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Docente da escola estadual Dr. Álvaro de Souza Lima denuncia: nem água temos

agosto 20th, 2011 by mariafro

Recebo por mail, carta de um docente da Escola Estadual “Dr. Álvaro de Souza Lima”, que fica no Jardim São Savério, zona Sul de São Paulo.

O relato é assustador sobre as condições em que se encontram a escola e as arbritrariedades sofridas pelos professores que cansaram de trabalhar sem o mínimo de condições. 

Para preservar o docente das arbitrariedades preservo sua identidade.

Cara Conceição,

Estou lhe escrevendo com um nome falso, pois preciso de que minha identidade seja mantida em sigilo. Caso queira falar comigo, pode escrever para este e-mail que indiquei, que poderei responder e revelar minha identidade. Segue o texto de minha denúncia:

Sou professor da Escola Estadual “Dr. Álvaro de Souza Lima”, que fica no Jardim São Savério, zona sul de São Paulo, e gostaria de manifestar minha indignação diante de algumas posturas tomadas pela gestão escolar e pela diretoria de ensino em relação aos problemas de nossa escola.

Três dias sem água foi a gota d’água

Na quarta-feira, dia 17 de agosto, diante de uma falta de água que já chegava ao terceiro dia, os professores do período matutino entraram em um consenso e resolveram não dar aulas às crianças naquelas condições. O vice-diretor foi chamado à sala onde os professores estavam reunidos e foi avisado da decisão. A primeira reação do vice-diretor foi recusar veementemente a decisão dos professores, alegando que não tinha autorização para paralisar as atividades da escola (mesmo com a escola estando sem água desde segunda-feira). Obviamente, os professores mantiveram sua posição e, após isso, o vice-diretor sugeriu que houvesse aulas até a hora do intervalo, que só ocorreria às 10h20min (eram sete da manhã no momento da reunião). Os professores continuaram mantendo a posição, afinal, além de passarem a segunda e terça-feira sem água nos bebedouros e nos banheiros, os alunos passariam mais três horas e meia sem água, isso sem falar que, momentos antes, a merendeira constatou que não havia água na cozinha e que não havia condições de cozinhar, ou seja, as crianças ficariam sem almoço ou então teriam uma refeição inadequada. Sendo assim, o vice-diretor acatou a decisão dos professores e os alunos foram dispensados.

Suspensão de aulas só com ordens da dirigente regional

À noite, durante a reunião do horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC), a diretora repreendeu, aos berros, todo o corpo docente, dizendo que os professores “passaram por cima da autoridade” do vice-diretor, que os professores não têm direito de tomar tal tipo de decisão e que só com ordens da dirigente regional de ensino as aulas podem ser suspensas, tendo ou não tendo água na escola. Devido a isso, todos os professores ficaram com falta naquele dia de trabalho, mesmo tendo comparecido ao trabalho e mesmo não tendo podido trabalhar por conta das péssimas condições da escola.

O Manifesto e a passeata

A partir disso, professores, membros do Conselho de Escola e da comunidade escolar redigiram um manifesto reivindicando melhorias na escola, como o repasse de verbas de manutenção, que está bloqueado há mais de dez anos por conta de uma má prestação de contas de um ex-diretor. Outras reivindicações são feitas, como: abertura da sala de informática, contratação efetiva pelo Estado de funcionários em quantidade suficiente para suprir a demanda da escola (faltam funcionários em todos os setores), execução de reparos emergenciais na infraestrutura escolar (como o reparo de portas e janelas, que estão totalmente destruídas, tirando a segurança e a privacidade de professores e alunos durante as aulas). Nesse contexto, o problema da falta de água foi apenas “a gota d’água” que faltava para encher o copo de paciência de professores, alunos e comunidade escolar, que já não aguentam tal situação, que só tem servido para estressar professores e funcionários, aumentar os pedidos de licença e remoção, fazendo com que faltem cada vez mais funcionários em todos os setores e com que os níveis de aprendizagem dos alunos caiam ainda mais, mesmo já sendo os mais baixos de São Paulo. O manifesto também prevê uma manifestação, que está marcada para o dia 23 de agosto, terça-feira, a partir das 18h, seguida de passeata.

Ameaça da Diretora: sindicância para punir “ato de insubordinação”

Diante de todas essas evidências de que as coisas estão péssimas em nossa escola, a diretora, além de não remover a falta dos professores da quarta-feira, se comprometeu a abrir uma sindicância para apurar o fato, denominado “ato de insubordinação” por ela. Por que não há o mesmo empenho em fazer os reparos necessários na escola, em consertar a tubulação danificada para que os problemas com falta de água não voltem a ocorrer, chamar professores eventuais para susbstituir aulas vagas, abrir a sala de informática etc.? Por que tanta eficiência quando o assunto é castigar arbitrariamente professores que não fizeram mais do que cumprir uma obrigação humanitária de não deixar que crianças ficassem sem água dentro de um colégio? A justificativa da diretora para tais atitudes é a legislação e a diretoria de ensino, que segundo ela, dizem que é necessário haver aulas a qualquer custo. Porém, a LDB, carta magna da educação em nosso país, diz em seu artigo 4º, incisos VIII e IX, que a educação escolar pública deve garantir “atendimento ao educando, no ensino fundamental público, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde” e “padrões mínimos de qualidade de ensino, definidos como a variedade e quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem”, respectivamente. Sendo assim, sabendo que a água é algo fundamental para a manutenção da higiene e das funções fisiológicas de qualquer ser humano, podemos entender que uma escola que funciona por três dias sem água, além de ferir a lei, fere também um princípio moral.

LDB propõe a gestão democrática do ensino público

Vale ressaltar também que a LDB propõe a gestão democrática do ensino público, ou seja, quando a diretora da escola diz que a escola só pode paralisar as atividades a partir de uma ordem de uma dirigente de ensino, de apenas uma pessoa, onde fica a solução democrática para a questão? Não é necessário ter muita erudição para saber que “democracia” não é um regime em que apenas uma pessoa decide pelas demais, sem consultá-las. Se alunos, professores e pais, ou seja, a maioria das pessoas envolvidas, não aceitam que uma escola funcione sem água, o que deve ser feito? Acatar uma ordem “superior” que mande a escola funcionar assim mesmo? É claro que não. E, por isso mesmo, todos os professores acreditam que tomaram a decisão mais acertada. Mesmo com todas as tentativas de repressão de nossos movimentos por parte da direção da escola (além de atribuir faltas injustificadas aos professores, repreendê-los publicamente, houve episódios particulares de coação contra alguns docentes), não recuaremos e não toleraremos mais tanta humilhação. Isso deve acontecer em todas as escolas que passam por problemas semelhantes, pois o Estado de São Paulo, o mais rico da nação, é um dos que pior pagam seus professores e que apresentam piores condições de aprendizagem. Mesmo com este contexto desolador, em 2011 não houve greve em São Paulo, fato que é muito estranho, já que houve greves de professores por todo o país. Talvez este breve relato ajude a entender como a Secretaria da Educação de São Paulo está agindo para coibir todo e qualquer “ato de insubordinação” dos professores e, assim, inibir toda e qualquer tentativa de se fazer uma gestão democrática de nossa educação. Lamentável.

Grato,
Erico

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16 responses so far ↓

  • Agora consigo entender porque o Alvaro é considerada a pior escola da região, os comentários abaixo que dizem ao contrário são mentiras, quem quer aprender pelo menos um pouco, já que o ensino médio público brasileiro é uma porcaria, tem que fazer como eu fiz e se sujeitar a percorrer longas distâncias para estudar em uma escola “menos pior”, visto que o Alvaro é a única escola do bairro de ensino médio. Lamentável.

  • a democracia esta passando longe de muitos dos atos dos mandantes dos governos municipais , estaduais e federais. Chamo de mandantes, por que para criminoso é um passo, desde que atropelem a nossa Democracia. Grande coragem deste professor, e dos que o apoiaram, pois em Peruibe, cidade onde moro, ninguem denuncia nada, nem enfrenta nada por pura covardia e falta de união, pois se esquecem que A UNIÃO FAZ A FORÇA!! Sou a favor da luta pelo que se acredita, pela moralidade e principalmente pelos jovens e a democracia de nosso país, começando dentro de nossas casas. parabéns a todos que reividincaram, ao relator do fato para nosso conhecimento, e GOVERNO ALKMIM, ABRA OS OLHOS, NÃO É SÓ MANDAR, TEM QUE ADMINISTRAR!!

  • PARTIDO POLITICO PCO ? PROFESSOR DA UNIDADE CANDIDATO A GOVERNADOR ? PRA MIM ISSO TA CHEIRANDO POLITICA PURA !

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/eleicoes/prefeitos/rj-rio_de_janeiro-29-1.shtml

  • OLHA!! ERICO NÃO SE IDENTIFIQUE MESMO! ESSA DIRETORA É MUITO VINGATIVA. EXPERIENCIA DA EE PROF ATALIBA DE OLIVEIRA DE ONDE ELE FOI TIRADA.
    NICOLAU É FÁCIL ELOGIA QUANDO GANHAMOS DIHEIRO PARA AJUDAR NA ESCOLA QUANDO ERA ALUNO.
    ASSIM ATÉ EU ELOGIARIA.
    MÃE, ALIAS BEM INFORMADA SOBRE O FUNCIONALISMO PUBLICO; DEVERIA SABER QUE O ECA PUNE QUEM DESRESPEITA OS DIREITOS DA CRIANÇA. E SUBMETER O ALUNO A AULAS SEM AGUA! QUE VERGONHA!!!!!

    VALEU PROFESSORES!!!!! DIREÇÃO E VIDE DIREÇÃO NOTA ZEROOOOOOOOOOO!

  • Maria se teve algum ero é que estou sem óculos

  • Boa Tarde Maria Frô

    Sou a diretora desta escola, entrei neste blog para convidar vc e toda a comunidade para conhecer nossa escola. Ficar aqui escrevendo em uma batalha de palavras não se vai a lugar algum. Eu assumi esta escola em 2 de fevereiro de 2010, com problemas na infra estrutura, falta de professor e também com muitos ptofessores afastados po motivo de saúde. Enfrentamos, devido a reforma, alunos estudando em outras unidades, aqui éra o verdadeiro caus, obras sendo realizadas com juntamente com aulas, onde os alunos tinham apenes 1/3 do pátio para bricarem no intervalo (olha quer temos o ciclo) pravamente os professores e alunos passaram por esta privação para uma escola melhor “não é o ideal ainda”.
    E o Érico onde estava neste momento?????????????
    Realmente para que haja mudança tem que acontecer um pouco de desconforto.
    Mesmo assim tivemos um crescimento na aprendizagem dos alunos do terceiro ano do Ensino Médio de 23% medido pelo SARESP e no primeiro ano deste mesmo nível conseguimos 5% em matemática e português, série de acompanhamento do CAED (também avaliação externa)
    E novamente a pergunta, onde estava o Éricao???????????
    Nosso ciclo I é eleogiado por todos que tem a oportunidade de conhecer nosso trabalho, sem falar que todas as nossas professoras e professores deste ciclo acabam tendo um ótimo desempenho nas provas, devido a formação continuada realizada em HTPC.
    E novamente a pergunta, onde estva o Érico?????????????

    Agora me diga, se um professor ou qualquerr outro trabalhador está em casa na hora do seu trabalho. Ele está ausente? O que devemos fazer? O que tanto recriminamos nos deputados?
    Sabemos que temos que cumprir duzentos dias letivos é nossa obrigação respeitar este direito.

    Gostaria de saber também o que é autoritarismo? Respeitar este e outros direitos desta gente tão sofrida, é autoritarismo?

  • Caro Erico

    Você não deve entender nada sobre os procedimentos administrativos do estado de São Paulo, ou você não é funcionário público ou se é é bastante desinformado. Agora é um momento que é denominado Apuração preliminar, o que está ocorrendo não é um processo administrativo. E seria bem interessante se você se identificasse com seu nome verdadeiro, sou nãe de aluno da 5ª série e do 2 ano do ensino médio e não conheço nenhum professor com este nome. Antes que você fale do meu conhecimento é que também sou professora.

  • A denúncia foi aceita pela diretoria de ensino, o processo administrativo já está acontecendo e os professores já estão sendo ouvidos. Ao final, conversaremos e veremos quem tem razão. Me comprometo a fazer um novo relato quando o processo acabar. Obrigado.

  • Eu Nicolau Beltrão, , venho por meio deste documento em nome de alunos e comunidade escolar, elogiar a escola Doutor Álvaro de Souza Lima nos 2 últimos anos enxergarmos a escola bem mais organizada e freqüentada pela comunidade com avanço tanto na infra-estrutura como na parte pedagógica se tornando mais atraente, o bom disso tudo e saber que a escola está avançando cada vez mais, podemos fazer algumas comparações dos anos de 2008 e 2009 que mal tinha aula no período noturno as sextas-feiras os próprios professores dispensavam os alunos, prometendo que não iriam colocar falta, e os alunos que queriam estudar acabavam entrando conflito com os colegas de classe por que os professores falavam se um aluno ficasse o restante levariam falta.

    A escola em 2010 e 2011 foram anos de transformação na escola, aos poucos presenciamos a escola se organizando com alguns atritos que claro iriam acontecer, a escola teve mudanças impressionante nos já observamos a escola com uma motivação a mais. Os alunos se adaptaram com horário de saída 22h: 55min que foi uma das coisas que não acreditávamos a progressão de estudos aonde os alunos participam de atividades culturais dentro da própria escola como: Cinema vai à escola e debatem sobre filmes educacionais que hoje em dia são chamadas de atividades diferenciadas pelos próprios alunos.

    Evolução essa e a palavra que se define a escola durante esses dois anos e quem for na secretária da escola hoje, vai ver como a escola mudou só por observar aquele espaço, pois devemos criticar com coerência, pois uma das virtudes do ser humano e a “critica construtiva” coisa que grande partes dos professores ainda na unidade escolar deveriam fazer.

    O grande problema nas escolas hoje e a falta de professores, o quanto os alunos estão perdendo de aprendizagem no período noturno, mais o que muitos alunos ainda falam é “ que não estão tendo uma de qualidade quando o professor adianta aula “ palavras do próprios alunos, através disso vimos que não basta ter evolução só no horário de saída do noturno, mais sim na qualidade de aulas que os professores estão planejando para dentro de sala que na fala de próprios alunos são medíocre (aula).

    Bom nessas ultimas semanas professores da própria escola colocaram um carro de som enfrente a entrada dos alunos do noturno exigindo boas condições de trabalho. Melhores condições de trabalho?Como assim?Mal eles sabem o quanto a escola mudou, mais esqueci de um detalhe alguns dos professores que estavam ali, estão na escola o primeiro ano e que para eles exigirem melhores condições de trabalho precisam dar primeiro uma boa aula.

    Melhores condições trabalhos não dependem só da direção de escola mais sim vontade política de todos os envolvidos como professores, alunos, pais e comunidade.

    Faço parte desta unidade escolar mais uma vez como educador Universitário, pois acredito no bom andamento da escola, escolhi a carreira do magistério, entendendo que ser professor e procurar formar opiniões, coerentes e construtivas e não apresentado pelos mediadores da situações em questão, tentando, desarmonizar os alunos, professores ou seja por interesses próprios e não o coletivo.

  • e mais, o ensino paulista foi padronizado em 2008, se não me engano, então o nivel de aprendizagem dos alunos da rede estadual de ensino deveria ser igua, pois é professor. e por que no alvaro não é assim, porque voce que é um deve ser uns dos incopetentes lecionadores, que mancham o ensino de nosso estado, condenando nosso país a permanecer na total desordem e só imaginar o progresso. gostaria muito de saber quem é você, pois não sou um covarde dou minha cara a tapa!!!!

  • isto não passa de uma grande mentira, sou aluno do 2º ano;a 2011. as condiçoes desta escola estão otimas o problema são os professores, que estão totalmente desinteressados e desorganizados, manipulando os alunos contra a gestão que vem fazendo um papel brilhante este ano. estamos presenciando grandes avanços mas os obstaculos para mais progressos são alguns professores, que não passam materia e manda os alunos jogarem no google as respostas das apostilas, que passa sua aula sem fazer nada conversando temas obscenos, agredindo alunos. então querido professor antes de reinvidicar esse papelão, comece a lecionar direito. estou disponivel para depor mais!!!!

  • HA TEMPOS QUE OS ALUNOS, PROFESSORES E COMUNIDADE VEM SOFRENDO COM AS CONDIÇÕES E MÁ FAMA DA DR ALVARO.
    DEMOROU MAS ATÉ QUE ENFIM ALGO ESTA SENDO FEITO.
    PARABENS AOS PROFESSORES E PODE CONTAR COMIGO…
    ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DE VILA CRISTINA E VILA DA PAZ NA LUTA POR MELHORA NA ALVORO DE SOUZA LIMA.

  • Sim Vanessa, pode escrever para blogmariafro@gmail.com, abs

  • Bom dia.

    Escrevo, neste espaço, assumindo minha identidade, pois ao contrário do meu colega de magistério que utilizou este site para manifestar-se, não temo qualquer represália por parte de qual lado seja. O motivo de eu escrever este comentário é saber se, como professora PEB I, titular de cargo, atuando há 6 anos nesta mesma unidade escolar em questão, esta que fica no Jardim São Savério, bairro que cresci e vivi durante 20 anos, também tenho o direito de me posicionar a respeito dos “fatos” relatados acima, que não correspondem fielmente ao movimento/realidade que temos na escola.

    Aguardo possível contato.

    Vanessa Aguilera

  • [...] É isso que nos conta um professor da escola que não pode se identificar para evitar  represálias . Ele escreveu para Conceição Oliveira para denunciar o que está acontecendo em sua escola. Abaixo reproduzo sua carta disponibilizada no Maria Fro (aqui) . [...]