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Líbia: O maior empreendimento militar desde a invasão do Iraque

março 21st, 2011 by mariafro
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Líbia: O maior empreendimento militar desde a invasão do Iraque
– Rumo a uma operação militar prolongada

Por: Michel Chossudovsky em Global Research, via Resistir Info

  • Mentiras rematadas dos media internacionais: Bombas e mísseis são apresentados como instrumentos de paz e de democratização.

  • Isto não é uma operação humanitária. O ataque à Líbia abre um novo teatro de guerra regional.

  • Há três diferentes teatros de guerra no Médio Oriente – região da Ásia Central: Palestina, Afeganistão e Iraque.

  • O que está a desdobrar-se é um quarto Teatro de Guerra EUA-NATO no Norte de África, com risco de escalada.

  • Estes quatro teatros de guerra estão funcionalmente relacionados, fazem parte de uma agenda militar integrada EUA-NATO.

  • Disparo de míssil.
    O bombardeamento da Líbia esteve no estirador do Pentágono durante vários anos, como confirmado pelo antigo comandante da NATO, general Wesley Clark.

    A operação Odissey Dawn é reconhecida como a “maior intervenção militar ocidental no mundo árabe desde que começou a invasão do Iraque, há exactamente oito anos” (Russia: Stop ‘indiscriminate’ bombing of Libya – Taiwan News Online , March 19, 2011).

    Esta guerra faz parte da batalha pelo petróleo. A Líbia está entre as maiores economias petrolíferas do mundo, com aproximadamente 3,5% das reservas globais de petróleo – mais do dobro das dos EUA.

    O objectivo subjacente é obter controle sobre as reservas de petróleo e gás da Líbia sob o disfarce de uma intervenção humanitária.

    As implicações geopolíticas e económicas de uma intervenção militar conduzida pelos EUA-NATO contra a Líbia são de extremo alcance.

    A Operação “Odyssey Dawn” faz parte de uma agenda militar mais vasta no Médio Oriente e na Ásia Central, a qual consiste em obter controle e propriedade corporativa sobre mais de 60 por cento das reservas mundiais de petróleo e gás natural, incluindo as rotas dos oleodutos e gasodutos.

    Com 46,5 mil milhões de barris de reservas provadas (10 vezes as do Egipto), a Líbia é a maior economia petrolífera no continente africano seguida pela Nigéria e Argélia (Oil and Gas Journal). Em contraste, as reservas provadas dos EUA são da ordem dos 20,6 mil milhões de barris (Dezembro 2008) de acordo com a Energy Information Administration. U.S. Crude Oil, Natural Gas, and Natural Gas Liquids Reserves ).

    O maior empreendimento militar desde a invasão do Iraque

    Uma operação militar desta dimensão e magnitude, envolvendo a participação activa de vários membros da NATO e países parceiros, nunca é improvisada. A operação Odyssey Dawn estava em etapas avançadas de planeamento militar antes do movimento de protesto no Egipto e na Tunísia.

    A opinião pública foi levada a acreditar que o movimento de protesto se propagou espontaneamente da Tunísia e do Egipto à Líbia.

    A insurreição armada na Líbia Oriental é apoiada directamente por potências estrangeiras. As forças rebeldes em Bengazi imediatamente arvoraram a bandeira vermelha, negra e verde com o crescente e a estrela: a bandeira da monarquia do rei Idris, o qual simbolizava o domínio das antigas potências coloniais. (Ver Manlio Dinucci, Libya-When historical memory is erased , Global Research, February 28, 2011)

    A insurreição também foi planeada em coordenada com o cronograma da operação militar. Ela foi cuidadosamente planeada meses antes do movimento de protesto, como parte de uma operação encoberta.

    Forças especiais do estado-unidenses e britânicas foram descritas como estando no terreno a “ajudar a oposição” desde o princípio.

    Do que estamos a tratar é de um roteiro militar, um cronograma de eventos militares e de inteligência cuidadosamente planeados.

    Cumplicidade das Nações Unidas

    Até agora, a campanha de bombardeamento resultou em incontáveis baixas civis, as quais são classificadas pelos media como “danos colaterais” ou atribuídas às forças armadas líbias.

    Numa ironia amarga, a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU concede à NATO um mandato “para proteger civis”.

    Protecção de civis

    3. Autoriza Estados membros que notificaram o secretário-geral, a actuarem nacionalmente ou através de organizações regionais ou acordos, e a actuarem em cooperação com o secretário-geral, a tomarem todas as medidas necessárias , não obstante o parágrafo 9 da resolução 1970 (2011), para proteger civis e áreas populadas por civis sob ameaça de ataque na Jamahiriya Árabe Líbia, incluindo Bengazi, enquanto excluindo uma forças de ocupação estrangeira de qualquer forma sobre qualquer parte do território líbio , e requer os Estados membros relacionados a informarem imediatamente o secretário-geral das medias que tomaram de acordo com a autorização conferida por este parágrafo a qual será imediatamente informada ao Conselho de Segurança. ( UN Security Council Resolution on Libya: No Fly Zone and Other Measures , March 18, 2011)

    A resolução da ONU garante às forças da coligação carta branca para empenharem-se numa guerra total contra um país soberano em desrespeito do direito internacional e em violação da Carta das Nações Unidas. Ela também serve a interesses financeiros dominantes: não só permite à coligação militar bombardear um país soberano como também permite o congelamento de activos, podo assim em perigo o sistema financeiro da Líbia.

    Congelamento de activos

    19. Decide que o congelamento de activos imposto pelo parágrafo 17, 19, 20 e 21 da resolução 1970 (2011) será aplicados a todos os fundos, outros activos financeiros e recursos económicos que estão no seu território, os quais são possuídos ou controlado, directa ou indirectamente, pelas autoridades líbias, …

    Em parte alguma da resolução do CSONU é mencionada a questão da mudança de regime. Mas é entendido que forças da oposição receberão parte do dinheiro confiscado sob o artigo 19 de resolução 1973. Discussões com líderes da oposição para esse facto de facto já tiveram lugar. Isso se chama desvio do texto e fraude financeira.

    20. Afirma a sua determinação de assegurar que activos congelados de acordo com o parágrafo 17 da resolução 1979 (2011) deverão, numa etapa posterior, tão logo quanto possível serem disponibilizados para e em benefício do povo da Jamahiriya Árabe Líbia;

    Em relação à “Imposição do embargo de armas” sob o parágrafo 13 da resolução, as forças da coligação comprometer-se-ão sem excepção a impor um embargo de armas à Líbia. Mas desde o princípio eles violaram o Artigo 13, ao fornecerem armas às forças de oposição em Bengazi.

    Operação militar prolongada?

    Os conceitos são invertidos. Numa lógica absolutamente enviesada, paz, segurança e protecção do povo líbio devem ser alcançados através de ataques de mísseis e bombardeamentos aéreos.

    O objectivo da operação militar não é a protecção de civis mas a mudança de regime e a ruptura do país, como na Iugoslávia, nomeadamente a partição da Líbia em países separados. A formação de um Estado separado na área produtora de petróleo da Líbia Oriental foi contemplada por Washington durante muitos anos.

    Cerca de uma semana antes do ataque com bombardeamentos, o director da inteligência nacional James Clapper enfatizou num testemunho ao Comité de Serviços Armados do Senado dos EUA que a Líbia tem capacidades de defesa aérea significativas e que uma abordagem zona de interdição de voo poderia potencialmente resultar numa prolongada operação militar.

    A política de Obama tem o “objectivo de afastar Kadafi”, reiterou o conselheiro de segurança nacional.

    Mas o testemunho de Clapper revela quão difícil isso poderia ser.

    Ele disse ao comité do Senado pensar que “Kadafi está nisto por muito tempo” e que não pensa ter Kadafi “qualquer intenção … de abandonar”.

    Finalmente, enumerando as razões porque acredita que Kadafi prevalecrá, Clapper disse que o regime tem mais stocks militares e pode contar com um exército bem treinado, unidades “robustamente equipadas”, incluindo a 32ª Brigada, a qual é comandada pelo filho de Kadafi, Khamis, e a 9ª Brigada.

    O grosso do seu hardware inclui defesas aéreas de fabricação russa, artilharia, tanques e outros veículos, “e eles parecem mais disciplinados quanto ao modo como tratam e reparam esse equipamento”, continuou Clapper.

    Clapper contestou afirmações de que uma zona de interdição de voo poderia ser imposta à Líbia rápida e facilmente, dizendo que Kadafi comanda o segundo maior sistema de defesa aérea do Médio Oriente, logo após o do Egipto.

    “Eles têm um bocado de equipamento russo e há uma certa qualidade nos números. Algum do equipamento caiu nas mãos dos oposicionistas”, continuou.

    O sistema compreende cerca de 32 sítios de mísseis terra-ar e um complexo de radar que “está centrado na protecção da linha costeira (mediterrânea) onde está 80 ou 85 por cento da população”, disse Clapper. As forças de Kadafi também têm “um número muito grande” de mísseis anti-avião disparados do ombro (shoulder-fired anti-aircraft missiles).

    O general do Exército Ronald Burgess, director da Defense Intelligence Agency, endossou a avaliação de Clapper, dizendo que o momento estava a mudar em favor das forças de Kadafi depois de estar inicialmente com a oposição.

    “Se mudou ou não plenamente para o lado de Kadafi neste momento dentro do país penso que não está claro”, disse Burgess. “Mas agora atingimos um estado de equilíbrio onde … a iniciativa, se quiser, pode estar do lado do regime”.

    Horas depois de Clapper ter falado, Thomas Donilon, conselheiro de segurança nacional de Obama, apresentou uma avaliação diferente, o que sugere pontos de vista agudamente divergentes entre a Casa Branca e a comunidade de inteligência dos EUA.

    Ele disse que a análise dos chefes de inteligência eram “estáticas” e “unidimensionais”, com base no equilíbrio de força militar, e deixava de levar em conta tanto o crescente isolamento de Kadafi como acções internacionais para promover seus oponentes. ( White House, intel chief split on Libya assessment | McClatchy , March 11, 2011)

    A declaração anterior sugere que a Operação Odyssey Dawn podia levar a uma guerra prolongada e persistente resultando em perdas significativas para a NATO-EUA.

    As dificuldades militares da NATO foram relatadas por fontes líbias desde o princípio da campanha aérea.

    Horas após o começo dos bombardeamentos, fontes líbias (ainda a serem confirmadas) destacaram o derrube de três jactos franceses. (Ver Mahdi Darius Nazemroaya, Breaking News: Libyan Hospitals Attacked. Libyan Source: Three French Jets Downed , Global Research, March 19, 2011).

    A rede nacional de TV da Líbia anunciou que um caça francês havia sido derrubado próximo de Tripoli. O exército francês negou estes relatos:

    “Rejeitamos a informação de que um caça francês tenha sido derrubado na Líbia. Todos os aviões que enviámos hoje em missões retornaram à base”, disse o porta-voz do Exército francês, coronel Thierry Burkhard, citado por Le Figaro “. (Libya: A french fighter plane was shot down! The French Army denies this information, xiannet.net March 20, 2011)

    Fontes internas líbias (a serem confirmadas) também relataram no domingo o derrube de dois jactos militares do Qatar. Segundo relatos líbios, ainda a serem confirmados, um total de cinco jactos franceses foi derrubado. Três destes jactos atacantes franceses foram, segundo os relatos, derrubados em Tripoli. Os outros dois jactos franceses foram derrubados enquanto atacavam Sirt (Surt/Sirte). (Mahdi Darius Nazemroaya, Libyan Sources Report Italian POWs Captured. Additional Coalition Jets Downed, Global Research, March 20, 2011)

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    Entrevista com o sobrevivente do massacre de Corumbiara

    março 21st, 2011 by mariafro
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    Sobrevivente do massacre de Corumbiara vive há 16 anos como ‘foragido da injustiça’

    Na primeira entrevista desde a época dos fatos, Claudemir Ramos cobra um novo julgamento e afirma que já cumpriu pena até maior que a imposta pelo Judiciário

    Por: João Peres, da Rede Brasil Atual

    Publicado em 21/03/2011

     

    Sobrevivente do massacre de Corumbiara vive há 16 anos como 'foragido da injustiça'

    Claudemir Gilberto Ramos acredita que se voltar a Rondônia será morto por policiais ou fazendeiros (Foto: Reprodução TVT)

    São Paulo – “Estou sofrendo uma prisão psicológica.” Faz 16 anos que Claudemir Gilberto Ramos, de 38 anos, tem a cabeça a prêmio. Pelo que se sabe, são R$ 50 mil por sua morte. “Para mim, já estou cumprindo a pena até demais, mesmo não estando na prisão. Só não me entreguei porque acho injusto. Se tivesse cometido crime, tinha que pagar pelo que fiz, mas não cometi o crime.”

    Claudemir se considera um “foragido da injustiça”. Desde que ocorreu o massacre de trabalhadores rurais em Corumbiara, a 700 quilômetros de Porto Velho (RO), ele não sabe o que é endereço fixo, trabalho com registro em carteira ou convívio familiar. Condenado em 2.008 anos de reclusão, reclama um novo julgamento e uma efetiva apuração dos fatos ocorridos na madrugada de 9 de agosto de 1995, quando ao menos 12 sem-terra foram mortos por policiais militares e pistoleiros na Fazenda Santa Elina.

    Esta semana, Claudemir quebrou o silêncio pela primeira vez desde a época do massacre em entrevista concedida à Rede Brasil Atual e à TVT. Tenso, contou que não sabe quando foi a última vez que viu as filhas nem a mãe, e expôs sua versão do ocorrido, que na visão da Organização dos Estados Americanos (OEA) representa um erro cometido pelo Brasil devido às execuções realizadas por policiais e ao júri repleto de inconsistências.

    Claudemir e seu colega Cícero Pereira Leite foram condenados com base em uma peça do Ministério Público Estadual que se baseou quase que exclusivamente na investigação da Polícia Civil. Esta tomou como fundamento a apuração conduzida pela Polícia Militar, envolvida na operação.

    Relatório de 2004 da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), integrante da Organização dos Estados Americanos (OEA), concluiu que eram necessários novos esfoços de investigação. “A falta de independência, autonomia e imparcialidade da Polícia Militar (…) constitui violação do Estado brasileiro”, defende o órgão. Nas palavras de Claudemir, não se pode pagar por um crime que não se cometeu: “O julgamento foi totalmente preconceituoso. Para mim, quem tinha que ser condenado eram os mandantes”.

    Os fazendeiros apontados como responsáveis pelo aliciamento de uma milícia armada que se infiltrou entre policiais foram impronunciados pela Justiça, quer dizer, as acusações foram descartadas antes mesmo de haver julgamento.

    O lavrador explica que teme pela própria integridade física, por isso não se entregou em 2004, quando se esgotaram os recursos no Judiciário e ele passou a ser considerado um foragido. “Tenho certeza que se me entregar e for pra Rondônia não demora muito eles (fazendeiros e policiais) me assassinam, porque o preconceito da Polícia Militar é grande pela morte do tenente”, afirma. A referência é a um dos policiais que morreram no enfrentamento dos trabalhadores.

    No sistema prisional de Rondônia, as cabeças têm preço. Urso Branco, na capital de Porto Velho, registra episódios de graves chacinas. A recorrência faz com que o local seja considerado como mais grave na história dos presídios brasileiros desde o massacre do Carandiru, ocorrido na década de 1990 em São Paulo.

    A noite do crime

    A ocupação da Fazenda Santa Elina teve início em 15 de julho de 1995. Na tarde de 8 de agosto, quando havia uma ordem judicial para a remoção dos sem-terra, uma negociação definiu que em 72 horas haveria uma nova conversa para definir sobre a saída, segundo Claudemir. Os acampados queriam garantias de que a área seria destinada à reforma agrária. “Até comemoramos entre os familiares, fizemos assembleia geral achando que tinha (sido) conquistado um passo da vitória porque a área já estava negociada”, resume Claudemir.

    Na madrugada, no entanto, um grupo invadiu o local a balas. “A gente não pode ser hipócrita. A gente tinha vigília no acampamento, até porque já tinha recebido vários ataques dos jagunços. Tinha arma de caça, ferramentas, só que (com) nossas armas era impossível combater o comando da polícia e dos jagunços”, relembra

    A legislação brasileira proíbe que ações de reintegração de posse sejam cumpridas durante a noite. Na troca de tiros, morreram três policiais e dois trabalhadores. Claudemir nega que tenha culpa nos episódios: “O que fiz foi me deitar no chão. Só ouvi os gritos das pessoas. Não tinha como fazer nada. Fiquei ali de bruços no chão. A única arma que eu tinha, que eu tava usando no dia da negociação, era uma máquina de foto, que no dia seguinte, na tortura, foi quebrada na minha cabeça.”

    Já dominados os trabalhadores, a polícia deu início a uma série de agressões, torturas e execuções que são documentadas em depoimentos e análises técnicas. Os adultos foram amarrados e jogados ao chão, onde as crianças eram obrigadas a pisoteá-los. Uma menina que tinha seis ou sete anos recusou-se a fazê-lo e acabou morta, segundo os relatos. Claudemir relata que homens sofreram mutilação dos testículos e alguns mortos tiveram os pescoços cortados por motosserras. Os trabalhadores foram obrigados a comer terra misturada ao sangue. Nessa etapa, há oito execuções extrajudiciais comprovadas.

    Tortura e perseguição

    Foi ali que Claudemir começou a driblar a morte. “Não tinha um comando, um chefe, mas eles me consideravam um chefe. Teve uma pessoa que falou que eu era o chefe, foi onde começou a tortura.” Com a cabeça ferida por baionetas, ele desmaiou e, segundo testemunhas, foi jogado em um caminhão em que foram transportadas as vítimas. Ele conta que acordou no necrotério. Lá, representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do PT já haviam se inteirado do massacre e pressionaram para que fosse preservada a vida dos feridos.

    Não era o suficiente para intimidar os mandantes da matança. Transferido para um hospital em Vilhena, Claudemir sustenta que recebeu a visita de dois policiais militares que só não conseguiram ir adiante graças à chegada de uma enfermeira. Na capital Porto Velho, a presença de policiais civis tampouco freou o ímpeto de matar o trabalhador, que se viu forçado a começar uma vida peregrina.

    Em 2000, o Tribunal de Justiça de Rondônia agendou uma série de julgamentos sobre o caso. O Ministério Público defendeu a tese de que Claudemir e Cícero convenceram as mais de 2 mil pessoas que integravam as 500 famílias a ocupar Santa Elina. O promotor Elício de Almeida Silva defendeu, então, que eles eram culpados pela morte de doze trabalhadores e ainda deveriam responder por cárcere privado, uma vez que teriam impedido a saída dos demais acampados.

    “Não achava que ia ser condenado porque não tinha prova nenhuma. Só que no final do julgamento a surpresa foi grande. No corpo de jurado para mim, tudo era ou fazendeiro ou amigo dos fazendeiros”, relata Claudemir. “Para mim, não tem prova, não devo esse crime. Estava lutando pelos direitos dos trabalhadores e isso não é crime”, sustenta.

    O colega Cícero Pereira foi condenado a seis anos e dois meses por participação em um homicídio. Pela parte dos policiais, foram sentenciados o capitão Vitório Regis Mena Mendes e os soldados Daniel da Silva Furtado e Airton Ramos de Morais, mas todos ganharam o direito a um novo julgamento. Os demais policiais foram absolvidos, bem como Antenor Duarte, indicado por pistoleiros como mandante do massacre, tendo inclusive premiado com carros os comandantes da operação.

    Apoio

    Movimentos de defesa dos direitos humanos remeteram o caso ao âmbito da OEA. Em 2004, a CIDH informou que os fatos ocorreram antes do ingresso do Brasil no sistema interamericano de justiça e, portanto, não poderia ser enviado à Corte Interamericana. Mesmo assim, recomendou que o país deveria conduzir uma apuração imparcial e séria, inclusive determinando a participação de cada um dos envolvidos nos crimes, a começar pelos mandantes.

    O Comitê Nacional de Solidariedade ao Movimento Camponês de Corumbiara apoia-se no relatório da CIDH para solicitar um novo julgamento. Esta semana teve início uma articulação, com o envio de ofícios à presidenta Dilma Rousseff, à ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, e à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. “Estamos tentando despertar o interesse de nossa sociedade em torno de uma grande injustiça”, argumenta o padre Leo Dolan, presidente do comitê. “Sem uma reforma agrária séria, os problemas do Brasil não serão resolvidos”, insiste.

    Para Claudemir, é a única maneira de deixar de ser um foragido da injustiça. “Sei que estou correndo risco de vida, mas é melhor morrer lutando do que ter sido covarde e não ter lutado por seus direitos.”

    Na TV

    Na noite desta quinta-feira (17), a TVT transmite trechos da entrevista realizada com Claudemir. A conversa será um dos destaques do Seu Jornal, que vai ao ar a partir de 19h. A programação da TV dos Trabalhadores pode ser acompanhada pela internet e nas seguintes frequências:
    Canal 48 UHF no ABC e Grande São Paulo.
    Canal 46 em Mogi das Cruzes e Alto Tietê.
    TV a Cabo no ABC – ECO TV- canais 96 (analógico) e 9 (digital) NET.
    TV a Cabo em São Paulo – TV Aberta – canais 9 e 72 TVA (analógico) NET e 186 (digital) TVA.

     

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    Fátima de Oliveira: Digaí, Negão!

    março 21st, 2011 by mariafro
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    Para outras impressões sobre a passagem de Obama no Brasil ver: aqui, aqui e aqui.

    “Digaí Negão”: olhares sobre a presença de Obama no Brasil

    por: Fátima de Oliveira, Jornal OTEMPO

    22/03/2011

    Foto veiculada via twitter pelo @sergioricardo64

    “Ele não é apenas o presidente dos EUA, é uma estrela”

    Na escrita, foram vigorosos os protestos contra a visita do presidente Obama, como a nota de repúdio “É muita guerra para quem diz promover a paz”, da Central de Movimentos Sociais (CMS). Muitos se arvoraram em falar, sem procuração para tanto, em nome do povo brasileiro, a exemplo do abaixo-assinado do Cebrapaz, cuja tônica foi a ilusão com a eleição dele para além de que, para o mundo, um democrata sempre é menos pior que um republicano: “O senhor chegou como esperança de crescimento do homem em todas as esferas. Veio de uma classe média diferenciada, traz nas veias a herança de seus antepassados, que construíram a economia de seu país”.

    Encerra afirmando: “Queremos aproveitar a ocasião para uma reflexão necessária: a generosidade, a solidariedade, o respeito à soberania de cada país e, principalmente, centrar nossas potencialidades para transformar o caos em que vivemos num mundo melhor. Acabe com o embargo a Cuba e liberte os cinco heróis cubanos, em nome da real integração entre os povos”.

    O Instituto Maria Preta, da Bahia, em outdoor criado pela sua mantenedora, a Maria Comunicação, ousou usar a saudação mais bacana da inventividade soteropolitana, no trato para pessoas do peito (mais Bahia, impossível): “Digaí Negão!” – modo criativo de “tematizar”, com recorte racial/étnico, a presença de Obama no Brasil.

    O ator Lázaro Ramos, indagado sobre o impacto na população negra da visita do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, foi incisivo: “…Isso afeta a nossa autoestima de uma maneira incalculável. Você não acha que uma criança negra que vê um presidente como o Obama não vai se sentir mais possível? Ver um referencial positivo sempre estimula a gente a querer mais, a se sentir mais possível. Eu falo de criança porque geralmente é onde referências são importantes, mas para mim ele também é uma superreferência”.

    É lapidar um comentário ao artigo “Imprudência diplomática”, de Mauro Santayana: “Entendendo-se que Obama é um superstar de alcance mundial que ocupa a Presidência dos EUA e que carrega um simbolismo (um negro no poder do país de racismo mais deslavado) que encantou o mundo, mesmo que fosse apenas para derrotar George W. Bush, tem significado, sim, que fale ao povo brasileiro. Obama não é apenas presidente dos EUA, é uma estrela mundial de signo muito forte. O que não é pouco. Sejamos sensatos e pragmáticos: entendamos a importância dele para a luta contra o racismo” (Depaula).

    No mundo, quem portava um neurônio funcionante torceu por ele. A Maria Comunicação, nas prévias do Partido Democrata, criou o outdoor “Pensar o Novo”, o mesmo slogan da agência; e Obama eleito lançou o cartaz: “Feliz mundo novo – Pensar o novo é ajudar a desenhar um futuro melhor”. Obama não é donatário de uma capitania hereditária, preside um país opressor, bélico e impregnado da cultura do Velho Oeste, pelas regras vigentes: poderes presidenciais restritos, fora o expansionismo ilimitado, nem que seja à bala, parte do DNA estadunidense.

    Ao mesmo tempo, é um ícone negro ímpar, que ocupa a Casa Branca, como inegável cunha antirracista, pelo voto popular, e demonstrou ao mundo que fazer política ainda é a arte de disputar ideias. Eis a lição de Obama que interessa!

    O movimento negro se deixou acuar, e o governo brasileiro, pelas lentes embaçadas do Itamaraty, não atinou que o maior legado de Obama aqui, no Ano Internacional para Descendentes de Africanos, era o repertório antirracista! Ai, meus sais!

    Fátima Oliveira é médica - fatimaoliveira@ig.com.br

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    A Cidade de Deus para o Deus Obama

    março 21st, 2011 by mariafro
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    Vídeo produzido pela Dj, Vivi Reis, moradora da Cidade de Deus. Não deixe de ler a matéria do Global Voices sobre tal visita, assim como este e este posts.

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