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Pepe Escobar: A “ótica” vesga da Alvorada da Odisséia

março 23rd, 2011 by mariafro
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A “ótica” vesga da Alvorada da Odisséia

Pepe Escobar, Asia Times Online, Tradução: Vila Vudu

24/3/2011

A Operação Alvorada da Odisséia, pelo menos por hora, é a primeira guerra do AFRICOM dos EUA. O Pentágono, via o vice-almirante Bill Gortney, dissipou qualquer dúvida que houvesse, quando disse que “o fio condutor” é norte-americano. O papel de Homero ficou a cargo do general Carter Ham, que comanda de seu gabinete em Stuttgart, Alemanha (nenhum país africano interessou-se por hospedar o AFRICOM). E Ulisses – no que já tem mais cara e som de Ilíada que de Odisséia – é o comandante da Força Tarefa Conjunta Aurora da Odisséia almirante Sam Locklear, a bordo do USS Mount Whitney em algum ponto do Mediterrâneo.

Os estrategistas bélicos da Casa Branca e do Pentágono apostaram as “excepcionais capacidades” deles numa versão remix-reduzida do “choque e pavor” da guerra do Iraque. O único problema é que o coronel Muammar Gaddafi não parece nem chocado nem apavorado; está furioso – na foto dessa 3ª-feira no complexo de Bab al-Aziziya –, mas não vergou. E seu governo resiste, sem se por contra o coronel.

Apesar disso, Washington tenta projetar uma imagem pública, mostrando a fantasia de que estaria louca para livrar-se dessa guerra, vendida como “missão limitada”. Mas os comunicados estão confusos. Dizem, na linguagem do Pentágono, que os senhores da guerra estariam encontrando dificuldades na “transição para um comando da coalizão.”

Washington deveria ter avaliado melhor a “ótica”, antes de evocar Homero. Esqueçam “o peso da missão” (em andamento), “fogo amigo” (virá), “dano colateral” (já aconteceu), “eixo do mal” (expressão favorita perene). O novo neologismo de prestígio em Washington e nos círculos íntimos do poder é “ótica”.

Os militares-de-sempre e seus jornalistas-de-sempre carpindo a fórmula da “ótica emocional” dos mísseis cruzadores plus os briefings assinados pela “coalizão” já repuseram, na cabeça de todos, a guerra do Iraque-2003. Espalha-se nos EUA o medo de mais uma “ótica da guerra sem fim”, mais uma vez contra país muçulmano.

Ilusões de ótica

Até entre os “aliados”, a “ótica”, do tipo lata de lixo. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é completa confusão. A Turquia exige diálogo – e não admite bombas. A Alemanha é contra qualquer intervenção pela OTAN e destaca que bombas não darão conta do recado. A França, arrastada pela megalomania do neonapoleônico Nicolas Sarkozy, quer manter a ilusão de que estaria no comando.

Com medo de que a França usurpe-lhe o trono de primeiro parceiro comercial da Líbia e na luta para impedir que a política mediterrânea seja ditada em Paris, o governo do grande amigo de Gaddafi, Silvio “Bunga-Bunga” Berlusconi, aderiu com relutância à “coalizão” (e agora, no privado, Bunga Bunga diz horrores contra Sarko). A gigante italiana de energia ENI investiu 50 bilhões de dólares na Líbia; a ENI tem todo o interesse em livrar-se de Gaddafi, depois que o coronel ameaçou abrir as torneiras do gás e petróleo líbios para os BRICs Rússia, Índia e China.

Os principais quatro BRICSs (o quinto membro é a África do Sul) livraram-se, espertamente, de toda a Odisséia. O Brasil exigiu cessar-fogo e diálogo. A China manifestou “profunda preocupação” e alertou para a iminência de um “desastre humanitário”. A Índia disse que “nenhuma potência externa deve intervir” na Líbia. E a Rússia, pelo primeiro-ministro Vladimir Putin, denunciou uma “resolução que permite tudo”.

O mesmo fez a União Africana, de 53 nações. A União Africana quer solução diplomática. Gaddafi tem muitos aliados históricos na União Africana. E ajuda a pagar muitas contas da União Africana.

A Argélia – membro também da Liga Árabe – disse que a intervenção é “desproporcional”. No Chad, o presidente Idriss Deby continua no poder em boa parte graças aos bolsos fundos de Gaddafi. Deby pagou o favor enviando mercenários e armas para Trípoli. E mais: se a zona aérea de exclusão não for estendida até o sul da Líbia (por enquanto só cobre o norte e o litoral mediterrâneo), Gaddafi continuará a poder receber ajuda, armas e mercenários, que lhe chegarão do Chad, Mali, Niger e da Argélia (ver “Despachem os tuaregues, por avião, urgente!, 8/3/2011, Castorphoto).

Não raiou, na Alvorada da Odisseia da cabeça dos estrategistas do Pentágono, que coalizão que não tenha explícito apoio da União Africana implica, sempre, que a União Africana poderá continuar a ajudar o regime de Gaddafi.

E há também a carne no kebab da coalizão – a Liga Árabe. O fato de Washington ter ordenado aos assustados reis do Marrocos e da Jordânia e aos ricos emires em Doha e Abu Dhabi que se engajassem como “aliados” – todos indiferentes ao grotesco indescritível de esses ditadores fazerem pose de salvadores humanitários da democracia – não implica que toda a Liga Árabe esteja a bordo da Alvorada da Odisséia. É isso.

Claro. A menos que se computem os éramos-seis, viramos-quatro, agora-só-dois Mirages 2000 da Força Aérea do Qatar, mais um avião cargueiro C-17 – que entrarão em cena no próximo fim de semana –, como toda a gloriosa contribuição da Liga Árabe para os combates da “coalizão”.

Sem fim de jogo

A “coalizão” não chegara nem perto de ter esgotado “todas as medidas necessárias” que a Resolução n. 1.973 da ONU encarregou-a de adotar, e os Ulisses-EUA já lá estavam, despejando Tomahawks sobre a Líbia. Todos os países do mundo que não estão representados nessa “coalizão de vontades” querem, essencialmente, que uma equipe internacional – Liga Árabe, União Africana e ONU – vá até Trípoli e negocie um pacote: cessar-fogo real, mecanismos eficazes para proteger civis e processo viável que leve a eleições na Líbia. A “ótica” de Washington não viu isso?

E como se não bastasse a “ótica” vesga, a Alvorada da Odisséia ainda nem conseguiu raiar. No máximo, evitou um possível massacre em Benghazi. Relatos horríveis de Zawiya e Misurata contam sobre civis atacados por tanques e veículos blindados, e das milícias – os “irregulares” de Gaddafi – em jipes e caminhonetes pick-up. É a prova que basta, de que zona aérea de exclusão – até aqui, só feita de choque e horror – não está efetivamente protegendo civis alguns.

O presidente Barack Obama parece convencido de que conseguiu inverter a “ótica”. Os noticiários não se cansam de repetir que Obama, o primeiro-ministro britânico David Cameron e “Sarko” concordaram com que a OTAN tenha “papel central” na Alvorada da Odisséia. Foi como enviesar a “ótica” de modo a dizer que os EUA nada teriam a ver com a implantação militar da zona aérea de exclusão – quando ficaram encarregados de tudo (os 28 membros da OTAN aprovarão tudo, por unanimidade).

Essa saturação ótica contribui para tornar ainda mais evidente o que já era claro desde o início. A guerra passará por uma “transição”: de “coalizão de três vontades” (EUA, Grã-Bretanha e França), para “guerra da OTAN”.

Se o Pentágono realmente aplicasse todas as suas exaltadas “excepcionais capacidades”, o regime de Gaddafi estaria reduzido a pó em alguns minutos. Mas é “missão limitada” conduzida por uma “coalizão” – não é “mudança de regime”, embora mudar o regime seja tudo o que desejam Obama, os europeus e vários ditadores árabes. Para eles, trata-se da “ótica” do alerta vermelho.

establishment em Washington festeja que, pela primeira vez, “o público árabe” estaria apoiando uma intervenção norte-americana. Cuidado com a “ótica”. O “público árabe” também está vendo que Gaddafi atira contra o próprio povo e, em seguida, é bombardeado pelos EUA e pelo ocidente. Por que não se providencia a mesma solução contra os ditadores no Iêmen e no Bahrain?

O “público árabe” também sabe identificar claramente os métodos que EUA e europeus usam para tentar roubar, do mesmo público árabe, a sua grande revolta árabe de 2011.

Por hora, com tanta “ótica” confusa, nenhum think-tank atreve-se a prever o que a “coalizão” tirará da manga, quando nenhuma zona aérea de exclusão detiver Gaddafi. Armar os “rebeldes”, exército de farrapos, mas valentes e ultramotivados – o que já está sendo feito – é ação autorizada pela Resolução n. 1.973 da ONU. Washington, Londres e Paris esperam que os rebeldes logo partam da defesa ao ataque, marchem sobre Trípoli, derrubem o tirano e garantam à audiência um final feliz Hollywoodiano.

Nunca acontecerá. O conselho de transição em Benghazi pediu uma zona aérea de exclusão – não intervenção estrangeira. A Alvorada da Odisséia só faz bombardear pesadamente Trípoli – no outro extremo do país. A população de Trípoli já começa a ver aí o início de nova guerra colonial. O que significa que nenhuma transição política pós-Gaddafi jamais será pacífica. Muito perversamente, a Alvorada da Odisseia prepara o terreno para dividir a Líbia. Alvorada, no máximo, da balcanização.

Qualquer analista militar decente, que valha o que custa ao Estado em uísque on the rocks, sabe que guerras vencem-se no chão. O impulso humanitário é cortina de fumaça: por que a Líbia, e não o Iêmen, o Bahrain, Gaza?. Tudo faz temer outro, novo, muito perigoso teatro de guerra no chamado MENA [ing.Middle East e Norte da África), Odisséia desnorteada, distorcida, sem fim de jogo nem final à vista. Aparece, desaparece; agora você vê, agora você não vê.

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Quinta, 24/03 10º ato público do Movimento Passe Livre

março 23rd, 2011 by mariafro
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Comitê de luta contra o aumento das passagens de ônibus realiza manifestação nesta quinta-feira

Será realizada nesta quinta-feira, 24/03, a décima manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo. A concentração começa às 17h00, na Praça Oswaldo Cruz, na Avenida Paulista. O ato é organizado pelo Comitê de luta contra o aumento.

 

Histórico:

A jornada de luta contra o aumento contou com manifestações em 24/11, 16/12, 13/01, 20/01, 27/01, 02/02, 03/02, 10/02, 17/02, 24/02, 03/03, 10/03 e 17/03. Com os atos o movimento conquistou uma Audiência Pública na Câmara dos Vereadores com o Secretário Municipal de Transportes, Marcelo Branco. Nesta, insatisfeitos com os argumentos apresentados pelo Secretário, os manifestantes pressionaram por uma reunião de negociação com o executivo e o legislativo para reverter o aumento da passagem de ônibus. O Secretário saiu às pressas, antes do fim da audiência, mas o Presidente da Câmara dos Vereadores, Police Neto comprometeu-se com o início das negociações.

No dia 17 de Fevereiro, porém, o Poder Executivo não compareceu a reunião agendada, e o Movimento foi até a Secretária de Transportes para forçar um encontro com o Secretário Adjunto, Pedro Luiz de Brito. Devido a argumentação de que a Secretaria não poderia decidir sobre a redução, seis pessoas se acorrentaram na Prefeitura durante 11 horas, e um ato pacífico do lado de fora foi duramente reprimido.

Na segunda-feira (21), o movimento protocolou um pedido de negociação direcionado ao prefeito Gilberto Kassab e ao secretário de relações governamentais Antonio Carlos Malufe. Diferentemente do pedido, uma reunião que claramente não negociaria foi marcada para 4 de março, às 16h, na Secretaria de Transportes. Diante disso, nova carta foi protocolada nesta data, pedindo novamente uma reunião com o Prefeito Gilberto Kassab para discutir o valor da tarifa no dia 17 de Março.

Na quinta-feira passada, o Prefeito não recebeu o Movimento na Prefeitura, e como resposta, além de faixas queimadas, o Terminal Bandeira ficou parado durante algum tempo, e a tentativa de entrada no metrô Anhangabau foi duramente reprimida, tendo resultado em alguns manifestantes e jornalistas feridos.

Nesta quinta, mostraremos que as manifestações continuam, e que se a tarifa não abaixar, a cidade de fato vai parar.

O Comitê de Luta Contra o Aumento da Tarifa está sendo construído como um espaço de articulação de movimentos sociais, organizações políticas, sindicatos, trabalhadores e estudantes que tem como intuito barrar o aumento da tarifa e lutar pela maior qualidade e acessibilidade no transporte público de São Paulo.

 

DÉCIMO ATO PÚBLICO CONTRA O AUMENTO DA TARIFA

Quinta-feira, 24 de março

Concentração às 17h00, na Pça Oswaldo Cruz

 

Mais informações:

Marco Magri – 9272 1918

Lucas Oliveira – 91915075

 

Movimento Passe Livre São Paulo – 23 de março de 2011

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Prática comum dos governos tucanos: propaganda subliminar do partido com dinheiro do contribuinte

março 23rd, 2011 by mariafro
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Em janeiro de 2008 chamou a atenção dos contribuintes paulistas o governo do Estado de São Paulo, sob o comando do tucano José Serra, usar o símbolo do PSDB em faixas relativas a obras do Estado. Quem fez a denúncia foi o jornalista Renato Rovai.


Tucano com as cores tais como encontramos na natureza


Tucano do PSDB e a propaganda subliminar de José Serra na rodovia dos Imigrantes, Serra do Mar.

Seguindo o roteiro tucano o governador Marconi Perillo do PSDB vai usar as cores do seu partido nas novas viaturas do estado de Goiás. E aí contribuinte goiano, o que você acha disto?

As viaturas de São Paulo e Rio de Janeiro seguem as cores da bandeira dos respectivos estados.

Vantagem? Como diz o goiano Marcos Oliveira: “Agora a população saberá identificar pela cor que apanha do PSDB.”

 

 

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Khamenei manda recado para Obama: “Os EUA continuarão a ser derrotados na Região”

março 23rd, 2011 by mariafro
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Obama mete os pés pelas mãos e ouve dura resposta de Khamenei

“Se Israel, o Bahrain e a Arábia Saudita tremem de medo, os EUA invadem a Líbia e vociferam ameaças contra o Irã.”

Por: Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online, Tradução: Vila Vudu


“Os EUA continuarão a ser derrotados na Região” – disse o Líder Supremo do Irã Aiatolá Seyed Ali Khamenei, em discurso nas comemorações do Ano Novo persa, um dia depois de “nova mensagem de ano novo” do presidente dos EUA Barack Obama, a qual, objetivamente considerada, foi como uma declaração de guerra à República Islâmica do Irã.

Acusando os EUA de apoiarem ditadores até o último minuto, e de, hoje, estar tentando criar uma guerra sectária entre xiitas e sunitas, para perpetrar a influência dos EUA no Oriente Médio, Khamenei descreveu Obama como ignorante, confuso e mal informado, por ter comparado as massas iranianas na praça da Liberdade em Teerã em 2009 e os manifestantes egípcios na praça Tahrir em janeiro passado. Khamenei lembrou à Casa Branca que os iranianos há décadas reúnem-se naquela praça para celebrar sua revolução. E que o slogan da revolução popular iraniana é “morte aos EUA”.

Khamenei comentou também a política interna dos EUA. Acusou Obama de estar vendendo o país à grande finança do mundo e de ser indiferente aos sofrimentos pelos quais passam os trabalhadores e os mais pobres nos EUA, aos quais não dá qualquer atenção e dos quais jamais fala. Foi resposta quase item a item ao discurso de Obama no Nawruz, ano novo persa, discurso no qual Obama destacou manifestações de jovens iranianos contra o regime. Essa é a estratégia da propaganda dos EUA, que o governo Obama está seguindo aplicadamente e que em boa parte depende de algumas organizações de iranianos nos EUA.

No discurso do Ano Novo persa dirigido aos iranianos e distribuído no domingo pela Casa Branca, Obama disse:

 

Creio que há alguns valores universais – a liberdade de reunir-se pacificamente, a liberdade de associação; o direito de falar o que se pensa e de eleger os próprios governantes. Mas também sabemos que esses movimentos de mudança não são só os que temos visto nos últimos meses. As mesmas forças de esperança que apareceram na Praça Tahrir também se viram na Praça Azadi [Liberdade] em junho de 2009. (…)

Até agora, o governo iraniano só respondeu com provas de que dá muito mais importância à preservação do próprio poder do que ao respeito aos direitos do povo iraniano (…) 60% dos iranianos nascidos depois da revolução de 1979 têm o direito de forjar um país conforme às suas aspirações (…). Embora haja tempos difíceis à frente, quero que os jovens iranianos saibam que estou com eles.” A parte talvez mais importante do discurso de Khamenei teve a ver com a Líbia, país à beira de uma guerra civil e que sofre sob intervenção militar estrangeira, feita sob o pretexto de implantar uma zona aérea de exclusão por decisão da ONU. Segundo a agência France-Presse, Khamenei disse, em transmissão ao vivo da cidade santa de Mashhad:

O Irã condena veementemente o comportamento do governo líbio contra o povo, a morte de civis, a pressão contra a vontade do povo, o bombardeio de cidades líbias por líbios. Mas o Irã também condena veementemente a ação militar estrangeira na Líbia. Os EUA e outros exércitos ocidentais dizem defender o povo. Mas não se defende o povo com operações militares de exércitos estrangeiros, nem com invasão e intervenção militar. A Líbia foi invadida. Nenhum dos exércitos estrangeiros que hoje invadem a Líbia lá está para defender o povo. Vocês estão à caça do petróleo líbio. Khamenei disse também que os EUA e outros exércitos ocidentais desejam cavar para eles um espaço no país, de onde possam monitorar os regimes do Egito e da Tunísia. As palavras mais fortes, contudo, Khamenei reservou à própria ONU, que acusou de estar convertida em instrumento do ocidente. Denunciou a resolução n. 1.973 do CSONU, sobre a Líbia, como “grande vergonha” para a ONU.

O discurso de Khamenei teve muito eco e foi importante na Região, porque trouxe à tona, em termos claros e transparentes inúmeras questões chaves que circulam na sociedade iraniana ainda cercadas de muita ambiguidade e mascaradas como se fossem algum “dilema político”.

Ano passado, Khamenei fez questão de responder a uma das muitas cartas que Obama enviou-lhe em 2009. Em 2011 já não manifesta qualquer interesse em investir muito na possibilidade de qualquer tipo de detentecom os EUA. Há dois anos, quando da primeira mensagem de ano novo, foi como se Obama estendesse um pequeno ramo de oliveira e estivesse prometendo política de engajamento, sem ameaças. Na ocasião, Khamenei respondeu que ninguém no Irã jamais dissera que haveria animosidade eterna contra os EUA. Disse que sempre que o Irã visse sinais tangíveis de que os EUA tivessem “mudado de atitude”, haveria sinais recíprocos, de Teerã.

Dois anos depois, aqueles sentimentos positivos de ambos os lados parecem muito distantes, superados por uma maré de eventos que separaram cada vez mais EUA e o Irã.

Resultado disso, os EUA voltam à velha tática de “mudar regimes”, tão aplaudida em Telavive, e esperam capitalizar a atração que Obama exerce sobre jovens iranianos. Mas a pergunta que afinal veio à tona, depois de Obama ter radicalizado o discurso de provocação na mensagem de 2011 (“o futuro do Irã não será modelado pelo medo”, disse Obama) é: “mas… por que o futuro do Irã teria de ser modelado pelas políticas do Tio Sam”?!

“O tom paternalista de Obama lembrou aos iranianos a linguagem imperialista que vários outros presidentes dos EUA usavam ao falar sobre o Irã. Alguém deveria lembrar ao Sr. Obama que ele não foi eleito presidente do mundo” – disse um professor da Universidade de Teerã, que preferiu não ser identificado.

Segundo esse presidente, a maioria de seus colegas e alunos considerou “um insulto” a recente mensagem de Ano Novo, de Obama. “Não passa de propaganda política, vinda de um presidente acossado por novas e cada vez mais poderosas ameaças que se erguem contra os interesses dos EUA no Oriente Médio. Se Israel, o Bahrain e a Arábia Saudita tremem de medo, os EUA invadem a Líbia e vociferam ameaças contra o Irã.”

Para o professor, já ninguém acredita que os EUA tenham qualquer preocupação sobre direitos humanos, nem no Irã nem em lugar algum. Assim fosse, muito teriam a preocupar-se com a violenta repressão contra manifestantes desarmados no Bahrain. “Nenhum direito humano violado no Bahrein tira o sono dos EUA”, disse o professor. “Os EUA só se preocupam, mesmo, com violações à segurança da 5ª Frota ancorada no Bahrain”.

Khamenei levantou mais ou menos a mesma questão no discurso de Ano Novo. Perguntou por que os EUA não consideram “a presença de tanques sauditas no Bahrain”, como evidência de intervenção violenta, mas “pretendem que a objeção de líderes religiosos aos massacres no Bahrain seriam sinal de alguma intromissão do Irã”?

A secretária Hillary Clinton também enviou mensagem de Ano Novo aos iranianos. Disse que “Festejamos as demonstração pacíficas em defesa dos direitos e da dignidade humana em quase toda a região”. Clinton até hoje jamais se manifestou e nada fez contra a violenta repressão às manifestações de cidadãos desarmados no Bahrain, limitando-se a muito tímidos pedidos de que os governantes do Bahrain mostrassem uma “moderação” que eles jamais mostraram.

No momento em que aviões dos EUA e mísseis cruzadores dos EUA chovem sobre a Líbia, dando cada vez mais munição para que Muammar Gaddafi continue a matar cidadãos líbios, a inação dos EUA em relação ao Bahrain é como maná caído dos céus para os líderes iranianos. Poucas vezes encontraram fonte tão farta de argumentos para se autolegitimar. É erro dos EUA, não de Khamenei, que os EUA lhe ofereçam tão perfeito exemplo da hipocrisia e da falsidade do discurso político dos EUA.

Resultado disso tudo, o novo ano persa promete mais, não menos, hostilidade entre EUA e o Irã. Não se vê no horizonte qualquer sinal de acomodação entre os interesses do Irã e dos EUA. Arma-se nova guerra fria a ser disputada em múltiplos palcos em todo o Oriente Médio.

 

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