As voltas da vida: a ex-catadora e a usp
Por: Joelma do Couto
A exclusão neste mundo é tamanha que quando digito ex-catadora o world muda para “excitadora” e me dá outras opções, ex-saltadora, exaltadora, parece engraçado não fosse trágico. Noutro dia num evento promovido pelo vereador Ítalo Cardoso sobre o plano municipal de resíduos sólidos na Câmara Municipal de São Paulo, a representante da LIMPURB, órgão responsável pela coleta seletiva na cidade disse a seguinte frase: “é bom que os catadores participem dos eventos da cidade, assim eles ficam conhecidos, (como se não fossem) tem gente que acha que o lixo que coloca na porta de casa, desaparece por abdução, eles não sabem que são os catadores que levam o reciclável embora.” O Eduardo, do Movimento Nacional dos Catadores presente na mesma mesa, quase infartou. Imaginem a reação do restante da plateia formada na sua maioria por catadores de todo cidade? Se a cidade não conhece os catadores, mesmo depois de mais de 60 anos da existência destes profissionais, porque o world teria a obrigação de conhecer? O que ela não explicou, por exemplo, é que durante a Formula 1 a prefeitura gasta milhões na pista, mas, até onde fiquei sabendo, os catadores não ganharam nem uma marmitex com arroz, feijão e ovo. Bem se eles são ETs, talvez tenham um outro tipo de alimentação diferente da nossa… ou gostem do lanchinho.
Voltando a catadora, agora ex-catadora, se o world me permite; vou mais uma vez falar da Laíssa, nossa Lalá. Pra quem não leu http://mariafro.com.br/wordpress/2010/12/10/historias-de-superacao-catadora-na-universidade-que-venham-muitas-laissas/
Laíssa é uma menina de 19 anos que nasceu pobre, favelada, negra, com uma irmã deficiente e que, por ainda não estar satisfeita com todos os estereótipos e preconceitos que poderia esta família viver, a mãe, Mara, adotou mais 14 crianças, têm uma obesa também, aqui não falta problema!! Mas, sobra amor e dedicação.
A família de Mara não é formada por letrados, muito pelo contrário, Laíssa foi à primeira da família a entrar na universidade. Em dezembro de 2010 ela se matriculou em uma universidade particular. Tinha muito medo, não foi fácil encarar, mas encarou e já de cara ouviu professor dizendo que usava catador pra ganhar dinheiro. Bem, pelo menos este conhece os catadores.
Nas voltas da vida Lalá conheceu Nara, uma estudante da UNESP de Ourinhos. Nara e Lalá logo se tornaram grandes amigas. Mara a mãe de Lalá e presidente da Cooperativa de Catadores da Granja Julieta até tinha uma pontinha, pra não dizer pontona de ciúmes quando Lalá dizia que a cooperativa de catadores de Ourinhos era o máximo, linda e que a Nara e seus amigos da incubadora da UNESP faziam um trabalho maravilhoso. Achava que a filha exagerava até que ela própria viu o trabalho daqueles estudantes com seus próprios olhos e a partir daquele momento passou a admirá-los. Mas, a participação de Nara vai além nesta história. Ela começou a estimular a Laíssa a lutar por uma vaga na universidade pública.
Passado o susto de ouvir o que ouviu do professor, nas idas e vindas de Ourinhos, Laíssa viu-se inscrevendo para concorrer a uma vaga na incubadora da USP. Entre cerca de 140,150 inscritos somente ela e mais dois estudantes foram contratados pela incubadora. A menina desbancou estudantes de grandes universidades, até mesmo da USP.
Alegria imensa, tudo de bom, mas, pra pagar a universidade Lalá trabalhava na cooperativa e ganhava cerca de 900,00 reais por mês, agora na USP ganharia bem menos e não teria como bancar as despesas, alimentação, mensalidade, passagem….Irônico né, com status, sem dinheiro.
Foi então que ela me procurou bem envergonhada e disse:”Jô, o que você acha de eu tentar me transferir pra USP? Hoje é o último dia para inscrição.”
“O que você está esperandoooo?”
Não tenho 100,00 pra pagar a inscrição…….
Resolvido o problema da inscrição, recebi um email com a lista de livros que repassei para alguns amigos queridos da Agenda 21,uma certa blogueira suja que publicou não bastasse a lista de livros que a menina tinha ler quanto os que não precisava.
http://mariafro.com.br/wordpress/2011/07/15/mocada-da-area-de-biologicas-gestao-publica-deem-uma-forca-para-a-lassa/
Feito, um mutirão pro Lalá. Livros foram enviados, muita gente suja colaborou. Laissa não sabia de nada estava trabalhando na construção de casas com o ONG Um Teto para Meu País. Quando chegou ficou emocionada com os muitos emails. Carlos Henrique, professor universitário, e consultor do Ministério do Meio Ambiente foi pessoalmente a cooperativa levar alguns livros, que foram fundamentais para Laíssa.
Não preciso contar que ela passou em 4º lugar, agora é uma Uspiana, a partir de 2012 é na USP Leste que Laíssa estudará, continuará seu curso de gestão ambiental.
A Agenda 21 de Santo Amaro homenageou Laíssa no lV Encontro das Agendas 21 da Macro Sul de São Paulo, quer que esta homenagem seja um estimulo aos jovens como ela e também uma justa homenagem ao seu esforço e de sua mãe.
Laíssa estudava o tempo todo, começava as 4h da madrugada, de domingo a domingo tentando buscar um tempo perdido nas salas de aula de um sistema público de ensino que não visa colocar jovens como a Laíssa na universidade pública.
Não sei se feliz ou infelizmente Laíssa chega a USP num clima de guerra, repressão, truculência, mas sei que ela sempre viveu a truculência da polícia, a guerra pela sobrevivência e a repressão do Estado. Quem vive na favela sabe bem o que é uma invasão, mas, também sabe lutar e a menina Laíssa o sabe.
Laíssa como ela mesmo diz “tem a cor de seus bisavós que nasceram negros”, tem a cor da luta pela liberdade e se preciso for, lutar por uma universidade livre ela lutará. Lutar para que outros jovens como ela tenham as mesmas oportunidades que jovens de classe média tem, ela lutará.
Em sua breve vida como membro da incubadora de resíduos ela já tem fortes laços de amizade e companheirismo, está aprendo e levando o que aprendeu para a cooperativa e para a periferia. Está ensinando na incubadora o que a vida lhe ensinou a duras penas, e assim sendo, fazendo revolução.
Se a USP é para quem tem dinheiro para ir pra Disney e estudar em colégio particular caro, um prêmio, para as Laíssas da vida é oportunidade de virar o jogo e mudar o país.
Só avisando, na casa dela tem 12 Laíssas e mesmo assim a cooperativa de catadores da Granja Julieta será transferida para a Capela do Socorro. A prefeitura de São Paulo não acha que gente como ela, a mãe e os irmãos sejam dignos de trabalhar no bairro da Granja Julieta.
Parabéns Laíssa, nós nos orgulhamos muito de você.
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Tags: catadora · educação · joelma couto · laíssa · meio ambiente · reciclagem · USP19 Comments

oi LAì parabens, vc agora é mais uma catadora de sonhos
minha historia é parecida com a sua o diferencial é que escolhi fazer PUC ainda nos anos 80 e quase não consegui fazer meu TCC pois falava sobre “Morte violenta ” realidade muito distante do universo aonde estudava, mais rotina de onde habitava(perifa)
Parabéns, Cristiano!
Menino a matrícula é pra ontem, não dá tempo de fazer vaquinha pra te mandar ajuda. Leve seu nome escrito no jornal, seus documentos para os comerciantes, diretor de sua ex-escola, hospital (lembre-se você passou em enfermagem) enfim, ponha Cunha inteira mobilizada pra vc conseguir dinheiro da passagem pra fazer matrícula. E já se mexa por lá pra conseguir moradia estudantil na universidade. Quando vc estiver por lá as coisas melhoram, há bolsas de iniciação científica que vc pode concorrer, vc pode pedir bolsa alimentação para o COSEAS. Boa Sorte!
Ola .o que octobre comigo é parecido com o casa da laissa. Passei em enfermagem usp ribeirao preto . Fique na lista de espera da unesp.mas agora até pra ir assinar a matricula to sem dinheiro. Moro em cunha sp .se alguma puder me ajudar de uma forma .ficar muito feliz e grato. Obriggado
Laíssa,Mara e toda a família da Cooperativa de Catadores de Material Reciclável da Granja Julieta,Parabens,LUTAR,RESISTIR e CONQUISTAR,ABRAÇOS.
MATEUS
Isto é um reflexo claro de que pessoas como a Laíssa são muitas se espremendo em meio aos pequenos espaços que nossa sociedade hipócrita nos impôe. Só se vê futilidades na mídia empurrando os mais fracos para o abismo da incerteza e da exclusão social tirando a oportunidade de pessoas com a Laíssa e dando espaço para vagabundos racistas e sem competência sequer para terminar um ensino médio.
É isso aí Laíssa, ignora e vença. Muitíssimo parabéns.
Laíssa, me permita a intimidade de chama-lá carinhosamente de Lalá,
poi bem Lalá, diante de você quero me curvar, dobrar meus joelhos e agradecer pela sua garra, persistência, humanidade, sabedoria e beleza.
Você é um exemplo do país que queremos, exemplo de um Brasil brilhante que agora, acredito nisso mais do que nunca, vai se tornar uma potencia mundial!
Muito Obrigado, obrigado, obrigado, mil vezes!
Eu também!
Parabéns a ti, a todos os catadores, aos que tentam, persistem.
Se a norma é a desumanidade, desregule-se a norma.
Abraço a todos, em particular a você Maria Frô. Estou volta e meia lendo seu ótimo blog.
Muito bom Ananda.obrigada.
Fora de pauta, queria deixar os links da brilhante aula dos professores Adrian Fanjul e João Adolfo Hansen sobre o Movimento da USP
http://www.youtube.com/watch?v=EnHgeq9N5Wo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=8Iy_0jI9aN0
http://www.youtube.com/watch?v=HGb_19dwUJ4&feature=player_embedded
http://www.youtube.com/watch?v=V80xjkUucqg
http://www.youtube.com/watch?v=7z07CQUJXd4
Parabéns a Laíssa, nos orgulhamos dela, mas também da sua comunidade de catadores, que não chegou à USP mas sigue na luta tão heróica e digna, porém silenciosa e silenciada por uma cidade mais sustentável.
Bota orgulho nisso, Parabéns!!!!!!!!
um sorriso e uma estória maravilhosos. obrigado.
Estou em falta com o blog há semanas, mas vou voltar em um tópico dos melhores.
A Laíssa é uma heroína!! Vai chegar a uma USP convulsionada, mas espero que seu espírito a faça vencer também as adversidades que vai encontrar a esse respeito. Vai enfrentar um eleitismo intelectual, o racismo da PM (o mesmo que ela já conhece nas ruas, mas talvez ela imaginasse que, dentro dum ambiente acadêmico supostamente mais civilizado, pudesse ser diferente, mas os acontecimentos recentes demonstram que não será), e se já existe a campanha, recém lançada pela mídia, de desqulificação dos “estudantes maconheiros filhinhos de papai”, imagina contra ela que é negra, pobre e catadora de papel, o que vai sobrar dessa campanha do ódio?
Mas não tem jeito, prá gente como ela, nada vem fácil, e ela saberá vencer o que vier pela frente daqui por diante.
PARABÉNS LAÍSSA!!
Parabéns lindona.
Você é um grande exemplo para os jovens que estão chegando, eu mesmo quero ser o primeiro a ser teleguiado por ti.
BJK.
Enquanto essa moça demonstra o seu mérito e nos encanta.
Alguns que não entram democraticamente na universidade e
ao mesmo tempo, não aceitam as lutas pelas liberdades civis no interior dela, nem por ela, nem pela sociedade, deprimem-nos.
Com essa disposição, histórico de vida, garra e inteligência, e ainda por cima com um sorriso lindo desses, ninguém segura essa menina. São Paulo e o Brasil precisam de muitas Laíssas.
Foi com imensa alegria que tomei conhecimento lendo seu texto da mais nova conquista da maravilhosa familia da Mara. Uma familia de mulheres lutadoras, comprometidas com as causas sociais e da inclusão produtiva. A Laíssa é uma menina encantadora, inteligente (como a mãe) e dedicadíssima as causas sociais e aos direitos humanos. Seu ingresso na USP, onde eu estudei, é uma prova de sua capacidade e determinação. Parabéns Mara. Parabéns Laíssa!
A família da Mara e da Laíssa é INCRÍVEL. Daquelas pessoas que faz vc quer estar perto, participar e acreditar!
Parabéns Laíssa!
Laíssa tem muita história pra contar, muita positividade naquele sorrisão… linda!