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Advinha quem veio para o almoço? Mister War Nobel

março 20th, 2011 by mariafro
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Carlos Latuff creio ser a única pessoa do mundo da esquerda que nunca se enganou com Obama.
Em abril de 2009 ele já fazia charges como esta:

Eu ainda acreditava que por ser um sujeito do mundo e não os tacanhas e acanhados provincianos médios estadunidenses ele poderia entender a complexidade do mundo e reconstruir as relações de seu país sobre novas bases.

Mas Obama cedeu cedo e a tudo contrário a seu discurso de campanha: cedeu aos senhores da guerra, ao lobby sionista, ao conservadorismo de bordel. E pior, é tão odiado em seu país quanto fora, e aí vem no nosso país com esta arrogância que o cargo lhe concede e nada escapa da fúria da polícia secreta: da barraquinha na cinelândia aos moradores da Cidade de Deus que teriam de sair de suas casas aos ministros e empresários brasileiros humilhados e passados em revista e até revistas em carros da Polícia Federal!!!!!

Mas como todos os covardes que são valentões apenas quando estão armados o comício previsto para a Cinelândia foi cancelado por medo de vaias.

Não sei quanto a vocês, mas acho que Lula e Celso Amorim nos acostumaram muito mal, tínhamos a estranha idéia que ministros não deveria tirar sapatos para entrar nos Estados Unidos, como fez Celso Lafer durante o governo do maior capacho que os EUA já teve no Brasil: FHC.

Neste final de semana que este senhor pau mandado da guerra que só tem poder de cumprir ordem do conservadorismo de bordel esteve em meu país, o PSTU ganhou o meu respeito (cadê a CUT?) embora esteja pagando um preço altíssimo: 13 pessoas presas, dentre elas uma senhora de 69 anos e um adolescente e a CUFA, que com a liderança de MvBill, Celso Athayde e Preto Zezé perceberam imediatamente o que iria acontecer na Cidade de Deus e se recusaram a participar desta palhaçada. Eles poderiam ir para o Itamaraty, pois conseguiram dizer não à Casa Branca.

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Como podem ver ainda tem gente com vergonha na cara no Brasil.

Ontem no twitter o Brasil queimou o filme como ‘nunca dantes’ entre os latino-americanos. Uma repórter da Telesur chegou a bloquear jornalistas de esquerda no twitter por tentar contemporizar o fato de nós não termos qualquer poder em relação ao fato do senhor pau mandado da guerra ter declarado a intervenção na Líbia em nosso território:

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É claro que a jornalista da TeleSur exagera e parece ignorar os discursos de Dilma Rousseff que não compactuam em nada com as lambanças do pau mandado da Guerra, mister Obama (aqui, e aqui)

Todos os jornais latino-americanos nos esculhambam no Página 12 o destaque para o desrespeito da segurança de Obama e a declaração de guerra em nosso território. Em que país que se dá o respeito e que almeja um lugar de importância global a própria polícia Federal é revistada por agentes do presidente visitante? Quanto vale um assento no Conselho de Segurança da Onu que não serve pra nada?

Eu sinceramente espero da presidenta Dilma que fez um discurso coerente e soberano que o concretize em ações para que providências sejam tomadas em relação aos abusos da polícia secreta de Obama e, principalmente, o absurdo deste senhor pau mandando da Guerra ter declaro guerra em nosso território. O Itamaraty deve uma resposta ao brasileiros à altura da humilhação que fez todos nós que temos vergonha na cara passar.  Minha mãe sempre diz que quem muito baixa a cabeça o c* aparece, fica a dica para o Itamaraty de Patriota (quase uma piada pronta).

E antes que eu me esqueça:  Dilma bota a vassoura atrás da porta, esta visita pra lá de indesejada está demorando muito para se ir e já fez muita lambança por aqui. Go home, Obama!

PS. Segundo a Casa Branca a presidenta não manifestou mal-estar diante da declaração de guerra de Obama em nosso território. O que a Casa Branca diz e o que Obama diz não se escreve e já sabemos disso.

A Líbia e o DJ do Império

Por Gilson Caroni

19/03/2011

Ao começar a ofensiva militar contra a Líbia, as potências mundiais referendaram a nova estratégia estadunidense de manutenção de hegemonia global. Hoje é improvável que a Casa Branca queira se envolver diretamente em novo confronto militar. Talvez nem precise. Pouco a pouco, os Estados Unidos vêm conseguindo o aumento da cooperação internacional para alcançar seus objetivos geopolíticos. Sem os riscos de isolamento que marcaram a agressão imperialista ao Iraque e Afeganistão, a ação bélica no país árabe é amparada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Os sonhos de um mundo multipolar sofrem um desvio histórico de tal monta que não é exagero atentarmos para uma perspectiva internacional de extrema gravidade.

Nos anos 1920, os norte-americanos dançavam o “charleston” e diziam que eram “os anos loucos”, enquanto nas ruas de Chicago, gangsteres italianos e irlandeses se enfrentavam à bala. Na Líbia, o guerrilheiro Omar al-Muktar, o “leão do deserto”, lutava contra o fascismo italiano e, na Nicarágua, Augusto Sandino, o “general dos homens livres”, combatia os marines do capitão Frederick Hatsfield. Muktar foi enforcado em 1931 e Sandino fuzilado em 1934. O “terrorismo” estava sendo contido.

Mais de meio século depois, Líbia e Nicarágua foram associadas por algo mais do que aquelas gestas antiimperialistas, quase simultâneas. O artífice dessa ligação foi o então presidente Ronald Reagan para quem Muamar Kadafi era o “cão raivoso” do Oriente Médio e o comandante Daniel Ortega “um capanga com os olhos de figurinista”.

Em 14 de abril de 1986 foi realizado um ataque norte-americano a Trípoli, Bengazi e a outras três cidades por 18 bombardeios que levantaram vôo de bases na Grã-Bretanha, e 15 caças estacionados em porta-aviões pertencentes à 6ª Frota dos Estados Unidos no mar Mediterrâneo. A operação foi justificada como uma retaliação a um atentado em 5 de abril, em uma discoteca alemã, que teria matado 4 pessoas, deixando um saldo de 200 feridos. Na época, como sempre, Washington alegou possuir provas “irrefutáveis” da participação de terroristas líbios no atentado, ainda que não tivesse apresentado nenhuma.

Simultaneamente, a CIA, com o apoio da imprensa centro-americana, difundia a existência de comandos árabes realizando ações terroristas em território hondurenho, a partir de bases cedidas pelo governo sandinista. Como destacou o sociólogo Roberto Bardini, “ao tomarem conhecimento da alarmista campanha da mídia e da adoção de fortes e ostensivas medidas de segurança em Honduras, alguns observadores calcularam que tudo não passava de uma operação psicológica que teria quatro objetivos: justificar represálias militares contra a Líbia, demonstrar que a Nicarágua emprestava seu território para exportar o terrorismo, comprovar a existência de uma conexão Trípoli-Manágua. e, principalmente, conseguir que o Congresso aprovasse a destinação de US$ 100 milhões aos “contras”.”

O que Reagan conseguiu com a agressão à Líbia? Um isolamento internacional sem precedentes. Ficou reduzido ao apoio da então primeira-ministra inglesa, Margaret Thatcher, e do governo israelense. Desde a guerra do Vietnã jamais se tinha presenciado uma onda tão forte de hostilidade aos Estados Unidos. Definitivamente, o pop dos anos 80 não tinha o mesmo poder de encantamento do charleston.

Passadas duas décadas, e tendo vivenciado o que entrou para a história como Doutrina Bush, uma lição não pode ser esquecida pelas forças progressistas. Ainda mais agora, quando, a pretexto de “conter a barbárie de um ditador, EUA, França e Inglaterra lançam mísseis na Líbia: o imperialismo encurta tempos e espaços.

O Império é criterioso quando se trata de resgatar o que lhe parece ser seu fundo de quintal. A tentativa de modificar a nova ordem política da América Latina é o que move os passos de Obama na região. Transformar assimetrias em impossibilidades e mudar o perfil da política externa brasileira são os imperativos da vez.

Ao declarar que “nosso consenso foi forte e nossa decisão é clara. O povo da Líbia precisa ser protegido e, na ausência de um fim imediato à violência contra civis, nossa coalizão está preparada para agir e agir com urgência”, o presidente dos Estados Unidos deixa evidente que, em nome do “hegemon”, está pronto para misturar sem dó nem piedade o hit radiofônico “Closer”, do “rapper Ne-yo”, com um “mash-up” tribal da Madonna para “Miles away”. Espera-se que a pista, quase sempre lotada de ingênuos ou servis, repila com veemência aos apelos do “DJ” do império.

Lula acertou na mosca. Não é muito difícil adivinhar quem veio para o almoço.

 

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Obama, prêmio Nobel da Paz

março 19th, 2011 by mariafro
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Nobel Peace Prize Winner #Obama ‘s war against #Libya -

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Pepe Escobar: Guerra Clube-Med- É o petróleo, Estúpido!

março 19th, 2011 by mariafro
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Guerra Clube-Med

Por: Pepe Escobar, Asia Times Online, tradução: Vila Vudu

19/3/2011

Seria realmente estimulante imaginar que a Resolução n. 1.973 da ONU tivesse sido votada na 5ª-feira só para oferecer suporte ao movimento anti-Gaddafi que está sitiado. Para socorrê-lo com zona aérea de exclusão, logística, comida, ajuda humanitária e armas[1]. Seria a prova de que a “comunidade internacional” realmente “está ao lado do povo líbio em sua luta por direitos humanos universais”, nas palavras da embaixadora dos EUA à ONU, Susan Rice.

Infelizmente, ainda falta muito para que se chegue a essa situação de fazer a coisa (moral) certa. A história deve registrar que o ponto de virada foi, sim, a 3ª feira, 15/3. quando, em entrevista a uma televisão alemã, o africano rei dos reis disse, com todas as letras, às megaempresas ocidentais – excluiu as alemãs, porque a Alemanha estava contra a zona aérea de exclusão) – que dessem adeus aos anos de bonança alimentados com petróleo líbio. Gaddafi disse, literalmente: “Não confiamos naquelas empresas. Conspiraram contra nós. Nosso petróleo agora irá para os russos, os chineses, os indianos.” Em outras palavras: para os BRICSs. (Líbios e o xeque do Bahrain: “rock’n roll” de sabres, 17/3/2011, Castorphoto).

É interessante que a Resolução n. 1.973 tenha recebido 10 votos a favor, zero contra, com cinco abstenções. As abstenções vieram, exatamente, de quatro BRICSs (Brasil, Rússia, Índia e China), mais a Alemanha. O Brasil e a Alemanha haviam manifestado profunda descrença sobre a efetividade de qualquer ação militar, optando por solução diplomática; mas Rússia, Índia e China votaram, provavelmente, movidas por outras motivações (energéticas). Os quatro principais BRICSs (a África do Sul votou a favor da resolução, e só em abril será oficialmente integrada ao grupo) em geral votam coordenados, nas principais decisões.

É o petróleo, estúpido!

Os mais céticos têm todo o direito de invocar o infalível mantra: é o petróleo, estúpido!

A Líbia é a maior economia movida a exportações de petróleo da África, à frente da Nigéria e da Argélia. Tem pelo menos 46,5 bilhões de barris de reservas comprovadas (10 vezes mais que o Egito). Equivalem a 3,5% das reservas globais totais. A Líbia produz entre 1,4 e 1,7 milhões de barris de petróleo/dia, mas quer chegar a três milhões/dia. É óleo muito bem cotado, sobretudo pelo baixo preço de produção (cerca de $1,00 o barril).

Quando Gaddafi ameaçou as grandes ocidentais do petróleo, estava dizendo que o show acabou para a Total francesa, para a italiana ENI, para a British Petroleum (BP), para a espanhola Repsol, para a ExxonMobil, Chevron, Occidental Petroleum, Hess and Conoco Phillips –, mas não para a China National Petroleum Corp (CNPC). A China considera a Líbia fator essencial para sua segurança energética. A China compra 11% do petróleo exportado pela Líbia. A empresa chinesa CNPC repatriou silenciosamente nada menos que 30 mil chineses que trabalhavam na Líbia (a British Petroleum tinha na Líbia só 40 funcionários).

A gigante italiana de energia ENI produz mais de 240 mil barris de petróleo/dia – quase 25% do total de exportações da Líbia. E nada menos que 85% do petróleo líbio é vendido a países da União Europeia.

Uma lista de quem-é-quem dos que – teoricamente – se beneficiam na operação militar sancionada pela ONU/OTAN/Liga Árabe na Líbia tem de incluir a União Europeia e o “Big Oil” anglo-americano. Para não falar de Wall Street – pensem nos bilhões de dólares da grande finança líbia depositada em bancos ocidentais e agora confiscados; e, claro, também os fabricantes de armas da União Europeia e dos EUA.

Dependendo de que como seja aplicada e de o quanto Gaddafi resista, a Resolução n. 1.973 está intimamente ligada a grave interrupção do suprimento de petróleo para a União Europeia, especialmente para Itália, França e Alemanha. E isso tem todos os tipos de implicações geopolíticas, a começar pelo relacionamento entre EUA e União Europeia. Todos querem estar bem posicionados no ambiente energético pós-Gaddafi.

O item chave da Resolução n. 1.973 é o item 4 – tipo “Autoriza estados-membros da ONU a tomar todas as medidas necessárias, apesar do embargo anterior a armas, para proteger civis e áreas de população civil contra a ameaça de ataque na Jamahiriya Líbia Árabe, incluindo Benghazi, excluídas as forças estrangeiras de ocupação em qualquer parte do território líbio”.

Essencial destacar que “tomar todas as medidas necessárias” vai bem além de uma zona aérea de exclusão, e para a um passo de invasão por terra. No que interessa, autoriza ataques aéreos ou por mísseis-cruzadores contra os tanques de Gaddafi na estrada para Benghazi, por exemplo. Mas pode cobrir também bombardeio dos prédios do governo de Gaddafi em Trípoli – quartel-general, palácio de governo etc. Dado que Gaddafi já manifestou disposição de lutar até a morte, é justo pressupor que a Resolução n. 1973 estende-se até a derrubada do governo de Gaddafi.

Mas… e quanto ao Bahrain?

É hora, então, do Alerta n. 1 Anti-hipocrisia. Foi uma delícia assistir a Alain Juppe, de volta ao cargo de ministro das Relações Exteriores da França – e pregando sobre valores humanitários – em substituição ao ícone de Chanel, Michele Alliot-Marie, que passou um fim-de-semana na Tunísia, exatamente quando, nas ruas, o povo lutava para livrar-se do ditador Zine el-Abidine Ben Ali.

O governo Barack Obama – pelo menos em público – parecia dividido entre a secretária de Estado Hillary Clinton (a favor da zona aérea de exclusão) e Robert “El Supremo do Pentágono” Gates (contra). O presidente Obama segurou suas cartas até o último segundo (disse, no máximo, que Gaddafi tinha de sair). Agindo assim, entregou a responsabilidade pela decisão à ONU, cabendo a tarefa de montar a primeira versão escrita da Resolução ao dueto franco-britânico e um país árabe (foi o Líbano).

O que, para alguns críticos, seria sinal de hesitação e, até, de covardia do presidente, que não quis comprometer-se, e “fracasso de Obama, que não atuou decisivamente a favor da liberdade”, bem pode ser visto também como manobra esperta, nas coxias, deixando a impressão de que a ONU legitimou mais uma – o termo imundo é inevitável – “coalizão de vontades” internacional, não alguma intervenção ocidental. Alguém aí preferiria “não-imperialismo humanitário”?

Agora, tudo depende de como a OTAN operará a partir de bases militares francesas ao longo do Mediterrâneo e a Força Aérea italiana e as bases navais na Sicília, ao custo de 300 milhões de dólares por semana. Gates, o do Pentágono, já realocou os ativos navais dos EUA para perto da costa da Líbia. E garantiu a Obama que o Pentágono tem condições – e por que não teria? – para abrir um terceiro front de guerra.

Com o quê, chegamos à hora do Alerta n. 2 Anti-hipocrisia. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar e a Jordânia podem, todos, colaborar com as forças anti-Gaddafi de EUA/OTAN. Três desses são membros do Conselho de Cooperação do Golfo. Como membros da Liga Árabe, todos votaram, semana passada, a favor de uma zona aérea de exclusão. Que cósmica ironia ver essas quatro ditaduras apoiando operação militar a favor dos mesmos manifestantes que clamam por justiça, dignidade e democracia, bem ali, em seus próprios jardins!

O governo provisório, militar, do Egito, mais sensível, já disse que não participará de nenhuma operação militar. Em vez disso, os militares egípcios estão embarcando rifles de assalto e munição, enviados pela fronteira oriental da Líbia – com aprovação de Washington.

Assim sendo, a pergunta é inevitável. A ONU votará com o mesmo empenho e presteza para impor uma zona marítima de exclusão na Arábia Saudita – para impedir que enviem tanques e soldados, por mar, para reprimir o povo no Bahrain, país que a Arábia Saudita já invadiu?

Hora do Alerta n. 3 Anti-hipocrisia. Washington, segundo a novíssima doutrina do governo Obama, aplica “o braço dos EUA” para ajudar rebeldes que enfrentem ditadores “do mal” como Gaddafi. Os rebeldes, às vezes, ganham total apoio da ONU. Então, Washington prega “alteração de regime”, quando lida com “nossos” filhos-da-puta, como os al-Khalifas do Bahrain e a Casa de Saud. Os ditadores salvam a pele e não são acusados de assassinato.

A bola (de fogo) no Med está no campo de Gaddafi. Seu ministro da Defesa já avisou que todo o tráfego aéreo e naval no Mediterrâneo está por um fio – e que vale tudo, inclusive alvos civis e militares. Gaddafi, pessoalmente, disse ao canal RTP, de Portugal, que “se o mundo enlouqueceu contra nós, também enlouqueceremos. Responderemos. Converteremos a vida deles num inferno, porque estão convertendo nossa vida num inferno. Jamais terão paz.”

Portanto, cuidado. A grande revolta árabe de 2011 está à beira da loucura. Essa guerra clube-Med pode ser um vendaval – ou virar desgraça sangrenta, furiosa, dos infernos.


[1] O texto da Resolução n. 1.973, em inglês, pode ser lido aqui. Para ler, já traduzidos, alguns excertos, vide Kerry empurra Obama para o Norte da ÁfricaCastorphoto (NTs).

 

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Kerry empurra Obama para o Norte da África

março 19th, 2011 by mariafro
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Sobre este texto consulte: Intervenção na Líbia: foi Obama que apertou o botão da guerra

Kerry empurra Obama para o Norte da África

M K Bhadrakumar, Asia Times Online
19/3/2011

“Os EUA podem aprender a conviver com partidos religiosos e relacionar-se com eles, desde que eles “rejeitem o radicalismo e o antissemitismo…” [John Kerry, vice-presidente, em discurso, ontem, nos EUA]

EUA, Grã-Bretanha e França extraíram do Conselho de Segurança da ONU ontem, tarde da noite, um resolução vazada em termos fortes a favor de ação militar contra o regime de Muammar Gaddafi na Líbia. A parte operativa da resolução – chamada Resolução n. 1.973 – tem cinco itens: proteção aos civis; uma zona aérea de exclusão [orig. a no-fly zone]; reforço no embargo de armas; proibição de voos; e congelamento de bens. [1]

Embora chamada, em termos gerais de “resolução pró zona aérea de exclusão”, o objetivo e a abrangência da R-.973 e o uso autorizado de força são abertos a interpretação. O que significa que o envolvimento ostensivamente limitado do envolvimento da comunidade internacional para a finalidade específica de impor uma zona aérea de exclusão sobre a Líbia, com o intuito humanitário de proteger comunidades civis, pode, adiante, abrir a porta a intervenção militar de larga escala.

Grã-Bretanha e França estão prontas para dar início às operações; a OTAN marcou reunião para decidir detalhes operacionais. A Alemanha absteve-se de votar e a Turquia manifestou oposição a qualquer intervenção na Líbia. De fato, a OTAN construirá uma “coalizão de vontades” entre os países membros.

A união faz a força

Resultado interessante da votação é que quatro dos países membros BRICSs (Brasil, Rússia, Índia e China – mas não a África do Sul) abstiveram-se. A posição da Índia baseou-se em três pontos: que a resolução não foi embasada em nenhum tipo de relatório ou informe assinado pelo representante do secretário-geral da ONU na Líbia, e foi votada ao mesmo tempo em que a União Africana ainda prepara um painel sobre a situação na Líbia – significando que se deveria prosseguir nos esforços políticos, antes de qualquer decisão sobre ação militar; que havia “relativamente pouca informação confiável” sobre a situação na Líbia, que justificasse a intervenção; e que falta “clareza” sobre as operações autorizadas pela Resolução n. 1.973.

A Rússia tentou adiar a resolução, oferecendo uma variante alternativa (exigir o cessar-fogo), que é a abordagem tradicionalmente encaminhada pelo Conselho de Segurança. A Rússia opôs-se ao uso da força, destacando que a Resolução n. 1.970 – que, em fevereiro passado, impôs sanções à Líbia – ainda sequer foi plenamente implementada; os russos disseram que ainda não se sabe com clareza como a zona de exclusão aérea será implementada; que a Rússia teme as consequências de intervenção militar estrangeira em grande escala.

A China argumentou a partir de princípios. Insistiu no uso de meios pacíficos para resolver os problemas, defendeu a soberania e a integridade territorial da Líbia, opôs ao emprego da força e chamou a atenção para a necessidade de que, se aprovada, a intervenção fosse conduzida em estrito respeito ao que determinam a lei internacional e a Carta das Nações Unidas. A China disse que estava procurando esclarecimentos sobre detalhes do que estava sendo votado, mas que esses esclarecimentos ainda não estavam disponíveis.

EUA sobem a aposta

O detalhe decisivo parece ter sido o “endurecimento” na posição dos EUA. Nas últimas semanas, Washington manteve ar de estudada indiferença sobre a questão da zona aérea de exclusão. Como agora se vê, foi ‘caso pensado’. Ainda há dois dias, nem Grã-Bretanha nem França haviam conseguido mobilizar apoio suficiente para a aprovação, no encontro de dois dias, de ministros de Relações Exteriores do G-8, em Paris.

Há mérito na posição do governo Obama, de não se afastar das “pré-condições” que impôs para aprovar qualquer zona aérea de exclusão na Líbia – a saber, os EUA não agirão sem autorização do Conselho de Segurança; não querem enviar tropas terrestres dos EUA para a Líbia; e é indispensável organizar força internacional, da qual participem, necessariamente, estados árabes. Washington pode dormir sossegada: todas essas pré-condições foram atendidas.

Contudo, os EUA agiram intensamente, nos bastidores, para conseguir ajuda militar para os rebeldes líbios. Semana passada, Robert Fisk, do Independent de Londres, noticiou que o governo Obama fizera contato com o governo saudita para que financiassem secretamente a transferência de armas norte-americanas para os rebeldes líbios (7/3/2011, Castorphoto, em “Obama pede que sauditas entreguem armas em Benghazi”). Ontem, o Wall Street Journal citou funcionários do governo dos EUA e rebeldes líbios, não identificados, que teriam dito que os militares egípcios estão contrabandeando armas para os rebeldes líbios, pela fronteira, com pleno conhecimento de Washington.

O envolvimento secreto do Egito é cheio de significados. Chama a atenção para a evidência de que a junta militar que governa o Cairo e o governo Obama estão-se entendendo bem, depois de alguma aparente queda na influência dos EUA na era pós-Mubarak. A visita da secretária de Estado Hillary Clinton ao Cairo (depois de o primeiro-ministro Cameron da Grã-Bretanha e o ministro das Relações Exteriores da França Alain Juppe lá terem estado) indica que a junta militar que governa o Egito já recebeu papel-chave no processo de derrubar Gaddafi. São atos que terão impacto na luta do Egito, que tenta construir sua democracia.

Os rebeldes líbios saudaram os Emirados Árabes e o Qatar, como duas nações da Liga Árabe que os estariam ajudando. Veem-se bandeiras do Qatar em locais de destaque na Benghazi controlada pelos rebeldes. Vêm notícias de New York, segundo as quais EUA e Grã-Bretanha já teriam acertado a participação de mais alguns estados árabes na operação líbia.

Só uma coisa é certa: ainda falta muito para que se confirmem o alto estatuto moral, capacidade e empenho de Washington, na luta para forçar as ditaduras do Golfo Persa na direção de alguma reforma democrática.

Tudo são interpretações

Na realidade, as intenções dos EUA permanecem bastante opacas. Clinton disse a jornalistas na Tunísia na 5ª-feira, que uma zona aérea de exclusão sobre a Líbia exigiria ação militar para proteger pilotos e aeronaves, “inclusive bombardear alvos como os sistemas líbios de defesa”. Mas, isso… a Resolução n. 1.973 do Conselho de Segurança da ONU não autoriza.

Outra vez – embora já esteja suficientemente claro que nem Rússia nem China irão ao extremo de vetar a Resolução –, os EUA já aumentaram a aposta, sugerindo que, além de criar uma zona aérea de exclusão, a comunidade internacional deve autorizar uso de aviões, soldados, navios, para conter as forças de Gaddafi. A emenda proposta pelos EUA, dizia que a ONU deveria autorizar a comunidade internacional a “proteger civis e objetos civis, inclusive a deter ataques por terra, mar e ar comandados pelo governo de Gaddafi”.

Essa proposta, contudo, parece ter enfrentado resistência da Rússia; o texto final da R-1.973 autoriza “todas as medidas necessárias” para proteger civis. A solução de conciliação, de fato, deixa aberta a porta para as mais perigosas possibilidades de as operações militares serem ‘estendidas’ tanto na qualidade como na quantidade.

Por um lado, a R-1.973 expressamente proíbe “coturnos no solo” [orig. boots on the ground] – “excluindo [da autorização] qualquer força estrangeira de ocupação, sob qualquer forma, em qualquer parte do território líbio”. Por outro lado, autoriza “a tomar todas as medidas necessárias [sublinhado pelo autor] (…) para proteger civis e áreas de população civil sob ameaça de ataque na Jamahiriya Árabe Líbia, inclusive em Benghazi”.

Também em relação à zona aérea de exclusão, a R-1.973 autoriza os estados “a tomar todas as medidas necessárias [sublinhado pelo autor] para fazer cumprir o banimento de todos os voos”. Tudo leva a crer que, uma vez começada a implementação da zona aérea de exclusão, outras ‘medidas’, dentre as quais ações por terra, passarão a ser necessárias para neutralizar as forças de Gaddafi. Poderiam aparecer sob a forma de operações de forças especiais, todas sempre com alta ‘negabilidade’ e que não constituiriam “ocupação estrangeira” de território líbio.

Em resumo, estamos revivendo quase integralmente a véspera da invasão dos EUA ao Afeganistão, em outubro de 2001: começou com operações aéreas para dar apoio às milícias da Aliança do Norte [orig. Northern Alliance (NA)], suplementadas por operações das forças especiais e, adiante, tudo isso foi legitimado como presença em solo.

“Não assistir de longe, vendo passar as oportunidades…”

Qual é a estratégia dos EUA?

Muito significativamente, na véspera da votação no Conselho de Segurança, o senador John Kerry, presidente da Comissão de Assuntos Externos do Senado e pilar do establishment das políticas exteriores dos EUA, fez ontem longo discurso no Instituto Carnegie, em Washington. Disse ele:

– O despertar árabe é tão profundo quanto o colapso do Muro de Berlin e, portanto, é dever de Washington abraçar o desafio de converter esse despertar em oportunidade, identificando as forças democráticas.

– A ordem do Oriente Médio não pode ser restaurada. A revolução tem raízes profundas em profundo descontentamento popular. Assim sendo, o relacionamento entre os EUA e a região exige “amplo ajustamento que reflita as novas realidades”. Nenhum relacionamento focado só nos líderes é sustentável.

– Os EUA podem aprender a conviver com partidos religiosos e relacionar-se com eles, desde que eles “rejeitem o radicalismo e o antissemitismo” e “abracem a moderação”.

– Alguns governantes estão “respondendo ao imperativo das reformas”, mas “nenhum país na Região escapará da onda de reivindicação popular”.

– Israel enfrenta isolamento e “o status quo com seus vizinhos é agora insustentável”; mas a segurança de longo prazo de Israel tem de ser assegurada.

Kerry cutucou Obama para ser proativo como Ronald Reagan e George H W Bush, que comprometeu recursos para posicionar governos na Europa Central, os quais, até hoje, continuam a manter posições pró-ocidente e são membros da OTAN.

E Kerry fez-se de preceptor de Obama: “Temos de reconhecer a extraordinária oportunidade que se abre para nós – e o perigo de fracassar e não conseguir aproveitá-la (…) A comunidade internacional simplesmente não pode assistir a tudo, de longe (…) O tempo corre rápido, para o povo líbio. O mundo exige respostas imediatas (…) O Conselho de Segurança tem de agir imediatamente.”

Israel é sempre o centro crucial do pensamento de Kerry. Citou os senadores John McCain e Joseph Lieberman, dois eternos apoiadores de Israel, como colaboradores no seu projeto para o Oriente Médio. Kerry, McCain, Lieberman – não é trio formidável de atacantes? Obama não teve escolha. Teve de seguir o escrito.
___________________________________

Nota

1. Aqui, os pontos principais da Resolução n. 1.973 da ONU que autoriza ação militar para proteger civis líbios, dos ataques de Muammar Gaddafi:

– Manifesta a grave preocupação da ONU com a rápida deterioração da situação, a escalada da violência, o alto número de baixas entre os civis, condena as graves e sistemáticas violações de direitos humanos, inclusive as prisões arbitrárias, sequestros, tortura e execeuções sumárias; e diq que ataques contra civis são crimes contra a humanidade e ameaçam a paz e a segurança internacionais.

Uma zona aérea de exclusão é elemento importante para a proteção dos civis e para a segurança dos que trabalham na entrega de ajuda humanitária, e passo decisivo para a cessação de hostilidades na Líbia..

A R-1.973 exige o imediato estabelecimento de um cessar-fogo e fim completo da violência e de todos os ataques e abusos contra civis nos termos da lei internacional (…) e que as autoridades líbias cumpram seu deveres (…) e tomem todas as medidas para proteger civis e suprir suas necessidades básicas e garantir salvo conduto e passagem rápida para a assistência humanitária.

Autoriza estados-membros da ONU a tomar todas as medidas necessárias, apesar do embargo anterior a armas, para proteger civis e áreas de população civil contra a ameaça de ataque na Jamahiriya Líbia Árabe, incluindo Benghazi, excluídas as forças estrangeiras de ocupação em qualquer parte do território líbio.

Para isso, requisita a cooperação dos estados-membros da Liga Árabe.

Decide banir todos os voos do espaço aéreo da Jamahiriya Líbia Árabe, para ajudar a proteger civis, exceto voos humanitários, e autoriza estados-membros e nações da Liga Árabe a agir nacionalmente ou mediante organizações regionais ou em acordos, para tomar todas as medidas necessárias para implantar e fazer cumpri o baninmento dos voos.

Conclama todos os estados-membros a interceptar barcos e aeronaves se houver suspeita de que transportem armas e outros itens banidos desde o embargo já aprovado nessa ONU e inclui naquela categoria o pessoal mercenário armado – recomendando aos estados-membros que cumpram estritamente seus deveres (…) para impedir que mercenários armados se integrem à Jamahiriya Líbia Árabe.

Os estados-membros devem exigir que as empresas domésticas sejam vigilantes ao negociar com entidades incorporadas na Líbia, se os estados tiverem informação suficientemente sólidas que permitam concluir que esses negócios podem contribuir para a violência ou uso de força contra civis.

Solicita que o secretário-geral da ONU crie grupo de oito especialistas, para supervisionar a implementação [da R-1.973].

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