Maria Frô

ativismo é por aqui

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2014 será animado, só que não

maio 21st, 2013 by mariafro
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Acho que o ministro Joaquim Barbosa é bem mais do que o retrato traçado no comentário de Fortes que reproduzo abaixo, Aécio é e será Aécio.

Será interessante para Barbosa, para os que o idealizam, para os que o detratam, assim como para o Brasil termos a experiência de um candidato negro à presidência da República. 

A primeira coisa que virá à tona será a barbárie do racismo nos discursos dos diferentes espectros ideológicos, a segunda será a ficha dos que o idolatram ou o detratam cair para que possam constatar que Joaquim não é nem o inimigo nº 1 da esquerda, quiça o salvador da pátria da direita ou a redenção do povo negro no poder.

Quem sabe possamos todos os que de fato desejam ampliar a democracia neste país, finalmente investir na luta pela reforma política?

SALVADOR DA PÁTRIA

Por Leandro Fortes, via Facebook

21/05/2013

Ninguém pode negar ao ministro Joaquim Barbosa o direito à crítica. Nem o direito de estar certo – o que, aliás, acontece até com um relógio quebrado, duas vezes ao dia.

O Brasil tem, sim, partidos de mentirinha montados sobre interesses muito distantes das urgências coletivas e moldados apenas para projetos de poder de curto prazo. E é fato, também, que a dinâmica da engenharia política do Congresso Nacional é quase que exclusivamente bolada para atender as demandas do Poder Executivo.

Barbosa está certíssimo.

Agora, ninguém pode ser ingênuo de imaginar que o presidente do STF falaria isso para uma plateia de estudantes, durante um evento gravado, sem saber da imediata repercussão que se seguiria. Foi um risco bem calculado para desagradar o governo e o PT, como desagradou, alfinetar a OAB e deixá-lo disponível no mercado eleitoral de 2014.

Barbosa aposta, justamente, na despolitização do debate e coloca-se na manjada posição do homem do povo contra os políticos profissionais, do herói de toga do mensalão pronto a libertar Sodoma de seus vícios sociais abomináveis, aquele que virá nos redimir. Assim, nada presta: nem os advogados, nem os juízes, nem o Congresso Nacional, nem o governo, nem, em última análise, o País. Talvez seja por isso que ele prefira ir à praia em Miami.

Barbosa, o juiz implacável e irascível, é um Frankenstein criado pela mídia que, apesar dos esforços, ainda não está totalmente controlado. Cometeu, recentemente, o erro de agredir verbalmente um repórter de O Estado de S.Paulo e, em seguida, pagar a viagem de um repórter de O Globo para fazê-lo ouvir, em Costa Rica, que a imprensa brasileira é de direita – com direito a matéria no Jornal Nacional e tudo.

Normalmente, as Organizações Globo não perdoam esse tipo de deslize. Mas as opções para 2014 estão cada vez mais escassas. José Serra, de alternativa, virou um estorvo. Aécio Neves é uma dessas falsas incógnitas. Apesar da pele morena e dos dentes ultrabrancos, ainda é somente uma máquina de clichês antipetistas carente, urgentemente, de um upgrade. Para elegê-lo, será preciso um esforço logístico e financeiro 100 vezes maior do que o utilizado nas eleições de Fernando Collor, em 1989, e Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998.

Resta Barbosa, o homem que, perigosamente, diz o que lhe vem à telha. E qualquer um que já tenha vivido uma eleição presidencial sabe exatamente o desastre anunciado que isso representa.

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Fábio Luís dos Santos: A greve no Pérola Byington

maio 21st, 2013 by mariafro
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Pérola aos Porcos

Por: Fábio Luís dos Santos, especial para o Maria Frô

21/05/2013

A greve na Saúde de SP hoje completa 20 dias.

Grande parte do desconforto do Governo de São Paulo com essa greve se dá porque um Centro de Referência, até então jóia da coroa, da administração tucana no Estado, aderiu!

A História de uma Pérola

O Hospital Pérola Byngton, nasce como dedicação a uma filantropa filha de estadunidenses que trabalhou primeiro em uma seção da Cruz Vermelha. De volta ao Brasil comandou uma campanha de combate à mortalidade infantil denominada “Cruzada Pró Infância”, que exerceu como sacerdócio por 33 anos. Tendo sido condecorada com várias comendas ao mérito. Essa mulher chamava-se Pérola Ellis Byington – 03/12/1879 – 06/11/1963).

Em 1959 ela inaugurou o Hospital Infantil e Maternidade da Cruzada Pró-infância.

O antigo Hospital da Cruzada, que depois da morte de sua fundadora, recebeu o nome de Hospital Pérola Byington em sua homenagem, é hoje o Centro de Referência da Saúde da Mulher, que é administrado pela Secretária de Estado da Saúde.

Especializado em tratamentos de alta complexidade, o complexo hospitalar CRSM-Pérola Byngton trata de todo tipo de câncer ginecológico, atendimento a violência sexual, bem como reprodução assistida, tendo participado inclusive do Projeto Genoma.

Da Pérola à Ostra

A partidarização desse hospital, ironicamente veio daquele que mais impulsionou essa estrutura. O Professor José Aristodemo Pinotti (20/12/34 – 01/07/200), a partir de sua gestão como Secretário da Saúde.

De lá pra cá, com a ascensão do tucanato em São Paulo, o hospital se tornou verdadeiro palanque junto à pasta da Saúde, verdadeira vitrine de inovações e excelência hospitalar. Onde pavões e aves de rapina fazem constantemente ninho.

A Semana das “Pérolas” (ou Cabeças de Ostras)

Em todos os momentos nos últimos 12 anos, onde uma greve se insurgiu na Saúde, o Pérola funcionou como lastro e fiel da balança. Ora como baliza para os processos privatizantes do PSDB (seus laboratórios terceirizados que o digam), ora como sinal amarelo da força de mobilização dos servidores públicos da Saúde. Não é à toa que a grande mídia voltou suas armas para a mobilização atual.
A partir da semana passada, a velha mídia, com investida pesada e como sempre com lado, começou processo de desconstrução do movimento, restringindo (pela fala do Secr. de Saúde) a apenas esse Centro.

Sua articulação começou quarta feira (15/05). Depois que o gestor substituto, Dr.º André Luiz Malavasi veio a púbico, incitando a população a enfrentar os grevistas, para que forçassem a passagem por entre eles. Das duas reportagens que me dispus a dar para a Record e a Globo , nenhuma foi ao ar, bem como a do presidente do Sindisaude. A fala do gestor, no entanto, foi na íntegra e ao vivo.

Ao longo da semana, se alternaram a versões do governo:

“- Não, não há greve.”
“- Sim, há greve, mas são apenas 5 unidades.”
Ora uma, ora outra.
Ignorando o fato de assembléia anterior, na Quadra dos Bancários, ter reunido 2.000 pessoas entre técnicos e administrativos, bem como provas fotográficas, no site do Sindisaúde, da adesão de mais de 30 unidades pelo Estado afora.

Usaram, abusaram, mas não e nem de longe cansaram do argumento:

“- Não, não há problemas, isso é pontual.”

Ou (o que é mais freqüente):

“- Essa mobilização é política.”

Como sempre o jeito tucano de governar usa desses mantras!

Mas é claro que é política! O que fazemos da porta para fora de casa não é? Quiçá inclusive não fosse da porta pra dentro.

Bem…

Se por um lado a negação do movimento e a assertiva de que os servidores são insanos por reivindicar um “aumento” de 32,2%, já que na fala do Secretário, “isso é inviável, com uma economia estável e com baixo crescimento” ou o aumento do ticket com a ladainha de que “no último aumento foi reajustado em 100%”. Por outro, “esquecem” de dizer à sociedade a informação de que a porcentagem é calculada pelo DIEESE e se refere à perdas inflacionárias dos últimos 5 anos. É apenas reajuste meu povo!

Sim! Porque o próprio governo que instituiu a data base para a Saúde, não cumpre a lei que criou, ademais os 100% alardeados acima fizeram a alimentação dos escra… Digo, funcionários, passar de R$ 4 para R$ 8,00/dia. 100% esses que demoraram meros 12 anos congelados.

Na assembléia da categoria sexta feira (17/05), no frio e na garoa, reunidos à frente do símbolo executivo e republicano desse Estado, o Palácio dos Bandeirantes, que naquele momento me parecia apenas uma casa grande, a comissão dos esquecidos e famintos é recebida por assessoria do governador. Nada feliz notícia que a contraproposta do governo é 0. De brinde a noite, a Rádio Bandeirantes, atuando como verdadeiro partido político, no ar, instrui o gestor substituto a cortar o mais rapidamente possível o ponto dos funcionários e exige que ele chame a polícia para os trabalhadores.

Em tempo:

O mote da campanha salarial do Sindisaúde desse ano é:
“Basta Governador,
A Saúde por um Fio!”

Só não imaginávamos que o tal fio, era o da antena…

*Fábio Luís dos Santos: Oficial Administrativo da Saúde e Delegado Sindical de Base do Pérola Byngton

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Bolsa família, Eduardo Cunha, PMDB, Aécio, Serra, Reforma Política e aprendizados…

maio 21st, 2013 by mariafro
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“O aprendizado é para quem ainda trata o Bolsa Família como algo desprezível. A dimensão e a força da reação ao boato ensinam. Ensinam a quem ainda não aprendeu o que significam, para quase 14 milhões de famílias, esses R$ 24 bilhões a cada ano.

Falta um ano e meio para a eleição. Quem enxerga o Bolsa Família e medidas de redistribuição de renda como “esmola” deve, enfim, ter aprendido algo com o tamanho e a força da reação ao boato.” Bob Fernandes.

Reação ao boato mostra força do Bolsa Família

Por: Bob Fernandes

20/05/2013

O boato do fim do Bolsa Família. A convenção nacional que tornou Aécio Neves presidente do PSDB. A votação da Medida Provisória dos Portos e a chantagem de uma porção do PMDB.. São três fatos e notícias diferentes, mas o pano de fundo é o mesmo: as eleições em 2014, a sucessão presidencial.

Eduardo Cunha é o líder do PMDB na câmara. Para aprovar a chamada MP dos Portos, uma facção do PMDB buscou chantagear o governo. Com o de sempre: cargos e liberação de dinheiro. Ou, o voto contra.

Foi assim que o PMDB agiu nos governos Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula. Assim o PMDB age no governo Dilma. Assim o PMDB agirá no próximo governo, seja quem for o governante.

A conversa é antiga; enquanto não houver uma reforma política digna do nome será assim. E Eduardo Cunha é apenas isso: Eduardo Cunha. Não há como ser diferente do que sempre foi.

O PMDB age assim porque sobrevive de governos e eleições. E no ano que vem tem eleição presidencial. Por isso, a eleição, o candidato do PSDB à presidência da República, Aécio Neves, foi tornado presidente do partido.

Por isso, mais uma vez, Serra foi Serra. José Serra discursou na convenção do PSDB falando em “unidade das oposições”. Mas não tocou no nome de Aécio. Serra enxerga Aécio Neves como adversário. Ou, fiel a seu modo de ser, como “inimigo”.

Serra não citou o nome de Aécio e continua querendo ser candidato a presidente da República.

Bolsa Família. Ainda não se sabe quem ou quais foram os responsáveis pelo boato. A PF tentará rastreá-los. Parece muito difícil chegar à origem. Que seria o Maranhão, de onde se espalhou para, pelo menos, 9 estados. Ao que parece, muito mais via telefone do que pelas redes sociais.

Sob pena de leviandade, não dá para lançar suspeitas sobre ninguém, nem sobre partido algum. Tudo é possível. A polícia talvez nunca encontre a origem. Isso pode até ter nascido de uma brincadeira irresponsável, mas ficam as dúvidas e o aprendizado. As dúvidas são quanto ao quem e por que.

O aprendizado é para quem ainda trata o Bolsa Família como algo desprezível. A dimensão e a força da reação ao boato ensinam. Ensinam a quem ainda não aprendeu o que significam, para quase 14 milhões de famílias, esses R$ 24 bilhões a cada ano.

Falta um ano e meio para a eleição. Quem enxerga o Bolsa Família e medidas de redistribuição de renda como “esmola” deve, enfim, ter aprendido algo com o tamanho e a força da reação ao boato.

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“Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”

maio 20th, 2013 by mariafro
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“Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”.

Entrevista com Giorgio Agamben,  Tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

IHU

30/08/2012

“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012.

Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de HeideggerGiorgio Agamben foi definido pelo Times e por Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.

Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas“. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.

Eis a entrevista.

O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itáli. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido,  ele, como hoje aparece  como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico,  mas talvez consista nisso, no fato de que  o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história  e o passado tem um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.

O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi.  Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, aSicília, sob este ponto de vista é exemplar)  têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim,  da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.

Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua  (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo,  foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder.  Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política.  O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua. O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe frente  ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável?  Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência.  As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos.  Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmaras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmaras não é mais um lugar público: é uma prisão.A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: ”a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xequemate no qual a arte contemporânea está envolvida.Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercadorização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea,  as duas coisas coincidem.

Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchampquando inventa o ready-made?  Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte.  Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança  aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma umapoiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.

Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercadorização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio,  infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com  não-obras e performances a museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

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