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Tropas sauditas invadem o Bahrain, para os xiitas, é guerra

março 15th, 2011 by mariafro
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Por: M K Bhadrakumar, Indian Punchline,  Tradução: Vila Vudu
15/3/2011

Posso agora me apresentar como adivinho profissional – mais ou menos. Dia 4 de março, no postado sobre o Bahrain, escrevi: “Como o adivinho disse a Júlio Cesar, tempos de muitos perigos aproximam-se, entre agora e os idos de março.” Bem, os idos de março são hoje. Evento tão grave quanto o assassinato de Júlio Cesar parece bater-nos à porta. Tropas sauditas invadiram o Bahrain.

Uma cadeia de eventos está começando, com consequências de longo alcance.

Os primeiros relatos dizem que o contingente saudita consiste de mil soldados, com 150 tanques blindados, carros de transporte de tropas e veículos auxiliares. A TV Bahrain mostrou cenas do que chamou de “unidades avançadas das forças conjuntas do Escudo da Península” – indicação de que mais soldados estão a caminho. O governo do Bahrain tem um pacto de defesa de segurança mútua com o Conselho de Cooperação do Golfo,Cooperation Council for the Arab States of the Gulf, CCASG; também conhecido como Gulf Cooperation Council, GCC. Com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos também mandaram 500 soldados. O governo do Bahrain disse que pediu ajuda militar, dados os “infortunados eventos que abalam a segurança do reino e aterrorizam cidadãos e residentes”. O governo saudita disse que “respondeu ao pedido de apoio que lhe fez o Bahrain”.

O movimento acontece depois de violentos confrontos entre manifestantes xiitas e a polícia.

Os manifestantes bloquearam a estrada que leva ao centro da cidade e principal distrito financeiro e grupos de vigia apareceram para guardar os arredores, enquanto aumentam as tensões sectárias entre os xiitas, que são 70% da população, e os sunitas.

O movimento do rei sunita, para trazer tropas sunitas de outros estados do Conselho de Cooperação do Golfo, cria situação perigosa. Os grupos da oposição xiita, em declaração, disseram que “Consideramos a entrada de qualquer soldado ou equipamento militar na área do Reino do Bahrain, terra, mar ou ar, como clara ação de ocupação. Essa real ameaça, com tropas sauditas e de outros países do Golfo, para atacar o povo desarmado do Bahrain, põe a população sob grave perigo e é ameaça de guerra não declarada, movida por soldados armados.”

Milhares de manifestantes continuam acampados na rotatória da Pérola.

É indispensável acompanhar a reação do Irã e dos EUA.

Nos EUA

Em Washington, o Departamento de Estado disse: “Conclamamos os nossos parceiros do GCC à moderação, a respeitar os direitos do povo do Bahrain e a agir de modo a mais apoiar que dificultar o diálogo”. Significativamente, nem uma palavra de crítica contra a ação militar dos sauditas.

O secretário de Defesa dos EUA Robert Gates visitou Manama na 6ª-feira. Pode-se dar por certo que Gates foi informado do movimento do governo do Bahrain de pedir intervenção de soldados do GCC. Pode-se concluir que a prioridade dos EUA é a V Frota (ancorada no Bahrain), e que qualquer preocupação com a democracia aparece longe, no fim da lista. Significativamente, o governo do Bahrain intensificou os ataques contra os manifestantes no fim de semana, imediatamente depois de Gates deixar Manama.

No Irã
A reação do Irã também foi cheia de nuanças. O ministério das Relações Exteriores ridicularizou, retoricamente, a visita de Gates a Manama, mas a reação à intervenção dos sauditas foi bem discreta no plano do encarregado de assuntos do Oriente Médio e Golfo Persa Amir-Abdollahian. Pode ser apenas uma primeira reação. Mas, de fato, só disse que a intervenção saudita pode vir a complicar ainda mais a situação. Nada de avisos ou ameaças nem exigências de imediata retirada dos sauditas.

Teerã não questiona a legalidade da ação, como os EUA não questionaram. Mas Teerã, pelo menos, chama atenção para as consequências políticas. Os iranianos preferiram esperar para ver, dado que nada têm a perder; não se cogita de intervenção iraniana no Bahrain. O Irã não quer confrontar o GCC. São os parâmetros tradicionais da política regional do Irã. As relações entre Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrain sempre foram problemáticas; e há boas relações com o Qatar, Omã e Kuwait.
O Irã tem tido muito trabalho para manter laços cordiais com os Estados do Conselho do Golfo.

Mas o Irã tem tudo a ganhar, em termos políticos, se a intervenção saudita detonar a ira dos xiitas na Arábia Saudita e no Kuwait, ou se a situação se converter em pântano que ameace tragar os sauditas no Bahrain. Ao mesmo tempo, Teerã não quer sobre si a acusação de ter despertado sentimentos xiitas sectários. Toda a propaganda de Teerã está centrada no “despertar islâmico” do povo árabe. Divisões sectárias, nesse momento, absolutamente não interessam ao Irã, que não quer ver-se arrastado por um dos lados dessas divisões, o que diminuiria seu prestígio regional.

Outra vez, Teerã entende que as tensões sectárias no Bahrain interessa aos governos sunitas no Golfo Persa, para subjugar as populações majoritariamente xiitas. Pode-se antever que os EUA também tem interesse em deter a revolta popular a favor de mudança de regime. Sobretudo, o Irã está firmemente decidido a agir como potência regional “responsável”, o que reforça a diplomacia iraniana em outras frentes no relacionamento com o ocidente.

Feitas todas as contas, um complexo conjunto de equações estão em movimento – um banquete para qualquer observador que estude a política do Oriente Médio. (…)

O cenário mais provável é que as tensões no Bahrain, Arábia Saudita e Iêmen – o “Triângulo Xiita”, pode-se dizer – se retroalimentem umas as outras nas próximas semanas ou meses, processo sempre exacerbado pela “luta de baixa intensidade” – pelo menos por enquanto – em Omã e no Kuwait.
Enquanto isso, um quadro intrigante apareceu no plano geopolítico: os EUA parecem estar testando a profundidade do lago, com vistas a abrir um canal de alta confiança com Teerã.

A Jordânia anunciou que o rei Abdullah teria manifestado interesse em encontrar-se com Mahmoud Ahmedinejad em Amã ou em Teerã, para “discutir vias que reforcem laços bilaterais em bases claras, de tal modo que sirvam aos interesses dos povos, questões islâmicas, de segurança e sobre a estabilidade na região”. Bravo!

Os laços entre Teerã e Amã estão em estado de congelamento profundo. Para Teerã, Abdullah não passa de lacaio dos EUA. Por outro lado, Abdullah é o resolvedor-de-problemas preferido, que Washington sempre usa quando precisa, em missões delicadas. Abdullah é craque nessa função. Tem credenciais inigualáveis: conversa e negocia com Israel e sobrevive, por causa do apoio dos EUA (e dos sauditas); e o rei Abdullah adora o fato de que a Jordânia goze de prestígio muito superior ao que corresponderia ao peso que tenha na política regional. Tudo isso considerado, o que estaria acontecendo? O mais provável é que os EUA estejam avaliando as reais probabilidades de virem a ter “um diálogo” com Ahmedinejad.

Não há dúvida de que os EUA já perceberam que, no torvelinho que varre o Oriente Médio, o comportamento do Irã tem sido de perfeita contenção, confinado só na retórica. Isso deve ter encorajado os EUA a testar as possibilidades de um novo modus vivendi com o Irã, de tal modo que os dois lados consigam avaliar melhor o quanto podem confiar um no outro, na abordagem do torvelinho regional.

Falando em termos amplos, os EUA sabem perfeitamente (a) que o Irã é hoje um dos pilares da estabilidade regional; (b) que a influência do Irã na região cresceu muitíssimo; e (c) que, em termos regionais, Israel foi empurrada para absoluto isolamento.
Evidentemente, no interior do governo iraniano com suas muitas divisões e subdivisões, há muitos grupos poderosos que se oporão ao diálogo com Abdullah nesse momento e que acusarão Ahmedinejad por essa “traição”. Olharão com muita suspeita a possibilidade de que a força de Ahmadinejad aumente, no caso de se iniciarem contatos EUA-Irã.

Sem dúvida, para quem observe o Irã, aí está rara oportunidade para sondar a personalidade enigmática de Ahmedinejad, a qualidade de suas relações com o Supremo Líder Ali Khamenei e o poder que tenha para fazer calar seus detratores e levar avante a ideia de um encontro com Abdullah. Até aqui, Ahmadinejad enfrenta só algumas críticas do Parlamento. Como reagirá a Guarda Revolucionária? E o establishment religioso xiita? São questões pertinentes. Em outras ocasiões, os linha-dura conseguiram deter quaisquer simpatias de Ahmadinejad em relação aos EUA.

Mas se Ahmadinejad encontrar-se com o rei Abdullah da Jordânia, sem dúvida alguma haverá mudança massiva na correlação de forças na Região.

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Moore: Carta aos meus conterrâneos de Michigan – Rick Snyder é um Scott Walker cheio de esteróides

março 14th, 2011 by mariafro
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Não deixem de ler o artigo A eutanásia da classe média nos EUA e na Europa e Wisconsin: milhares pedem demissão de governador republicano.

Carta aos meus conterrâneos de Michigan

Por: MICHAEL MOORE em seu blog Tradução: Vila Vudu

14/3/2011
Companheiros Michiganders (e Michiganders honorários em todo o mundo):

Estou convocando todos os que possam, para que tirem a 4ª-feira para isso e todos se dirijam ao Capitólio, em Lansing, capital do estado de Michigan, para protestar contra a legislação cruel, apavorante, que está sendo metida pelas nossas goelas abaixo.

O que mais chocou muita gente é que o novo governador, que concorreu contra o Tea Party e derrotou a ala da direita do seu partido nas primárias – e chegou à eleição geral como “um simples nerd de Ann Arbor”, moderado, não ideólogo – nos pregou um dos maiores golpes de Jekyll & Hyde jamais vistos na política eleitoral.

O Governador Snyder, imediatamente depois de eleito, arrancou a máscara de bom moço e revelou o que de fato é: multibilionário dedicado a destruir o estado de Michigam e entregá-lo aos seus camaradas de Wall Street.

Em apenas oito rápidas semanas, o governador Snyder:

* Conseguiu que Câmara e Senado aprovassem leis que lhe deram poderes para “gestão de emergência” – dentre outros, poderes para indicar uma empresa ou um executivo que pode, literalmente, dissolver governos municipais ou Comissões Escolares, demitir funcionários eleitos, anular qualquer lei local e governar todo o aparelho do governo estadual em Michigan. Essa empresa, em seguida, tem o poder para declarar nulos e cancelados todos os contratos coletivos de trabalho.

* Propôs imediato corte de 86% nos impostos devidos pelas empresas, e aumentou em 31% os impostos devidos pelos contribuintes pessoais! E a parte principal desses impostos pesam sobre – não estou mentindo! – sobre os mais idosos e os mais pobres! Diz que esses dois grupos, até agora, não “partilharam os sacrifícios” que todos nós temos sido obrigados a fazer. Então, no orçamento do estado, o governador Snyder propõe CORTE de $1,8 bilhão para as empresas e um AUMENTO de $1,75 bilhão para o resto da sociedade, a maior parte a ser pago pelos pobres, pelos idosos e pelos trabalhadores –, apesar de o 1% dos mais ricos em Michigan JÁ PAGAREM a menor taxa estadual de impostos de todo o país!

* Associado aos demais deputados, fez aprovar mais de 40 leis contra o trabalho só nos dois primeiros meses de mandato! Não perderam tempo! E apanharam desprevenidos a maioria de nós. Boa parte dessas leis foram aprovadas antes que tivéssemos tido tempo de ver o que acontecia e protestar.

São medidas catastróficas, que levarão o nosso estado, já tão terrivelmente sacrificado, para o fundo do poço. Precisaríamos agora de um líder inspirado, que nos ajudasse a reinventar o estado de Michigan, a encontrar meios criativos para gerar novos empregos e nos arrancar da depressão econômica.

O resto do país que chame o que estão vivendo de “Grande Depressão”. Nós, em Michigan, estamos vivendo “a Depressão num só estado”.

Sei que muitos estão desesperados, e nada mais justificável do que ter perdido todas as esperanças, hoje, em Michigan. Mas não podemos deixar que as coisas piorem ainda mais. É preciso levantar-se e lutar contra essas leis draconianas e essa escandalosa tentativa de nos roubar nossos direitos democráticos, fazendo do nosso estado mais um quintal dos assaltantes que vivem em Wall Street e nos EUA das grandes corporações. Veem nosso estado como uma grande liquidação – e mal podem esperar para por as patas no que ainda é estado rico em recursos naturais e em infraestrutura industrial.

Por favor, apareçam todos ao meio-dia da 4ª-feira, 16 de março, para nossa primeira manifestação-monstro contra essa insanidade.

Centenas de grupos já estão organizando comboios de carros e ônibus. Você pode, agora mesmo, declarar-se organizador e começar a convocar amigos e vizinhos para participar da manifestação-monstro em Lansing.

Se você trabalha, não há dia melhor para dizer que está doente do que na 4ª-feira, 16 de março (o que está acontecendo em Michigan É UMA DOENÇA).

Se você estuda e tem aulas, não há dia melhor que a 4ª-feira, 16 de março, para cabular a aula e começar a participar da democracia, nos EUA.

Temos de estar todos lá. Temos de fazer uma manifestação-MONSTRO – e faremos, se todos vocês simplesmente andarem até o Capitólio e tomarem posição.

Nas últimas semanas, muita gente tem prestado atenção ao que está acontecendo em Wisconsin. Poucos sabem do que está acontecendo aqui em Michigan. Rick Snyder é um Scott Walker cheio de esteróides. Jamais antes aconteceu contra nós, o que a AAAR já descreveu como “ataque mortal” contra idosos e trabalhadores.

Acreditem em mim. Vocês vão maldizer o dia em que ficaram em casa e nada fizeram para impedir que esses assaltantes travestidos de políticos roubassem de vocês o seu Estado dos Grandes Lagos.

Não permitam que aconteça! Estejam todos no Capitólio ao meio dia da 4ª-feira, 16 de março, para a maior manifestação de cidadãos que Michigan jamais viu!

Vamos! Vamos Wolverines! Vamos todos que ficam aí, nem um nem outro!

Atenciosamente,
Michael Moore

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Lula: “Dilma vai fazer um governo excepcional para o Brasil”

março 14th, 2011 by mariafro
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Lula diz que crise no Oriente Médio ‘é um bem para a democracia’

Por: Paula Daibert, De Doha para a BBC Brasil

14/03/2011

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Doha (Foto: Mohsin Ali)

Lula participou de fórum sobre mudanças no mundo árabe em Doha

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista exclusiva à BBC Brasil, que as rebeliões que sacodem o Oriente Médio são “um bem para a democracia”.

Na opinião de Lula, que participou do fórum “O mundo árabe em transição: o futuro chegou?”, promovido pela rede de TV Al Jazeera em Doha, no Catar, os protestos devem promover mudanças na região como o aumento da preocupação com a população jovem e com a distribuição de renda.

“Uma fruta, por mais gostosa que seja, quando fica no pé e você não a colhe no tempo certo, apodrece e cai. O mesmo acontece com os governantes. Na medida em que vai passando o tempo, na medida em que a juventude começa a perder a esperança, acontece o que está acontecendo”, disse Lula, recorrendo a uma de suas famosas metáforas, ao comentar as rebeliões no Oriente Médio.

O ex-presidente negou ter sido sondado pela Venezuela para liderar uma comissão de mediação da crise na região, mas defendeu a aproximação do Brasil com países do Oriente Médio e disse que isso aumenta a independência tanto do Brasil como da região em relação aos Estados Unidos.

“O Brasil não quer pedir licença, o Brasil quer ser respeitado, ser tratado como adulto”, afirmou Lula, ao comentar a ambição brasileira de exercer um papel de liderança no cenário internacional.

O ex-presidente também abordou sua relação com a presidente Dilma Rousseff ao dizer que mantém contato próximo com ela e que não há divergências entre eles: “O dia em que tiver divergência entre eu e ela, ela terá razão”.

Lula disse ainda que está feliz na condição de ex-presidente, que ter deixado o poder com 85% de aprovação o deixa com “a sensação de dever cumprido” e que ainda é cedo para dizer o que fará no futuro – se voltará para a política no Brasil ou se tentará ocupar algum cargo internacional.

Leia abaixo a entrevista do ex-presidente Lula à BBC Brasil.

BBC Brasil – Qual a sensação de, depois de dois mandatos, deixar o governo com mais de 85% de aprovação?

Luiz Inácio Lula da Silva - É uma sensação de dever cumprido. Quando eu disputei (as eleições para) o primeiro e o segundo mandato, nós tínhamos traçado o objetivo de construir um Brasil diferente, com inclusão social, distribuição de renda, geração de empregos. Da volta do desenvolvimento do Brasil. E também tínhamos estabelecido a ideia de fazer com que o Brasil tivesse uma inserção no mundo mais importante. E nós atingimos o objetivo. Nós superamos as expectativas até de gente nossa. Eu sinto hoje o prazer de ter valido a pena ter perdido três eleições, de ter tido paciência e de ter esperado para ganhar as eleições e provar que nós éramos capazes de fazer mais do que aqueles que tinham governado antes de nós. E também o prazer de saber que a presidente Dilma Rousseff pegou um país muito mais estruturado, com muito mais investimento no setor produtivo, muito mais possibilidade de avançar do que eu peguei. Estou feliz de estar nessa nova função de ex-presidente.

BBC Brasil – Há alguma coisa que o senhor gostaria de ter resolvido no Brasil em seus dois mandatos como presidente e que não conseguiu?

Lula - Deve ter muita coisa. Tem muita coisa que começamos e que não terminamos, que vai terminar agora. Agora temos uma preocupação extraordinária: vamos ter a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos no Rio em 2016. Sempre há pessimistas que dizem que vai ter problema. Nós não teremos problemas com aeroportos, com segurança. Eu sou muito otimista. Se você me perguntasse: “o que falta fazer no Brasil?”, eu diria: “muita coisa”. Certamente vamos descobrindo ao longo do tempo. O tempo vai se encarregar de dizer, e nossos adversários também vão descobrir. Agora vamos torcer para que a companheira Dilma faça tudo aquilo que falta fazer.

BBC Brasil – E qual é a sua avaliação desses quase cem dias de governo Dilma?

Lula - Posso te dizer que foram muito mais tranquilos do que os meus primeiros cem dias. Porque a Dilma hoje praticamente não tem problemas. Ela tem, coordenado por ela mesma, a contratação de 1 milhão de casas do programa Minha Casa, Minha Vida número 1, e agora começa a contratar 2 milhões de casas para o programa número 2. Ela tem praticamente R$ 995 bilhões de investimentos no PAC 2, ela tem, só da Petrobras, US$ 224 bilhões em investimentos até 2014, uma quantidade enorme de coisas para inaugurar, 46 escolas técnicas que estão em fase de término. Já deu um aumento para o Bolsa Família, que foi uma coisa importantíssima. Está trabalhando em um projeto para acabar definitivamente com a miséria no Brasil. Não houve nenhuma grande realização nesses cem primeiros dias de governo, porque não é possível ter. Um filho leva nove meses para ser gerado, você imagina uma grande obra? Mas ela tem o Brasil na cabeça, tem os projetos prontos. Eu acho que a Dilma vai fazer um governo excepcional para o Brasil.

BBC Brasil – E como é atualmente a relação do senhor com a presidente? Vocês mantêm contato frequente?

Lula – Mantemos, conversamos sempre. Nos encontramos quatro vezes depois que eu deixei a Presidência. De vez em quando, querem dizer que existem divergências entre eu e a Dilma. Não vai existir nunca divergência entre eu e a Dilma, porque o dia em que tiver divergência entre eu e ela, ela terá razão.

“É preciso que o presidente líbio, Muamar Khadafi, se disponha a negociar com as pessoas que estão lutando, porque não pode continuar havendo violência.” Luiz Inácio Lula da Silva

BBC Brasil – Como o senhor avalia a atual situação no Oriente Médio e qual papel o Brasil pode desempenhar nessa crise, principalmente na Líbia?

Lula - É preciso ter cuidado para não tentarmos dar palpite equivocado em um processo ainda em construção. Até agora, alguns governos foram derrubados. O que vai acontecer depois, ainda é mais dúvida do que certeza. Que tipo de Constituição vai existir em cada país? Que tipo de gente vai ser eleita? Porque se a derrubada desses governos se deu sem uma organização estruturada do ponto de vista político, é muito difícil você montar governo e construir instituições sólidas. Uma fruta, por mais gostosa que seja, quando fica no pé e você não a colhe no tempo certo, apodrece e cai. O mesmo acontece com os governantes. Na medida em que vai passando o tempo, na medida em que a juventude começa a perder a esperança, acontece o que está acontecendo.

Eu acho que é um bem para a democracia. É preciso que o presidente líbio, Muamar Khadafi, se disponha a negociar com as pessoas que estão lutando, porque não pode continuar havendo violência. É preciso que ele se disponha a conversar ou que convoque uma eleição, um referendo, alguma coisa, para que seja possível medir o tamanho do desejo do povo da saída (de Khadafi do governo). Mas eu acho que esse é um processo normal, que aconteceu no Brasil, por ocasião do regime militar, em 1983 e 1984, durante a campanha para eleições diretas, aconteceu na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Paraguai, e agora é a vez do Oriente Médio. Eu acho que esse processo é bom. Depois disso, poderemos colher a sensação de um Oriente Médio renovado, mais preocupado com a juventude, com a distribuição de renda, mais preocupado com a democracia.

BBC Brasil – Foram divulgadas notícias sobre um pedido da Venezuela para que o senhor liderasse uma comissão internacional para mediar a crise na Líbia.

Lula - Isso é um boato falso. O próprio ministro de Exteriores da Venezuela desmentiu.

BBC Brasil – Durante seus dois mandatos, foi aberta a embaixada palestina no Brasil, foi criada a Cúpula América do Sul-Países Árabes, o senhor fez inúmeras viagens ao Oriente Médio. Qual é a importância das relações entre o Brasil e o Oriente Médio hoje?

Lula - Quanto mais forte for a relação do Brasil com o Oriente Médio, do ponto de vista comercial, político, econômico e cultural, menos o Oriente Médio será dependente da Europa e dos Estados Unidos, e menos o Brasil será dependente da Europa e dos Estados Unidos. Nós diversificamos as nossas relações. Durante séculos, nós estivemos afastados, e eu diria que por interesses econômicos das grandes potências. Não há motivo para governantes brasileiros passarem um século e meio sem ir a países do Oriente Médio. Acho que essas relações tendem a continuar crescendo.

“O Brasil tem uma maior inserção no mundo e tem a obrigação de fazer mais, de trabalhar mais e de propor mais coisas.” Luiz Inácio Lula da Silva

BBC Brasil – E quais são o objetivos dessa política voltada não só para países árabes, mas também africanos e sul-americanos?

Lula - A ideia fundamental é tentar socializar as experiências bem sucedidas que nós tivemos no Brasil. Nem nós ainda temos noção do resultado de tudo que nós fizemos. Quando terminou meu segundo mandato, fiz questão, no dia 15 de dezembro (de 2010), de que todos os ministros registrassem em cartório tudo o que fizemos, porque daqui para frente é que vamos nos dar conta do que fizemos. Porque tirar 36 milhões de pessoas da pobreza e levar para a classe média, e tirar 28 milhões da pobreza extrema é resultado de um trabalho extraordinário de microcrédito, de financiamento, de distribuição de renda, de aumento de salário.

E eu quero mostrar essas coisas para outros países e ver se a gente consegue arrumar recursos para financiar essas coisas naqueles países. Não é possível que as pessoas não compreendam que quanto mais melhorar a África, melhora a Alemanha, melhoram os Estados Unidos, melhora o Brasil. Porque aumentam as relações entre os países, aumenta o poder de consumo, melhora a qualidade de vida das pessoas. Eu fiz uma boa amizade com os presidentes africanos, visitei 29 países. Eu, sozinho, visitei mais que (todos os presidentes de) toda a história da República do Brasil. Se eu puder ajudar Cabo Verde, Senegal, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, eu tenho que ajudar. E estou disposto a fazer esse esforço.

BBC Brasil – E qual é a importância do Brasil hoje em dia como uma espécie de líder nas relações Sul-Sul?

Lula - A palavra líder é muito delicada, porque a gente só lidera quem pede para ser liderado. E ninguém pediu para o Brasil liderar as relações Sul-Sul. O que tem que se levar em conta é que o Brasil é a maior economia, tem a maior população (da América Latina), e, portanto, é quase que normal que o país tenha um papel importante nessas relações. Mas qualquer um dos quatro países do Mercosul pode fala pelo Mercosul, qualquer um da Unasul pode falar em nome da Unasul. O Brasil tem uma maior inserção no mundo e tem a obrigação de fazer mais, de trabalhar mais e de propor mais coisas. Eu acho extraordinário que os países da América do Sul comecem a ser percebidos pelo mundo.

Acho que o Brasil começa a ser respeitado e ouvido, o mundo começa a perceber que nós temos o que propor. Isso é bom, porque houve o fim de uma bipolaridade, em que duas grandes potências diziam ao mundo o que fazer. Depois do fim da bipolaridade, ficou quase que uma posição única. No fundo, mandavam quase que só a União Europeia e os Estados Unidos. O Brasil não quer pedir licença, o Brasil quer ser respeitado, quer ser tratado como um adulto, que tem o que falar, que tem o fazer, que tem o que propor, que sabe negociar. Acho que a tendência daqui para frente é o Brasil se fortalecer muito mais na sua política externa, porque isso foi muito bom para o país e para o povo brasileiro.

Há dez anos, os brasileiros viajavam para o exterior e tinham vergonha de mostrar o passaporte, de dizer que eram brasileiros. Hoje os brasileiros têm orgulho, em qualquer lugar do mundo, de dizer “sou brasileiro”. As pessoas já não conhecem mais o Brasil só pelo carnaval, pela violência, pelas favelas e pelo futebol. Elas conhecem o Brasil pelo acerto em sua política econômica, pelo acerto no tratamento da crise, pela descoberta do pré-sal, pela distribuição de renda, pela ascensão da classe pobre à classe média, por nossa política ambiental.

BBC Brasil – E o que o senhor tem feito? Quais são os planos para o futuro? O senhor pretende se candidatar a algum cargo internacional? Voltar para a política brasileira?

Lula - Tudo o que eu falar agora será precipitado. Eu tenho descansado, tenho trabalhado, feito palestras. No mês de março, eu vou a Portugal receber um título da Universidade de Coimbra, vou ao Paraguai em uma reunião sobre educação, vou ao Uruguai para a comemoração dos 40 anos da Frente Ampla. Vou no dia 5 de abril para Washington, para um debate promovido pela Microsoft, depois eu vou para Acapulco, no México, para Madri e para Londres.

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Já quase se pode ver um Banksy árabe, grafitando pelas paredes das capitais árabes

março 14th, 2011 by mariafro
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Indonésia-Turquia-Brasil: o Egito será um IndoTurcoSil?

Por: Pepe Escobar, Tomdispatch e Asia Times Online

13/3/2011/e  14/3/2011

Três múmias foram recentemente descobertas no subterrâneo de um templo em Luxor, no Egito. Traduzidos os hieróglifos, viu-se que eram O Choque de Civilizações, o Fim da História e a Islamofobia. Reinaram no ocidente na segunda década do século 21, até que morreram e foram embalsamadas.

Essa parte está resolvida. Sem as três, o Oriente Médio já é um novo mundo e pode ser compreendido de outro modo. Não se sabe por quê, o Egito – até há pouco tempo terra moribunda da “estabilidade” e lambe-botas de qualquer um que estivesse no poder em Washington – foi metido no Novo Grande Jogo do Oriente Médio.

A questão é: será destino do Egito – e destino dos milhões de egípcios que tomaram as ruas em espantoso show de potente não-violência, em janeiro e fevereiro?

Impossível dizer, especialmente porque a norma é o jogo de sombras, e as realidades do poder são duras de entender. Em país no qual “a política” significou, durante décadas, “o exército”, é notável que o ator chave que supostamente coordena a “transição para a democracia” ainda seja o indicado pelo Faraó Hosni Mubarak, marechal-de-campo Mohamed Hussein Tantawi do Conselho Supremo do Exército. Mas, pelo menos, a pressão popular forçou a junta militar de Tantawi a indicar outro primeiro-ministro provisório, o amigo-da-praça-Tahrir e ex-ministro dos Transportes Essam Sharaf.

Lembrem todos que as odiadas leis de emergência da era Mubarak, parte das quais provocaram o levante egípcio, ainda são vigentes; e que intelectuais egípcios, partidos políticos, sindicatos e a mídia, todos, temem que esteja em marcha uma contrarrevolução silenciosa. Ao mesmo tempo, todos quase uniformemente insistem em que a revolução da praça Tahrir não será capturada nem reposicionada por oportunistas. Dado que se superou a divisão entre liberalismo, secularismo e islamismo quando veio abaixo o Muro do Medo psicológico, advogados, médicos, trabalhadores da indústria têxtil – boa amostra de toda a sociedade civil egípcia – sabe com clareza de uma coisa: não aceitarão nem uma teocracia nem ditadura militar. Querem plena democracia.

Não surpreende que os círculos diplomáticos ocidentais tremam ante essas evidências. Nenhum exército egípcio que seja, mesmo que só remotamente, transparente, e que preste contas a governo civil eleito, jamais, por exemplo, colaborará no sítio aos palestinos de Gaza, nem participará de programas de “tutela excepcional” da CIA, prestando-se a receber suspeitos de terrorismo para serem interrogados nas prisões egípcias, nem tomará parte na monstruosa farsa conhecida como “o processo de paz Israel – palestinos”.

Simultaneamente, há questões mais pedestres a serem enfrentadas: como, por exemplo, a transição-comandada-pelo-exército conseguirá que, até as eleições de setembro, os números da economia melhorem? Em 2009, o Egito importou 56 bilhões e só exportou 29 bilhões de dólares. O turismo, a ajuda externa e empréstimos ajudaram a cobrir o rombo. O levante levou o turismo para o marco zero e sabe-se lá que ajudas e empréstimos alguém oferecerá ao Egito, em futuro próximo.

Seja como for, o país terá de importar nada menos que 10 milhões de toneladas de trigo em 2011 ao preço de cerca de $3,3 bilhões de dólares (se o preço dos grãos parar de aumentar) para manter a população, no mínimo, semialimentada. Essa é só uma parte da herança maldita de Mubarak, que inclui 40 milhões de egípcios, mais da metade da população, vivendo com menos de 2 dólares/dia, e herança maldita que não sumirá da noite para o dia, supondo-se que suma, algum dia.

Atropeladas por uma revolução que rola, pacífica, por todo o Oriente Médio/África do Norte [ing. MENAMiddle East and Northern Africa], Washington e uma Fortaleza Europa cada vez mais velha, trêmulas de medo, afundam-se num pântano de perplexidade. Mesmo quando amainem os ventos das rebeliões do Norte da África, nem assim se poderá dar por garantido que entenderão como todos os estereótipos culturais sempre usados para explicar o Oriente Médio, ao longo de décadas, também conseguiram sumir.

O meu slogan favorito, da Grande Revolta Árabe de 2011, ainda é a frase de Sahrhan Dhouib, intelectual tunisiano: “Essas revoltas são a resposta ao plano de [George W.] Bush, que planejava democratizar o mundo árabe com violência”. Se “choque e pavor” já se foi também para a lata do lixo da história… o que mais também irá?

Modelos para Alugar ou Vender

Dia 3/2, a Fundação Turca de Estudos Econômicos e Sociais [ing. Turkish Economic and Social Studies Foundation publicou resultado de pesquisa realizada em sete países árabes e no Irã. Nada menos que 66% dos respondentes declararam que consideram a Turquia, não o Irã, como modelo ideal para o Oriente Médio. A mídia, do Le Monde ao Financial Times agora, é claro, já concordou. Afinal, a Turquia é democracia funcional em país de maioria muçulmana, na qual mesquitas e Estado vivem separados.

O brilhante intelectual islâmico Tariq Ramadan, neto do fundador da Fraternidade Muçulmana Hassan al-Banna, já falara também recentemente da “via turca”, como “fonte de inspiração”. No final de fevereiro, o ministro do Exterior da Turquia Ahmet Davutoglu concordou, com alguma dose de modéstia, que mal disfarçava as ambições da nova Turquia; insistiu que seu país não aspira a ser modelo de coisa alguma na região, “mas queremos ser fonte de inspiração”.

Samir Amin, economista marxista egípcio – muito respeitado em todo o mundo em desenvolvimento – suspeita que, sejam quais forem os desejos e esperanças de turcos e outros, inclusive de muitos egípcios, Washington tem planos bem diferentes para o futuro do Egito. Amim acredita que Washington deseja, não algum modelo turco, mas um modelo paquistanês para o Egito: um mix de “poder islâmico” e de ditadura militar. Amin está convencido de que jamais decolará, porque “o povo egípcio está hoje altamente politizado.”

O processo de verdadeira democratização que começou nos distantes anos 1950s na Turquia mostrou ser estrada bem longa. Apesar de tudo, apesar dos periódicos golpes militares e do continuado poder político do exército turco, as eleições foram e continuam a ser livres. O partido Justiça e Desenvolvimento [AKP], hoje no poder, foi fundado em agosto de 2001, por ex-membros do partido Refah, grupo islâmico muito mais conservador, com ideologia semelhante à da Fraternidade Muçulmana egípcia de hoje.

Enquanto o AKP ia-se moderando, contudo, a ala pró-business, pró-União Europeia dos islamistas turcos ia-se misturando com políticos de centro direita e, em 2002, o AKP finalmente chegou ao poder em Ancara. Só então puderam começar a minar lentamente a fortaleza da elite turca tradicional de Istambul, combinada aos militares, que se mantivera no poder desde os anos 1920s.

Mas o AKP não delira com desmantelar todo o sistema secular que foi implantado na Turquia pelo Pai Fundador, Mustapha Kemal Ataturk, em 1924. O Código Civil turco, que Ataturk instituiu, foi inspirado no Código Civil suíço: a cidadania baseada em lei secular. Apesar de o país ser predominantemente muçulmano, o povo simplesmente não aceitaria sistema que, como o do Irã Khomeinista, seja dirigido pela religião.

O partido AKP deve ser visto como o equivalente dos Democratas Cristãos na Europa depois dos anos 1950s – dinâmicos, conservadores orientados para o business, com raízes religiosas. No Egito, a ala moderada da Fraternidade Muçulmana tem várias semelhanças com o AKP e inspira-se nele. No novo Egito, ele será finalmente partido político legítimo, e muitos especialistas estimam que possa obter 25-30% dos votos, na primeira eleição da nova era.

Todos os caminhos levam a Tahrir

Críticos turcos – quase todos da casta que segue a orientação técnico-gerencial do ocidente – têm denunciado regularmente o modelo “democracia-com-Islã” turco de ser pouco mais que ‘casamento arranjado’ pelomarketing, ou, pior, de ser versão médio-oriental, da Rússia. Afinal, o exército preserva poder ainda desproporcional, por trás das cortinas, como garantidor da moldura secular do Estado. E a minoria curda que vive na Turquia ainda não está realmente integrada no sistema (embora, em setembro de 2010, os eleitores turcos tenham aprovado as alterações na Constituição que ampliam os direitos de cristãos e curdos).

Com seu glorioso passado otomano – observa Orhan Pamuk, que em 2006 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura –, a Turquia jamais foi colonizada por qualquer potência mundial; por isso, as ideias de “ ‘venerar a Europa’ ou ‘imitar o ocidente’ jamais tiveram, na Turquia, as conotações de humilhação” de que falam Frantz Fanon ou Edward Said e que se aplicam ao resto do Oriente Médio e do Norte da África.

Há flagrantes diferenças entre a via turca para uma democracia desmilitarizada em 2002 e o caminho que se delineia à frente para os jovens manifestantes egípcios e os nascentes partidos políticos. Na Turquia, os principais atores são islamistas pró-business, conservadores, neoliberais e nacionalistas de direita. No Egito, são islamistas pró-sindicatos, de esquerda, liberais e nacionalistas de esquerda.

A revolução da praça Tahrir foi desencadeada, essencialmente, por dois grupos de jovens: o Movimento de Jovens 6 de Abril [orig. April 6 Youth Movement] (nascido da solidariedade com trabalhadores grevistas) e o movimento Todos Somos Khaled Said [orig. We all are Khaled Said] (mobilizado contra a brutalidade da polícia). Depois, os dois movimentos receberam a solidariedade de ativistas da Fraternidade Muçulmana e – fator decisivo – dos sindicatos organizados, das massas de trabalhadores (empregados e desempregados) que padeceram anos os efeitos venenosos do “ajuste estrutural” inventado pelo Fundo Monetário Internacional. (Ainda em abril de 2010, uma delegação do FMI, em visita ao Cairo, elogiava “os progressos de Mubarak”.)

A revolução na praça Tahrir criou as necessárias conexões de modo muito ampla e profundamente abrangente. Conseguiu exibir toda a complexa equação e ir ao coração da matéria, aproximando salários miseráveis, desemprego em massa e pobreza sempre crescente, aos meios pelos quais os asseclas de Mubarak (e oestablishment militar) se autoenriqueciam. Daqui em diante, em qualquer demonstração que se faça, o modo como os militares controlam parte tão significativa da economia terá de aparecer como assunto que já não se pode ocultar – por exemplo: empresas que são propriedade do exército, continuam a comandar as indústrias da água, do azeite de oliva, do cimento, da construção, dos hotéis e do petróleo; e militares são proprietários de áreas importantes de terra no Delta do Nilo e junto ao Mar Vermelho, “presentes” que receberam pelo serviço de garantir a estabilidade do regime.

Não surpreende pois que setores chave do ocidente estejam tentando empurrar goela abaixo do Egito uma variante “segura” do modelo turco. Mas, de fato, dada a miséria extrema que devassa o Egito, é pouco provável que os jovens manifestantes e os trabalhadores e sindicatos que os apoiam sejam ‘pacificáveis’ pela possibilidade de um estado à moda turca, neoliberal e islamo-democrático. No Egito, a coalizão esquerda-liberais-islamistas busca uma modalidade de democracia amiga dos sindicatos-trabalho-trabalhadores, independente e realmente soberana. Ninguém precisa do diploma de PhD que Saif al-Islam al-Gaddafi comprou e a London School of Economics vendeu-lhe, para saber que esse tipo de nova configuração independente pode ter efeitos cataclísmicos no status quo.

“Espelho, espelho meu…”

É importante entender bem: queiram os ativistas da praça Tahrir reproduzir no Egito o sistema turco, ou não queiram, a Turquia é imensamente popular no Egito, e mais popular também, a cada dia, em todo o mundo árabe. Assim os políticos de Ancara encontram o cenário perfeito para consolidar a liderança do país no plano regional, que cresce visivelmente desde 2003; e os turcos afirmaram a própria independência ao não admitir que soldados dos EUA cruzassem por território turco, como George W. Bush deseja, a caminho de invadir o Iraque.

Essa popularidade só fez aumentar depois que se soube que oito dos nove assassinados por comandos israelenses no ataque-fiasco contra a Flotilha da Paz, em Gaza, eram cidadãos turcos. Quando o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan condenou furiosamente Israel por aquele “amaldiçoado massacre”, imediatamente se converteu em “Rei de Gaza”. Quando Mubarak afinal respondeu às manifestações na praça Tahrir e anunciou que não seria candidato à presidência em 2011, o presidente Obama nada ou quase nada disse; o ex-primeiro-ministro britânico ‘recomendou’ que o Egito “não se precipitasse na direção de eleições”; e Erdogan outra vez fez melhor: de fato, ordenou que Mubarak renunciasse, ao vivo, pela al-Jazeera, à vista de todo o mundo muçulmano.

Enquanto Washington atrapalha-se cada vez mais, com medo de ofender o lado errado da história e, mesmo isso, sempre de modo relutante e caótico, ao lado de defensores de Mubarak do quilate de Israel e Arábia Saudita,  Erdogan – analista sofisticado da política regional – não vacilou e alinhou-se aos egípcios que, na praça, lutavam para traçar o próprio destino. Valeu a pena. Acertou.

O importante não é que os EUA estejam ‘perdendo’ a Turquia, nem, como disseram alguns críticos, que Erdogan sonhe com tornar-se um califa neo-otomano (seja lá o que signifique). O que se deve entender é que já se vê com clareza um novo conceito sob o qual os turcos estão trabalhando: a profundidade estratégica.

Para saber disso, é preciso recorrer a um livro, Stratejik Derinlik: Turkiye’nin Uluslararasi Konumu(Profundidade Estratégica: a Posição Internacional da Turquia), publicado em Istambul em 2001, cujo autor é Ahmet Davutoglu, então professor de Relações Internacionais na Universidade de Marmara e, hoje, ministro das Relações Exteriores da Turquia.

Naquele livro, Davutoglu examinou um futuro que hoje parece mais próximo a cada dia, e pôs a Turquia no centro de três círculos concêntricos: 1) os Bálcãs, a bacia do Mar Negro e o Cáucaso; 2) o Oriente Médio e o Mediterrâneo Oriental; e 3) o Golfo Persa, a África e a Ásia Central. Em matéria de áreas de influência, já em 2001 o atual ministro turco já entendia que a Turquia podia exigir direitos de atuar em pelo menos oito: no Bálcãs, no Mar Negro, no Cáucaso, no Mar Cáspio, na Ásia Central turca, no Golfo Persa, no Oriente Médio e no Mediterrâneo. Hoje, aquele professor e atual ministro é ator chave e, em muitas dessas mesmas áreas de influência, muitas gente já observa atentamente a Turquia. O ministro Davutoglu vive momento notável; continua convencido de que Ancara será uma força a ser reconhecida no Oriente Médio. Para explicar, o ministro diz apenas: “O Oriente Médio é nossa casa”.

Tome-se então o conceito de “profundidade estratégica” da Turquia e combine com a Grande Revolta Árabe de 2011, e você logo entenderá por que Erdogan apostou suas fichas não só em oferecer o modelo turco como modelo útil aos egípcios e, mesmo, a todo o Oriente Médio, como, também, adiantou-se ao Egito para ocupar a função de entre a Região e o Ocidente. Que Erdogan e Davutoglu já andavam nessa direção, estava bem claro no modo como, nos últimos anos, tentaram inserir-se como mediadores entre Síria e Israel e acenaram ao Irã, com uma complexa abertura política, diplomática e econômica.

Por falar de ironias históricas: no instante em que os fundamentalistas iranianos assistiam à derrocada do regime egípcio, que sempre lhes fora hostil, outra vez, de repente, o Movimento Verde iraniano reapareceu nas ruas de Teerã – exatamente durante visita de ninguém menos que o presidente Abdullah Gul da Turquia. Os protestos foram enfrentados com luvas de veludo (pelos padrões iranianos), porque a ditadura militar do mulariato viu-se em posição fraca ante o aliado turco, já bem adiantado na via para tornar-se principal fonte inspiracional dos movimentos árabes de massa.

Java, democracia e cafezinho?

Mas nem por isso a Turquia é o único país do qual os egípcios podem obter lições úteis sobre a construção de democracias. A Turquia não é, de modo algum, a única fonte possível de inspiração. Os egípcios podem examinar também, por exemplo, a América Latina.

Pela primeira vez em mais de 500 anos, a América do Sul está, toda ela, sob governos democráticos. Como no Egito, e em muitos países da América Latina durante a Guerra Fria, a ordem do dia foram as ditaduras, com militares na administração do Estado.

No Brasil, por exemplo, a abertura política “lenta, gradual e segura” para livrar-se das ditaduras militares alongou-se por mais de uma década.

É indispensável ter paciência. O mesmo se aplica a outro modelo interessante, que os egípcios devem também considerar: a Indonésia. Ali, em 1998, Suharto, ditador senil, apoiado pelos EUA e há 32 no poder, afinal decidiu renunciar, poucos dias depois de voltar, precisamente – e de onde mais seria? – do Cairo. Naquele momento, a Indonésia parecia-se muito ao Egito de fevereiro de 2011: nação predominantemente muçulmana, aliada do ocidente, cada dia mais miseravelmente pobre e mais farta daquela ditadura militar megacorrupta que assassinou intelectuais da esquerda e, igualmente, políticos islamistas.

Hoje, 13 anos depois, a Indonésia é a terceira maior e a mais livre democracia do sudeste da Ásia, com governo secular, economia florescente e os militares expulsos da vida política.

Lembro vivamente, andando de bicicleta em maio de 1998 pela capital da Indonésia, Jakarta, a cidade literalmente em chamas, a fúria subindo aos céus em infinitas colunas de fumaça. Washington não interveio daquela vez, nem a China, nem nenhum dos 10 membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático [ing.Association of Southeast Asian Nations]. Os próprios indonésios deram jeito em tudo. A transição se fez conforme uma Constituição existente mas, até então, quase completamente ignorada. (No Egito, a Constituição, agora, terá de ser emendada via um referendum.)

Sim, os indonésios tiveram de conviver durante algum tempo com um vice-presidente escolhido por Suharto, o afável B.J. Habibie (em tudo diferente do sucessor que Mubarak escolheu, o sinistro Omar “Xeque al-Tortura” Suleiman). Demorou um ano, para que se organizassem novas eleições, se emendassem as leis eleitorais e se pusesse fim aos deputados nomeados para o Parlamento. Seis anos se passaram, antes das primeiras eleições diretas para presidente. E, sim, a corrupção ainda é problema imenso, e riqueza e contatos certos ainda ajudam muito (como também é verdade, lembrariam alguns, nos EUA). Mas hoje a Indonésia vive sob Estado de Direito.

Nenhum “estado islâmico” teve lá qualquer chance. Hoje, só 25% dos indonésios votam para partidos islamistas, e o bem organizado Partido da Justiça e da Prosperidade, descendente ideológico da Fraternidade Muçulmana mas, hoje, ideologicamente aberto também a não muçulmanos, ocupa apenas quatros dos 37 lugares no Gabinete do presidente Yudhoyono e não conta com obter mais de 10% dos votos nas eleições previstas para 2014.

Enquanto a Indonésia permanece fechada aos EUA e é incansavelmente cortejada por Washington como possível contrapeso à China, o Brasil, sob a presidência do imensamente popular presidente Luis Ignacio “Lula” da Silva traçou caminho ainda mais independente para o próprio país e, seguindo esse exemplo, o mesmo fizeram muitos países da América Latina. Todo o processo consumiu quase uma década e historiadores futuros talvez o considerem, no mínimo, tão significativo quanto a derrubada do Muro de Berlim.

Na Europa Oriental, 1989 pode ser visto em parte como uma cadeia de rebeliões populares, movidas por pessoas que queriam acesso ao mercado global. A Grande Revolta Árabe, por sua vez, foi levante contra, em grande parte, a ditadura daquele mesmo mercado.

Os manifestantes, da Tunísia ao Bahrain, clamam por inclusão social e novos, melhores contratos sociais e econômicos. Não surpreende que esse espantoso levante em andamento seja visto em toda a América Latina com tremenda empatia e com uma emoção do tipo “Nós fizermos. Agora, eles também estão fazendo.”

O futuro, é claro, é desconhecido, mas é possível que, daqui a uma, duas décadas, veja-se que os egípcios e outros povos árabes não abraçaram a via turca, nem a via brasileira nem a via indonésia e que, em vez disso, abriram novas vias pioneiras. É possível que no futuro, do Cairo a Túnis, de Benghazi a Manama, de Argel a (“se Alá quiser”) uma Arábia Saudita pós-Casa de Saud, os povos estejam inventando uma nova cultura política e os novos contratos econômicos que virão com ela. E que serão soluções locais e, esperemos, soluções democráticas às quais se terá chegado por vias novas e surpreendentes.

O que nos leva de volta à Turquia. É perfeitamente viável que o Islã seja um dos blocos sobre os quais se construirá algo inteiramente novo, algo sobre o que ainda não há hoje qualquer pista, algo tão impensável quanto foi, antes de acontecer, na Europa, a separação entre política e religião. No espírito de maio de 1968, já quase se pode ver um Banksy[1] árabe, grafitando pelas paredes das capitais árabes: A Imaginação no Poder!


[1] Artista britânico. Algumas de suas obras-intervenções podem ser vistas em sua página aqui

 

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