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Gamal Nkrumah: Que a Líbia seja a Líbia

abril 22nd, 2011 by mariafro
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Que a Líbia seja a Líbia
Gamal Nkrumah, Al-Ahram Weekly, Cairo, 21- 27/4/2011, n. 1.044, Tradução Vila Vudu

“A cada dia, e pelos dois lados de minha inteligência, fui-me aproximando de uma verdade
cuja descoberta arrastava-me para o mais terrível naufrágio: o homem não é um, mas dois”.
Robert Louis Stevenson, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde


LEGENDA DA IMAGEM: Opositores de Gaddafi são vistos numa nuvem de pesada tempestade de areia na entrada leste de Ajdabiya, que os empurra de volta às posições iniciais e corta-lhes as esperanças de avançar rumo ao leste e tentar pôr fim à guerra na Líbia.

Substitua-se “homem” por “Líbia” na citação acima e pode-se começar a entender como a Líbia não é uma, mas duas. A história contemporânea da Líbia gira em torno de desafios e respostas – e respostas invariavelmente revolucionárias. E o país está sendo arrastado “para o mais terrível naufrágio”.

Mas, por mais que pareça surda, a Líbia vibra, carregada de potência criativa. Ativistas pró-democracia pegaram em armas contra o regime de Muammar Gaddafi. Ativistas pró-Gaddafi pegaram em armas, em defesa da Líbia, como a entendem. E o Irmão Gaddafi, por hora, só se preocupa com manter longe da Líbia a besta OTAN-EUA.

Encontrar solução que satisfaça tanto os opositores quanto os defensores do regime de Gaddafi não é tarefa fácil. Assim como os opositores parecem obcecados com um único objetivo (“Cortem a cabeça de Gaddafi!”), Gaddafi, embora talvez com menos empenho ingênuo, não quer ver o Leviatã apoiado pelo ocidente converter a Líbia em completa monstruosidade. Gaddafi está decidido a varrer do léxico líbio o monstro OTAN-EUA.

O Conselho Nacional de Transição [ing. National Transitional Council (NTC)] em Benghazi está à mercê da OTAN-EUA. Impedir que a ajuda ocidental chegue até lá é instrumento tão seguro quanto difícil de implantar, que deterá qualquer avanço dos opositores e, no longo prazo, decidirá a batalha a favor de Gaddafi.

Em nenhum outro momento, alguma vitória parecerá mais amarga aos vitoriosos, se os opositores de Gaddafi conseguirem derrotá-lo. A política líbia entrou em fase nova, de alta instabilidade. É hora de Gadaffi, de longe o político mais talentoso que a Líbia conheceu, parar e pensar; e mostrar o seu melhor talento para a acomodação política – que é o que Gaddafi mais sabe fazer. Oficialmente, é como se Gaddafi não interferisse na política, como se fosse líder acima das diferenças políticas. Na prática, é claro, Gaddafi governa o oeste do país exatamente como deseja, embora esteja na difícil posição do encantador de serpentes que tem de encantar a serpente pelo rabo.

Gaddafi, como Moisés, rapidamente cercou seu próprio pessoal e essa metamorfose de cobra paralisou os lacaios do ocidente, que se enrolam como vermes. Reclamação perene dos desorganizados ‘rebeldes’ é que o ocidente não lhes dá proteção suficiente.

A questão que ninguém explica é a seguinte: por que a saída de Gaddafi parece ser conditio sine qua non para que o oriente implante seus planos para o futuro da Líbia?

Gaddafi é mais socialmente liberal que o líder dos seus opositores e isso, provavelmente, explica por que o ocidente tanto reluta em apoiar completamente o Conselho Nacional de Transição, com seus vários grupos islâmicos (entre os quais, até a al-Qaeda). Mas Gaddafi está por demais empenhado na luta contra os imperialistas; é homem muito intelectualmente ativo e não se deixa derrotar antecipadamente por propaganda, pela mídia ou por pessimismo. Do modo como Gaddafi vê as coisas, a específica situação atual das lutas históricas no Oriente Médio exige que ele permaneça na liderança da Líbia.

Em ditaduras como a ditadura líbia, quando uma crise da magnitude da atual abate-se sobre o país, sempre se pode dizer que a tarefa de superar a crise é tarefa do ditador em questão. Se conseguir, sobrevive no poder. Gaddafi sabe que suas forças ainda podem voltar a unir-se e sobreviver. Se não for assim, será o colapso da Líbia.

As especificidades do quadro político na Líbia, dentro do mundo árabe, são visíveis a qualquer observador, mesmo que não seja especialista. A Líbia de Gaddafi é o único estado árabe e africano que não tem banco central semelhante aos bancos centrais ocidentais e coligado ao sistema internacional de bancos centrais. Não surpreende, portanto, que um dos primeiros atos do Conselho Nacional de Transição tenha sido criar um banco central que já nasceu coligado ao sistema bancário ocidental.

Por que o ocidente interveio militarmente na Líbia, e não no Bahrain, Síria ou Iêmen? Em vez de recorrer às velhas estratégias imperialistas de eleger vencedores nas neocolônias, as potências ocidentais, dessa vez, estão obrigadas a encorajar vencedores ‘locais’ no mundo em desenvolvimento, para que se imponham, digamos, ‘espontaneamente’.

Mas para os líbios, o Islã ainda é fator de grande peso emocional. E o islã líbio é mistura altamente complexa, onde há simpatias que se aproximam da Al-Qaeda e grupos de militantes salafistas. Mas há, na mesma mistura, inúmeras tradições islâmicas positivas, como as veneráveis tradições sufistas do Norte da África, muito especialmente prevalecentes na Líbia. É significativo que as ordens sufistas tenham-se aliado a Gaddafi; enquanto os salafistas, convenientemente esquecidos dos mandamentos do Islã que proíbem a usura, embarcaram rapidamente no bonde do Conselho Nacional de Transição. É possível que os dias mais difíceis para a Líbia ainda estejam por vir.

Os líbios agora têm de escolher entre a feroz independência de que é exemplo o herói nacional líbio Omar Al-Mukhtar, e a incorporação na ordem global ocidental, como neocolônia mediterrânea fornecedora de petróleo aos senhores sedentos de energia escassa.

Se um autor de romances de suspense estivesse criando o personagem de um beduíno sobrevivente, que alcança riqueza de Creso imediatamente depois de comandar revolução popular vitoriosa, certamente encontraria bom modelo no líbio Muammar Al-Gaddafi. Até a Operação Alvorada, o controverso mercador de petróleo – e Gaddafi é isso, apesar do ímpeto revolucionário – pouco fizera para alterar essa imagem. E Gaddafi gosta de lembrar seus visitantes de que é filho de modesta família de beduínos nômades.

Disputar a independência com os senhores do mundo é jogo mortal, como Gaddafi está aprendendo pela via mais difícil. Há 50 anos, Gaddafi inspirou-se na Revolução Egípcia de 23 de julho de 1952 comandada pelo presidente Gamal Abdel-Nasser. Ascendeu muito rapidamente ao poder. Depois, jovem oficial do exército, Gaddafi promoveu sua própria Revolução Fateh, nacional. Nada jamais o fez supor que seria fácil o trânsito para a plataforma pública nacional (e, agora, internacional). De início, não negociou com os críticos, mas mais tarde, prevaricou. Gaddafi é um dos maiores enigmas da história contemporânea.

É homem rude, que não faz concessões e é espírito combativo. Mas não se recomenda que, nas atuais circunstâncias, ceda corda demais aos inimigos, que, se puderem, o enforcarão. Hoje, trabalha para fazer da Líbia um monstro gigantesco, capaz de abalar o ocidente. Construiu um império multibilionário, no deserto. Saberá agora sobreviver à instabilidade da areia?

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Graffiti de Banksy de policiais se beijando vira quadro e vai ser vendido

abril 22nd, 2011 by mariafro
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Brighton dá adeus aos policiais apaixonados de Banksy[1]

The Guardian, UK, Tradução: Vila Vudu

21/4/2011

Durante anos, o graffiti de Banksy lá ficou, como gesto de pouco caso contra o mundo da arte convencional, soco no nariz da homofobia e medalha de honra no peito do espírito não-conformista dos habitantes de Brighton. Agora, oito anos depois de serem pintados numa parede externa do pub Prince Albert, “os policiais apaixonados” de Banksy estão às vésperas de serem embalados, metidos num navio e postos à venda nos EUA.

Kissing Coppers

Fonte da Imagem: Flickr de trailerfullofpix

graffiti, que mostra dois policiais unidos em abraço e beijo apaixonados, converteu-se em lugar de peregrinação para os amantes do artista cuja identidade é desconhecida[2], e ponto de parada obrigatória dos turistas que visitam Brighton. Mas, depois de ter sido várias vezes atacado por vândalos, o proprietário do pub decidiu vender o original através de uma galeria de arte de New York por valor estimado entre 500 mil e um milhão de libras.

“Quando foi pintado na parede do pub, pertencia ao pub. E se foi vendido, o dinheiro é do pub” – disse o proprietário Chris Steward. “Anda difícil manter o pub. O dinheiro da venda será muito bem vindo”.

Como tantos dos grafittis de Banksy, todos pintados pelas ruas, os policiais apaixonados têm longa e interessante história. Um advogado de Banksy tentou obter autorização do pub, mas o proprietário ficou sem saber o que fazer. “Meu primeiro pensamento foi ‘ah, não, nada disso’, Steward admite. “Achei que só arranjaria confusão.” E Banksy pintou sem autorização. O grafitti lá ficou. Quando viu uma viatura parar em frente ao pub e vários policiais se aproximarem do graffiti, Steward conta que temeu o pior. “Não entendi o que estava acontecendo. Os policiais pararam, desceram a viatura e aproximaram-se. Mas era só para fotografar. Foi ótimo!” – conta.

Mas o grafitti também atraiu outro tipo de atenção. Duas semanas depois de feito, dois homens foram flagrados pelas câmeras da CCTV, cobrindo ografitti com tinta preta. Foram presos e condenados a pagar multa de 40 libras. Mas, pouco depois, o grafitti foi novamente vandalizado. Depois de vários ataques, Steward decidiu que, para ser preservado, o grafitti teria de sair dali.

Em 2008, uma empresa especialista em restauração de obras de arte usou produtos químicos e conseguiu copiar a imagem e transferi-la para uma tela. E o original foi substituído, na parede do pub, por uma cópia, protegida por material transparente. “Não acho que estejamos enganando o público”, disse Steward. “Talvez não seja 100% original, mais ainda é 80% um Banksy. É como se outra pessoa usasse os mesmos stencils.”

O Blog Brighton Argus anda cheio de vozes que protestam contra a venda do trabalho, que deve acontecer no próximo verão, na galeria Keszler em New York. Morador da cidade, alguém que assina “Morpheus” mostra-se preocupado com as repercussões: “Se isso continuar, a prefeitura ainda vende a bandeira da cidade, para arranjar algum dinheiro” – escreveu ele. Outros estão ainda mais indignados: “É vandalismo arrancar uma obra de arte da parede” – escreveu Sean Jenkins.

Para Lindsay Alkin, diretora da galeria Art Republic em Brighton, das primeiras a vender outros trabalhos de Banksy, a venda é um golpe contra o patrimônio cultural de Brighton. “O que Banksy faz na rua deve permanecer na rua” – disse ela. “É parte da cultura local, como se estivesse numa galeria aberta, pública. E agora, o perdemos.”

Steward conta que várias vezes tentou entrar em contato com o artista, sem conseguir. Mas acha que, se consultado sobre a venda, Banksy pouco se importaria. “Acho que ele diria ‘é, essas coisas são assim mesmo’.”

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[1] Para saber quem é Banksy ver “Num mundo sem regras, o artista que quebra todas as regras”, filme autobiográfico.

[2] Matéria sobre isso aqui e Banksy mascarado aqui

 

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A barba de Jaques Wagner, João Dória Jr, Comandatuba, Viviane Senna e nada de novo na educação pública

abril 22nd, 2011 by mariafro
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Em abril de 2008 assisti incrédula 42% do PIB brasileiro reunido em Comandatuba pra ‘discutir educação brasileira’. Não havia um único educador lá. Leia aqui e descubra o que as barbas do governador baiano, leiloadas aí embaixo tem a ver com tudo isso.

Governador da BA ‘vende barba’ por R$ 500 mil para Gillette

Do Correio do Estado

22/04/2011

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Foto: Mastrangelo Reino – 5.mar.2011/Folhapress

O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), vai fazer uma doação de R$ 500 mil, como pessoa física, para um projeto beneficente de educação do Instituto Ayrton Senna, comandado pela empresária Viviane Senna.

Para isso, Vagner vai raspar a barba usando o barbeador da Gillette. O dinheiro virá da Procter & Gamble, dona da marca.

Vagner afirmou que mantém o visual barbado há 34 anos.

“Vou vender minha barba para a Gillette, mas esse dinheiro tem que ser investido aqui na Bahia”, disse.

Para financiar o projeto, o empresário João Doria Jr lançou uma campanha durante o seu fórum de empresários em Comandatuba, pedindo doações anuais de R$ 60 mil –12 prestações de R$ 5 mil mensais– para empresas e empresários participantes.

Em menos de quatro horas, Viviane Senna já arrecadou no evento mais R$ 2,2 milhões, valor levantado no evento no ano passado.

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Atropelamento de crianças palestinas vira comercial de carro em Israel?

abril 22nd, 2011 by mariafro
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Este é o vídeo de um atropelamento real de dois meninos palestinos praticado por um colono israelense, próximo a Jerusalém, no dia 08/10/2010:

Abaixo, a denúncia de que tal fato teria sido usado num comercial de carros:

Anúncio de carro israelense se vangloria de atropelamento de crianças

Do JNoubiyeh, Tradução Diego Casaes

21/04/2011

Uma nova peça publicitária de um carro japonês em Israel causou uma considerável insatisfação por causa da promoção implícita do atropelamento de crianças palestinas. A propaganda, publicada pela concessionária da Subaru em Israel, mostra uma cena fotografada no ano passado, quando um colono israelense atropelou duas crianças palestinas com seu carro em Silwan, leste de al-Qudz (Jerusalém), antes de fugir, relatou Xinhua.

“Vejamos quem fica contra você,” diz a frase em hebraico no canto superior direito da imagem. O incidente de outubro teve como alvo dois meninos, um de 10 e outro de 12 anos, e resultou na fratura da perna da vítima mais jovem.

Após o ataque, as vítimas inicialmente resistiram ao serem forçadas a entrarem no carro, que aparentemente queria levá-las ao hospital. Os jovens palestinos têm medo de entrar em carros de estranhos porque já viram seus amigos frequentemente serem levados pelas tropas israelenses disfarçadas de civis.

A Autoridade Palestina (PA) atual, Mahmoud Abbas (do Partido Fatah) disse que a promoção deste ato de agressão “é um anúncio sujo e propaganda negativa que chegou ao ponto de pedir a morte de crianças palestinas por atropelamento.”

O agressor, David Be’eri, é diretor-geral da Elad, um intransigente conglomerado de desenvolvimento imobiliário.

A organização encoraja os israelenses a se mudarem para bairros densos em al-Quds (Jerusalém Oriental).

Al-Quds (Jerusalém Oriental) faz parte dos territórios palestinos, ocupados por Tel Aviv em 1967 e posteriormente anexado apesar da refusa internacional em reconhecer qualquer agressão.

Mais sobre o caso: Jerusalém Post (onde a empresa japonesa nega envolvimento com o caso e repudia a ação) e GulfNews

Este caso de denúncia de propaganda estúpida e criminosa, cuja instituição nega envolvimento, lembrou-me de outro caso também ocorrido em Israel, em 2009:

Várias versões de camisetas para uso de soldados do exército israelense provocaram polêmica, inclusive no estado sionista de Israel. Suas mensagens fomentam ódio aos palestinos e violações dos direitos humanos. Imagens de crianças mortas, mães chorando sobre os túmulos de seus filhos, grávidas sob a mira, mesquitas bombardeadas, além dos slogans que acompanham os desenhos das camisetas usadas por soldados das Forças de Defesa de Israel  são ofensivas e nos faz pensar que os sionistas perderam de vez todo e qualquer princípio.

O jornal israelense Haaretz foi o primeiro a noticiar em 2009 aqui e de acordo com o jornal, a iniciativa não foi do exército e sim de uma turma de formandos. O Exército israelense condenou o ato e chamou de ‘mau gosto’.

A camiseta para atiradores de infantaria carrega a inscrição “Quanto menor, mais difícil” e a imagem de uma criança palestina armada sob um alvo. A camiseta do Batalhão de Brigada Shaked Givati ​​mostra uma mulher palestina grávida com um alvo sobreposto na barriga dela, com o slogan, em Inglês, “1 tiro, 2 mortes”.


Nesta versão de uma das camisetas do exército israelense vemos   uma mulher grávida palestina como alvo, o nome de uma brigada do Exército israelense em hebraico e em Inglês a frase “1 tiro, 2 mortes”. Na camiseta vermelha uma mesquista sendo dinamitada e em hebraico: “Apenas Deus perdoa”.

Na camiseta da esquerda uma criança palestina com arma na mão sob uma mira e o texto em hebraico: “Quanto menor, mais difícil! (referindo-se a dificuldade de acertar o alvo)”  À direita em hebraico: “”Cada Mãe árabe deve saber que o destino de seu filho está em minhas mãos”

As fontes das imagens das camisetas produzidas pela turma de formando encontram-se aqui

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