos colher as respostas. Isso vai influenciar o caráter das mobilizações de junho, julho, agosto. Se o governo não apresentar uma resposta concreta para as nossas reivindicações e propostas, o tom das próximas jornadas será de cobrança.

A jornada fez um contraponto aos veículos de comunicação de massa (como o jornal Estado de S. Paulo e a revista Veja), que têm se esforçado para criar uma imagem de desmobilização e esvaziamento do Movimento?

A jornada demonstra, sim, que não está havendo um esvaziamento. A gente sentiu uma grande disposição de luta dos movimentos. A jornada aponta que as organizações estão fortalecidas e mobilizadas. Chamar de esvaziamento o que está acontecendo é uma conclusão muito pobre, dentro do processo em curso na agricultura e nas organizações dos trabalhadores.

O que mudou na agricultura e nas organizações de sem-terra do governo Fernando Henrique pra cá?

No período FHC, vivíamos um outro momento, em que a pressão sobre as propriedades improdutivas se dava de forma diferente. Tinha acampamentos em algumas regiões de acordo com a lógica de funcionamento daquelas regiões. Houve muitos assentamentos feitos não com o objetivo de fortalecer a Reforma Agrária, mas para fortalecer outras políticas.

Hoje a Reforma Agrária disputa com o agronegócio. Portanto, desapropriar terras para Reforma Agrária é contraditório com o modelo de desenvolvimento em curso. É uma pressão que a gente não vivia nos anos de 1990 de forma tão expressiva como vivemos hoje. Mesmo regiões em que ocorriam desapropriações de forma massiva, como na região Norte, por exemplo, o processo parou. Os interesses hoje são outros. Crescem as áreas de eucaliptos, de cana, de soja… Com a expansão das monoculturas, ficou muito diferente. O governo sofre pressões dos grupos econômicos que estão no campo, que precisa não só da terra concentrada, mas também dos recursos públicos.

 

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Acompanhe ao vivo o debate do Código Florestal

maio 7th, 2011 by mariafro
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Video chat rooms at Ustream

Veja o seminário sobre o Código Florestal em São Paulo na internet

Da Página do MST

Está sendo transmitido ao vivo pela internet o Seminário Nacional sobre o Código Florestal, neste sábado (7/5), promovido por mais de 20 organizações do movimento camponês, ambiental, sindical, estudantil, feminista e dos direitos humanos, no Auditório Nobre do SENAC, no centro de São Paulo.

Acompanhe a transmissão ao vivo, a partir das 9h, do seminário

Participam da atividade a militante ambientalista e ex-senadora Marina Silva (PV), o líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados, o deputado federal Paulo Teixeira, e o deputado federal Ivan Valente (PSOL), a ativista dos direitos humanos e atriz Letícia Sabatela, além de membros do Ministério Público, como Adriana Zawada Melo e Marcelo Goulart.

O seminário abordará, no contexto do quadro de mudanças no Código Florestal, o atual modelo de produção agropecuária e os impactos nas áreas urbanas, além de levantar propostas de mudanças na legislação que garantam a preservação do meio ambiente e resolvem os problemas dos produtores agrícolas.

Participam das mesas de exposição o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) Paulo Kageyama, o dirigente da Via Campesina João Pedro Stedile, a professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo Ermínia Maricato e o pesquisador do Coletivo Curupira Renato Tagnin.

Entre os organizadores, estão a Via Campesina Brasil, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf), as pastorais sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Greenpeace Brasil, Vitae Civillis, a Marcha Mundial das Mulheres a a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

O Seminário Nacional sobre o Código Florestal começa às 9h no sábado (7/5), no Auditório Nobre do SENAC, que fica na Rua Dr. Vila Nova, 228, no centro de São Paulo.

Informações à imprensa
Luiz Albuquerque – 11-2131-0840
Igor Felippe – 11-9690-3614

Abaixo, veja a programação completa e as entidades que estão na organização.

Seminário Nacional sobre o Código Florestal

São Paulo, 7 de maio,

Auditório Nobre do SENAC, Rua Dr. Vila Nova, 228, Centro, São Paulo

Programa:

9 – 13h

Mesa de abertura

Luiz Antonio Correa de Carvalho, do Ministério do Meio Ambiente

Marina Silva, ex-senadora e militante ambientalista

Deputado Paulo Teixeira – Líder da bancada do PT

Deputado Ivan Valente – PSOL

Marcio Astrini, Greenpeace

Dra. Adriana Zawada Melo – Membro do Ministério Público Federal

Dr. Marcelo Goulart – Membro do Ministério Público de São Paulo

Raul Krauser – Movimento Pequenos Agricultores/Via Campesina Brasil

Central Única dos Trabalhadores

CNBB e Pastorais Sociais

OAB-SP

União Nacional de Movimentos por Moradia / CMP

Leonardo Boff (enviará saudação em vídeo, por conta de problema saúde)

Coordenação da mesa:

Delmar Mattes – Associação dos Amigos da ENFF / Coletivo Curupira
Nalu Faria – Marcha Mundial das Mulheres

Painel: “O atual modelo de produção agropecuária e o código florestal”
Paulo Kageyama – Pesquisador da ESALQ/USP
João Pedro Stedile – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra/MST

Painel: “O código florestal nas áreas urbanas”
Erminia Maricato – Urbanista e professora da FAU/USP
Renato Tagnin – Coletivo Curupira

13 – 14h – INTERVALO

14 – 16h

Síntese e propostas para o debate
Luiz Zarref – Via Campesina Brasil
José Antonio S.Prata – Coletivo Curupira

Grupos de Trabalho
Conclusão dos trabalhos
Contamos com sua participação e apoio na divulgação!

Dia 7 de maio, sábado, das 9h às 16h

Auditório do SENAC, Rua Dr. Vila Nova, 228, Centro, São Paulo

Organização

ABEEF – Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal
ABRA – Associação Brasileira de Reforma Agrária
Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes
Assembléia Popular
Casa da Cidade
Coletivo Curupira
Coletivo Ecologia Urbana
Conlutas
Dep. Federal Ivan Valente
FASE
FEAB – Federação Brasileira dos Estudantes de Agronomia
FETRAF – Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar
Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
Greenpeace Brasil
Grito dos Excluídos
Intersindical
Jornal Brasil de Fato
Jubileu Sul
MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens
MMC – Movimento de Mulheres Camponesas
Marcha Mundial das Mulheres
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores
Pastorais Sociais / CNBB
Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
Repórter Brasil
UNE – União Nacional dos Estudantes
Via Campesina
Vitae Civilis
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A Bela homegem do Zé de Abreu à sua mãe

maio 5th, 2011 by mariafro
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Recebo a triste notícia de meu querido amigo, José de Abreu, sobre  morte de sua mãe, dona Gilda. É uma perda imensa a dele, perder a nossa mãe é perder o mundo.

Em 2007 ele fez o belíssimo post que reproduzo abaixo à sua mãe que comemorava 100 anos. Que ela descanse em paz e que José de Abreu, que teve a enorme felicidade de ter convivido tanto com sua mãe, se encha de força e que a dor vire logo saudades.

CENTENÁRIO DE MÃE. DEUS FOI BOM COMIGO!!!

Por: José de Abreu (em seu blog desativado)

04/12/2011

Esta que está apontada na foto olhando para a câmera, é dona Gilda, minha mãe, que ontem fez 100 anos! Isso mesmo, 100 anos, uns dias mais velha que o Niemeyer. Esta foto foi feita em frente ao Presídio do Carandiru, em São Paulo, no final de 1968. Eu estava preso como estudante por ter participado do XXX Congresso da UNE em Ibiúna com mais 700 e tantos colegas de todo o Brasil. Algumas mães se organizaram para protestar e a minha grande lutadora estava lá, junto com as outras, defendendo o direito de se manifestar. Como nasceu em 1.907, filha de imigrante italiano de Treviso, colono, colhedor de café que virou fazendeiro muito rico, e mulher de delegado de Polícia, minha mãe não concordava com o que eu fazia, mas respeitava meu direito de fazê-lo. Essa foto foi encontrada enquanto eu fazia pesquisa para minha peça “Fala, Zé” – volto a viajar com ela em fevereiro – e faz parte de um livro do Estadão chamado 1968. Foi uma baita surpresa eu ter achado esta foto. Uma emoção incrível. Eu sabia que ela tinha estado lá, mas encontrar uma prova fotográfica quase quarenta anos depois, foi quase um milagre proporcionado pelo verdadeiro “pai dos burros” do mundo moderno, a Internet. (“Pai dos burros”, para quem não sabe é um apelido carinhoso que se dava aos dicionários, nos tempos em que os estudantes ainda o consultavam. Eu tinha grande curiosidade para ler dicionários quando era pequeno. Parecia que eu ia decorar todas as palavras da língua portuguesa e seus significados.) Mas o assunto é minha mãe. As duas ou três crônicas que postei aqui falando da dona Julia e do Julinho, na verdade são partes de uma autobiografia que estou escrevendo. Aquela dona Julia lutadora é, na verdade, dona Gilda. Que fez das tripas, coração, para sustentar 3 filhos depois que ficou viúva, sem lenço e sem documento. Quanto lutou essa guerreira para que eu tivesse um curso superior. Cozinhando para fora, transformando sua casa em pensão, lavando roupa dos hóspedes, puxa vida, deve ter sido terrível para ela, acostumada sempre no bem-bom, ter que mudar de vida tão radicalmente. Na época em que meu pai morreu, em 1955, não havia pensão para viúvas de funcionários públicos, só um “pecúlio”, pago de uma vez só. Minha mãe se juntou a outras viúvas de juízes e promotores, fizeram uma Associação e foram à luta. Depois de uns 15 anos – começou no governo do Janio Quadros – a pensão acabou saindo. Foi uma festa, acabou comida para fora, acabou pensão, voltei a ter meu quarto sozinho – eu dividia com mais 3 estudantes que pagavam. Mas não durou muito, logo tive que dividir uma cela no Carandiru com mais uns 70 estudantes. Quando fui solto, depois de dois meses, já era dezembro, dia 11. Dia 13 a dita-dura ficou mais ainda, foi promulgado o AI-5 e eu tive que fugir para não ser preso de novo e agora sob um regime ainda mais forte, que começou a torturar e matar todos que não concordavam com ele. Cai na clandestinidade, mudei para o Rio de Janeiro, e continuei lutando contra aquele regime que eliminou o congresso, as eleições e até o direito mais sagrado do ser humano que é o “habeas-corpus”. O Juscelino foi cassado,  o Lacerda também, os dois maiores inimigos na política nacional no mesmo saco de gatos. E ambos apoiaram a ditadura no inicio… e eu, graças ao tal destino, fui representar o Juscelino no cinema e o Lacerda na TV… O último na mini-série JK e o primeiro num longa metragem que será lançado no ano que vem.
Mas hoje é dia de centenário de mãe, mas que cara dispersivo que eu sou! Vou contar uma homenagem que fiz a ela no final da mini-série Amazônia: eu iria, a meu pedido, fazer uma cena com o coronel Firmino envelhecido, na segunda fase. Era uma cena só e eu achei que seria melhor eu me maquiar e ficar com 90 anos do que me trocar por um ator mais velho. O diretor Marcos Schetman achou  melhor testar um novo software que a Globo tinha comprado para mexer no rosto dos atores. Eu iria ser a cobaia do software. Como gosto muito de computação e internet, me meti na feitura da minha cara.  Mandei para o departamento de Computação Gráfica da Globo (o Banda e sua equipe) essas fotos abaixo. Eles usaram a pele da minha mãe para colocar no lugar da minha!!! Era eu e ela misturados. Confiram.


Dona Gilda com a foto do sua primeira e única manifestação de protesto


A foto que mandei para o Depto. de Computação Gráfica da Globo


Eu com a pele de minha mãe e todo envelhecido em Computação Gráfica

 

 

 

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